Durs Grünbein

Durs Grünbein - 2006 Aldeburgh Poetry Festival

Durs Grünbein nasceu em Dresden, Alemanha, em 1962. Em pouco tempo granjeou fama literária, recebendo premiações de relevo – entre as quais o Büchner, que é o maior prêmio lírico da Alemanha, concedido pela Academia Alemã de Língua e Literatura.

Sua poesia é ácida, chovendo no molhado, ou não, mostra de forma cabal as pessoas em sua vivência, em sua morte em vida.

DMC

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Suspenso da Terra

Cansado do menor desamparo, cansado do maior -
Ao olhar os pés nus na beirada da cama, da poeira,
Você rói as unhas das mãos (cresceram de novo). Na boca
Um odor que lhe faz se sentir só ao dar uma gargalhada.
De manhã, no quarto frio, ninguém dá gargalhadas. No cérebro
Arde uma ânsia, quase incontida, de sair lá fora.
Que o corpo não enfraqueça ao menor pensamento
Nesta mucosidade que ele era, no resto de cinza
Que ele se acumula em superfície nenhuma.
Tudo é cilada – nos olhos, nos ouvidos. Alarmado
Você desperta, suspenso da terra, cruel em toda a inocência,
Um jovem vampiro que sonhou com o pescoço de sua namorada
Entre os dentes a carne de ontem.

Erdenleicht

Müde der kleinen Ohnmacht, müde der großen -
Beim Anblick der nackten Füßen am Bettrand, des Staubes
Leckst du die Fingernägel (schon wieder gewachsen). Im Mund
Steht ein Geruch, der einsam macht, wenn man lauthals lacht.
Morgens im kalten Zimmer lacht niemand. Im Hirn entfacht
Wird ein Verlangen nach Draußen, das sich kaum stillen läßt.
Daß der Körper nicht schwach wird beim bloßen
Gedanken an diesen Schleim, der er war, an den Aschenrest,
In dem er sich sammelt auf keinem Grund.
Alles ist Hinterhalt – in den Augen, den Ohren, Gewarnt
Wachst du auf, erdenleicht, grausam in aller Unschuld,
Ein junger Vampir, der vom Hals seines Mädchens geträumt hat,
Zwischen den Zähnen das Fleisch von Gestern..

Tradução de VIVIANE SANTANA PAULO

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Dresden: Pompéia alemã?

Repita: não precisa de muito pra fazer de uma cidade paisagem lunar. Ou carvão de quem lá mora. Imagine só: acontecer na pausa da ópera, buscar cigarro em vão. E nas ruas, caindo mortos, o breu fervendo. A mão do ciclista cola azul no guidão, neve, mar de casas varrido por desértico vento. Faraós em trajes de inverno queimam em breve. Mais quente que qualquer verão. O último alarme mal se dissipa, e no centro a cinza ainda arde.

Trazido da Deutsche Welle

bolhas (o riso precisa de ar)

fazenda vale verde - betim, mg, brasil

Fazenda Vale Verde – Betim, MG, Brasil

“Para os bichos e os rios, nascer já é caminhar.”
(João Cabral de Mello Neto. O rio)

Entre o algodão e o silêncio a gente se enche de incógnitas, ruas e avenidas dentro da gente, campos com e sem flores, que entre o algodoal e cristais da mais fina estampa é certo que pode haver mistérios, labirintos sempre acolhedores, e a gente se vê sempre em busca de outras dosagens, outras derrapagens no riso, ainda que com cisco nos olhos, eis a água, o rio é mesmo assim, mas não sempre assim sereno, que ele tem vontade própria, mesmo que pretensamente domado, ele sabe como inundar de pavor os povos, e a sua falta é fatal, então, eis o rio do qual já se disse – de todos eles – ser um cão sem plumas, ora, mas eis que há os rios pavão, rio verde, rio claro, rio novo, que o rio é múltiplo por ser água.

Foto e texto: Darlan M Cunha

DARA – monólogo sem flores

florama

florália

ah, já que nós temos que remover tantos nós e pedras do nosso caminho, que seja com os nossos próprios pés e braços, com o nosso próprio remorso, dolo e culpa, com pesar e gosto de necrotério nos lábios e fumo nos olhos, e água saindo das duas matas ciliares, quentes, fazendo-nos lembrar da breve aquitetura do choro que é a lágrima, choro de mãe, mas eu não quero ser mãe, de jeito nenhum, e não há nada mais triste do que isso

Foto e texto: Darlan M Cunha (trecho do romance DARA, ainda em andamento)

Oi

OI

Na terça feira, dia 11 de outubro, após meses sem cair uma gota de água em BH e região, por volta das quatro da tarde desabou chuva forte de quinze minutos. Pois bem: bastaram quinze minutos para que ficássemos mais de quatro horas sem energia elétrica em bairros como o meu: o Buritis, o mais novo e um dos mais caros da cidade. O que dizer dos bairros mais modestos, etc. Levo em conta que a CEMIG é referência nacional no setor de energia elétrica, é mesmo, mas mesmo assim isto acontece.

Eu tinha chegado em casa, do meu compromisso, e estava com o computador e a tv ligados. Desliguei o micro, com receio dos mil raios, e fiquei assistindo o campeonato europeu, até que a luz se fosse.

No feriado, dia 12 de outubro, às duas da madrugada, liguei o micro, e não pude acessar INTERNET. Esperei dar seis horas, telefonei, mas atendimento direto só às oito da manhã. Telefonei mil – repito: mil vezes – para a OI (velox ou banda larga), durante dois dias, ninguém soube me dizer porque eu estava proibido de acessar a INTERNET, falei com mil gentes… Nem pensar em conta atrasada.Tentei de todas as formas cancelar o meu compromisso com a referida OI, querendo de qualquer jeito CANCELAR o vínculo de INTERNET. Em vão, porque não há absolutamente ninguém capaz de “bater o martelo”, e liberar o seu pc. Tudo está registrado, escrevi os mil números de “protocolos” das mil chamadas que fiz. Na quinta feira à tarde, contratei serviço de INTERNET com a NET, aproveitando para mandar mais canais de tv, por que a minha tv é NET (antigo MULTICANAL) há quatorze anos. Na sexta feira à tarde eu fui ao PROCOM (levei documentos comprobatórios: contas pagas), e registrei a devida queixa, para evitar que eu mesmo seja processado por empresa incompetente. Sem contar que gastei tempo, dinheiro e que o meu contumaz bom humor foi “pras cucuias, pressão arterial subiu” – fala o mestre. Gastei com táxi, ônibus, aluguel de Lan House (ave maria!, pra nunca mais!). Eu sem saber notícias sobre o meu novo livro que será lançado ainda este final de outubro, sobre a diagramação, etc…

Hoje, como tinha sido combinado pela NET, já de manhã aqui esteve um profissional, e recolocou tudo nos eixos. Portanto, este é um aviso, ou dica, de mais um cidadão simplesmente chateado. Simplesmente.

Agora eu mereço uma garrafa de vinho tinto seco, da serra gaúcha, de marca Country Wine.

PARA UMA BAIANA QUE NÃO ME PEDIU ESSE TEXTO

sertão, caatinga, chapada, bahia

Elomar Figueira Mello

DAS QUADRADAS DO RIO GAVIÃO, ÀS BARRANCAS DAS ÁGUAS PERDIDAS

 

O meu conceito acerca da Música diz-me que só há um músico realmente único em todos os Brasis – os de ontem e o de hoje -, e o seu nome é Elomar Figueira Mello, bahiano da Bahia, mas não a do folclore distorcido, de algum duvidoso sincretismo, aliás, de folclore nenhum. Ele arquiteta a sua canção de forma a que os ângulos espúrios fiquem ao largo dela, e para isso cerca-a de minúcias como a clareza de intentos, a excelência de acordes ou  de movimentos, (e ponha ‘incelença’ nisso) os solos da caatinga, do sertão, da chapada, da Bahia do sim e do não, pode crer, camarada, com suas nuvens-do-nunca-vem, terras do sem fim é o que é essa música que agrada aos bodes quanto aos humanos mais sensíveis. Um passarinho me contou que a boa bisca lhe soprou que a fazenda do dito cujo cidadão é por ali, conquista sua, por lá estarei, em breve, algum dia, já sabendo que todos são bem vindos, em que pese o natural recato do distinto e pacato cidadão em questão. Elomar gosta de chuva, é maluco com raios e trovões, melhor, respeitoso com essa manifestação tão natural de dois em um, já que raio e trovão são dois temperos de uma mesma comida. Prato de bóia boa, de nome chuva, chuvisco, toró, pé d’água, dilúvio, aguaceiro, tromba d’água, um frege danado de água arrancando mourão e cancela, ponte e pinguela, de arrastar marruaz e mulher nova, cachorro e gato, novilho e homem graúdo, casa e casebre, cascavel e lebre… chuva de carregar o sono do mundo, de abrir de alegria a boca do mundo na roça da Joana e do Raimundo.

Joana flor das alagoas
Olha como Deus é amô
Encheu d´água as alagoa
Sem flor, em flor”

O ouvinte que tenho em mim é assim: vai levando na destra uma lenda, e na sinistra a consciência de não ter perdido algo maior do que aquilo que pode manter. Leva no pé direito, que é um pouco menor do que o pé esquerdo, devido a um aleijão tão antigo que não tem data em sua memória, tão antigo que ele até mesmo desconfia de que seja do tempo da formação do mundo, leva no pé direito e nos ombros uma pergunta cíclica: Deus existe ? Talvez seja mesmo uma pergunta inoperante ou, mais do que isto, desimportante. Pois bem, o fato é que com o pé e o ouvido esquerdos este ouvinte mantém na sombra o medo e afasta a ojeriza, empurra a náusea e previne-se da peste que é rir sem rir, chuta os baldes da indigência mental e da mendicância moral, e é por lutar para estar sempre leve, que ouve versos tais como “sete candeeiros iluminam a sala de amor”, e assim relaxa ao ouvir “vem, amiga, e conta uma coisa linda para mim”, isso porque “lá dentro no fundo do meu sertão, tem uma estrada das areias de ouro”, “ouço, em toda a noite escura”, assim sendo, meu compadre, “já que tu vai lá pra feira, trás umas coisinhas para mim…”

“Si eu tivé di vivê obrigado
um dia inhantes dêsse dia eu morro
Deus fêiz os hômi e os bicho tudo fôrro
já vi iscrito no livro sagrado”

Ouvi falar sobre Elomar Figueira Mello, pela primeira vez, em 1980, através de um rapaz, estudante de engenharia, do qual eu, desafortunadamente, não me lembro do nome agora que escrevo esta resenha. Lembro-me bem que nos conhecemos no Restaurante Tio Patinhas, em BH, ao lado de onde eu e a minha companheira Antje (hoje, já falecida) morávamos. Ele nos deu de presente o requinte da época: duas fitas cassete BASF, com dois discos do menestrel do sertão bahiano. Nunca me esqueci daquela gentileza. O apreço pela obra em questão foi imediato, e eu logo estava identificado com o significado pavoroso e abrangente daquele tocador, cantador e escritor, sim, narrador pleno do pleno sertão, amigo do ouro das manhãs e do pudim que há no céu do entardecer, amigo dos regos e boqueirões, das bibas e lagartixas, borboletas e coiós, sanhaços e graúnas, cascavéis e tatus, rabudos e mandacarus, piabas e bagres, pintassilgos e gaviões, carcarás, bodes e leitões. E assim, parece-me, é que ele vai arquitetando de leve os dias e as noites, violão à mão, família ao lado, as amizades suaves como uma peça de algodão, prestativo como um bornal, uma embira, uma vela de cera bruta. Uma caninha, vez que outra, vai bem, que as visitas merecem o bom caldo da amizade. E um céu de dormir sem comprimidos.

“Lá dentro no fundo do sertão

Na estrada das areias de ouro”

Elomar Figueira Mello, sertanejo e sertanista da melhor cepa, criador de bodes, violeiro e cantador, é o único compositor que achou um trevo de 11 (onze) folhas, e é também arquiteto formado pela UFBA, mas abomina ou pelo menos evita as cidades, sim, temos isto em comum: o fato de não nos sentirmos bem no burburinho. Sinto-me muito mal na cidade, mas vou criando bodes imaginários, uma que outra bezerra, novilha, égua… à beira de uma estrada também ela de areias de ouro, ainda e sempre capaz de “meter o dedo na viola”.

Longa e saudável vida ao cantador Elomar Figueira Mello, e Família.

DARLAN M. CUNHA

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A foto mostrando  ELOMAR FIGUEIRA MELLO foi trazida daqui:

VC – Vitória da Conquista, BA (on line), O Site da Cidade, 09-02-2011

http://www.vitoriadaconquista.com.br/tag/elomar-figueira/

NÃO CORRA RISCOS

Não correr riscos significa ir devagar ao se preparar pirão, porque fogo brando é o indicado: o caldo vai se tornando massa, encorpando-se ao engalfinhar-se com o fogo na frigideira, panela ou tacho. Não corra o risco de ficar alegre, pra nunca chorar, diz a canção. Portanto, mexa de leve, bicando e debicando, aplicando e reaplicando,  triplicando temperos variados, varie bastante, seja inteligente, cuidado com fogo em excesso, nada de malabarismos, senão a massa pode sair do ponto, e aí não haverá conserto para o pretendido fogo na lata, ora, pirão é saudável, dá uma suadeira danada, abrindo poros e ventas, lubrifica o coração de quem o experimenta com sabedoria. Temperos diversos com ecos apimentados e olorosos são exigidos para a boa feitura dessa loucura psíquico-gastronômica e também somática. Não corra desnecessários riscos em busca do pirão, do caldo ou da calda perfeita. Nem do purê perfeito, bem úmido e cheiroso e revigorante. Devagar nos condimentos.

DARLAN M CUNHA

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BELO HORIZONTE DE CANÇÕES

O AR EM SEU ESTADO NATURAL
(Textos sobre letras do Clube da Esquina)

Aqui está o meu mais novo livro – um misto de pequenas crônicas, vou assim chamá-las, entremeadas com poemas. As pessoas já familiarizadas, ou não, com as emoções do Clube da Esquina, com suas canções, as entrevistas, as fotos, os casos engraçados, terão aqui um pouco de petiscos para saborear, petiscos com os quais assentarem-se à mesa, eu espero. Nada de entrevistas, de fotos. Escrevi o livro com a leveza necessária, com a leveza de quem percebe que a amizade é gênero de primeira necessidade, devendo estar na mesa de todos, algo de cesta básica, e este sentimento está presente em toda a obra do referido clube, de modo explícito ou subreptício, ou seja, é como está no livro: o que está sendo apreciado no livro é “o conceito de amizade”, e não própriamente a repetição dessa palavra, do termo, do substantivo amizade nas letras do Clube, e não só nas letras, porque é notória a amizade continuada até hoje, após virem filhos e filhas, viagens, carreiras em separado, etc, é notório este exemplo, tendo como paralelo de longa e produtiva amizade o MPB-4 e Os Cariocas. O conceito é o que vale, e é disso que este  livro trata, sem pretender nem mesmo de longe esgotar o assunto. Amigo é coisa pra se guardar debaixo de ene chaves. Te amo, espanhola.

A idéia surgiu de repente, embora o meu Inconsciente estivesse fustigando-me havia tempos acerca desse tema. Morei vinte e nove anos na Floresta, na região que eu sempre chamei de os bairros irmãos: Floresta/ Santa Teresa/ Horto/ Sagrada Família e, mais distante, dois outros bairros irmãos: Lagoinha e Cachoeirinha, região reduto de músicos e artistas plásticos, região que é casa do excepcional grupo de bonecos Giramundo, criado e desenvolvido pelo professor Álvaro Apocalypse e sua esposa Teresinha Veloso. Ora, tempos depois, por ali surgiu o hoje também internacional Grupo Sepultura. Para completar, sem esgotar o assunto, a excelente rapaziada do também internacional Skank, moçada que não se cansa modestamente de dizer que beberam e comeram na fonte musical do Clube da Esquina. Água de beber, bica no quintal, sede de viver tudo.

E assim iniciei o livro, o qual ficou pronto em poucos dias, mantendo o cuidado extremo de fazer com que ele não resvalasse para o pieguismo, para agrados a conhecidos, amigos, ex vizinhos; tive o cuidado de dosá-lo de tal forma a que uma pessoa de outro estado, de outro país, de outra latitude e longitude possa lê-lo, sem que a essa pessoa seja necessário procurar dicas em mapa, dicionário ou enciclopédia. Tenho inexcedível apreço pela minha literatura, e não posso sujá-la de forma alguma, até porque intrínseco a ela, dentro dela estão o meu saber e a minha honradez. Bom, acho melhor ir à macarronada do Bar do Bolão, em Santa Teresa, isso porque amigo é coisa pra se guardar. Da janela lateral do quarto de dormir. Não se espante assim meu moço com a noite do meu sertão.

Os textos surgiram sem maiores esforços, sim, eis que os títulos surgiam e diziam: eu sou o título, e estamos conversados. Fazer o quê ? Muitos deles fazem alusões diretas ou explícitas a títulos de canções, bem como no seio de todos os textos há um ou dois ou mais pequenos trechos ou frases de alguma canção, sem que isto configure cópia, ou plágio. Completamente fora de questão. Porque vocês não sabem do lixo ocidental.

Sim, escrever este livro foi como bebericar uma cachaça com torresminhos, comer ora pro nobis com angu, algo assim de frango ao molho pardo, isto se o pão de queijo deixar espaço na já volumosa pança dos glutões e glutonas. Mas quem, em sã ou sob má consciência, ou até mesmo inconsciente ou dormindo, resiste a tais delícias ? Lembro-lhes aqui a senha dos Inconfidentes, todos já se preparando em surdina para o grande dia da Derrama, com aquela que, hoje, é frase famosa: Tal dia é o batizado. É, mas eles bem que poderiam ter escolhido também esta simpática senha: O pão de queijo está no forno.

Pelo que sei, ainda não se escrevera algo assim acerca deste clube, não obstante textos de primeiro time tenham sido publicados sobre o mesmo. Recomendo, por exemplo, o excelente livro da Andréa Estanilau, Coração Americano – 35 anos do álbum Clube da Esquina, assim como recomendo a leitura (como não, uai ?) do livro que é, sem dúvida, um verdadeiro memorial acerca do assunto, escrito de dentro, do âmago: Os Sonhos Não Envelhecem, do Márcio Borges, e também o belo livro Palavras Musicais, do Paulo Vilara, entre outras publicações merecedoras de respeito. Clareia, manhã. Olha, eu não faço fé nessa minha loucura.

Sim, de tudo se faz canção e caução, e o meu pão de queijo saiu do forno.

DARLAN M CUNHA

(Textos sobre letras do Clube da Esquina)

“EU DURMO… O UNIVERSO NÃO.” – ela disse.

Cabaça-baianas

O Artesanato fala: Cabaça-baianas / by TÂNIA FILIPPO (Rio / Bahia)

1. DEPOIS DA ÁGUA, O ARTESANTO

Depois da água, há outro encantamento que me fascina de modo cabal, desde o meu mais tenro vislumbre das coisas: o artesanato. Isto porque, para mim, (eu só viria  a saber disso, de fato, tempos depois, pelos estudos continuados, viagens, pessoas e  também pelas imitações de gente que eu conheci), para mim, as paredes das cavernas, onde a primeira arte pictórica encostou-se, ou achou abrigo, achou a tela mais lógica onde estabelecer-se e esperar pelos futuros humanos, são contemporâneas do meu entendimento do que seja a vida, melhor dizendo, do que foram as primeiras passadas humanas, seus dedos rasgados em busca de vegetais, até aprenderem a fazer triângulos de pedra e encaixá-los nalgum tosco e curto, depois longo, pedaço de pau, servindo assim de lança para caçar bichos e matar invasores. Sim, os primeiros tempos foram tenebrosos, iguaizinhos ao de hoje, de dentro do qual se procuramos bolhas de ar para respirar. Logo logo o oxigênio será vendido em garrafas, em macromercados hiperfortalecidos, cada uma com o preço de mais um dia de vida, e, é claro, os dias terão apenas 12 horas, e, é claro, cada dia menos gentes ou gentios ou pessoas ou criaturas ou humanos ou sei lá como nos chamaremos poderão comprá-las.

VER, ENTRE AS PERNAS DO LODO, O SEXO DA AMARGURA E O OLHAR DA MORTE. PROCURAR, ATÉ NA TEZ DO ÓDIO, OS TRAÇOS DE UM AINDA DESCONHECIDO PAVOR: A ALEGRIA GENUÍNA, NUNCA SABIDA.

2. PINTURA ABSTRATA

A pintura abstrata me atrai, porque gosto do que não expressa, do que quer ou pensa expressar, mas gosto, sobretudo, é do espaço que em geral há em trabalhos como, por exemplo, os da Tomie Ohtake e do Manabu Mabe, e, ainda noutra vertente, os da Maria Helena Andrés. Aprecio as telas dela, seu azul bem macio feito a crosta de lã da bunda de um nenén;  mas não me falem na velharia, no arcaísmo besta europeu. Tolices. Melhor é ir às gordas e gordos do Fernando Botero (ali está mais do que uma simples visualização de pessoas rombudas. Com algum esforço, tu podes perceber naquelas imensas esculturas de escuro metal, espalhadas em praças do mundo, um estilo de probidade moral, mas sem moralismo, sem Moral & Ética herdadas dos antigos gregos (Sócrates e a mulher dele, Xantipa, tinham escravos; era normal que todos, e aí também os filósofos e legisladores – defensores de todas, ou quase todas, as liberdades – tivessem escravos). Pois bem. Escolas substistem para serem buriladas, e algo dos gregos a turba de língua alemã (a escrita) burilou, ou seja, tolices judaico-cristãs, picuinhas kantianas, hegelianas, desembocando nalgum bando esfarrapado de mirabolantes provadores de haxixe com vinho, de cogumelos com anis, etc, ou seja, sartrianos da vida e outros cocoricós. Pois bem, gente quase boa, em frente.

3. O ARTESANATO É UMA MESA FARTA

Fico encantado com os frutos das mãos das artesãs, reconhecíveis a uma distância enorme, sofrendo elas sempre algum enquadramento dado por meros “filisteus das artes”, “experts em punhetas mentais”, “mestres do acalanto pictórico”, “chorosos em travesseiros puídos”, “sornas”, pacientes sofrendo de   “esclerose múltipla”, quando não daquela patologia que é incompatível com a vida, qual seja, a “displasia ectodérmica anidrótica” (esta última, cito-a aqui em termos figurativos), etc.

Agradam-me aquelas figuras tão entranhadas nos artesanatos mundo afora (eu digo em geral, porque aqui não temos camelos, e nos desertos não há capivaras); figuras em barro, madeira, vidro, sabugos, pedra, ou feitas de outros materiais; figuras de cavalos, bois, tropeiros, lavadeiras, galinhas, jumentos, aves e pássaros, padres, vilas inteiras, répteis (eis aí os arquétipos), etc; figuras estilizadas, com vagas ou explícitas alusões a fatos nada corriqueiros entre os seus / suas colegas de arte, alusões feitas por pessoas mais habilidosas, com uma visão mais larga do que a da “aldeia” onde vivem, ou do lugar onde se criaram, tomando, a partir de lá, uma consciência da vida que pode seguí-las por toda a vida,  embora recebendo influências, e isto óbviamente reflete-se no seu trabalho. Elementar.

Vi alguns trabalhos de uma pessoa notável, incisiva e, como toda pessoa que se preza, impaciente com os giros tortos do mundo. Ela faz um trabalho muito bom com cabaças, mas não só com cabaças, um trabalho que demonstra uma serenidade alegre (digo isto porque, decerto, observei as cores de fundo dos trabalhos). Ela pinta camisetas, sempre com um mínimo de motivos juntos, o que me parece muito bom, porque numa fruteira lotada você vê todas e não vê nenhuma fruta em particular. Há coqueiro em camiseta, o que te dá tempo de “imaginar” algum lugar só teu, algum lugar onde estiveste, ou desejas estar, e isto, para mim, é sinônimo, embora não único, de um trabalho artístico de boa qualidade: deixar a gente ver, FAZER a gente ver, fazer-nos comer e passar bem, comer e sentirmo-nos mal, mas provar atêmpera dos trabalhos, os temperos daqueles petiscos, daquela comida oferecida em forma de telas a óleo, de cabaças pintadas, de ferro batido, de taquaras, de tricô e croché, de cerâmica, de ossos, etc.

TÂNIA FILIPPO – carioca radicada na terra baiana – é uma das maravilhas de artesãs que há no país; e   o sopro de suas mãos vive em muitas casas, a partir de feiras, encontros e festivais dos quais participou. Feira é palavra antiga, quase mágica. Fico espantado quando vou à casa de alguém, num país como o Brasil, e não encontro nem um vestígio, repito: nem um vestígio de artesanto. De livros, já desisti de procurar, e de falar acerca disso. Longa vida às artesãs e artesãos.

DARLAN M CUNHA

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Ela é boa fotógrafa, embora amadora. Visitem-na aqui:

http://www.flickr.com/photos/filippotania

UM CHAPÉU AMASSADO

Quando Alberto S. D. sacrificou o primeiro sonho da Humanidade, tornando-o realidade, ou seja, matando o tormento da espera, o delírio milenar de se ficar olhando para cima, onde nuvens e aves empaturram-se de risos e iras (fazendo, ambos, necessidades fisiológicas na tua cabeça: chuva e cocô), o suplício do delírio de voar, e coisa e tal, mal sabia ele em que encrenca estava se metendo por todo o sempre – o dele, o de todos os seus contemporâneos e, principalmente, o de todos os seus pósteros. Sim, Alberto, você era um cara sistemático, destes que abaixam a cabeça para levantar a visão do Mundo, que arrastam os pés dentro de velhos, embora macios, chinelos, para fazer com que a Humanidade possa locomover-se com mais dignidade, de não mais alguém ir de sapatos sujos (aqui, a sujeira é metafísica, ética) quando, por exemplo, de uma simples visita à vovozinha num domingo qualquer. Mundo sujo, vida suja ? Alberto, o teu chapéu dá sombra aos cansaços do mundo, melhor, à pressa necessária desta Era da Humanidade. Desejar longa vida ao teu pássaro é quase ironia, é desnecessário desejar o óbvio ao óbvio, pois o teu pássaro tornou-se parte intrínseca, Alberto S. D., do que humano é nesta Era de vôos e delírios além-lá do vôo físico. Pela riqueza do solo e da gente de Minas Gerais, Brasil, a tua fazenda Cabangu (colinas de café, terreiros de café, montões de café, navios com café), transformou-se em avião, em custeio de aventura no ar, ar de Paris, depois, do mundo inteiro, e fora do mundo, já fora do sistema solar.

Tudo seja asa, tenha asas, Alberto S. D.

DARLAN M CUNHA