Talvez lhes falte sal, sono, um repto maior que a morte


Garbos constantemente incitava Judas contra mim. Aos poucos, o animal deve ter chegado à conclusão de que eu era o seu pior inimigo. A simples visão de minha pessoa era suficiente para fazê-lo eriçar-se como um porco-espinho. Seus olhos tornavam-se injetados, o focinho e a boca tremiam, e escorria espuma por dentre os seus colmilhos ameaçadores. Precipitava-se sobre mim com tamanho ímpeto que eu receava vê-lo romper a coleira de ferro que o mantinha seguro, embora ao mesmo tempo ansiasse por que ela o enforcasse. Constatando a fúria do animal e o meu próprio temor, Garbos costumava às vezes soltar Judas e, mantendo-o apenas pela coleira, fazê-lo imprensar-me contra a parede. A bocarra rosnante, espumante, estava a apenas algumas polegadas de minha garganta, e o corpo possante do animal estremecia de fúria selvagem. Por pouco se engasgava, espumando e cuspindo, enquanto seu dono incitava-o com ordens ásperas e incitações brutais. A tal ponto se aproximava que seu hálito morno e úmido bafejava-me a face.
JERZY KOSINSKI. O Pássaro Pintado.
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Poema de Darlan

Nada que magoe
por menos, que não se cumpra
nas dilacerações, que não consuma
as paredes e o sol nas unhas
pintado, a rua numa boca
gritando, não, nem um pouco de ar
para a calma das mãos,
e nem mesmo desejar a boca
excelsa sobre o meu total, emerso
silêncio. Nada.
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Recomendo:
Manoel Donini: blogue
Antônio Nogueira: site

Foto:
enviada por Iara, que a recebeu de Tattyana (EUA)

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Esta entrada foi postada em arte.

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