o peso do nada, a leveza de muitos

barra do rio Jacuípe. Camaçari, BA - 2

Barra do rio Jacuípe, em Camaçari. Bahia, BRASIL. (Sempre grato à Tânia, Sandra e Ovídio, que me levaram para conhecer).

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     O olhar fixo na água, o mar também vive sozinho, uno, não tem sósia, é órfão, parece queixar-se quando sai de si e se alonga sobre aldeias, seus gritos ele não os dissimula, podem ser ouvidos nos sonhos. O mar é um saber, uma escultura todo ouvidos, avisa e não avisa, dependente de outros personagens – ventos e maremotos –, muita surpresa pode haver entre a baixamar e a preamar, vaivém infinito jogando com as lembranças de quem percebe o mar e para além-lá do mar.

     Há quem só se dê com o evasivo, seus ímãs são o bar, as nuvens, palavras e mutismos, sendo que ao lado um homem suspira, uma mulher convoca, a vida conspira.

    Eis o Amazonas – rio-mar com mil e cem afluentes, poderio sem medidas, ele te dá em que pensar. Pensar, para muitos, é impensável, confunde, dói.

     Eis o fio metade água e metade seca, metade presença e metade ausência flutuando dentro de mim e de ti, um fio metade breu e metade luz indo conosco.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

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uma escultura toda ouvidos:

mexilhão

Lembra carapaça de mexilhão, chapéu oriental, satélite, pião… (infelizmente, ainda não sei o nome do autor ou da autora desta bela obra).

Pampulha, BH, MG, Brasil

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@1

     Qual deve ser a sensação de se ter dois nomes, pois um deles não é autêntico, não é reconhecido em documentos oficiais, incapaz de segunda via deste e daquele, incapaz de fazer valer autenticações em cartórios, delegacias e bancos (por exemplo, alguém que queira tornar-se procurador legal de outra pessoa, manejando o extrato, etc) ?

     O que é ter nome de batismo e, por exemplo, ter por toda a vida um nome artístico, ou carregar nome e sobrenome surgidos sem que se pensasse em futuro para eles, coisa de brincadeira de botequim, uma alcunha arranjada para o carnaval, ou coisa que o valha ?

     Deita-se e levanta-se com qual deles ? Há trocas neste deitar-se e levantar-se ? Essa pergunta psicológicamente sofisticada e ao mesmo tempo satírica procede (penso que vai fundo no humano demasiado humano; na catarse, no desgastado ser ou não ser).

     A partir da boca do Outro, qual será o teu, o meu próximo nome e sobrenome ? No livro Todos os Nomes, José Saramago escreveu algo sobre os caminhos ou descaminhos nos quais os nomes costumam estagnar. Os nomes, como se vê, acham muitas pedras pelo caminho.

@2

     Numa entrevista, Jorge Amado, de dentro de sua calma inconfundível, de sua visão larga da vida, disse algo assim como que o Brasil, mais do que uma convivência de raças, é uma fusão de raças, esta é a essência de sua mestiçagem, e eu entendi que seja algo assim como fazer, juntos, a aldeia, e não apenas morar na mesma aldeia, embrenhando-se de fato uns nos outros. Isso me levou ao dramaturgo Dias Gomes, quando disse que o Brasil é um país que desmoraliza o absurdo.

@3

     São cinco da manhã, acabei de consultar uma folhinha ou folhetim especializado na questão, e notei, com pasmo, que o dia de hoje – 1 de agosto – não é dedicado a ninguém, a nenhuma profissão, a nada. Enfim, um dia de todos.

A mó do tempo

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     José Antônio Rimes e Antônio Carlos Rosa de Oliveira – Tonho e Cacau, em 1972 e em 2012, redescobertos pelo jornal Estado de Minas

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     Todos temos algum sestro, hábitos antigos ou recentes vindos de não se sabe de onde, alguns podendo ser prenúncio ou anúncio de algum distúrbio comportamental, de alguma patologia.

      Meu irmão Heber tinha o hábito de dizer algo assim como “é, um” ao mesmo tempo em que segurava o pulso esquerdo, como quando se toma o pulso numa avaliação dos batimentos cardíacos. Meu grande amigo André, também já falecido, embora tivesse posses para comprar o calçado que quisesse, usava um tipo de tênis cuja metade da frente mostrava o lado peludo do couro, de cor cinza, e era leve como um mocassim. Assim como eu, às vezes, ele calçava meias diferentes, para o horror e reprimendas furtivas dos curiosos e curiosas – mas isso era apenas molecagem. Quanto ao tênis, sim, era mania. Ah, lembrei-me agora: o tênis também tinha um apelido, posto pelo André: Batráquio. Sim, só rindo.

     Tive um amigo, que não vejo há muitos anos, em Santa Bárbara-MG, Netinho, tido como cheio de manias, uma excelente pessoa, educado, sempre bem arrumado. Éramos rapazes, e ainda boto a mão na brasa quanto à leveza geral. Outro grande amigo tinha dois apelidos: Godelo, e outro apelido tirado da dupla de quadrinhos Hans & Fritz, os dois garotos (eu era um dos dois fora da lei) da revista Os Sobrinhos do Capitão (o Capitão, gorducho, sofria de dolorosa gota, excesso de ácido úrico. As juntas, mormente o dedão dos pés, incham, ficam avermelhadas e doloridas), e os dois sempre atazanando o velho e a aldeia. Godelo era um gozador de primeira, tinha a mania de meter o dedo no nariz, e aí era deus nos acuda. Hoje, doutor bem sucedido, tomou o devido juízo, infelizmente… hehe.

     Um dia, acho que foi o padre Aristeu, professor de matemática, que jogava umas peladas com os alunos, de batina e alpercatas, me chamou de gralha agourenta, e me mandou fechar o bico, pois eu estava conversando na aula, e o amigo Ricardo (apelido ? Veneno. Morro de inveja deste apelido), até hoje cai na minha pele de gralha agourenta. Só rindo.

     Para terminar, ponho aqui a música Manias, cantada por Nelson Gonçalves. Não toco essa música já faz muito tempo, mas hora é, e já vou pegar a viola. 

 

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MANIAS: https://www.youtube.com/watch?v=azfy7KxSyrw

Imagem: Jornal Estado de Minas: https://www.uai.com.br/app/noticia/musica/2015/05/08/noticias-musica,167489/historia-por-tras-do-album-clube-da-esquina-descoberta-pelo-em-rep.shtml

Foto original (1972), do fotógrafo Cafi – Carlos da Silva Assunção Filho: http://f508.com.br/o-dono-da-capa-clube-da-esquina/

Texto: Darlan M Cunha: https://www.escritas.org/pt/n/l/darlan-de-matos-cunha

 

Carta à Mãe (94)

PAMPULHA Igreja São Chico de Assis (Niemeyer,

Igrejinha São Chico de Assis, 1943  (Oscar Niemeyer e Joaquim Cardozo. Foi ornamentada por Cândido Portinari, Alfredo Ceschiatti e Paulo Werneck.). PAMPULHA, BH, MG, BRAZIL

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Contagem regressiva

Êpa ! isso dá samba

Êpa ! isso dá samba, rock progressivo, cantiga de ninar…

A BELA 2018

A BELA DA MANHÃ – 29/07/2018

(7ª Corrida da Cooperação. Pampulha, BH, MG, BRASIL)

 

CARTA À MÃE nº 94

Dona MARIA,

voltei à Pampulha e me deixei levar pelo ror. Mãinha, ror significa multidão. Pois é, lá fui eu, meio alquebrado, mal preparado, mas fui à luta, como diz o povão, e enquanto eu corria a minha corrida, com a famosa lagoa ao lado, pensei coisas, nem sei como, isso porque esse tipo de cansaço quase faz a gente até delirar, quanto mais este teu filho que vive delirando, amante que é de nuvens e dunas.

Na primeira volta, veio-me uma lembrança do futuro (ou seja, o delírio já dava as caras), sonhei com um mundo todo pelado, sem lojas, nenhum cédula, nada de motores, porém, ou por isso mesmo, funcionando às mil e uma Xerazades, ou às mil e uma maravilhas. Vi com tudo todos os olhos, lembrei-me do rei Salomão com a sua máxima de “olho por olho…”, e quase errei a passada ao ver todos os templos do mundo e todas as igrejas em cinzas, não em ruínas, em cinzas, e nada de deus, só o diabo da alegria vigorando neste mundão que nada mais é do que uma feira de descalabros sem fim.

Mãinha,

não se preocupe, porque farei com que tudo vire ex: ex isto, ex aquilo, ex aquiloutro, menos o meu carinho pela Senhora, e o meu inesgotável incentivo ao bom humor, minha vontade de aprender a ler e a escrever nem que seja discurso político, apesar de que todo ato é político.

Mãe,

hoje, segundona querida ou segundona brava, desatei o nó da gravata, saí ao contrário do meu amigo, o filósofo grego Diógenes, O Cínico, procurando um homem (Êpa!) que seja algo assim mais ou menos desonesto. E vi que tudo mudará com a minha tática, sim, Mãinha, o mundo mudará com o eclipse que preparei para ele, hoje, às 23h 59s, ou para o dia que der, dará.

Tudo de bom, meu doce de coco com cacau, meu pavê. Verei a Senhora, amanhã, já respirando o Admirável Mundo Novo (um mundo já sonhado na década de cinquenta pelo inglês George Orwell, pobre coitado, um mundo já cantado ou antecipado por todas as mulheres e por alguns homens muitíssimo antes dele, ou seja, desde o primeiro dia).

Mãe,

levarei dois molhes de couve e um de ora-pro-nobis, e aquele queijo Canastra. Um beijo e um abraço do teu filho meio desmiolado, mas bom garoto.

Darlan

Carta à Mãe nº 93

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Querida mãe Maria

     após tanto tempo sem lhe mandar uma carta, depois de dezenas delas, hoje, um puxão de orelhas invisível mas severo me lembrou deste descuido imperdoável, e retomo aqui nesta outra página da internet as cartas (antes, era no FLICKR, numa página que durante anos, do início ao fim, chamou-se Fotemas – junção das palavras fotos e temas, lembra-se ?

     Mãe, nem sei por onde recomeçar, mas lhe adianto que as coisas não estão em pratos limpos no que diz respeito a muitas coisas que afetam o cotidiano do povo. Por exemplo, novas eleições aí estão, e os nomes e suas propostas fazem até as lagartixas do meu quintal rirem e, muito mais do que isso, chorarem.

     Falando em quintal, parece até olho gordo (no que não creio, e nisso divergimos), mas minhas couves murcharam e amarelaram feito o Brasil na copa do mundo, e está sendo difícil reativar os canteiros. Comprar está fora de questão, ou quase, porque os legumes, as frutas e as verduras em geral estão nas nuvens, sem falar no preço do feijão, de modo que aquela música cantada pelas Frenéticas – dez entre dez brasileiros preferem feijão –, está ultrapassada, e entendo que a letra deve ser mudada para seis entre seis brasileiros evitam feijão, que os preços de tudo, não só os da amada leguminosa, estão rindo à toa.

     Mãinha,

comprei uns panos de prato para a senhora pintá-los e bordá-los para mim, quando tiver um tempo. É que uma cozinha que se preze, por mais modesta, fica outra, se os panos de prato estão a contento, velhos, mas alvos e bem dobrados. Hoje o meu amigo Pê, ou Esfinge de Gizé, este glorioso apelido de longa data ele tem, porque é muito enigmático, faz outro adversário (ele diz aniversário), a senhora o conhece, ele vive dizendo que ficou conhecendo na casa da senhora uma loucura da cozinha brasileira, o doce de batata doce com coco ralado e cravos, e o que se diz na aldeia é que o próprio Diabo fareja o quintal onde só o divino tem vez, todas as vezes em que o tal doce é esparramado sobre a mesa.

     Ó, não se esqueça dos remédios, de leve, 86 anos não são 86 dias. Ah, mil e um parabéns, pois a senhora, que tem trinetas ou tataranetas, acaba de ganhar outro bisneto (Antônio),  outra bisneta (Stella), a família cresce unida nesta sociedade onde as pessoas se esquecem de muitas coisas.

     Um beijo do primogênito, que em breve passará uns dias aí, beliscando petiscos, salvo do mundo na barra de sua saia, porque, como diz o povo: mãe é mãe. Cuidado com rajadas de vento, mais comuns por aí nesta época.

 

Saudades do seu filho meio desmiolado, mas bom garoto.

Darlan

luadeluar hoje é noite de sombra… ação, pois !

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TRAVESSIA – Milton e Brant (Fiz essa foto em 2006, Praça da Liberdade, BH)

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     Hoje é o dia do eclipse mais longo do século 21. Curioso quanto a isso, não sei bem o que farei, talvez suba no telhado, e fique por lá esticado como uma lagartixa ao sol, ao luar ou à falta de luar, ou me transforme num gato com direito a sete vidas e mil e uma artimanhas próprias dos gatunos, segredos serão revelados e cabeças irão rolar, e talvez até se veja o que o Pink Floyd pensa ter visto, ou seja, the dark side of the moon.

    Numa situação incomum como a que acontecerá em algumas horas, é comum que as pessoas fiquem entusiasmadas ou alarmadas, não há meio termo, crentes ou descrentes, satíricas ou carrancudas, todas as pessoas sentirão o passar do astro, e os bêbados irão se fartar, ou porque vivem nas ruas, ou porque são poetas por natureza. Vão faltar verbos e adjetivos para tamanho eclipse. Mamma mia!

     São 5 da matina, supersticioso, tenho tanto medo do escuro como uma criança que foi sistemáticamente assustada e escorraçada, sofro ene pavores e suores, mas, pensando bem, ao diabo com sonatas ao luar, vou é botar meu bloco no topo da colina, e uma vez mais, com os Beatles, cantar day after day, the fool on the hill, ou the lunatic is on the grass, do Pink Floyd, ou cantar, com o Milton, a lua girou girou, traçou no céu um compasso, a lua girou girou, ó, pensando bem, hoje não é dia de cantar, dia nenhum é dia de cantar, foi declarado que estamos abolidos deste fardo. Mas o que será da terra e da lua e do sol, de deus e do diabo, se ninguém cantar feito galo, canário, gato, cão, uirapuru, hiena e veado, sortudo e azarado ? Revogada então está a proibição de cantorias nas terras do sem-fim, na terra do benvirá, nas carrancas do rio gavião, no grande sertão cheio de morte e vida severina, no Curral del Rey (nome primeiro de Belo Horizonte, 1897).

Vamos pra lua, lunáticas & lunáticos ! Vamos pra Pasárgada, lá seremos amigo/as do Rei.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Vídeo-tour da NASA (09 julho 2018): https://www.tecmundo.com.br/ciencia/129113-nasa-divulga-video-tour-lua-4k-assista.htm

Guerreiros – 14

3 elmos

3 elmos

 

     De repente ocorreu-me que a Palavra é moeda de troca, atitude de políticos, filósofos, malucos, religiosos, escritores e leitores, papagaios e ventrílocos, ela é fardo e alívio, vai à guerra (às vezes, assobiando), mas foge dela quando as coisas ficam pretas, pede arrego, a palavra é casa-da-mãe-joana, de pedro-mete-o-dedo, e o mais estranho é que ela insiste em existir mesmo nos mudos, ou quando proibida por decreto, sim, isso me ocorreu neste fim de madrugada, ri, tornei a rir da pobre articulação de nome palavra – muitos músculos e tendões são acionados para que se fale um simples palavrão tal como aluguel, ou uma palavrinha inocente de deus, como pecado. Pois é, o mundo já foi Babel, se piorou ou melhorou, isso depende do senso de cada pessoa. Hoje, economizarei palavras, amanhã também, depois de amanhã, ou nunca. O futuro à palavra pertence ? Quem viver verá. Palavras ? Vá para a cama sem elas.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

outro homem sem qualidades

conversa pública

em aberto

 

@1

     É comum eu me lembrar de fatos ou situações quando estou fazendo algo sem nada de especial como, por exemplo, coar café ou tratar do canarinho Milton Sentimento e da periquita Ana a Vadia; nada incomum como levar um tropeção ou soltar um palavrão ao reclamar de outra fila, e foi assim que me lembrei do livro O Homem Sem Qualidades, do austríaco Robert Musil, um livro que ficou inacabado, pela morte do autor, cuja primeira parte foi publicada em 1930, e a segunda em 1937, marcando presença na Europa. É um livro de perguntas, questões filosóficas, de cordas sem pontas, de lápis sem razão de ser, de papel passado à inquietação, fala das muitas forças de opressão, do consciente e do inconsciente (sem ser uma obra psicanalítica), uma obra que nos leva a pensar em como é que tanta gente é levada ou permanece por toda a vida sem dar a cara – é assim que ainda o vejo: ético, sem saída, areal movediço, vários túneis ferroviários cruzando-se sem sinalização nenhuma, réplica e tréplica no esquecimento, alguém que ganhou na loteria, mas perdeu o bilhete.

     Por acaso, encontrei no blog Livros que eu li uma apreciação daquilo que Robert Musil apresentou numa conferência em Viena, em 1937, de nome Da Estupidez // Über die Dummheit. O autor do blog, Aguinaldo Medici Severino, escreveu que “ele começa a palestra provocativo, afirmando que a estupidez se assemelha tanto com o progresso, com o talento e com o aperfeiçoamento das coisas, que quase todos aprendemos que a atitude mais inteligente que podemos adotar neste mundo é a de nos fazermos notar o menos possível, a de passarmos por estúpidos.

@2

      Fiz essa foto durante uma corrida no bairro São Bento, BH, onde duas cadeiras, vazias como um diálogo moderno, como que anunciavam mais um dia de vácuo, ou quase. Não conseguindo ver nenhum dos vigias (note o detalhe do cabide), pensei ter ouvido vozes, e me inquietei ainda mais, já esquecido da corrida, pensei que eles podiam ser invisíveis, ou seja, para além das minhas possibilidades. Ser invisível acarreta inúmeras vantagens, e eu nem quero pensar que este dia para mim chegará.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

vãos

Escultura em aço, av. Raja Gabáglia, BH

Av. Raja Gabáglia, 2280 – Cidade Jardim, BêAgá

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     Até ontem eu não sabia nada de nada, mas sempre me renovo, mesmo no vazio, crio coragem para melhorar para mim mesmo a minha imagem (isso até dá samba & poesia, parece que sim, parece que não), queria ser escultura que muitos, não todos, parassem para perguntar algo a si mesmos, ou a mim (isso faz muita diferença), de platina, de aço, de alumínio ou de estrume, queria ser escultura na qual jogassem pedras e até fezes (não te lembras da Geni ?), porque a aldeia é o nosso lar – nele estão os instrumentos da minha e da tua percepção geral, os unguentos cotidiários contra a tortura de um sapato apertado, das ruas apinhadas, do metrô às escuras, puro terror, é isso, hoje é um novo dia, dizer que é um dia a mais está certo, mas dizer que é um dia a menos na conta geral também está correto. Escolher.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

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meditação dominical: aldeia

bandeirolas

– Salve ! – Como é que vai ?

 

Vivo numa aldeia fechada, suas ruas no mais duro esquecimento, seus habitantes pouco saem, pouco falam, pouca sombra na praça, igrejas às moscas, somente fantasmas, o sol é devagar – dia sim, dia não –, gritos de origens não identificáveis bombeiam a vida, o rio vem e vai, igual a todos, de fora para dentro, de dentro para fora dos limites da aldeia, no dia em que o padre morreu, somente a mulher foi ao enterro, mais alguns abnegados subalternos do céu, sim, nesta aldeia o resumo do mundo não faz sentido, o tamanho do mundo é desconhecido, eu vivo como posso, mas vou às aldeias vizinhas, tento respirar, levo garrafas e bombas para enchê-las de oxigênio que eu vendo aqui, a procura é boa, espero que não descubram onde e nem como arranjo vida nova, ar novo para vender, tentando prolongar a vida na região. Aqui ninguém canta “minha terra tem palmeiras.”

Minha aldeia é um soluço atrás do outro, a música parece que foi abolida, no entanto, a maternidade está sempre com novos bebês nas mãos, ó mistério, eu preciso ir-me daqui, ninguém compra casa nesta vila tão feia. Sonho com outras paredes, rios e mares, outros timbres de voz, não morrerei onde nada acontece, a não ser queda de muro, pensando bem, só porque os cabelos e as unhas crescem, não que dizer que se esteja vivo. Pensar dói, mas é preciso, devo calcular bem o próximo passo, lembrar-me de que uma perna não vai sozinha. Será que a aldeia poderá transformar esse túnel num final feliz ? Mas o que é a felicidade, quantas mil faces tem, se o que é bom para um é tolice ou impossível para o outro ? Ser ou ser, eis a única questão.

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Foto: Maria José M Cunha     >>>>>     Texto: Darlan M Cunha