junho

operárias

operárias

 

JUNHO
 
 
O sexto mês entra na estrada
do ano, descendo do sono para pôr
a sua mesa o sexto mês do ano,
e no meio dessa rede haverá peixes
ou pássaros a serem capturados
na forma de correspondências
sob a porta, o costume das festas
juninas, alguém pedirá alguém
em sacramento, alguém pedirá
divórcio, e alguém viajará para
nunca mais; já é junho, as costas
de maio ainda estão quentes sobre
as pessoas, mas já se afasta, como
é natural, junho já caminha real,
mesmo de madrugada houve quem
o recebeu de pé, o interior do país
dorme, é dia noutra latitude
noutras longitudes o pavor e o amor
qualificam e desqualificam os seres,
sim, junho veio para ficar durante
trinta dias – a vida útil dessa planta
da qual é natural esperar colher
todos os dias o néctar revigorado.
É junho, flores estalam, e o primeiro
café do mês já está gritando.
 
Darlan M Cunha

Alda Merini

Alda Merini (Itália, 1930-2009)

Alda Merini (Itália, 1931-2009)

AMOR, VOE ATÉ MIM

Amor, voe até mim
em um avião de papel
da minha imaginação
com o engenho do seu sentimento.

Verá florescer terras repletas de magia
e eu serei a copa da árvore mais alta
para te dar frescor e abrigo.

Faz destas asas
duas asas de anjos
e traga também a mim um pouco de paz
e um brinquedo dos sonhos.

Mas antes de me dizer qualquer coisa
veja o espírito em flor
do meu coração.

*****

ALDA MERINI nasceu em Milão, onde viveu, e viveu uma vida atribulada, tendo sido internada em manicômios várias vezes, passando em tais instituições muitos anos de sua vida – sempre entre o delírio e a lucidez. Muito querida pelo povo italiano, recebeu vários prêmios e condecorações – inclusive a Ordem do Mérito da República Italiana. Escreveu, entre outros livros de poesia e prosa, Terra Santa, Testamento, A Presença de Orfeu, A louca ao lado.

Nono Tabu

NONO TABU

Restando-lhe esperar pelo último dia de suplício do pai, da mãe e dele mesmo, sempre apostando no diabo, pela pronta entrega do mesmo a quem o procura, ao contrário de deus, ele raciocina acerca do fato de que quando na meia penumbra o bicho até lhe parece mera imaginação doentia, mas na penumbra o bicho se mostra um pouco mais do que isso, e se pode até ver-lhe os olhos, mas não o fundo dos olhos;  e continuou a pensar que o bicho tem muitas faces e timbres de voz, e que, tendo formas fácilmente diluíveis, possui um cabedal imenso de lhanezas e esperezas, para assim melhor confundir quem, por um motivo e outro, consiga olhar para ele. Então, lembrou-se que enquanto escrevia seu livro Poemas com o Diabo dentro, ficara com os olhos roxos, de tanto atracar-se com a estúrdia do bicho acima citado, mas logo se recuperou, e cortou com velhos e imundos cacos de vidro a goela e os colhões do dito cujo, e a omnipresença de sua antítese – ou de seu contrário.

Foto e texto: Darlan M Cunha

Carlos Fuentes (1928 / 2012)

Nunca voltara a perguntar. Envergonhou-se de o fazer uma vez, de ter pensado que seu amor poderia ter fim ou medir-se como se mede o tempo das outras coisas. Não havia razão para lembrar onde, ou porquê, conheceu este rapaz de vinte e quatro anos. Era desnecessário carregar algo além do amor…

CARLOS FUENTES. A morte de Artemio Cruz, p. 55 

maio

MAIO

 
É maio, o solo e as paredes da cidade
fumegam com a sua entressafra
de medo e de sementes de alegria
permeando-lhe os primeiros passos,
assim como aconteceu com abril
e com todos os outros meses
e anos, séculos e milênios; maio
veio para trinta e um dias contigo
e comigo, mas muitos não chegarão
ao mês vindouro, isso porque
é mesmo da vida dar lugar à sua
antítese, então, vamos a ele, vamos
fazer história, ao mercado, ampliar
o leque de compras e trocas e vendas,
assimilar novas perspectivas
e dar peso ou mais leveza ao acervo
geral; eis ali uma criança, és tu
novamente; eis ali um ancião
com o teu rosto de depois de amanhã;
vamos a eles e elas, e que o tédio
não nos sirva para muita coisa,
embora também ele tenha lá os seus
encantos, como diz uma canção
chinesa (tudo lá tem mil anos e mais),
portanto, ponha-se pé e mãos na estrada,
melhor que se ponha tino na estrada
de areias de ouro que o mês de maio
espera de nós e de quem não sabemos
nada de sua existência… maio de seletas.
 
 
Texto e foto: Darlan M Cunha

Wislawa e o comprimido

cérebro // brain

NA CALMA DAS MÃOS

Comprimido, Wislawa, sou um acalmado
por via de meios legais e ilegais,
mais estes do que aqueles, sim, eles
me mantêm sob contrato, afeito
ao que de natural não sou, não tendo
memória que me arrase, nada conspurca
o meu viver, muito menos o fato de que
mesmo estando comprimido, acalmado
com os cotovelos num balcão de onde
só misérias se avista, rio-me assim mesmo,
que a demência geral faz de um bom homem
um ex bom homem, o faz rir e até gargalhar
e gargalhar até morrer, cara Wislawa.
 
 
Poema: Darlan M Cunha

Wisława Szymborska (b. July 2, 1923 in Bnin, P...
Wisława Szymborska (b. July 2, 1923 in Bnin, Poland), Polish poet, and Nobel Prize winner. She lives in Cracow, Poland (Photo credit: Wikipedia)
OBSERVAÇÃO: Escrevi este poema aí acima, após ler este poema (abaixo) da W. Szymborska.
FOLHETO


Sou o comprimido calmante.
Actuo em casa,
sou eficaz na repartição,
sento-me no exame,
apresento-me em tribunal,
colo minuciosamente a louça partida.
Basta que me tomes,
que me ponhas debaixo da língua,
que me engulas
com um copo de água.
Sei o que fazer na desgraça,
como aguentar a má notícia,
diminuir a injustiça,
desanuviar a falta de Deus,
escolher o chapéu de luto a condizer.
Por que esperas?
Confia na piedade química.

Durs Grünbein

Durs Grünbein - 2006 Aldeburgh Poetry Festival

Durs Grünbein nasceu em Dresden, Alemanha, em 1962. Em pouco tempo granjeou fama literária, recebendo premiações de relevo – entre as quais o Büchner, que é o maior prêmio lírico da Alemanha, concedido pela Academia Alemã de Língua e Literatura.

Sua poesia é ácida, chovendo no molhado, ou não, mostra de forma cabal as pessoas em sua vivência, em sua morte em vida.

DMC

*****

 

 

 

 

Suspenso da Terra

Cansado do menor desamparo, cansado do maior -
Ao olhar os pés nus na beirada da cama, da poeira,
Você rói as unhas das mãos (cresceram de novo). Na boca
Um odor que lhe faz se sentir só ao dar uma gargalhada.
De manhã, no quarto frio, ninguém dá gargalhadas. No cérebro
Arde uma ânsia, quase incontida, de sair lá fora.
Que o corpo não enfraqueça ao menor pensamento
Nesta mucosidade que ele era, no resto de cinza
Que ele se acumula em superfície nenhuma.
Tudo é cilada – nos olhos, nos ouvidos. Alarmado
Você desperta, suspenso da terra, cruel em toda a inocência,
Um jovem vampiro que sonhou com o pescoço de sua namorada
Entre os dentes a carne de ontem.

Erdenleicht

Müde der kleinen Ohnmacht, müde der großen -
Beim Anblick der nackten Füßen am Bettrand, des Staubes
Leckst du die Fingernägel (schon wieder gewachsen). Im Mund
Steht ein Geruch, der einsam macht, wenn man lauthals lacht.
Morgens im kalten Zimmer lacht niemand. Im Hirn entfacht
Wird ein Verlangen nach Draußen, das sich kaum stillen läßt.
Daß der Körper nicht schwach wird beim bloßen
Gedanken an diesen Schleim, der er war, an den Aschenrest,
In dem er sich sammelt auf keinem Grund.
Alles ist Hinterhalt – in den Augen, den Ohren, Gewarnt
Wachst du auf, erdenleicht, grausam in aller Unschuld,
Ein junger Vampir, der vom Hals seines Mädchens geträumt hat,
Zwischen den Zähnen das Fleisch von Gestern..

Tradução de VIVIANE SANTANA PAULO

*****

Dresden: Pompéia alemã?

Repita: não precisa de muito pra fazer de uma cidade paisagem lunar. Ou carvão de quem lá mora. Imagine só: acontecer na pausa da ópera, buscar cigarro em vão. E nas ruas, caindo mortos, o breu fervendo. A mão do ciclista cola azul no guidão, neve, mar de casas varrido por desértico vento. Faraós em trajes de inverno queimam em breve. Mais quente que qualquer verão. O último alarme mal se dissipa, e no centro a cinza ainda arde.

Trazido da Deutsche Welle

cda & dmc

cda, sem óculos

Quando me roubaram os olhos, pensaram que eu iria desisitir de ver e analisar, pensaram, com todas as forças ocultas que possuem, que eu assentar-me-ia à beira da estrada, só cantando lamúrias, vendo mulheres passar pra lá e pra cá, cada qual de braços dados com a sua febre, ora, ledo engano, porque, assim que me arrancaram os olhos, eu apenas os perdi, mas não perdi a capacidade analítica – que é justamente o que os atormenta, e um certo Carlos também sabia disso. Ora, todos os nomes e sobrenomes, toda a história da beleza e toda a história da feiura não são capazes de travar pensamento nenhum, advindo de quem quer que seja; e assim é que aqueles que me furtaram as íris estão em sérios apuros, uma dura luta dentro deles se desenrola como um caracol malvado sempre medrando de modo irreversível dentro deles e delas que me tiraram os olhos, ora essa, eu sou como um lagarto que pode regenerar uma perna perdida, ou o rabo deixado a algum predador, sim, meus olhos já estão de novo nascendo, cada vez mais limpos da sujeira geral.

Texto: DARLAN M CUNHA
Foto trazida daqui: http://twitpic.com/6sfwnj

bolhas (o riso precisa de ar)

fazenda vale verde - betim, mg, brasil

Fazenda Vale Verde – Betim, MG, Brasil

“Para os bichos e os rios, nascer já é caminhar.”
(João Cabral de Mello Neto. O rio)

Entre o algodão e o silêncio a gente se enche de incógnitas, ruas e avenidas dentro da gente, campos com e sem flores, que entre o algodoal e cristais da mais fina estampa é certo que pode haver mistérios, labirintos sempre acolhedores, e a gente se vê sempre em busca de outras dosagens, outras derrapagens no riso, ainda que com cisco nos olhos, eis a água, o rio é mesmo assim, mas não sempre assim sereno, que ele tem vontade própria, mesmo que pretensamente domado, ele sabe como inundar de pavor os povos, e a sua falta é fatal, então, eis o rio do qual já se disse – de todos eles – ser um cão sem plumas, ora, mas eis que há os rios pavão, rio verde, rio claro, rio novo, que o rio é múltiplo por ser água.

Foto e texto: Darlan M Cunha

luz sem sombra

Quando levaram-no, parecia não querer ir, de tão lenta a ida se fizera, silêncio quebrado por alguma buzina, sorrisos e conversas à parte, a ida se fez fora da praxe, porquanto as pessoas que iam naquela manhã sem data e sem nome lutavam para não se darem às algemas das mesmices; por isso, cantavam algo que registrava muito bem a índole de quem estava à frente daquela reunião de amigas e amigos, é vero, e foi assim que o puseram na cautela maior dos seus sentimentos: sempre com os olhos na rima da amizade, porque a morte é coisa pouca, talvez mais do que só um pouco, talvez a morte seja mesmo muita coisa, mas, de qualquer forma, fica registrado aqui que amigas e amigos que lá estavam combinaram hora e dia de saída para o feriadão próximo, melhor para se lembrarem com mais vagar de como todos e todas andam de correria ou submissão, talvez amalgamados em demasia com aquilo que tanto se critica: a showciedade; portanto, hora é de matar velhos e novos estigmas, paradigmas e paradoxos. Que a vida, no final da conta severina, talvez até seja livro.

TEXTO: DMC
IMAGEM: