Guerreiras E

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currículo de ajuda

     Comprei um conjunto de cama, de quatro peças, para a minha mãe. Nada demais, pensei, mas algo ainda me inquieta, até porque nunca sou de lhe dar presentes em mais um desses dias de invenção comercial. Às vezes, em plena segundona, dia nenhum, dia de ralar, levo para ela algum regalo, e isso faz diferença. Vá lá, mãe é mãe, diz o povo

     mas eu me pergunto: – O que me falta para dar a ela o que nunca conseguirei ? De antemão, sei que não adianta esbravejar, espernear e gritar palavrões antigos e recentes, não adianta beber feito gambá no alambique, porque essa dúvida atroz não sairá de mim, de tanto que está grudada na pele quanto nos órgãos internos.

O que fazer, quando a alegria é maior do que nós ? Longa e macia vida às mães todas elas.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

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Guerreiros 7

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Aquiles e o Cavalo de Troia

 

     Eis o legionário, o combatente de baixa e de alta patente, outro soldado sozinho no campo da justa, embora cercado de pares e ímpares por todos os lados, sabe que está sozinho, e treme e não teme, baba e não baba, fere e é ferido de morte ou mais longe do umbigo, longe das partes altas. O soldado está sempre a soldo por glebas, terras e águas de outros impérios, e o chão e o rio são vermelhos, o céu é escuro da cor de sangue coagulado, mas o soldado deve ir, quer voltar para casa, outros não querem, outros parecem que já nem se importam em ficar para sempre em terras infiéis, longe de um amor deixado lá atrás, impossível paraíso que o soldado carrega bem preso por trás da couraça. O amor é algo único porque nos acompanha, mesmo quando não existe mais. Será por isso que se diz que, às vezes, o amor se parece com um “presente de grego ?” Não creio, não crês, não cremos ?

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

Planos

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purgatório / inferno / inexistente   >>>   purgatory / hell / nonexistent

@1

Uma das modas ou leis não oficiais de hoje é a de se levar no bolso um Plano B, para quando as dificuldades para se impor o Plano A se tornem agudas, ou quase, e aí então entra esta variante já famosa e indispensável nos tempos modernos, tempo da Maratona Para O Óbvio, de modo que todo mundo tem um plano reserva, todo mundo é um plano reserva, para si, senão para os outros. Resta saber.

@2

“Na entrada do inferno deve haver muita folia, atrações sem fim”, alguém disse numa roda de bebidas e tira-gostos, fiquei pensando sobre aquilo, e ri todinho por dentro e por fora, e logo tirei a roupa, em plena luz do dia, no meio do mercado, e mostrei a todos com quantas canoas se faz a tal liberdade infinita, mostrei-lhes a rubra roupa louca, chifres, rabo peludo, um odor inigualável, mas ninguém se importou, ninguém teve pavor, pelo que depreendi que o Diabo tão querido e temido já não se cumpre como tal, não, já não se faz Diabos como antigamente. Soluços com tira-gostos.

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

Guerreiros 6

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Manta e escudo do rei e general LEÔNIDAS, de Esparta (540 a.C – 480 a.C)

 

A PALHA VAI PEGAR JOGO

     Antes do jantar, senta-se numa pequena poltrona, mais baixa, e se desamarra dos cal-çados, lentamente, encosta-se para puxar a calça, desencosta-se para livrar-se da camisa, e fica repassando o dia, inalando as idas e voltas de que foi alvo, costurando e descosturando tratos, e se lembra de que entre uma palavra e outra sempre vem o silêncio mútuo para que as partes juntem argumentos com os quais revalidarem algum acordo. Assim os dias, seus dias, até voltar da luta, em farrapos, sentar-se no pequeno trono, e abaixar-se para se li-vrar dos calçados, com dificuldade cada vez maior, quando então repete “sim, o tempo dos empecilhos chegou, está cada vez mas difícil alcançar os pés, mas este resto de palha ainda há de pegar jogo.”

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

Guerreiros 5

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Cruzadas (séc. XI a XIII)

@1

Esses dentes que tanto sentiram a argamassa da dúvida sabem que também um castor está condenado a gastá-los diariamente. Esse dentes que morderam a sevícia, que foram quebrados pela tortura, e que, junto com o ar e a língua, com todo o aparelho respiratório, assobiaram para ovelhas e mulheres, esses dentes sofreram com o tártaro e com cáries (os nervos à flor da dor). Porém, é preciso ir, porque ir é o melhor remédio, com ou sem dentes, intuindo que o melhor remédio é ter vontade férrea, e o resto é figuração, como diz o povo em sua infinita intuição de lebre cega.

@

Eis o bambu na forma de uma esteira de enrolar sushi, eis o esteio de uma civilização, o pai da China, o bambu está em tudo, está no avesso, no verso, no reverso e no anverso do cotidiano: o cesto cai sobre os peixes e os aprisiona, taquaras cercam as casas, palitos de bambu, ou kuáizi, em chinês, levam comida às bocas, com ele também se faz instrumento musical, constroem-se barragens, escadas, tambores, barris, casas, arpões, lanças, brin-quedos, ou seja, totalmente introjetado no psiquismo geral. Salvas de prata ao bambu.

@3

Se o amor é mesmo de ir e voltar

de voltar e tornar a ir ao céu da boca

com o chicote em punho

com o avesso dele sempre pronto

a perdoar, ou não, logo mais saberás –

talvez já saibas, saibamos, esquecidos, saibamos.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

 

Guerreiras D

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Bar do BIGODE – bairro Prado, BH

 

     Eis a couve, retalho da terra que sobre o balcão se debruça, à espera dos toques de amor de uma faca guerreira. Eis o ambiente no qual os odores se mesclam e atiçam as criaturas: couve, alho, cebola, coentro, salsa, azeite, vinagre, pimentas, maionese, ovos, bifes, a enorme panela onde o arroz flutua ou dança sua dança do cisne, eis a conversa, o riso, café com pastel e pão de queijo, pão com salame, a cachacinha sagrada para ir à luta, operário começar o dia, o vinho para a bela executiva executar o que tenha que ser feito, e assim os dias e os trabalhos. Eis o norte de cada um, o sul, o leste e o oeste; eis as latitudes e as longitudes, lua cheia e morna, sol a pino, solstícios de verão e de inverno, eis o Homem no afã de melhorar, custe o que custar. Ecce Homo, Nietzsche escreveu.

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

Guerreiros C

Pedro, no quarto maior

Pedro, pedreiro (sem esperar o trem), e o Pêndulo de Foucault

 

     Poeira, vestígios de sua presença, de sua irritante persistência, mas são os ossos do ofício que um pedreiro assume todo dia, mas ele não deixa de sonhar com uma banheira, embora nada o toque mais do que estar na escada ou espremido entre um vão e o perigo, o pincel, a broxa e o prumo não podem tremer, e no chuveiro é preciso ter atenção, o choque não brinca, e assim o sábio desliga a chave geral, por bem ou por mal, voltar para casa é o ideal de Pedro

     pedreiro, mas pode me chamar como quiser, nunca de Nada À Esquerda, tenho brios, caráter retilíneo, Pedro, nada tenho de João Teimoso, aquele boneco indo pra lá e pra cá, como o pêndulo de um relógio ou, por exemplo, o pêndulo do cientista Foucault.

     Meu amanhã é sempre feito de ligas, batidas (poeira sutil) e medidas, mas a obra toma corpo, e alguns passantes param diante da obra que se abre em leque para a rua, sim, em breve eles e elas terão vizinhança nova.

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

 

Guerreiras B

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Lavadeiras no Rio Jequitinhonha, MG

 

     Nada como um banho num rio de águas limpas, pelado, matando aula, a gente fica agradecido por ainda respirar e espalhar no meio do mato a roupa dos colegas desavisados, lá embaixo no meio do rio, soltando maldições e palavrões, antes e depois de verem seus molambos mastigados por algum boi, por algum cabrito ou servindo de cobertor para alguma ninhada de cobra. Cada tempo em seu tempo. Nada como ficar de cócoras numa beira de rio, vendo e ouvindo as lavadeiras, as novinhas todas elas serelepes contando coisas, afastando de si os salmos dominicais, esquentando os ouvidos das vítimas. Nada como atravessar de balsa um rio, junto com bichos de todo tipo, inclusive humanos, atravessar o rio, indo de encontro à grande curva na vida – luzes, decibéis, domínios, pressa, insônia, enfim, mudança de temperamento, ó, ele está diferente – dizem, quando volta por uns dias à terra nativa.

 

Foto e texto : Darlan M Cunha

Guerreiros A

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Ordenha num sítio de gente “de casa”, próximo a Medina, MG

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O AR DE UMA ERA   

 

Uma vez atingido um ideal, por ora

as pessoas costumam sumir

misturando-se com alguma incógnita

já não dão mais o ar de sua graça

nada dizem do despejo de suas tramas

sobre a ira e a insônia do Outro

e assim se diga que é natural, é ótimo

que ninguém creia em ninguém

ninguém arrisque um real ou um dólar furado

em ninguém com tecnologia de ponta

com saia justa ou com esmeralda no fígado

em lugar nenhum ninguém creia em nada

em lugar algum se dê corda ao céu

da boca, nada disso, o mundo está demente

mas de piada em piada a gente vai levando

e em nada mais acreditando.

 

Foto e poema : Darlan M Cunha

Guerreiros 4

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Vikings

 

    É a cabeça, irmão. É isso, proteger o centro das coisas, o pensamento. Pensar dói, mas alarga a visão, pensar o impensado por esta ou por aquela pessoa, embora já pensado por tantas outras em Eras diversas, por tantas e tantas pessoas. É preciso pensar, mas estamos numa época na qual o que vale, o que vence, o único que se aceita é correr, chegar em casa como um farrapo diário, e o sono e a insônia sendo recebidos como uma dádiva.

     Eis o dia e a noite – cada qual com suas necessidades, mais dependências sendo criadas e substituídas. Eis a horta, o horto, a forja sempre em brasa, o Homem sempre pronto a um feixe de lenha, um feixe de vigas finas de aço, um rastilho de pólvora, eis o escritório onde suores próximos e distantes são decididos,  pois o trabalho mitiga a sede e serve de propaganda, e para exemplo famoso disso temos este e muitos outros slogans mundo afora em tempos diversos: Arbeit macht Frei / O trabalho liberta (está na entrada de um campo de concentração). Para tanta gente, ainda hoje, trabalho escravo ou semi-escravo é a sua realidade, mas ao salário do medo o riso não cede passo, e passa por dentro do título do livro do Cesare Pavese,  Lavorare stanca  // Trabalhar cansa. Eis o dia e a noite.

Foto e texto: Darlan M Cunha

Bee Gees: First of May >>> https://www.letras.mus.br/bee-gees/3614/#radio:bee-gees