tattoo, age

portátil

portátil

às cinco e trinta e cinco da manhã acendeu um sorriso, abrindo a boca ao primeiro cigarro do dia, foi ao banheiro; depois, ao chuveiro, e foi lá debaixo da enxurrada que uma vez mais percebeu o coração sobre o coração real tatuado, e chorou o fato de ser tão intempestiva, que agora teria de conviver com aquela silhueta maldita, aquela natureza morta desenhada na pele, para sempre; talvez se possa retirá-la ao preço de muita dor e dinheiro. chorou com extrema ira, levantando provérbios e reavivando sinônimos de mil e uma apostasias, vociferando indecências de fazer qualquer padre espanhol corar, mormente aquele tipo de religioso que viajava com os conquistadores, aqueles que em nome de el rey e em nome de deus saqueavam o silêncio pregado na harmonia, mas isso era mesmo coisa do passado, talvez não, e ela continuou na sua birra intensa, saiu nua pela casa, respingando ódios e lágrimas e gotas de água, que o banho ainda não terminara, mas foi abrir um tinto seco, era necessário que ficasse tomada de ira pela impotência à qual ela mesma se conduzira, que aquele maldito desenho no peito lhe daria ainda muitas e tantas chateações, e banir o espelho seria uma das soluções provisórias para dele esquecer-se ou livrar-se

Foto e crônica: Darlan M Cunha

o aprendizado

aprendizes

aprendizes

         entrou nos mamilos do mundo como quem vai ou fosse ao paraíso, embora nada soubesse de paraíso, subiu nas colinas do êxtase, tossindo barbáries e até vomitando a sua gula inaudita, nada de agenda branda para seus dias, que é caso de se ir de agenda agressiva à vida, que a vida começa é nos mamilos, no colostro, ondas de choque sobre ossos e carnes, os músculos do mundo são terrívelmente constritores, boa constrictor, tu não terás chance, caso não te adaptes a eles com vera urgência, ora, que a água, sim, faz a hora, não espera acontecer – pensou nisso, enquanto mamava outra vez, indo atrás do exemplo da água, inflou-se de mais ânimo e varreu para longe campos de pessimismo plantados e replantados por toda parte, e se lembrou de nunca ter visto nem ouvido o pai sorrir, também jamais o vira de tênis ou de sapatos sem meias, daquele modo informal dos malandros, folgados, pretensos playboys e bichos símiles, mas viver tem exigências maiores do que usar ou não sapatos, e foi à luta, depois de passar pelos mamilos fartos de agruras, seios nos quais cada veia tem uma história de encanto para duas de desencanto, é, é melhor que não te iludas, nem sempre de relva fina se mostra o pasto, música de cama ou de câmera, nada de cameratas, que é preciso estar atenta e forte, a correnteza é algo traiçoeira, portanto, cuidado com a gente que te cerca – ouviu isto no mercado, cuidados e proibições prefazem o mundo, a um canto, os mamilos de todas as mães parecem ter sido etapa inútil do duro aprendizado

DARLAN M CUNHA

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WORDPRESS disse                                                                                                                                                                                                       na resenha geral anual, em 1 de janeiro de 2012:
Alguns dos seus artigos mais populares foram escritos antes de 2011. A sua escrita tem influência! Considere escrever mais sobre esses tópicos.

Agradeço ao sítio WORDPRESS.                                                                                                                                                                      DARLAN M CUNHA

AQUI: http://uaima.wordpress.com/2011/annual-report/

Obrigado // Thanks for your visit – 2011

ir

ir

O ANO TODO SEJA DOMINICAL
(OUTRO DIA NA VIDA DE IVAN DENISOVITCH)

outro dia legal de pé na estrada, chove
chove no mundo, e em muitos horizontes
há lágrimas, em muitas casas os cupins
reviram a fórmica, e os móveis estalam
pelo uso e abuso, alguém tira o boné
e alguém mata alguém, alguém se lembra
de acarinhar alguém, casais há
aborrecidos pela demora de entrega
das chaves; querendo baixar a ansiedade,
médicos aconselham deixem o pigarro
as estrelas graúdas ou anônimas
do cinema diário das ruas
que é o lugar onde as pessoas
mais entram e saem de si. escuta:
preguiça e macarronada são sinônimos
de domingo, chove em todo o horizonte
e só então eles reparam que estão com fome,
com fome de algo mais do que simples
ritual, do que o simples amor, e vão de novo
para as ruas, algo novo os chama, ano
bom ou mau, aí vão ambos, também os solitários
vão em busca de algo novo no ano novo

DARLAN M CUNHA
Obrigado a todas e todos que aqui vieram em 2011
Thanks to all the people who supported me

DARA – monólogo sem flores

florama

florália

ah, já que nós temos que remover tantos nós e pedras do nosso caminho, que seja com os nossos próprios pés e braços, com o nosso próprio remorso, dolo e culpa, com pesar e gosto de necrotério nos lábios e fumo nos olhos, e água saindo das duas matas ciliares, quentes, fazendo-nos lembrar da breve aquitetura do choro que é a lágrima, choro de mãe, mas eu não quero ser mãe, de jeito nenhum, e não há nada mais triste do que isso

Foto e texto: Darlan M Cunha (trecho do romance DARA, ainda em andamento)

UMMA (romance)

UMMA romance

“Eis um livro que viaja – indo de uma imaginária Sherazade brasiliensis, nos tempos da cidade marroquina de Fez (810 d.C), até modestos bares no interior brasileiro, com alusões a livros e canções, ele dá vislumbres da Era da Pressa, focando uma das antíteses desta mesma Era, ao focar a amizade existente entre as suas personagens, a sátira sempre presente, rumo aos inventores dos chips (os mesmos inventores da roda, do tricô, do dumping e das peladas de futebol), distúrbios de rua, comidas caseiras, a vizinhança, os becos sem saída cada vez mais altos dos neuróticos e psicóticos modernos, os tormentos dos insones, enfim, os ossos do ofício de tantos e tantas na showciedade. Lugares, pessoas, épocas e situações estão entrelaçadas, falando e ouvindo; e assim as personagens principais, e eventuais passantes, entram no nosso imaginário já quase todo ele cego, surdo e mudo. Ouçamos Umma, Ultal, Nora e os outros.”

 

 Belo Horizonte, MG, Brasil

NOVEMBRO 2011

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CONTATO /// COMPRA:

darlan.in@gmail.com /// (“assunto” no E-MAIL: UMMA)

PREÇO: R$ 35.00 (não incluída a remessa via Correios)

194 PÁGINAS

ISBN978-85-7953-460-7

Editora VIRTUAL BOOKS LTDA. Pará de Minas, MG, Brasil.

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O BANHO DA INTERNET NAS EDITORAS

Comidas em Minas Gerais

Comidas em Minas Gerais

Estava eu assitindo ao programa do muito sagaz, e sempre de bom humor, cantor, compositor, escritor (Quando Se Olha Pra Dentro, De Versos, Dois Mundos) e artista plástico (pintura) Paulinho Pedra Azul, no programa comandado por ele na BHNEWS TV (Belo Horizonte, canal 009 NET), de nome “O Tom da Palavra”, no qual ele entrevistou o velho amigo dele, Roberto Lima, editor do jornal Brazilian Voice (USA), jornal dedicado à colônia brasileira, nos EUA (outros jornais com o mesmo fito que há por lá, como o Framingham City); e o citado editor disse algo sobre, digamos, a nova percepção que as pessoas têm acerca de poderem preparar e divulgar e vender, elas mesmas, seus próprios trabalhos musicais, pictóricos, literários, etc, via Internet, e que por esta e por outras causas além dessa aqui colocada, segundo ele, mostra que  “a Internet está dando um banho magistral na indústria editorial.”

Darlan M Cunha

Oi

OI

Na terça feira, dia 11 de outubro, após meses sem cair uma gota de água em BH e região, por volta das quatro da tarde desabou chuva forte de quinze minutos. Pois bem: bastaram quinze minutos para que ficássemos mais de quatro horas sem energia elétrica em bairros como o meu: o Buritis, o mais novo e um dos mais caros da cidade. O que dizer dos bairros mais modestos, etc. Levo em conta que a CEMIG é referência nacional no setor de energia elétrica, é mesmo, mas mesmo assim isto acontece.

Eu tinha chegado em casa, do meu compromisso, e estava com o computador e a tv ligados. Desliguei o micro, com receio dos mil raios, e fiquei assistindo o campeonato europeu, até que a luz se fosse.

No feriado, dia 12 de outubro, às duas da madrugada, liguei o micro, e não pude acessar INTERNET. Esperei dar seis horas, telefonei, mas atendimento direto só às oito da manhã. Telefonei mil – repito: mil vezes – para a OI (velox ou banda larga), durante dois dias, ninguém soube me dizer porque eu estava proibido de acessar a INTERNET, falei com mil gentes… Nem pensar em conta atrasada.Tentei de todas as formas cancelar o meu compromisso com a referida OI, querendo de qualquer jeito CANCELAR o vínculo de INTERNET. Em vão, porque não há absolutamente ninguém capaz de “bater o martelo”, e liberar o seu pc. Tudo está registrado, escrevi os mil números de “protocolos” das mil chamadas que fiz. Na quinta feira à tarde, contratei serviço de INTERNET com a NET, aproveitando para mandar mais canais de tv, por que a minha tv é NET (antigo MULTICANAL) há quatorze anos. Na sexta feira à tarde eu fui ao PROCOM (levei documentos comprobatórios: contas pagas), e registrei a devida queixa, para evitar que eu mesmo seja processado por empresa incompetente. Sem contar que gastei tempo, dinheiro e que o meu contumaz bom humor foi “pras cucuias, pressão arterial subiu” – fala o mestre. Gastei com táxi, ônibus, aluguel de Lan House (ave maria!, pra nunca mais!). Eu sem saber notícias sobre o meu novo livro que será lançado ainda este final de outubro, sobre a diagramação, etc…

Hoje, como tinha sido combinado pela NET, já de manhã aqui esteve um profissional, e recolocou tudo nos eixos. Portanto, este é um aviso, ou dica, de mais um cidadão simplesmente chateado. Simplesmente.

Agora eu mereço uma garrafa de vinho tinto seco, da serra gaúcha, de marca Country Wine.

Alzheimer

Não toda a dor do mundo está aqui nesse texto, mas algo das febres do mundo aqui está, sempre o pasmo e a esperança, a louça infernal e a cozinha divinal.

O pai sofrendo Alzheimer, no fim da vida aquele riso demente perpassando de forma incrível a mesmice dos dias, sestro extremamente instigante por parecer sempre um insuperável escárnio contra tudo e todos. A mãe sofrendo Alzheimer, e aquela dor nunca mitigada apenas viera juntar-se a tantas outras infinitas dores que a vida lhe dera. Quando chegou a sua vez de padecer desta progressiva e incurável patologia, viu-se rindo com escárnio, de si e do mundo, notando-se mais leve ao abrir a sua caixa de mantimentos e a sua adega com líquidos os mais variados: de estricnina a cianeto de potássio, passando por ácido sulfúrico e curare. E assim lhe são os 1440 minutos de cada dia: recheados de chocolate amaro, os dentes de alguma besta bem cravados na sua insônia.

Das inúmeras fobias que roem o cotidiano

Um lar do Brasil

       A gente, não raro, pode se ver sob por perguntas assim: Qual o nome do seu parente preferido ? Como se chama a rua na qual você cresceu ? Você se machucou de modo sério quando garoto ? Ia muito à casa das avós, comer do bom e do melhor, mesmo quando adulto ? Pois bem, perguntas assim vieram sobre mim, hoje, de lá de dentro de mim, e fiquei sem responder nada do que me propuseram, quase nada, isso porque há muitos fatos na minha infância, na cidade de Joaíma, onde morei até os oito ou nove anos anos, os quais continuam obscuras, levemente tingidas com algumas sensações; mas eu me lembro de como gostava de descer pela rua na qual morávamos – Rua Direita –, e continuava descendo por uma rua muito larga, em direção à grande ponte de madeira da cidade, para carros e gente, mas que as pessoas forçavam até mulas e cavalos a passarem por ela; quando a gente olhava para baixo, via a boca líquida da morte, por isso eu evitava olhar para baixo, porque a zonzura viria, a partir do topo daquela ponte sobre o Rio Jequitinhonha, um rio largo da cor de terra, na maior parte do tempo. Eu sempre temi a água, grandes águas; no entanto, ao mesmo tempo, aquilo me fascina, atraindo-me de maneira forte, mas de sensação nada boa. Com inúmeras pessoas, o mesmo acontece diante de alturas, pois elas têm hipsofobia ou acrofobia – palavras de origem grega, que significam aversão a lugares altos. Pessoas há que sofrem de agorafobia, também comum, assim como acontece com a fobia anterior; agorafobia é a aversão a grandes lugares públicos, lugares abertos, com multidões.

       Há quem goste é de sossego, de introspecção, muito silêncio – justo o que o brasileiro desconhece, porque a sua incrível deseducação não o deixa perceber os ecos da sua atitude, e assim é que vai buzinando a toda hora, mesmo de madrugada, rádios e tevês na altura de muitíssimos decibéis, e o mesmo se dá quando dentro de um carro, com um som no mínimo de uns 70 decibéis, não, as pessoas aqui não gostam de jeito nenhum de silêncio, novatas no mundo, o barulho incomodativo é necessário, precisam dizer que existem, de uma forma ou de outra, elegante ou não, dentro ou fora da lei.

Foto e texto: Darlan M Cunha

Comer

ácidas têmperas

limão capeta e pimentas "biquinho" e "de sete molhos"

                    Um ditado popular diz que peixe morre é pela boca; há também quem diga que a cozinha pode ajudar a conservar um relacionamento, não necessáriamente um casamento oficial, mas um tipo de relacionamento cada vez mais usual, embora antigo na sociedade. Isto porque não parece caber dúvida que os temperos têm lá os seus encantos, e que uma boa cozinha, através do homem ou da mulher, conta muitos e renovados pontos num dia a dia, embora também possa ser um relacionamento de encontros esporádicos. Tenho comigo este proceder, o qual levo a sério, pelo motivo de gostar de cozinhar, independente de estar ou não estar acompanhado, de ter ou não ter uma companheira, foi o que alguém disse numa roda de conversa, aparentemente esquecido de sua insônia maldita e bendita. Como se sabe, a comida é a cara de um povo, não havendo nada que o caracterize mais, depois do próprio idioma, das idiossincarsias que cada povo faz de um idioma comum, por exemplo: Brasil e Portugal escrevem e falam o idioma comum entre eles de forma diferente. Como ia dizendo, nada caracteriza mais um povo do que os alimentos que ele usa, e como os usa, quando são alimentos universalizados, como o arroz, a batata e o milho e o cacau (esses três são centrais e sul americanos), o trigo e o café. Guerras foram levadas a cabo pelo domínio de especiarias como o cravo. Sim, comer é tudo, daí que até se mate por isso. Bancos que guardam, ou pretendem guardar segredos genéticos de todas, ou das principais plantas, dos principais alimentos do mundo. Resta saber quem desfrutará deles; se os países de origem natural destas e de outras iguarias  terão voz ativa entre os mísseis postos à mesa. Lembro-me aqui duma peça teatral falando exatamente sobre isso, sobre disputa de poder, divisão ou não desta e/ou daquela área de influência, peça teatral ou balé ironizando finamente o infindável blá blá blá das altas instâncias, de nome A Mesa Verde ou, em alemão, Der Grüne Tisch (Kurt Jooss, 1901-79). Nada como terminar essa pequena escala rumo aos sabores, sob os auspícios da canção do Dorival Caymmi:  ”Quem quiser vatapá, ô, que procure fazer…”

Texto e foto: Darlan M Cunha