Darlan visita Ai Wei Wei, nº 5

DUAS FIGURAS [título original] >>> (clique)
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gente-caranguejo >>> [clique]

@1 -Enquanto ela gritar ou ralhar comigo, puxando-me com a insistência diária até quase me rasgar a camisa, estará tudo bem, assim saberei se estou vivo ou semivivo, sim, pelo menos para isto nos sirva o furtivo, sábio, dúbio, precoce ou tardio amor que roi os tíbios e os tigres. Não tendo amor, sou célula à parte.

@2– Ó, bom mesmo é ir a pé, ainda que igual aos caranguejos, se ande para trás, ainda que com bolhas e nervuras na sola dos pés, febril e irado, com ganas de destrossos, com todo respeito, caminhando e cantando, ir dizendo Caminante, no hay camino, el camino se hace caminando. (António Machado. Espanha, 1875-1939).

@3 – Caso se reencontrem, o sensato é ficarem juntos, após tanto fósforo, tanta ciência queimada em vão, não, nada é totalmente em vão, portanto, o sensato é ficarem juntos, calmos ou amaziados com a impertinência.

@4 – Caranguejos são cientes de si, isto significa que sabem do mangue, do mar-seu-mundo, mas desconhecem que os homens são bons no cada-um-por-si (caranguejos também são individualistas, o universo todo), que os humanos são criaturas que amam os caranguejos, amam uma caranguejada na panela de barro contra a usura de sua fome sempre ferrosa. Mulheres e homens são arados, sinônimo de famintos, sempre, e isto é sua glória e perdição, construção e demolição. Bicho dúbio é o bicho humano.

@5 – Ela não se cansa de dizer o que lhe dá na telha, idiomas inescrutáveis, rindo-se de um jeito que nem o Diabo, eu tenho suspeitas de sua verdadeira identidade, ela talvez esteja travestida de ser humano, usando e abusando deste desmiolado que vive só do imaginário – porque a minha fé é o delírio, sem ele, sou apenas humano. Enquanto a minha imaginação der luz às minhas asnices, ou seja, me orientar rumo a continuar mais fora do padrão, estará tudo bem.

Fotos e texto: Darlan M Cunha

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Darlan visita Ai Wei Wei, nº 4

cor corar coral coralina corante quaral quarador

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a criança pensa e ultrapassa horizontes


Destas proposições, alguma há de restar: morrer sem um A ou um Z atrás de si, ou seja, sem herança – mas isto é impossível, porque todos deixamos rastros; ou viver conforme as novas leis, adaptações estas às quais é preciso atentar, ou ser um nerd, ou uma auto exilada social, e sabe-se lá o que mais. As crianças logo percebem o que as rodeia, e até mesmo notam o mais além do seu entorno imediato, mas cuidamos de tirá-las da opinião própria, de lhes dar logo no café da manhã um sim e vários nãos. Beber café, e ir ao que haverá, e também se bebe mágoas com água de coco e pedra de gelo, e se nada nos pode intimidar, isto se deve ao fato de se ter opinião própria (a garotinha na foto está com ela mesma). Feriado, o país está parado; se é dia de muda, vai à luta, ainda que vá pela metade, ou nem isso.

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O DIA COMEÇA É NA MADRUGADA


Míriam chegou sem alarde, talvez da montanha ou do mar

ou tenha vindo de algum lugar maior do que a imaginação,

silenciosa feito um peixe ou um feixe de sol nas paredes

ela veio e ficou, e nada parece incomodá-la, mas é preciso

estar atento aos traços de uma mulher, espertas por natureza

e por necessidade social, por sua necessidade de defesa

diante da História sempre desfavorável a elas. Mulher é menos ?

Não para essa Míriam, e para muitas outras, e assim ela vai

como um Don Quixote, de calça comprida, de bermuda ou nua

sob sol e chuva (“Com sol e chuva você sonhava” – diz a canção),

sorrindo dentro dos tênis brancos ela vai levando seu Enigma.

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Fotos e textos: Darlan M Cunha

Música: Tudo o que você podia ser. CLUBE DA ESQUINA (Milton Nascimento canta): https://www.youtube.com/watch?v=GGmGMEVbTAY

Darlan visita Ai Wei Wei, nº 3

instável

apreensão

Acordar com o Nada. Apenas acordar, sem lenço e sem documento. Nadas. Por cima uma laje, embaixo a escuridão,* nenhum ovo à vista, nada de aves ou de algas, só o fermento do medo por companhia, mas outro sabor ali está porque se mantém firme o tempero da esperança que é a última que morre segundo o dito popular. Nada além de uma cor que não é de atrair nenhum olhar, devido à circunstância pavorosa daqueles homens e mulheres espremidos entre os dois grandes azuis, querendo outra situação que está muito distante de onde estão. Longe dali, daquele corredor aquático, amanheci macambúzio e álacre, sem saber se sorrio ou se me descabelo de vez, por ninharias, se comparado aos tantos náufragos, é que sinto que o coração precisa de norteio, de um ofício, um emprego que o leve ao caminho da crença que não a de fé em deus, isso não, quero saber onde se esconde a redenção que, segundo todos, ou quase todos, o amor dá a quem consegue escalar tal perdição. Remando neste sentido, aflito, espero arranjar tal emprego – e que seja eterno enquanto dure – nas palavras do Vinícius.

Darlan M Cunha

Darlan visita Ai Wei Wei, nº 2

Observação flutuando

*

Baixa o olhar. Mais fácil te será a caminhada, se atentares para o sol onde pisam teus pés. Dante Alighieri. Divina Comédia. Purgatório, cap. XII, 13.

A isto já replico, ou completo: Levanta o olhar, o dorso e os pés sobre os destrossos da História, que assim te será menos penosa a jornada. DMC

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Desta exposição de algumas obras do chinês Ai Wei Wei, já disse ser difícil continuar cedendo ao hábito falido de não pensar, pois o sensato é lutar consigo mesmo/a quando algo for proposto nas vinte e cinco horas de cada dia, sim, o mundo vai depressa demais, e há muito tempo precisa de uma hora, ou mais, a mais.

Foto e texto: Darlan M Cunha

Música chinesa (instrumentos: erhu, cítara, flauta de bambu, banjo): https://www.youtube.com/watch?v=uiOgOQcWGsc

Darlan visita Ai Wei Wei

Darlan visita Ai Wei Wei (quebrando uma porcelana da Dinastia Han – 206 a.C.- 220 d. C.)
Clique na foto e leia o poema por trás dela.


Fugindo da fome, do ódio, vão ao mar, rumo à Europa ou… ao fundo.
Montagem com caixotes tipo guarda-roupa: uma ilusão sensacional

No domingo, 14, fui visitar Ai Wei Wei no CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil, no complexo de museus modernos, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. É uma exposição que dá uma ideia geral da atividade deste artista tão controvertido (a China devolveu-lhe o passaporte em 2015, se bem me lembro, mudou-se para a Alemanha, indo depois meter-se de carne e osso na rota de fuga para tanta gente no cansado mar Mediterrâneo, etc). Muito lúcido, ele diz que os artistas não precisam se tornar mais políticos; os artistas precisam se tornar mais humanos.

Darlan M Cunha

Choro Loco. YAMANDU COSTA: https://www.youtube.com/watch?v=pUgSr2-ifnY

87 anos… Parabéns Dona Maria José !

Mãe [10], Avó [14], Bisavó [13], Trisavó [3] – MARIA JOSÉ, 87

A Eternidade existe


CARTA À MÃE, nº 111

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QUERIDA MÃE,

o que dizer-lhe, se tanto tive e terei para dizer-lhe ? É como bem dizia um personagem da Escolinha, “não me venha com chorumelas”. Pois é, este é um dos dilemas deste garoto quase sempre com dores de cabeça com origens e profundidades diversas, dores estas que só encontram mesmo uma solução na presença da Senhora, mesmo que eu esteja naqueles ambientes ruinosos do meu quase sempre, com ótimas companhias para quem quiser estar fora dos prumos sociais. Ora, o povo diz que pau que nasce torto morre torto, é, mas como o povo não sabe de quase nada, dou a ele um desconto, ou faço fiado e até expando a minha paciência e digo pague quando puder.

Mãinha,

esta semana foi mesmo algo atípica quanto ao número de afazeres, mas ficou tudo em ordem, a não ser pelo fato de que nem comprei um presente para a Senhora, mas ainda há tempo, vou esperar que as lojas sejam abertas neste sábado radiante.

Mãe,

a Senhora sabe que os preços de tudo, há tempos – milênios – todos eles em todas as épocas e em todos os lugares têm vocação para astronautas, isto é, vivem flutuando e beijando nuvens brancas para eles, nigérrimas para quem vai às feiras e mercados, e eu sei que todos os comerciantes e os produtores também sofrem de várias maneiras, mas a última paulada é nas vovozinhas e nos vovôzinhos. Pois bem, O INSS vai ser modificado, mas muitos outros remendos e adendos, vários complementos e supressões ainda serão tentadas pelos partidos, pelas partes tradicionais: situação e oposição, o de sempre

Mãezinha

não vim aqui para falar de apreensões, vamos em frente. Eu não acreditava que isso existisse, mas o fato é que uma bela donzela me deu uma Caixa de Juízo, que devo experimentar, mas eu não sei nem português, quanto mais inglês, alemão e russo, que são us indiomas escritos lá na guia de uso, mas desconfio que a danada está é rindo da minha cachola, miolo mole, etc. Não há de ser nada, não, tenho amigos e amigas de fé, muito poucas e poucos, mas tenho um mar de Mãe, Cordilheira, Pico da Bandeira onde passear com as minhas mil e uma ideias, sufocos, gargalhadas, sátiras, enfim, sem levar de mais a sério o mundo, vou chutando a pedra no meio do caminho, um ramo de capim no canto da boca, e um santinho de prata que a Senhora me deu no século 20.

Mãe, minha geléia de jabuticaba, meu algodão doce

já vou me despedir, por enquanto, neste dia especialmente grande, vou beber e comer, tocar e cantar, junto com a Senhora, Flor do Cafezal, essa música tão do seu agrado, vou rir com o povão que certamente estará aí, mesmo que por vídeo, no caso da turma que mora nos EUA: filhas e filhos, netas e netos, bisnetas e bisnetos e trinetas.

Um beijo e um abraço do seu filho meio desmiolado, mas bom garoto.

DARLAN

MAO – BH

Museu de Artes e Ofícios – BELO HORIZONTE, MG, BRASIL

carruagem, 1
cilindros para lavar couro, 2

Este Museu é uma glória, uma verdadeira sensação de paz e de orgulho entra na gente quando se está diante do tamanho de sua representatividade no que diz respeito ao antigo fazer diário, dando a ideia geral dos avanços vindos com as novas técnicas de construção de uma sociedade, o que pode o homo faber, o Museu nos mostra inúmeras ferramentas, utensílios, objetos, materiais, profissões, estilos de vida. Idealizado e posto em prática por uma pessoa entusiasmada pela História de Minas e naturalmente pela história do Brasil – Ângela Gutierrez, de família muito ligada aos chamados “valores” que dão um rosto à sociedade é de família muito forte. Muito trabalho nas fazendas, muita prosa, resoluções legais, palestras, sempre com o intuito de conseguir, trazer, reformar e mostrar tanta história na forma de uso diário. O MAO está situado no prédio que foi base de chegada de pessoas para esta até hoje muito jovem e bonita BELO HORIZONTE – 121 anos – no extenso prédio da Estação Ferroviária, na parte central da cidade. MINAS são muitas, segundo o que disse o médico, diplomata e escritor João Guimarães Rosa.

DESENREDO (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro). Canta: BOCA LIVRE. MINAS (com MILTON NASCIMENTO).

Foto e Texto: Darlan M Cunha

A leveza pede passagem

Enredo de gala


Ao contrário do que se possa fazer crer, não sou caçador de ti e de mim, nem do Nada escondido no Nunca. Pois bem, mudando de catavento, ou de assunto, eu nunca fui convidado a um baile de máscaras. Pensando bem, para quê, se o mundo todo, se a showciedade vive travestida ? O que eu imagino sobre tais festas, sempre apresentadas com ar de muita classe, e nem digo etiqueta, nem é preciso dizer glamour, é que nelas devem acontecer situações como a de perguntas assim: – Bela máscara. Olá, você é a Cláudia ? Não ? Ah, já sei, essa é a voz da Ângela. Engano seu, cavalheiro. Divirta-se. Hahaha… só rindo.

Celso Renato

Enganos acontecem até no escritório. É, em frente, porque talvez um dia eu seja um dos convivas, mas preciso pensar que máscara preparar, que ideias desejo que ela transmita ou não transmita às belas e aos idiotas de plantão. Pois é, por mais alguns dias de sol no quintal eu iria a pé ao interior de Minas, principalmente na região das cidades históricas, onde há muita jabuticaba e muitas igrejas – mas estas últimas eu dispenso.

Darlan M Cunha – UMMA (romance)

Bom, preciso deixar livros de lado, isso não dá bom caminho, enquanto isso, espero com febre o convite às nuvens, aos degraus perigosos, escorregadios são os lábios do perigo. Mas toda hora é hora de permanecer na realidade, e assim o condomínio está pago. Fiz quinze anos há pouco, e nem percebi, nem tive tempo de contar quantos dedos tenho e quantas vontades de fazer algo, conseguir isso e aquilo, e de me aprimorar numa área, em duas ou três, mas sem me esquecer de ir à praça, de vez em quando, de rir e gritar numa cachoeira, de visitar as avós. Espero com febre o baile de máscaras.

Fotos e texto: Darlan M Cunha