junho

operárias

operárias

 

JUNHO
 
 
O sexto mês entra na estrada
do ano, descendo do sono para pôr
a sua mesa o sexto mês do ano,
e no meio dessa rede haverá peixes
ou pássaros a serem capturados
na forma de correspondências
sob a porta, o costume das festas
juninas, alguém pedirá alguém
em sacramento, alguém pedirá
divórcio, e alguém viajará para
nunca mais; já é junho, as costas
de maio ainda estão quentes sobre
as pessoas, mas já se afasta, como
é natural, junho já caminha real,
mesmo de madrugada houve quem
o recebeu de pé, o interior do país
dorme, é dia noutra latitude
noutras longitudes o pavor e o amor
qualificam e desqualificam os seres,
sim, junho veio para ficar durante
trinta dias – a vida útil dessa planta
da qual é natural esperar colher
todos os dias o néctar revigorado.
É junho, flores estalam, e o primeiro
café do mês já está gritando.
 
Darlan M Cunha

maio

MAIO

 
É maio, o solo e as paredes da cidade
fumegam com a sua entressafra
de medo e de sementes de alegria
permeando-lhe os primeiros passos,
assim como aconteceu com abril
e com todos os outros meses
e anos, séculos e milênios; maio
veio para trinta e um dias contigo
e comigo, mas muitos não chegarão
ao mês vindouro, isso porque
é mesmo da vida dar lugar à sua
antítese, então, vamos a ele, vamos
fazer história, ao mercado, ampliar
o leque de compras e trocas e vendas,
assimilar novas perspectivas
e dar peso ou mais leveza ao acervo
geral; eis ali uma criança, és tu
novamente; eis ali um ancião
com o teu rosto de depois de amanhã;
vamos a eles e elas, e que o tédio
não nos sirva para muita coisa,
embora também ele tenha lá os seus
encantos, como diz uma canção
chinesa (tudo lá tem mil anos e mais),
portanto, ponha-se pé e mãos na estrada,
melhor que se ponha tino na estrada
de areias de ouro que o mês de maio
espera de nós e de quem não sabemos
nada de sua existência… maio de seletas.
 
 
Texto e foto: Darlan M Cunha

Wislawa e o comprimido

cérebro // brain

NA CALMA DAS MÃOS

Comprimido, Wislawa, sou um acalmado
por via de meios legais e ilegais,
mais estes do que aqueles, sim, eles
me mantêm sob contrato, afeito
ao que de natural não sou, não tendo
memória que me arrase, nada conspurca
o meu viver, muito menos o fato de que
mesmo estando comprimido, acalmado
com os cotovelos num balcão de onde
só misérias se avista, rio-me assim mesmo,
que a demência geral faz de um bom homem
um ex bom homem, o faz rir e até gargalhar
e gargalhar até morrer, cara Wislawa.
 
 
Poema: Darlan M Cunha

Wisława Szymborska (b. July 2, 1923 in Bnin, P...
Wisława Szymborska (b. July 2, 1923 in Bnin, Poland), Polish poet, and Nobel Prize winner. She lives in Cracow, Poland (Photo credit: Wikipedia)
OBSERVAÇÃO: Escrevi este poema aí acima, após ler este poema (abaixo) da W. Szymborska.
FOLHETO


Sou o comprimido calmante.
Actuo em casa,
sou eficaz na repartição,
sento-me no exame,
apresento-me em tribunal,
colo minuciosamente a louça partida.
Basta que me tomes,
que me ponhas debaixo da língua,
que me engulas
com um copo de água.
Sei o que fazer na desgraça,
como aguentar a má notícia,
diminuir a injustiça,
desanuviar a falta de Deus,
escolher o chapéu de luto a condizer.
Por que esperas?
Confia na piedade química.

Batiá – no bar dele (Honório Bicalho // Nova Lima – MG, Brasil)

Batiá

Batiá

A ESCALADA
 
 
vai num crescendo constante
até parar definitivamente,
até cair com a boca no breu,
pós fraturar pernas e costelas
a vida
vai numa diminuição crescente
(“aproveite o momento”, disse
o filósofo romano Horácio)
(“conhece-te a ti mesmo”, disse
o filósofo grego Sócrates)
(“a vida é minuto”, disse
o arquiteto Niemeyer), ora,
e eu aqui vendo os destrossos
feitos pelas águas rio abaixo
com troncos de encontros e desencontros,
folhas caídas pelas esquinas
do tempo de cada um que vi
e não vi, que senti e não senti, sim,
“viver é muito perigoso”, disse
uma certa rosa do sertão
 
 
FOTO E POEMA: DARLAN M CUNHA


síndrome de fevereiro

caverna do forró - Lagoa Santa, MG

caverna do forró - Lagoa Santa, MG

 
SINDROME DE FEVEREIRO
 
 
os pés inquietos de fevereiro reviram-se
na lama que os cobre, que é tempo
é tempo de chuva, do que restou dela
em dezembro e janeiro, a cólica feroz
das nuvens nos pés de fevereiro, eis
o assunto do dia nos jornais, mas
outros assuntos logo serão a bola
da vez, porque já é de novo fevereiro,
e só algumas pessoas dão por exato
conta disso: que os cabelos já não são
os mesmos do fevereiro passado,
mais calmos estando talvez
os dedos das mãos, menos motivos
talvez para sorrir tendo as criaturas
da noite e do dia, insones e dorminhocos,
todos tendo nos ombros os fevereiros
que fizeram por merecer, a canção diz:
“não viemos por teu pranto”, então, resta ir
aos vinte e nove dias deste mês (que há
os de vinte e oito), e abrir-lhe o leque,
porque fevereiro é a época dos pés
soltarem de um jeito único a sua mania,
sua ânsia anual por folia, que os pés,
em fevereiro, são reis melódicos: adeus,
bigodes da seriedade; adeus, sutiãs
e outras barbaridades de todas as ©idades!

Foto e poema: Darlan M Cunha

Obrigado // Thanks for your visit – 2011

ir

ir

O ANO TODO SEJA DOMINICAL
(OUTRO DIA NA VIDA DE IVAN DENISOVITCH)

outro dia legal de pé na estrada, chove
chove no mundo, e em muitos horizontes
há lágrimas, em muitas casas os cupins
reviram a fórmica, e os móveis estalam
pelo uso e abuso, alguém tira o boné
e alguém mata alguém, alguém se lembra
de acarinhar alguém, casais há
aborrecidos pela demora de entrega
das chaves; querendo baixar a ansiedade,
médicos aconselham deixem o pigarro
as estrelas graúdas ou anônimas
do cinema diário das ruas
que é o lugar onde as pessoas
mais entram e saem de si. escuta:
preguiça e macarronada são sinônimos
de domingo, chove em todo o horizonte
e só então eles reparam que estão com fome,
com fome de algo mais do que simples
ritual, do que o simples amor, e vão de novo
para as ruas, algo novo os chama, ano
bom ou mau, aí vão ambos, também os solitários
vão em busca de algo novo no ano novo

DARLAN M CUNHA
Obrigado a todas e todos que aqui vieram em 2011
Thanks to all the people who supported me

Das inúmeras fobias que roem o cotidiano

Um lar do Brasil

       A gente, não raro, pode se ver sob por perguntas assim: Qual o nome do seu parente preferido ? Como se chama a rua na qual você cresceu ? Você se machucou de modo sério quando garoto ? Ia muito à casa das avós, comer do bom e do melhor, mesmo quando adulto ? Pois bem, perguntas assim vieram sobre mim, hoje, de lá de dentro de mim, e fiquei sem responder nada do que me propuseram, quase nada, isso porque há muitos fatos na minha infância, na cidade de Joaíma, onde morei até os oito ou nove anos anos, os quais continuam obscuras, levemente tingidas com algumas sensações; mas eu me lembro de como gostava de descer pela rua na qual morávamos – Rua Direita –, e continuava descendo por uma rua muito larga, em direção à grande ponte de madeira da cidade, para carros e gente, mas que as pessoas forçavam até mulas e cavalos a passarem por ela; quando a gente olhava para baixo, via a boca líquida da morte, por isso eu evitava olhar para baixo, porque a zonzura viria, a partir do topo daquela ponte sobre o Rio Jequitinhonha, um rio largo da cor de terra, na maior parte do tempo. Eu sempre temi a água, grandes águas; no entanto, ao mesmo tempo, aquilo me fascina, atraindo-me de maneira forte, mas de sensação nada boa. Com inúmeras pessoas, o mesmo acontece diante de alturas, pois elas têm hipsofobia ou acrofobia – palavras de origem grega, que significam aversão a lugares altos. Pessoas há que sofrem de agorafobia, também comum, assim como acontece com a fobia anterior; agorafobia é a aversão a grandes lugares públicos, lugares abertos, com multidões.

       Há quem goste é de sossego, de introspecção, muito silêncio – justo o que o brasileiro desconhece, porque a sua incrível deseducação não o deixa perceber os ecos da sua atitude, e assim é que vai buzinando a toda hora, mesmo de madrugada, rádios e tevês na altura de muitíssimos decibéis, e o mesmo se dá quando dentro de um carro, com um som no mínimo de uns 70 decibéis, não, as pessoas aqui não gostam de jeito nenhum de silêncio, novatas no mundo, o barulho incomodativo é necessário, precisam dizer que existem, de uma forma ou de outra, elegante ou não, dentro ou fora da lei.

Foto e texto: Darlan M Cunha