Textos rudes: calabouços & confessionários – 5

OPRICHNIKI ou Os Cães de Guarda do Czar IVAN IV, O TERRÍVEL (1530-1584, RÚSSIA). Créditos da imagem by NAZGUL RINGWRAITH.
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O ano de 1570, os habitantes da cidade russa de Novgorod foram acusados de traição para com o czar, supostamente por engendrar motins. Ivan, o Terrível, expediu ordem para que sua cavalaria negra saqueasse a cidade e punisse os envolvidos na trama conspiratória: durante alguns meses, os oprichniki pilharam, torturaram e massacraram a população de Novgorod, quase a exterminando. // Embora o soberano da Rússia acreditasse que os responsáveis pela suposta deslealdade fossem os boiardos (os nobres)* e os membros da igreja local, a perseguição se estendeu à classe média e ao campesinato com igual brutalidade. // Após a devastadora carnificina gerada pela lâmina dos oprichniki, a fome e o frio elevaram o número de vítimas, o qual diverge incrivelmente entre 2.700 e 60 mil mortos. Pesquisadores atuais acreditam em 7.500 mortos. // Resenha sobre OPRICHNIKI, Os Cães de Guarda do Czar IVAN IV, O TERRÍVEL – por EUDES BEZERRA

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A sabedoria com as coisas da vida não consiste, ao que me parece, em saber o que é preciso fazer, mas em saber o que é preciso fazer antes, e o que fazer depois. O tempo e a paciência são dois eternos beligerantes. (LEÃO TOLSTOI – Guerra e Paz – Rússia)

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O LINGUADO, capítulo DO QUE NÃO QUERO ME LEMBRAR — GÜNTHER GRASS, Prêmio NOBEL de Literatura de 1999. Escultor e pintor — 1927/2015, Alemanha)

Da palavra excessiva, da gordura rançosa, do coro sem cabeça: Mestwina. Do caminho para Eisiedeln e da volta: da pedra no punho, no bolso. Daquela sexta-feira, 4 de março, da minha mão na caixa de greve. Das flores de gelo (suas) e da minha respiração. De mim, como corri: fugindo das panelas, sempre história abaixo. Do Dia dos Pais, recentemente, do Dia da Ascensão do Senhor, naturalmente que eu estava presente. Da louça suja em cacos, misturada com cacos, dos suecos em Hela, da lua sobre Zuckau, do sujeito atrás da giesta, do silêncio, do surdo dizer sim. Da gordura e da pedra, da carne e do punho, histórias bobas como esta.

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POSTAGEM: DARLAN M CUNHA

NA TERRA COMO NO CÉU  –  GERAlDO VANDRÉ  (Pb, Brasil): https://www.youtube.com/watch?v=-41iWu0rVDc

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Textos duros: luz & mistério* – 4

Bairro Buritis // BH >>> Cidade dentro de cidade
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FRASES – HÉLIO PELLEGRINO – (Psicanalista. MG, Brasil)

Humor é uma vingança contra o destino, a vingança contra a injustiça, a vingança contra o opressor  //   É uma saída através do riso  //  Todo humor, no fundo, é bondade. O humor transforma-se num exercício de liberdade, e dissolve o rancor  //  O poeta é uma caixa de ressonância, concha acústica, orelha enorme, uma parabólica aferindo – e conferindo – as sílabas dos tempos que estão por vir  //  O tempo passa depressa porque nos distraímos de sua passagem, temerosos de perceber que somos nós que passamos. 

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O INOMINÁVEL – SAMUEL BECKETT — (Nobel de 1969. Irlanda)

Agora não tenho mais do que uma perna, tendo rejuvenescido, ao que parece. Isso faz parte do programa.Tendo me colocado em artigo de morte, em gangrena senil, tiram-me uma perna e epa, eis-me de novo de pé e andando por toda parte, como um jovem, em busca de um esconderijo.

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VIGIAR E PUNIR — MICHEL FOUCAULT – (Filósofo, França)

A certeza de ser punido deve desviar o homem do crime e não mais o abominável teatro; a mecânica exemplar da punição muda as engrenagens. Por essa razão, a justiça não mais assume publicamente a parte da violência que está ligada a seu exercício // Quase sem tocar o corpo, a guilhotina suprime a vida, tal como a prisão suprime a liberdade, ou a multa tira os bens // Apresentamos exemplo de suplício e de utilização do tempo. Eles não sancionam os mesmos crimes, não punem o mesmo gênero de delinquentes. Mas definem bem, cada um deles, um certo estilo penal. Menos de um século medeia entre ambos. // Desapareceu o corpo supliciado, esquartejado, amputado, marcado simbolicamente no rosto ou no ombro, exposto vivo ou morto, dado como espetáculo. Desapareceu o corpo como alvo principal da repreensão penal.

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ALEXANDRE LACASSAGNE – França – “A sociedade tem os criminosos que merece.

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Imagem: Darlan M Cunha

VINCENT (Starry, starry night) >>> DON MCLEAN >>> (EUA): https://www.youtube.com/results?search_query=vincent+starry+starry+night

Textos duros, vodka com água de coco – 3

Etapa decisiva na História do Oriente, Mundial – Exposição GUERREIROS, no BH Shopping, BH.
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OS RATOS (1935, Prêmio Machado de Assis)  –  DYONÉLIO MACHADO (Psicanalista, RS, Brasil)

O que lhe disse o leiteiro?  A mais terrível das frases:  Lhe dou mais um dia. E saiu daquela maneira escandalosa, exibindo os músculos, exatamente para desmoralizá-lo diante dos vizinhos.

Um dia.  Apenas vinte e quatro horas para conseguir aqueles cinquenta e três mil réis que não seriam grande coisa, não fosse o pequeno salário que Naziazeno recebe como funcionário público.  E também, o que o leitor logo ficará sabendo, pelas dívidas que contraiu depois da doença do filho.  Deve para o médico, do qual se esconde quando o vê no abrigo dos bondes, para o chefe da repartição, para um fornecedor da Secretaria de Obras, e sabe Deus a quem mais, incluindo outros pobres coitados como seus amigos Duque e Alcides.

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UM COPO DE CÓLERA – RADUAN NASSAR (Prêmio Camões 2016. SP, Brasil)

Já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ‘ordem’; mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio _ definitivamente fora de foco _ cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes.

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ANÔNIMO NA PRAÇA RAUL SOARES, Belo Horizonte, MG

Um pastor disse às meninas, a drogados, assassinos, estupradores, carteiristas, fugidos, espoliados, órfãs, sidáticos – nossos vizinhos (gravado):

“Irmãs e irmãos, vivemos todos debaixo de negativas diárias, no olho do furacão, só cacos, os bagulhos da rua invejando Judas, o rebelde que recebeu trinta dinheiros emprestados, por uma boa causa-bomba, mas de milagres de peixes e de pães já se falou muito, muito se exagerou, mentiras de geração em geração, de não ser possível destrançar o baralho, mas é de se ver que o tempo da delicadeza não morreu, de fato ele nunca existiu. O Senhor está cansado, chora o dia todo, nada come, às vezes, uma papa, uma sopa, o chá. O Senhor tem consciência plena de seu fiasco ao criar e tutelar os humanos. Não temais, ímpios e servas do Demo, porque tenho a chave da libertação para vocês. Irmãs e irmãos, ouçamos este salmo: Lançai sobre Ele toda a vossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de vós. >>> I Pedro 5:7

Depois dessa, desligada a maquininha, fui pecar, antes de ser salvo. (DMC)

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Imagem: Darlan M Cunha

Canto chorado. BILLY BLANCO (PA), arquiteto e músico. : https://www.youtube.com/watch?v=kqaidHLj5ZY

Textos duros, com café – 2

Ópera dos Mortos (Autran Dourado). POPOL VUH, Livro da Criação do Mundo (MAIAS)
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PEDAGOGIA DO OPRIMIDO –PAULO FREIRE (Educador, BRASIL)

Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora ? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão ? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação ?

OBS: Este é o único livro escrito por brasileiro que consta dos cem livros mais procurados em todo o mundo para consultas especializadas, teses universitárias, documentários, etc).

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O PÁSSARO PINTADO – JERZY KOSINSKI – (Polônia / EUA)

Nas semanas que se seguiram, até terminarmos a estação dos cogumelos, caminhávamos com frequência ao longo da via férrea. Ocasionalmente, passávamos junto a pequenos montes oblongos de cinzas negras ou outro osso chamuscado, partido e misturado ao cascalho. Os homens detinham-se então, o cenho franzido. Alguns temiam que mesmo depois de incinerados, os cadáveres daqueles que se haviam lançado para fora dos trens, pudessem contaminar a gente e os animais, e apressavam-se em empurrar terra com o pé para cima das cinzas. Certa vez, fingi que me abaixava para apanhar um cogumelo que caíra do meu cesto, e agarrei um punhado dessa poeira humana. Grudava-se nos meus dedos, e cheirava a gasolina. Examinei-a de perto, mas não pude encontrar nela o menor vestígio de um ser humano. E no entanto essa cinza não era igual aquela outra que sobra nos fornos de cozinha, onde são queimados lenha, turfa seca e musgo. Comecei a sentir medo. Esfregando nos dedos o punhado de cinza, tinha a impressão de que o espírito da pessoa queimada pairava sobre mim, espionando-me e recordando-me de tudo o que lhe passara nesta vida.

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DIVINA COMÉDIA – DANTE ALIGHIERI – (Itália)

Deixai toda esperança, vós que entrais.

Estas palavras em letreiro escuro
escritas vi por cima de uma porta;
e disse: ”Mestre, o seu sentido é duro”.[…]

Suspiros, choros, gritos escutei
ressoando no ar baço de estrelas,
de quanto ao começar também chorei ­
Línguas várias, horríveis falas delas,
e palavras de dor, acentos de ira,
vozes altas e roucas, batedelas
de mãos com mãos, tudo em tumulto gira,
naquela aura sem tempo destingida,
como areal que um turbilhão aspira.
E com a cabeça de erros só cingida,
eu disse: ”Mestre, que ouço? pela dor,
que gente é esta agora assim vencida?”

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JOHNNY CASH. FATHER AND SON : https://www.youtube.com/watch?v=x9nRsYVovFg

Imagem INTERNET.

Texto é pintura. Alguns da pesada – 1

“Pedro pedreiro, penseiro, esperando o trem…” – Pedro Pedreiro. Chico Buarque.
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VERSOS SATÂNICOS – SALMAN RUSHDIE – (Índia / Inglaterra)

A cidade moderna é o locus clássico de realidades incompatíveis. Vidas que não têm nada a ver umas com as outras se misturam, sentadas lado a lado no ônibus. Nas listras do chão do cruzamento, um universo é atingido por um instante, piscando como um coelho, pelos faróis de um veículo motorizado dentro do qual se encontra um continuo inteiramente estranho, contraditório. E contanto que não vá além disso, que passem na noite, que se acotovelem em estações de metrô, tirando os chapéus em algum corredor de hotel, não é tão grave.

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O DICIONÁRIO DO DIABO – AMBROISE BIERCE – (EUA)

A parte do mundo que fica a oeste (ou a leste) do Oriente.é em grande medida habitada por cristãos, uma poderosa subtribo dos hipócritas, cujas principais atividades são o assassinato e a fraude, que eles gostam de chamar de guerra e de comércio. Essas são, também, as principais atividades do Oriente.

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O CASTELO DOS DESTINOS CRUZADOS – ÍTALO CALVINO – (Itália)

Não sei se para ti foi melhor sobreviver, ó soldado, A derrota e a carnificina não se abatem somente sobre a bandeira de tuas tropas: o exército das amazonas justiceiras destrói e massacra os regimentos e os impérios, estende-se sobre os continentes do globo submetidos há dois mil anos ao domínio no entanto frágil dos homens. Rompeu-se o precário armistício que impedia o confronto do homem e da mulher no seio das famílias: esposas irmãs filhas e mães já não reconhecem em nós pais irmãos filhos e esposos, mas apenas o inimigo, e todas acorrem de armas em punho a engrossar as hostes do exército vingativo.

As orgulhosas fortalezas de nosso sexo estão se derruindo uma a uma: não perdoam homem algum; aos que não matam, castram; só a uns poucos eleitos como zangões de colmeia concedem um adiamento…

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Imagem: Darlan M Cunha

Pedro pedreiro. CHICO BUARQUE: https://www.youtube.com/watch?v=ukyJzG9IePI

correnteza(s) que o viver mistura usa desusa

o garoto e sua companhia – MEDINA, MG
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selas 1 – MEDINA, MG
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LOCALIZAÇÃO // MEDINA, MG, BRASIL
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CASA – 12

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Onde nasci passava um rio que praticamente sumiu sob queimadas, desmates, retiradas de areia para construções, o rio no qual as mães lavavam panelas e roupas, que depois se tornou amargura ardendo feito pimenta nos olhos.

A estrada Rio-Bahia tossia poeira de mil caminhões, jipes e carroças, burros, mulas, éguas e cavalos numa vida de mesmice igual à dos donos, animais que uma vez e outra eram enfeitados para uma festa geral. O rio sumiu, o gato comeu, o rato roeu, o urubu bicou, a galinha bebeu o rio São Pedro, em Medina, MG

mas ainda está comigo, estou vindo de suas margens, com fieiras de peixes imaginários na direita, varas de bambu na mão sinistra, anzóis de tamanhos, intenções, alvos diferentes. Agora, vão para a panela estes bagres, piabas, cascudos, traíras. Cuidado com as crianças, que traíras têm muito espinho. Hoje, o rio se parece com uma estrada poeirenta.

Onde nasci passava um rio – nadei, cavalos burros jegues e éguas montei, umbu e carne de sol provei. Cavalos, onde estão os cavalos de crina, carne, ossos, grunhidos, coices, onde, que só vejo e ouço com extrema inquietação os cavalos pomposos e ruidosos, os cavalos neurotizantes e mortais dos automóveis ?

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Fotos e texto (exceto o mapa Google): Darlan M Cunha

XANGAI. A ESTRADA DAS AREIAS DE OURO (Autor ELOMAR FIGUEIRA MELO), Vídeo de MOACIR SILVEIRA: https://www.youtube.com/watch?v=-Fm1PgOIzm8

palato

BRASIL rapadura
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CASA – 11

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Não tenhas medo do prazer, lado a lado

com ele. Antes, dê o que pensar a quem

te viu e a quem te vê contando nos dedos

trevos e trevas, rios, montanhas, várzeas

descampados, geleiras, arames farpados

sanga, salinas, planaltos, planícies, cavernas

metrôs, restingas, desertos e campos minados.

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Não recear o amanhã, a poã do caranguejo

e nem outra rusga entre o bem e o mal.

Receie Das Kapital, e os perigos da capital,

o que diz e o que não diz o telejornal,

vá para casa, ao pão na mesa contumaz

lembra que é em casa que se repõe o gás

(tens heterônimo ? ouro anônimo ?)

é lá que se pode livrar da febre terçã

e se reaprumar para o dia de amanhã.

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Foto e poema: Darlan M Cunha

TADEU FRANCO. Onde eu nasci passa um rio (Autor CAETANO VELOSO): https://www.youtube.com/watch?v=ofAMOYWpd14

quase em casa

Sépalas, pétalas de Sibipiruna (Caesalpinia pluviosa)
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CASA – 10

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O azul e o branco são as cores

do barroco, e também o vermelho,

sempre junto ao branco,

além do dourado das mil igrejas.

Portais e batentes, beirais e pisos,

piso de tijolos dentro das casas,

o chão sempre frio, sensação boa,

numa parede, idealizados, pinturas

mostram Jesus e Maria – a cabeleira dele

e o olhar lânguido de sua mãe.

A casa é o que vale, música de câmera e de cama,

pronta para convalescença. Universo.

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Foto e poema: Darlan M Cunha

THE BEATLES. Across the Universe.: https://www.youtube.com/results?search_query=the+beatles%2C+across+the+universe