Prove you’re not a robot

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     Eu estava relendo o livro Um Inimigo do Povo, do norueguês Henrik Ibsen, escrito em 1882, quando o telefone tocou, mas nenhuma voz, nada, só mesmo algo de algum fdp me incomodando de novo. Voltei às páginas, mas logo parei para escrever um texto próprio sobre o qual eu pensara enquanto coava café, no fim da madrugada, e aí eu comecei a rir de tanta confusão, de tanto medo de invasão que a internet dá. E então lembrei-me da frase do título desta postagem. Quando o pc me diz para provar que não sou um robô, eu digo com muito orgulho que sou um robô cuja placa pregada na bunda e no peito tem os seguintes caracteres: #MuLa SeM CaBeÇa >>>%<<<740195D

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Foto e crônica: Darlan M Cunha

Saldo do dia: cefaleia, dívidas, despejo, o dono do bar olhando de soslaio…

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,.. mas Deus ajuda quem madruga

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Estou pensando sériamente em mudar de postura,

sair desta vida dura, parar de viver no pindura,

nada de delícias e gostosuras várias, dárias, não

porque já estou de fato resolvido que doravante

serei mau amante, mercador de glostora, de jurubeba e do

horrível perfume lancaster, que tonteia gatas e gatos, sim

prometo ser uma nova criatura com outra postura

perante o mundo mau, cara de pau, embora eu não

me chame raimundo e nem segismundo, e acho até

que já nem tenho nome, sou o que todo mundo é:

apenas número na carceragem, no inss, no exército,

no banco, nos dedos do taxista (são R$52,00, cavalheiro, e pague por inteiro),

sim, prometo-me que um dia serei rei, bei, marajá

e com a bela e sábia Xerazade irei me deitar.

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Foto e poema: Darlan M Cunha

Algum dom doce

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Felicidades, Dona MARIA, pelos 85

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Dizem que o mundo tanto é quadrado quanto redondo, e que há tantas disparidades, egoísmos, cegueiras, mãos estendidas para dentro dos próprios bolsos, que ele até se torna risível, e que está cada vez mais afastando as pessoas de si mesmas, e das outras.

Pois bem, neste quadro caótico, filho da Pressa, ainda há quem seja capaz de ignorar todas estas mazelas, todos estes choques psíquicos, choques anafiláticos, ml e um atropelos, e fazer a alegria de um sem-número de criaturas.

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Foto: Cris / Flaví

Texto: Darlan M Cunha

enteus & ateus – 2

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Fluxos orientais, gerais (desde quando aprendemos a domesticar ?)

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     Meu nome é Kaldi, sou homem modesto, que a nada mais aspira do que ver meu rebanho bem sadio, e a bem servir ao senhor, melhor digo, senhora – a água, tão escassa neste areal imenso. Água é lei severa, é trunfo, butim de guerra.

     Meu nome é Kaldi, e já faz um bom tempo, mais de mil anos, que o mundo diz que fui o primeiro a me espantar, no século nove D.C., com a vivacidade do meu rebanho de cabras, aqui na Abissínia, que hoje se chama Etiópia, ao perceber seu gosto por uma planta de nome café, cujo origem está na localidade de Kaffa – mas o nome café foi espalhado pelos da Arábia (Coffee arabica), e vem do nome árabe para o vinho: kahwa.

     Bons goles, ó filhos e filhas dos computadores. Vocês foram mais longe, ao aprender a domesticar, selvagizar, escravizar homens. Pensando bem, isto é antigo, muito antigo, é de antes do meu tempo, de todos os tempos – genético. Mas, se mudarem este GENE, o da posse, tudo estará acabado, fadado ao mesmismo. Será ? Tudo é antigo, apenas ‘reciclado e renomeado’, de modo que os bites sempre estiveram por aí, zanzando.

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Texto: Darlan M Cunha

Foto: MJMC  //  Nancy

ateus & enteus – 1

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giro: Jordânia, Israel, Emirados Árabes Unidos

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     Quando jovem, tosquiava rebanhos inteiros, a disposição não elegendo bandeira, longe das aflitivas aceitações com as consequentes deformações da própria vontade, da mente e da carne, da visão do mundo. Quando jovem, fez ouvidos moucos à ditadura da fé, pisando no rabo da cobra cristã, no urubu muçulmano, no corvo judaico, na quinquilharia budista, no insosso do xintoísmo, na ilusão janista, na aridez da mais-valia, e assim por diante, enquanto jovem, praticava, sem ter ideia disso, com os fungos do amanhã. Adulto, montou um mosaico com os mesmos parâmetros de atuação, todos trazidos para os dias de hoje, quando suas cãs refletem a mesma luz de quando começara a tosquiar enganos vendidos a granel e no varejo. Ainda hoje, não troca uma moeda por nenhum deus – sequer deus grego, bichos do olimpo.

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Texto: Darlan M Cunha

Foto: MJMC // Nancy

Domingo pede cachimbo ?

Pés calejados, Nova Canaã, BA, 1998.

by EVANDRO TEIXEIRA (Brasil)

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     O que mais se pode dizer que representa de modo mais claro o que entendemos como o lado mau do mundo ? Deve-se levar em consideração os altos e baixos passados pelo céu da boca, como os verbos fingir e atingir, o adjetivo feioso, todas as aféreses e as apócopes implícitas no substantivo Tempo, sempre te encurtando, o pântano social analisado sobre a mesa com gráficos não raro indecentes (der Grüne Tisch) ? Quando clicas, és desviado, manejado, inserido sutilmente noutro contexto de compra e venda, sim, quando clicas, és fichado ou fixado e perseguido por uma polícia muito especial – só tua. Compreenda.

     Os pés doem mais do que se pode suportar, é preciso ir, porque ir é o melhor remédio, a (r)evolução depende de outras realidades. Já agora mesmo veio-me o que diz uma música: é um estrepe, é um prego, ou o que diz um poema: que se morre de velhice antes dos trinta, ou o que nos diz a escritora: sem o outro não temos como ser egoístas.

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Texto: Darlan M Cunha

Trechos extraídos de Tom Jobim, João Cabral de Melo Neto, Viviane de Santana Paulo

aparências

LIYUAN Library - China

A moderna biblioteca da aldeia de Liyuan, CHINA

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     Dizem que quem fala sozinho está abraçado por doença, e que o que sai deste conversar consigo mesmo, deste monólogo, é alguma reclamação contra algo ou alguém, frustração transferida, a parte final do funil.

     Às vezes, acho que sou do tempo em que se roubava as botas dos soldados moribundos ou mortos, tempo de, até mesmo quando adultos e casados, de se pedir a benção à mãe, de se escovar os dentes com o dedo indicador, de amarrar guizos no rabo de cães e gatos (nos gatos era temerrário fazê-lo, pois os danados são ferozes, felinos), tempo de mãos dadas pelo caminho, de se encantar com os pirilampos, e tentar pegar uma daquelas lanternas.

     Hoje é sexta ? Dia de feira, de eira sem beira, de nascer e morrer, de passar no concurso, de ler ao mesmo tempo dois livros – um livro com cada olho; dia de ouvir aquela música, de se lembrar dos amigos e amigas que se foram, nada demais, tudo igual, mas o domingo pedirá cachimbo, e massa.

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foto e texto: Darlan M Cunha

Biblioteca de LIYUAN – CHINA: http://www.notesontheroad.com/Li-Xiaodong-Atelier-Liyuan-Library.html

reparos

apetrechos do funcionário (2)

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     Crianças e adolescentes entendem o perigo de forma prática, diferente: ou não existe, ou está longe. Avarias e desgastes acontecem ao longo do tempo, pelo que é preciso dar jeito de reverter o quadro, ainda que pela metade, paliativos, mas reparos exigem decisão.

     Por falar em desgaste, ouvi a música dizer você diz que me dá casa e comida, boa vida, e dinheiro pra gastar,* e fiquei pensando se, por ter passado por isso, mais de uma vez, portei-me como um gigolô de subúrbio, e se me devo execrar por tal atitude repetida, da qual me livrei, se devo me esforçar no sentido de reconquistar os favores de um sono honesto, longo, sem diabinhos aperreando. De reparo em reparo, vai-se o dia.

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foto e texto: Darlan M Cunha

*: Laranja madura. Ataulfo Alves

mães avós bisavós trisavós – 3

espinhos de sobra ... rosa e cacto

rosa e cacto: espinhos

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     A minha avó materna teve nove filhos e filhas, minha mãe é a primogênita, que teve a tristeza de perdê-la em decorrência de parto do qual nasceu meu tio Nem – morto aos 33 anos, na Amazônia.

     Fico pensando sobre os dias que antecederam ao meu nascimento, indagando sobre que pensamentos teriam ressurgido na mente da minha mãe. Será que ela se lembrou do que ocorrera com a própria mãe Isaura, e teria se inquietado, compreensívelmente, às vésperas do seu primeiro parto (outros nove viriam, numa sequência assustadora, sequência que as mulheres, hoje, rejeitam, pela elasticidade nas relações, facilidade de consultas médicas, pelo horizonte dos anticoncepcionais, etc.

     Aqui estou, pensando (pensar cansa, estabiliza, ou não), e chupando caqui, ciente de que o mundo é das perguntas, inventa e reinventa encruzilhadas. Tudo é livro, mas deve ser escrito e, mais, entendido, segundo diz o vigário.

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foto e texto: Darlan M Cunha

mães, avós, bisavós, trisavós – 2

boneca 2

arte: Maria José M Cunha (84 anos)

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     Nasci de madrugada, mas não foi isso o que me fez insone, que me faz ir de madrugada à mesa sempre posta, à geladeira, a um livro, à janela ou ao banheiro, embora não tenha certeza da razão exata deste jeito de ser, de trocar o dia pela noite. Pensando melhor, não sou nada disso, só metade disso, ou, como diz o título do documentário sobre o poeta Manoel de Barros, dirigido por Pedro Cezar – Só dez por cento é mentira – o resto é invenção.

     Nasci no breu, candeeiros, fale baixo, alegria e apreensão iguais em todo parto normal, pinga e café na sala e na cozinha lotada pela vizinhança, otimismo, o desafio da parteira, o suor da mãe, pai nervoso, o nanico chorando, indo direto para a primeira refeição da vida: o colostro.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha