JUNHO O sexto mês entra na estrada do ano, descendo do sono para pôr a sua mesa o sexto mês do ano, e no meio dessa rede haverá peixes ou pássaros a serem capturados na forma de correspondências sob a porta, o costume das festas juninas, alguém pedirá alguém em sacramento, alguém pedirá divórcio, e alguém viajará para nunca mais; já é junho, as costas de maio ainda estão quentes sobre as pessoas, mas já se afasta, como é natural, junho já caminha real, mesmo de madrugada houve quem o recebeu de pé, o interior do país dorme, é dia noutra latitude noutras longitudes o pavor e o amor qualificam e desqualificam os seres, sim, junho veio para ficar durante trinta dias – a vida útil dessa planta da qual é natural esperar colher todos os dias o néctar revigorado. É junho, flores estalam, e o primeiro café do mês já está gritando. Darlan M Cunha
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maio
MAIO
É maio, o solo e as paredes da cidade fumegam com a sua entressafra de medo e de sementes de alegria permeando-lhe os primeiros passos, assim como aconteceu com abril e com todos os outros meses e anos, séculos e milênios; maio veio para trinta e um dias contigo e comigo, mas muitos não chegarão ao mês vindouro, isso porque é mesmo da vida dar lugar à sua antítese, então, vamos a ele, vamos fazer história, ao mercado, ampliar o leque de compras e trocas e vendas, assimilar novas perspectivas e dar peso ou mais leveza ao acervo geral; eis ali uma criança, és tu novamente; eis ali um ancião com o teu rosto de depois de amanhã; vamos a eles e elas, e que o tédio não nos sirva para muita coisa, embora também ele tenha lá os seus encantos, como diz uma canção chinesa (tudo lá tem mil anos e mais), portanto, ponha-se pé e mãos na estrada, melhor que se ponha tino na estrada de areias de ouro que o mês de maio espera de nós e de quem não sabemos nada de sua existência… maio de seletas. Texto e foto: Darlan M CunhaWislawa e o comprimido
NA CALMA DAS MÃOS

- Wisława Szymborska (b. July 2, 1923 in Bnin, Poland), Polish poet, and Nobel Prize winner. She lives in Cracow, Poland (Photo credit: Wikipedia)
- OBSERVAÇÃO: Escrevi este poema aí acima, após ler este poema (abaixo) da W. Szymborska.
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FOLHETO
Sou o comprimido calmante.
Actuo em casa,
sou eficaz na repartição,
sento-me no exame,
apresento-me em tribunal,
colo minuciosamente a louça partida.
Basta que me tomes,
que me ponhas debaixo da língua,
que me engulas
com um copo de água.Sei o que fazer na desgraça,
como aguentar a má notícia,
diminuir a injustiça,
desanuviar a falta de Deus,
escolher o chapéu de luto a condizer.
Por que esperas?
Confia na piedade química.poema de Wislawa Szymborska
Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves.
Batiá – no bar dele (Honório Bicalho // Nova Lima – MG, Brasil)
síndrome de fevereiro
Foto e poema: Darlan M Cunha
Obrigado // Thanks for your visit – 2011
O ANO TODO SEJA DOMINICAL
(OUTRO DIA NA VIDA DE IVAN DENISOVITCH)
outro dia legal de pé na estrada, chove
chove no mundo, e em muitos horizontes
há lágrimas, em muitas casas os cupins
reviram a fórmica, e os móveis estalam
pelo uso e abuso, alguém tira o boné
e alguém mata alguém, alguém se lembra
de acarinhar alguém, casais há
aborrecidos pela demora de entrega
das chaves; querendo baixar a ansiedade,
médicos aconselham deixem o pigarro
as estrelas graúdas ou anônimas
do cinema diário das ruas
que é o lugar onde as pessoas
mais entram e saem de si. escuta:
preguiça e macarronada são sinônimos
de domingo, chove em todo o horizonte
e só então eles reparam que estão com fome,
com fome de algo mais do que simples
ritual, do que o simples amor, e vão de novo
para as ruas, algo novo os chama, ano
bom ou mau, aí vão ambos, também os solitários
vão em busca de algo novo no ano novo
DARLAN M CUNHA
Obrigado a todas e todos que aqui vieram em 2011
Thanks to all the people who supported me
Das inúmeras fobias que roem o cotidiano
A gente, não raro, pode se ver sob por perguntas assim: Qual o nome do seu parente preferido ? Como se chama a rua na qual você cresceu ? Você se machucou de modo sério quando garoto ? Ia muito à casa das avós, comer do bom e do melhor, mesmo quando adulto ? Pois bem, perguntas assim vieram sobre mim, hoje, de lá de dentro de mim, e fiquei sem responder nada do que me propuseram, quase nada, isso porque há muitos fatos na minha infância, na cidade de Joaíma, onde morei até os oito ou nove anos anos, os quais continuam obscuras, levemente tingidas com algumas sensações; mas eu me lembro de como gostava de descer pela rua na qual morávamos – Rua Direita –, e continuava descendo por uma rua muito larga, em direção à grande ponte de madeira da cidade, para carros e gente, mas que as pessoas forçavam até mulas e cavalos a passarem por ela; quando a gente olhava para baixo, via a boca líquida da morte, por isso eu evitava olhar para baixo, porque a zonzura viria, a partir do topo daquela ponte sobre o Rio Jequitinhonha, um rio largo da cor de terra, na maior parte do tempo. Eu sempre temi a água, grandes águas; no entanto, ao mesmo tempo, aquilo me fascina, atraindo-me de maneira forte, mas de sensação nada boa. Com inúmeras pessoas, o mesmo acontece diante de alturas, pois elas têm hipsofobia ou acrofobia – palavras de origem grega, que significam aversão a lugares altos. Pessoas há que sofrem de agorafobia, também comum, assim como acontece com a fobia anterior; agorafobia é a aversão a grandes lugares públicos, lugares abertos, com multidões.
Há quem goste é de sossego, de introspecção, muito silêncio – justo o que o brasileiro desconhece, porque a sua incrível deseducação não o deixa perceber os ecos da sua atitude, e assim é que vai buzinando a toda hora, mesmo de madrugada, rádios e tevês na altura de muitíssimos decibéis, e o mesmo se dá quando dentro de um carro, com um som no mínimo de uns 70 decibéis, não, as pessoas aqui não gostam de jeito nenhum de silêncio, novatas no mundo, o barulho incomodativo é necessário, precisam dizer que existem, de uma forma ou de outra, elegante ou não, dentro ou fora da lei.
Foto e texto: Darlan M Cunha






