Carlos Fuentes (1928 / 2012)

Nunca voltara a perguntar. Envergonhou-se de o fazer uma vez, de ter pensado que seu amor poderia ter fim ou medir-se como se mede o tempo das outras coisas. Não havia razão para lembrar onde, ou porquê, conheceu este rapaz de vinte e quatro anos. Era desnecessário carregar algo além do amor…

CARLOS FUENTES. A morte de Artemio Cruz, p. 55 

síndrome de fevereiro

caverna do forró - Lagoa Santa, MG

caverna do forró - Lagoa Santa, MG

 
SINDROME DE FEVEREIRO
 
 
os pés inquietos de fevereiro reviram-se
na lama que os cobre, que é tempo
é tempo de chuva, do que restou dela
em dezembro e janeiro, a cólica feroz
das nuvens nos pés de fevereiro, eis
o assunto do dia nos jornais, mas
outros assuntos logo serão a bola
da vez, porque já é de novo fevereiro,
e só algumas pessoas dão por exato
conta disso: que os cabelos já não são
os mesmos do fevereiro passado,
mais calmos estando talvez
os dedos das mãos, menos motivos
talvez para sorrir tendo as criaturas
da noite e do dia, insones e dorminhocos,
todos tendo nos ombros os fevereiros
que fizeram por merecer, a canção diz:
“não viemos por teu pranto”, então, resta ir
aos vinte e nove dias deste mês (que há
os de vinte e oito), e abrir-lhe o leque,
porque fevereiro é a época dos pés
soltarem de um jeito único a sua mania,
sua ânsia anual por folia, que os pés,
em fevereiro, são reis melódicos: adeus,
bigodes da seriedade; adeus, sutiãs
e outras barbaridades de todas as ©idades!

Foto e poema: Darlan M Cunha

O BANHO DA INTERNET NAS EDITORAS

Comidas em Minas Gerais

Comidas em Minas Gerais

Estava eu assitindo ao programa do muito sagaz, e sempre de bom humor, cantor, compositor, escritor (Quando Se Olha Pra Dentro, De Versos, Dois Mundos) e artista plástico (pintura) Paulinho Pedra Azul, no programa comandado por ele na BHNEWS TV (Belo Horizonte, canal 009 NET), de nome “O Tom da Palavra”, no qual ele entrevistou o velho amigo dele, Roberto Lima, editor do jornal Brazilian Voice (USA), jornal dedicado à colônia brasileira, nos EUA (outros jornais com o mesmo fito que há por lá, como o Framingham City); e o citado editor disse algo sobre, digamos, a nova percepção que as pessoas têm acerca de poderem preparar e divulgar e vender, elas mesmas, seus próprios trabalhos musicais, pictóricos, literários, etc, via Internet, e que por esta e por outras causas além dessa aqui colocada, segundo ele, mostra que  “a Internet está dando um banho magistral na indústria editorial.”

Darlan M Cunha

Das inúmeras fobias que roem o cotidiano

Um lar do Brasil

       A gente, não raro, pode se ver sob por perguntas assim: Qual o nome do seu parente preferido ? Como se chama a rua na qual você cresceu ? Você se machucou de modo sério quando garoto ? Ia muito à casa das avós, comer do bom e do melhor, mesmo quando adulto ? Pois bem, perguntas assim vieram sobre mim, hoje, de lá de dentro de mim, e fiquei sem responder nada do que me propuseram, quase nada, isso porque há muitos fatos na minha infância, na cidade de Joaíma, onde morei até os oito ou nove anos anos, os quais continuam obscuras, levemente tingidas com algumas sensações; mas eu me lembro de como gostava de descer pela rua na qual morávamos – Rua Direita –, e continuava descendo por uma rua muito larga, em direção à grande ponte de madeira da cidade, para carros e gente, mas que as pessoas forçavam até mulas e cavalos a passarem por ela; quando a gente olhava para baixo, via a boca líquida da morte, por isso eu evitava olhar para baixo, porque a zonzura viria, a partir do topo daquela ponte sobre o Rio Jequitinhonha, um rio largo da cor de terra, na maior parte do tempo. Eu sempre temi a água, grandes águas; no entanto, ao mesmo tempo, aquilo me fascina, atraindo-me de maneira forte, mas de sensação nada boa. Com inúmeras pessoas, o mesmo acontece diante de alturas, pois elas têm hipsofobia ou acrofobia – palavras de origem grega, que significam aversão a lugares altos. Pessoas há que sofrem de agorafobia, também comum, assim como acontece com a fobia anterior; agorafobia é a aversão a grandes lugares públicos, lugares abertos, com multidões.

       Há quem goste é de sossego, de introspecção, muito silêncio – justo o que o brasileiro desconhece, porque a sua incrível deseducação não o deixa perceber os ecos da sua atitude, e assim é que vai buzinando a toda hora, mesmo de madrugada, rádios e tevês na altura de muitíssimos decibéis, e o mesmo se dá quando dentro de um carro, com um som no mínimo de uns 70 decibéis, não, as pessoas aqui não gostam de jeito nenhum de silêncio, novatas no mundo, o barulho incomodativo é necessário, precisam dizer que existem, de uma forma ou de outra, elegante ou não, dentro ou fora da lei.

Foto e texto: Darlan M Cunha

Comer

ácidas têmperas

limão capeta e pimentas "biquinho" e "de sete molhos"

                    Um ditado popular diz que peixe morre é pela boca; há também quem diga que a cozinha pode ajudar a conservar um relacionamento, não necessáriamente um casamento oficial, mas um tipo de relacionamento cada vez mais usual, embora antigo na sociedade. Isto porque não parece caber dúvida que os temperos têm lá os seus encantos, e que uma boa cozinha, através do homem ou da mulher, conta muitos e renovados pontos num dia a dia, embora também possa ser um relacionamento de encontros esporádicos. Tenho comigo este proceder, o qual levo a sério, pelo motivo de gostar de cozinhar, independente de estar ou não estar acompanhado, de ter ou não ter uma companheira, foi o que alguém disse numa roda de conversa, aparentemente esquecido de sua insônia maldita e bendita. Como se sabe, a comida é a cara de um povo, não havendo nada que o caracterize mais, depois do próprio idioma, das idiossincarsias que cada povo faz de um idioma comum, por exemplo: Brasil e Portugal escrevem e falam o idioma comum entre eles de forma diferente. Como ia dizendo, nada caracteriza mais um povo do que os alimentos que ele usa, e como os usa, quando são alimentos universalizados, como o arroz, a batata e o milho e o cacau (esses três são centrais e sul americanos), o trigo e o café. Guerras foram levadas a cabo pelo domínio de especiarias como o cravo. Sim, comer é tudo, daí que até se mate por isso. Bancos que guardam, ou pretendem guardar segredos genéticos de todas, ou das principais plantas, dos principais alimentos do mundo. Resta saber quem desfrutará deles; se os países de origem natural destas e de outras iguarias  terão voz ativa entre os mísseis postos à mesa. Lembro-me aqui duma peça teatral falando exatamente sobre isso, sobre disputa de poder, divisão ou não desta e/ou daquela área de influência, peça teatral ou balé ironizando finamente o infindável blá blá blá das altas instâncias, de nome A Mesa Verde ou, em alemão, Der Grüne Tisch (Kurt Jooss, 1901-79). Nada como terminar essa pequena escala rumo aos sabores, sob os auspícios da canção do Dorival Caymmi:  ”Quem quiser vatapá, ô, que procure fazer…”

Texto e foto: Darlan M Cunha

BELO HORIZONTE DE CANÇÕES

O AR EM SEU ESTADO NATURAL
(Textos sobre letras do Clube da Esquina)

Aqui está o meu mais novo livro – um misto de pequenas crônicas, vou assim chamá-las, entremeadas com poemas. As pessoas já familiarizadas, ou não, com as emoções do Clube da Esquina, com suas canções, as entrevistas, as fotos, os casos engraçados, terão aqui um pouco de petiscos para saborear, petiscos com os quais assentarem-se à mesa, eu espero. Nada de entrevistas, de fotos. Escrevi o livro com a leveza necessária, com a leveza de quem percebe que a amizade é gênero de primeira necessidade, devendo estar na mesa de todos, algo de cesta básica, e este sentimento está presente em toda a obra do referido clube, de modo explícito ou subreptício, ou seja, é como está no livro: o que está sendo apreciado no livro é “o conceito de amizade”, e não própriamente a repetição dessa palavra, do termo, do substantivo amizade nas letras do Clube, e não só nas letras, porque é notória a amizade continuada até hoje, após virem filhos e filhas, viagens, carreiras em separado, etc, é notório este exemplo, tendo como paralelo de longa e produtiva amizade o MPB-4 e Os Cariocas. O conceito é o que vale, e é disso que este  livro trata, sem pretender nem mesmo de longe esgotar o assunto. Amigo é coisa pra se guardar debaixo de ene chaves. Te amo, espanhola.

A idéia surgiu de repente, embora o meu Inconsciente estivesse fustigando-me havia tempos acerca desse tema. Morei vinte e nove anos na Floresta, na região que eu sempre chamei de os bairros irmãos: Floresta/ Santa Teresa/ Horto/ Sagrada Família e, mais distante, dois outros bairros irmãos: Lagoinha e Cachoeirinha, região reduto de músicos e artistas plásticos, região que é casa do excepcional grupo de bonecos Giramundo, criado e desenvolvido pelo professor Álvaro Apocalypse e sua esposa Teresinha Veloso. Ora, tempos depois, por ali surgiu o hoje também internacional Grupo Sepultura. Para completar, sem esgotar o assunto, a excelente rapaziada do também internacional Skank, moçada que não se cansa modestamente de dizer que beberam e comeram na fonte musical do Clube da Esquina. Água de beber, bica no quintal, sede de viver tudo.

E assim iniciei o livro, o qual ficou pronto em poucos dias, mantendo o cuidado extremo de fazer com que ele não resvalasse para o pieguismo, para agrados a conhecidos, amigos, ex vizinhos; tive o cuidado de dosá-lo de tal forma a que uma pessoa de outro estado, de outro país, de outra latitude e longitude possa lê-lo, sem que a essa pessoa seja necessário procurar dicas em mapa, dicionário ou enciclopédia. Tenho inexcedível apreço pela minha literatura, e não posso sujá-la de forma alguma, até porque intrínseco a ela, dentro dela estão o meu saber e a minha honradez. Bom, acho melhor ir à macarronada do Bar do Bolão, em Santa Teresa, isso porque amigo é coisa pra se guardar. Da janela lateral do quarto de dormir. Não se espante assim meu moço com a noite do meu sertão.

Os textos surgiram sem maiores esforços, sim, eis que os títulos surgiam e diziam: eu sou o título, e estamos conversados. Fazer o quê ? Muitos deles fazem alusões diretas ou explícitas a títulos de canções, bem como no seio de todos os textos há um ou dois ou mais pequenos trechos ou frases de alguma canção, sem que isto configure cópia, ou plágio. Completamente fora de questão. Porque vocês não sabem do lixo ocidental.

Sim, escrever este livro foi como bebericar uma cachaça com torresminhos, comer ora pro nobis com angu, algo assim de frango ao molho pardo, isto se o pão de queijo deixar espaço na já volumosa pança dos glutões e glutonas. Mas quem, em sã ou sob má consciência, ou até mesmo inconsciente ou dormindo, resiste a tais delícias ? Lembro-lhes aqui a senha dos Inconfidentes, todos já se preparando em surdina para o grande dia da Derrama, com aquela que, hoje, é frase famosa: Tal dia é o batizado. É, mas eles bem que poderiam ter escolhido também esta simpática senha: O pão de queijo está no forno.

Pelo que sei, ainda não se escrevera algo assim acerca deste clube, não obstante textos de primeiro time tenham sido publicados sobre o mesmo. Recomendo, por exemplo, o excelente livro da Andréa Estanilau, Coração Americano – 35 anos do álbum Clube da Esquina, assim como recomendo a leitura (como não, uai ?) do livro que é, sem dúvida, um verdadeiro memorial acerca do assunto, escrito de dentro, do âmago: Os Sonhos Não Envelhecem, do Márcio Borges, e também o belo livro Palavras Musicais, do Paulo Vilara, entre outras publicações merecedoras de respeito. Clareia, manhã. Olha, eu não faço fé nessa minha loucura.

Sim, de tudo se faz canção e caução, e o meu pão de queijo saiu do forno.

DARLAN M CUNHA

(Textos sobre letras do Clube da Esquina)

EM 1512

Falas antigas

Falas antigas

Miguel Ângelo Buonarroti deu sua última pincelada na Capela Sistina. Desceu de lá, nem triste nem alegre, esticou pernas e braços, foi para uma taberna onde bebeu vinho e comeu uma lasca de cordeiro, e foi para a mulher que o esperava. Para ele (e para mim) a mulher era o portal musical, pintura, pó reativo, única escultura reagente, reacionária, carbonária.

Miguel morreu no ano 1519, insatisfeito com seus trabalhos – como é de praxe nos grandes artistas (poucos) e nos grandes escritores (poucos, dentre os quais estou), mas algo apaziguado pelas lâminas da calma e da calamidade, do amor e do desamor das mulheres.

UM DESASTRE APÓS OUTRO

ONE DISASTER AFTER ANOTHER

Antes que novas sombras apareçam, a dança dos reptos sobre o piso instável das águas aviva-se já em cada canto, toda esquina. A gente quer e precisa descansar de algo, de tudo, mas não consegue porque há muitos membros a nos chamar, reflexões a datar-nos e a indatar-nos, meandros solícitos e barulhos mais e/ou menos poéticos. Há, sim, muita sobra no entorno, linha sempre pouca para o que o condutor do trem deseja.

Há um furo na rocha dos namorados e uma montanha saindo do mar neste instante há o consumo doentio de minúcias inúteis (estás sob e entre elas), e assim parece que só resta esquentar a comida e comer, ou, nas palavras da cantora, “descansar sem descanso” ou, como diz o refrão popular, “enquanto descansa, carrega pedras.”

Parece-me cansado o Mundo, um rarefeito ar o condena a estertores crescentes.

*****

Imagem: do trailer disponibilizado na Internet, do filme BLINDNESS, de Fernando Meireles, baseado no livro Ensaio Sobre A Cegueira, de José Saramago. AQUI.

PROFECIA

A Profecia de Mapuã
A PROFECIA DE MAPUÃ

Já ouviram falar em amor de mãe, sentiram-no muitas vezes (embora nem todo mundo nos possa dizer o mesmo), e assim, tendo em vista a natureza de tal gesto, decerto retribuíram-no alguma vez. Pois bem. Recebi um livro escrito por alguém que conheço, mas que não suspeitava tivesse algo escrito – menos ainda publicado, e não porque não tenha capacidade, não, não se trata disso. E assim é que o livro de uma pessoa aqui do bairro veio às minhas mãos.

É que em todo convívio – seja ele maior ou menor, mais ou menos íntimo, com o aspecto de uma amizade formal, ou não – sucede que muitas vezes passa-se em branco pelas qualidades das pessoas, pelo fato de serem mais reservadas, ou pelo fato de que nós simplesmente não lhes damos um jeito de abrirem para nós certas qualidades delas (lembro-me de O Homem Sem Qualidades, do austríaco Robert Musil, um dos grandes romances do século vinte – mesmo inacabado).

O livro em questão trata de aventura, viagem, amizade, um pequeno livro (62 p) escrito já com a inevitável chama de quem logo escava mais fundo dentro de si, pessoa levada a isso também pelo seu meio imediatamente circundante.

Querem beleza ? espanto ? Escrito aos 12 anos (a mãe vendeu uma vaca para financiar a publicação), repito: a mãe vendeu uma vaca, em 1992, para que se publicasse o livro com desenhos e texto de sua filha – hoje, psicóloga. Lendo-o atentamente, pode-se perceber com certa facilidade os pontos básicos de uma personalidade voltada para a busca, pelo que há de inquieto nas pessoas, de sombra e luz nelas (de certa forma, em si). Uma surpresa com qualidade é este livro de Giovana Fagundes Dos Santos.

No início, disse-lhes que todos já ouviram falar em amor de mãe, e agora lhes falo acerca do imã da literatura. Ao livro, pois.

 

“Pela última vez Gina olhou para trás, e ficou intrigada com o que viu: letras feitas com fumaça cortavam o céu com uma única palavra: “medo”. Gina queria contar o que vira, mas não tinha palavras; perdera a voz e a coragem naquele momento.” (p. 16)

“Uma hora se passara e nada. Nem um lugar conhecido; nem uma rocha familiar. O relógio apontava onze horas da noite, e o pânico ia tomando conta de cada um [...]” (p. 25)

“Completamente em pânico, Carlos jogou fora o bilhete e caminhou, sem hesitar, pelo corredor que vira logo à frente. Seguiu por ele e parou, impressionado: uma parede inteira recoberta por diamantes e pedras preciosas de todos os tipos e tamanhos. Um grande defeito de Carlos era a sua ambição por riquezas inúmeras que lhe pudessem ser úteis, enfeitá-lo e servir de alimento à sua vaidade.” (p. 35)
*****

Darlan M Cunha
*: Sobre o livro O Homem Sem Qualidades: http://biblioteca.folha.com.br/1/27/2001052001.html