Ocaso

Ressaca das compras
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Atados estamos todos às gotas diárias de apreensão, reouvindo as muitas vozes do Não e os inúmeros silêncios do Sim, todos acossados por adjetivos, pelo talvez, a multidão não se negue aos fatos, pois a dor queima a pele e o que por baixo dela corre. Ora, nascer para ir com o primeiro vento, para ir sem lutar à inenarrável algazarra da morte, ao invés de gracias a la vida ? A feira nos circunda, vamos às compras, aos martelos da falsa felicidade, acaso e ocaso. Já esquecidos de que todo dia é ano novo, e de que os novos assuntos são os mesmos de trasanteontem ? Em frente, que atrás vem gente. Ah, em tempo: Pasárgada nunca existiu.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Canto lunar. DENISE EMMER. https://www.youtube.com/watch?v=3aDCiwdy4XE

Canto lunar. Kátya Teixeira, Dani Lasalvia, Tarancón. https://www.youtube.com/watch?v=bNhBsakWVok

O acaso

Trançado: Caminhos diabólicos // Evil ways // Teuflische Pfade
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De certa forma o acaso nos redime ou nos condena às suas malhas, pois é certo que de tempos em tempos seu faro nos descobre a todos, pondo nosso peso ou nossa índole à mostra, ainda que precauções tomemos quanto a certos aspectos. Logo na esquina está o inesperado, ainda dentro de casa e na escadaria rumo ao escritório ou ao consultório, ele é quase onipresente, e como tal nos guia, ocupa a parte dele no cotidiano – não muito grande, mas que decide o que fazermos para o resto do dia. Acaso é concha, com ou sem pérola.

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Foto e Texto: Darlan M Cunha

Cheio de dedos. GUINGA: https://www.youtube.com/watch?v=P4EzM9jlhT8

amorfo

Teatro de sombras
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A tua existência é realidade aberta em leque e ao mesmo tempo é um lacre posto sobre o que, de fato, não tens controle total. A existência finge estar bem, sabemos não ser exatamente assim, e o sono foge, apesar das risadas que se ouve à beira das quatro margens de um rio: fundo, superfície, direita e esquerda. Hoje, já não choras, não fodes, não queres quiabo com angu, o nado sincronizado ainda nos é estranhamente distante, uma incógnita está escrita na parede frontal, e com isso o céu da boca extasia-se, mas se cala – o ser e o nada. Entra, fica à vontade, chamemos logo o polvo, a sépia, o camaleão e o diabo, enfim, os mestres em disfarce ou mímese, e da ironia, que talvez com estes aprendamos algo, o teor de se ir juntos.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Pois é, pra quê. MPB-4 (música de Sidney Miller): https://www.youtube.com/watch?v=6yypPE8f1vg

odores & sabores

Especiarias
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Cada qual (des)entenda-se com o que tenha de fato, com o que sonhe, e se tem algo para mostrar das facetas carcomidas, ou não, mostre o que puder, e guarde o quanto lhe convier, que assim a montanha descansará sozinha, enquanto ao mesmo tempo descasca sem maior alarde seus nós e nódulos, que a vida é só caminho, muito embora o poeta tenha dito “caminante, no hay camino”, mas o rio é teimoso, e alarga suas margens rumo a virarem fagulha ou pó, pois cada dia abre fendas nas criaturas, e fecha outras, pois isto é do combate – as paredes da arena são divididas entre gritos e outras espécies de seivas, entre o que somente para trás se move, o que para a frente se move, e o que já não se move em direção nenhuma.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Cravo e canela. MILTON NASCIMENTO: https://www.youtube.com/watch?v=onyb8tCN-RQ

A vida na mão, no chão

Infância
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A criança abre a mão como se pedisse uma promessa, estica o braço como um laço pronto para nos tirar da rua e nos levar para além-lá da lua; toda criança gruda feito nódoa, lógica de moeda, beijo de mãe, e assim ela se mantém mais viva do que nunca, sim, escrevendo ao contrário, vai logo nos aliviando dos sonhos amargos a criança que abre um sorriso maior do que a boca, mais claro do que as íris, pois ela sabe, sabe de coisas, e por saber tanto é que gira e zune feito um pião rindo-se da terra que ele risca.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Acalanto. DORIVAL CAYMMI e NANA CAYMMI: https://www.youtube.com/watch?v=dEKMp4Z7FHk

Roteiro

Teto do mundo

Não é preciso senha.
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É preciso senha para entrar.
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Do capital inicial até o final crescerão pegadas às quais não chegaremos a alcançar, o texto da vida é curto, diz-se até que a vida dura três dias, e que dois deles já se foram, portanto, urge andar devagar rumo à pergunta final: O que há de fato por trás do horizonte que nunca vemos claramente ? Isso lhe dá ou não dá pruridos, rói os dias, mas ao mesmo tempo é incentivo a se lembrar de que a perfeição dá dois passos à frente todas as vezes em que damos um passo em direção a ela. Queres incentivo maior ?

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Fotos e texto: Darlan M Cunha

tríade

O pintor BRENO, flutuando
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Antigamente e ainda hoje… MAO – Museu de Artes e Ofícios. BH, MG, Brasil.
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Broa caseira recheada com queijo
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Houve um tempo em Caraminguá-mirim, mas não me lembro ao certo se foi na minha outra aldeia de paz, de nome Nurimba, em que tossir ou arrotar enquanto as nuvens trocavam de lugar, e a relva crescia a olhos vistos, era algo de suprema cortesia para com a aldeia, era algo assim como um bom presságio, mas isso acabou, igual a tudo, acabou em brancas nuvens, e então eu me mudei para a China, porque eu tinha ouvido dizer que lá existe um rio chamado Rio Nu, sim, e como sou curioso, fui conferir, e o tal rio não só existe, como também a China existe, pelo que acabei ficando.

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Fotos e texto: Darlan M Cunha

A estrada por companhia

Retrato do artista quando jovem >>> (James Joyce)

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Tantas páginas depois a obra não está pronta

tantas idas depois a vida cobra uma exata conta,

a vida corriqueira, de cova irrequieta

cuja ansiedade é puro desgaste nas pernas

nas costas e na testa da gente fria e quente

a vida é comércio: Dou-te dez acres de terra por esta escrava.

E assim a passagem do tempo, cada qual com seus tipos

sua dissuação, seus passatempos

que a dor não perdeu o rumo – continua sendo de todos

e é preciso sabê-la como tal, depressa

com aquele ou com essa, a vida é susto

que pode virar busto ou muitas páginas e muitas contas

e outros argumentos por saldar. Acho que vou pegar estrada,

pegar o sol com a mão“, como diz a canção

again and again and again – pensando bem, não.

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Foto e texto: Darlan M Cunha