Escritor (ABL), jornalista

João Ubaldo Ribeiro

O sorriso e a risada do escritor João Ubaldo Ribeiro – por quem nutro antiga e sincera admiração – são como água de córrego, sempre plácida, às vezes, revoluteando entre e sobre as pedras do mundo, entre o capinzinho e as florzinhas cotidianas de suas margens decentes, generosas. Por falar em sorriso, O Sorriso do Lagarto é um de seus livros, além do recém lançado O Albatroz Azul, coincidindo, segundo consta, com os 50 anos de sua brilhante carreira literária; mas o livro definitivo dele é mesmo o taludo Viva o Povo Brasileiro. Vi uma entrevista na qual ele diz que, às vezes, pega um livro dele e pensa, após folhear aqui e ali: “Gente, eu escrevi isso ?”, e isso porque, apesar de já ter tentado saber como lhe vêm os assuntos, os casos, os tipos e tipas, os nomes, ah, tudo em vão, porque ele não sabe. Portanto, não perguntem a este João – que é Ubaldo e Ribeiro -, como surgem seus personagens, suas histórias baseadas ou enredadas em fatos e ficções, etc. Nem a mim. É sério, digo, sem maiores delongas. Eu escrevo quase que como psicografando.

DMC

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CRÉDITO: Essa foto eu a trouxe daqui:

oglobo.globo.com/blogs/arquivos/UbaldoRibeiro.jpg

Todos os Números

Todos os Números

O DESEJO

De forma subreptícia, as coisas, ou os objetos, nos convocam e maceram qualquer resistência de quem lhes queira frente fazer, armando-se de vozes antigas e novas: um tacape, um elmo, uma multicolorida pedrinha (muiraquitã), os cornos ou o couro de um animal, a ocra, o pó de ferro para um mural lá dentro da gruta, dos arquétipos. Um lugar sólido em sublimações, ainda que inconscientes, é o útero, a partir de onde se perpetua o único motor humano: o Desejo.

Darlan M Cunha

Feitos os pré acordos necessários, alta manhã, levando presentes como pássaros indizíveis adornados com jade em gaiolas de ouro, o Imperador Fu foi visitar o Imperador Ku no Imperial Palácio Andorinha do Sol. E, sem dúvida, muitas delicadezas foram trocadas pelos dois maiorais dos dois reinos, vizinhos mas até então conflitantes entre si, até perceberem que o caminho da paz e da serenidade contínuas, o caminho das formigas, abelhas e das borboletas alvissareiras seria mesmo o de uma bela amizade entre os dois impérios tão belicosos. E assim foi que um dia todinho foi destinado à troca de presentes no Pátio das Luzes Excelsas e das Aves Celestiais, com ambos excelsos imperadores assentados nas Almofadas Sagradas da Cabeleira do Sol, entre mil nubentes e rapazinhos escolhidos a dedo em todo o império. Assim foi feito. Assim vos conto eu, cavaleiro de triste figura.

Fu deu a Ku um trono bem esculpido em reluzente material bem torneado como uma fruta impecável, livre de bichos, pelo que o radiante Imperador Ku deu a Fu o seu mais sublime canudo de cheirar delícias de que jamais se tivera notícia, sim, deu-lhe o tubo celestino, uma peça tão delicada para ser levada aos sentidos, e assim lhe fosse possível extrair dele o êxtase supremo e entrar nas veias da sublimação mais grata. Pura fonte de delícias e gozos o presente em questão. E assim ficaram: sem amarras de praxe, risonhos e afeitos a si, ao inenarrável.

E assim foi que a partir daquele então o Imperador Ku passava toda a primavera deleitando-se no novo trono, nos aposentos do palácio do Imperador Fu, e este passava todo o inverno no aconchego dos aposentos do Palacete do Imperador Ku, o Palácio dos Radiosos Peixinhos de Ouro. E viveram em harmonia para sempre, segundo pesquisei em pergaminhos mantidos em sigilo numa biblioteca então ao meu alcance, escritos por escribas/eunucos das cortes. Entre o vinho de mil nubentes e o leite de nuvens jovens, delicadas como ideogramas.

ficar ou não

ficar ou não

THE PLACE WHERE DREAMS COME TRUE… OH, YOU LIE !

Trasanteontem, nos EUA, um homem de trinta anos acertou velhas e insolvíveis contas com seus algozes, matando dez pessoas, sim, acertando contas com estruturas sociológica e psicológica que o afligiam, enfim, donas do seu rumo pessoal, familiar, nacional, supranacional (cercado de judeus,  cristãos, protestantes, muçulmanos, wall street, etc); insolvíveis por estes mesmos motivos e por outros mais que nem vou enumerar e analisar aqui. Sei o que aconteceu, embora a tv não saiba dizê-lo, embora jornalistas sejam pífios demais para tais embates nas profundezas da psique, e até mesmo inúmeros psicólogos, psicanalistas e afins. Então, a notícia é só outro ramo seco na manhã, outro inchaço do fole social. A água e o descontrole psíquico são mesmo muito antigos.

ALABAMA SHOOTER “UNHAPPY AT FAILED DREAMS”.

Abrir de fato as mãos parece requerer tanto que, por mais que se esforce a pessoa, cada um tem na sua medida o combate do Outro, os muros para o Outro.

Escrevo isto imediatamente após começar a ler a apresentação de um sistema ou método de percepção da mente, melhor, de procura, por meio do estudo, de se entender e ajudar pacientes com necessidades prementes psíquicas. Foi postado por pessoa de minha distinção, e o enfoque ali dado deve ser lido com calma, para não se cometer erros cabais, ingratidões, etc, já que a pressa é inimiga da exatidão, de se chegar próximo a ela, porque lá nunca se chegará – ou tudo estaria perdido, porque seria o fim do estímulo ao impulso natural e irreversível à procura – grão maior de que é feita a humanidade de cada um.

Anteontem, ontem, hoje e amanhã, nalgum lugar do mundo, alguém acertou e acertará aquelas que, até então, permaneciam como sendo invisíveis e insolvíveis contas com os e as algozes que o/a cercavam. Decerto, há maneiras e maneiras de se levar a cabo tal acerto.

12 de março

Escrevi esse texto hoje, 12-03, logo após eu ler “Constelações Familiares”, postado por Maria de Lurdes, na Página dela, no sedruL, no dia 09-03- 2009.

Falas antigas

Falas antigas

Miguel Ângelo Buonarroti deu sua última pincelada na Capela Sistina. Desceu de lá, nem triste nem alegre, esticou pernas e braços, foi para uma taberna onde bebeu vinho e comeu uma lasca de cordeiro, e foi para a mulher que o esperava. Para ele (e para mim) a mulher era o portal musical, pintura, pó reativo, única escultura reagente, reacionária, carbonária.

Miguel morreu no ano 1519, insatisfeito com seus trabalhos – como é de praxe nos grandes artistas (poucos) e nos grandes escritores (poucos, dentre os quais estou), mas algo apaziguado pelas lâminas da calma e da calamidade, do amor e do desamor das mulheres.

O SILÊNCIO

ESBOÇOS E REVESES: O SILÊNCIO

MY BOOK (Poetry).***

AS MUDAS

Atar ao mamilo esquerdo
a dúvida, ao direito a
tempestade ?

de que fazer, afinal, o sinal
de unidade na testa

de ambos ?
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AMIGAS & AMIGOS, este é o meu livro, lançado ontem.
DARLAN M CUNHA. Esboços e Reveses: O Silêncio (p. 40)

L’ENFER C’EST LES AUTRES

Um olhar sempre atormentado sobre si mesmo perfaz o núcleo da peça “NO EXIT”, desta história apresentada por Jean-Paul Sartre, pela primeira vez, em 1944, na qual um homem e duas mulheres, presos no inferno de suas vidas, ou simplesmente no inferno, encetam falas e mutismos, condenados a si mesmos, incapazes de algo lúcido para moverem-se, senão sob a ótica dos inúmeros vícios do pensamento e, por conseguinte, de ações e reações que se acumulam sobre cada um. Sem saída.

Como se diz aí embaixo, o pecado, ou o erro, de Garcin (personagem) é a sua covardia, seus percalços, hesitações, soberba, mas ele está sempre pronto a se aproveitar das duas mulheres que com ele compõem o inferno dos três, instalados numa sala qualquer de uma casa qualquer – já que o inferno não é prerrogativa de ninguém, nem mesmo do Diabo.

Da frase tão famosa – “L’enfer c’est les autres !” – fica alguma certeza, alguma dúvida (Por que não eu mesmo / a ?), algo assim feito uma tela ou uma música deixada, pelo menos temporáriamente, de lado, sobre a qual ter-se-á de voltar um dia. O inferno é ali, aqui, em todo lugar. Comme un oiseau.

Darlan M Cunha

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JEAN-PAUL SARTRE: “NO EXIT”.

JEAN PAUL SARTRE’s No Exit was first performed at the Vieux-Colombier in May 1944, just before the liberation of Paris. Three characters, a man and two women, find themselves in hell, which for them is a living-room with Second Empire furniture. Each of the characters needs the other two in order to create some illusion about himself. Since existence, for Sartre, is the will to project oneself into the future–to create one’s future–the opposite of existence, where man has no power to create his future, his hell. This is the meaning of the Sartrean hell in the morality play No Exit. Garcin’s sin had been cowardice, and in hell he tries to use the two women, who are locked up forever with him in the same room, under the same strong light, as mirrors in which he will see a complacent and reassuring picture of himself.

This play, an example of expert craftmanship so organized that the audience learns very slowly the facts concerning the three characters, is Sartre’s indictment of the social comedy and the false role that each man plays in it. The most famous utterance in the play, made by Garcin, when he says that hell is other people, l’enfer, c’est les autres, is, in the briefest form possible, Sartre’s definition of man’s fundamental sin. When the picture a man has of himself is provided by those who see him, in the distorted image of himself that they give back to him, he has rejected what the philosopher has called reality. He has, moreover, rejected the possibility of projecting himself into his future and existing in the fullest sense. In social situations we play a part that is not ourself. If we passively become that part, we are thereby avoiding the important decisions and choices by which personality should be formed. […]

TRAZIDO DAQUI:

http://www.theatrehistory.com/french/sartre002.html

PUBLICADO ORIGINALMENTE EM / This document was originally published in Dionysus in Paris. Wallace Fowlie. New York: Meridian Books, Inc., 1960. p. 173-5.

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Foto do excepcional fotógrafo JABI ARTARAZ (JARTARAZ 2008). http://www.flickr.com/photos/jabitxu/2195739512/

ALGUÉM SUOU O TEU NOME

E se dêem por satisfeitos se café houver após horas e horas de samba em sol e ré, e que não se abatam pelo fato de, só depois de tais peripécias em lá e fá, saberem com quem foram ao paraíso, ou, segundo a canção, “com que roupa”.

Ah, o amor é lindo”, dizem os traumatizados, filósofos e outros alcoólatras e drogados de todo tipo; dizem e repetem que o amor é lindo, mas nada dizem da carga fenomenal do desamor que carregam consigo, o que os torna ladinos, sorumbáticos, pequenos sarcásticos. Afinal, quem fica mais de um tempo de jogo com perdedores, ecos de fraqueza em cada mutismo e em cada palavra ? Nem mesmo as tipas e os pegajosos contumazes. Verdade é que são teimosos os cegos, e pegajosas as tipas, e se acham capazes de te arrastar.

E se dêem por satisfeitos se carnaval ainda houver quando for imenso o peso na cabeça, quando a rua lhes parecer despropositada no tamanho, nas cores e odores, enfim, quando só tiverem a si mesmos por momo ou princesa decaída.

(DMC)

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Foto: Jussara. R – FLICKR

ONE DISASTER AFTER ANOTHER

Antes que novas sombras apareçam, a dança dos reptos sobre o piso instável das águas aviva-se já em cada canto, toda esquina. A gente quer e precisa descansar de algo, de tudo, mas não consegue porque há muitos membros a nos chamar, reflexões a datar-nos e a indatar-nos, meandros solícitos e barulhos mais e/ou menos poéticos. Há, sim, muita sobra no entorno, linha sempre pouca para o que o condutor do trem deseja.

Há um furo na rocha dos namorados e uma montanha saindo do mar neste instante há o consumo doentio de minúcias inúteis (estás sob e entre elas), e assim parece que só resta esquentar a comida e comer, ou, nas palavras da cantora, “descansar sem descanso” ou, como diz o refrão popular, “enquanto descansa, carrega pedras.”

Parece-me cansado o Mundo, um rarefeito ar o condena a estertores crescentes.

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Imagem: do trailer disponibilizado na Internet, do filme BLINDNESS, de Fernando Meireles, baseado no livro Ensaio Sobre A Cegueira, de José Saramago. AQUI.

PAPILLON, O Ninho do Ex-Craque

LA VITA ROSSONERA. IL DIAVOLO SULLE COLLINE IN RIO DE JANEIRO.

“Os de amanhã não existem; os de ontem já morreram; dos de hoje nada sei”.

Filosofia assim se pode ouvir e sentí-la em execução cotidiana, porque a vida parece ter se qualificado como sendo apenas um corredor de falsos brilhos e trapézios bem dispostos assimétricamente sobre seus enteados e suas fêmeas encostadas sob as gárgulas de motéis e outros tipos similares de casas de convívio a jato.

Há lixo e lixo, tropeços e tropassos de gente e de não-gente, de mais imitações de gente. E assim é que, volta e meia, tu dás com notícia de que alguém assim e assado saltou com vara errada sobre o ritual prescrito pela showciedade na qual se acha inserto e incerto.

Futebolistas e tipos da televisão e do cinema se prestam a estarem onde se os veja sempre como são e não são, de onde, de verdade, nunca saíram (Cuidado aqui. Entenda exato, se fores capaz). Emaranhados nascem, emaranham-se mais. Algo assim como o nome deste estádio aí acima: The Bird’s Nest. O nome do ninho em questão é PAPILLON, o mesmo de um livro tornado filme, com origem na história contada por Jean Genet.

Bola murcha e balão furado são termos muito usados. Um tipo, levado ontem a uma delegacia, no Rio, com um/a travesti, carrega, desde o início profissional em Belo Horizonte, um balaio cheio de tais nuanças ou configurações (usemos esta terminologia, já que estamos em máquina apropriada).

Sim, há lixo e lixo, chorume e estrume, escória e outras abominações, trastes e ningres-ningres. Lembrei-me do que valem e não valem os nomes; que eles diferem ou mesmo nada têm a ver com a estatura moral de quem os toma ou leva. Lembrei-me do grande livro do José Saramago: Os Nomes.

(DMC)

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