Batiá – no bar dele (Honório Bicalho // Nova Lima – MG, Brasil)

Batiá

Batiá

A ESCALADA
 
 
vai num crescendo constante
até parar definitivamente,
até cair com a boca no breu,
pós fraturar pernas e costelas
a vida
vai numa diminuição crescente
(“aproveite o momento”, disse
o filósofo romano Horácio)
(“conhece-te a ti mesmo”, disse
o filósofo grego Sócrates)
(“a vida é minuto”, disse
o arquiteto Niemeyer), ora,
e eu aqui vendo os destrossos
feitos pelas águas rio abaixo
com troncos de encontros e desencontros,
folhas caídas pelas esquinas
do tempo de cada um que vi
e não vi, que senti e não senti, sim,
“viver é muito perigoso”, disse
uma certa rosa do sertão
 
 
FOTO E POEMA: DARLAN M CUNHA


Shen Nung, imperador botânico

Lagoa Santa, MG, Brasil

Lagos Santa, MG, Brasil

Sonhou que o imperador chinês Shen Nung, pioneiro na medicina chinesa, por volta do ano 2750 a.C., foi o primeiro a provar o suco da camélia, Camelia sinensis, e isto se deu quando estava no campo, fervendo água em redor de árvores, e aconteceu de umas folhas caírem na água que ele provou; notando-lhe gosto, cor e odor inigualáveis, ordenou que aquele tesouro sutil, até então desconhecido, tivesse cultivo assistido, para o prazer de Shen Nung, Deus na Terra, o imperador que escreveu livro sobre ervas medicinais.

Foto e texto: DMC

síndrome de fevereiro

caverna do forró - Lagoa Santa, MG

caverna do forró - Lagoa Santa, MG

 
SINDROME DE FEVEREIRO
 
 
os pés inquietos de fevereiro reviram-se
na lama que os cobre, que é tempo
é tempo de chuva, do que restou dela
em dezembro e janeiro, a cólica feroz
das nuvens nos pés de fevereiro, eis
o assunto do dia nos jornais, mas
outros assuntos logo serão a bola
da vez, porque já é de novo fevereiro,
e só algumas pessoas dão por exato
conta disso: que os cabelos já não são
os mesmos do fevereiro passado,
mais calmos estando talvez
os dedos das mãos, menos motivos
talvez para sorrir tendo as criaturas
da noite e do dia, insones e dorminhocos,
todos tendo nos ombros os fevereiros
que fizeram por merecer, a canção diz:
“não viemos por teu pranto”, então, resta ir
aos vinte e nove dias deste mês (que há
os de vinte e oito), e abrir-lhe o leque,
porque fevereiro é a época dos pés
soltarem de um jeito único a sua mania,
sua ânsia anual por folia, que os pés,
em fevereiro, são reis melódicos: adeus,
bigodes da seriedade; adeus, sutiãs
e outras barbaridades de todas as ©idades!

Foto e poema: Darlan M Cunha