até que verdadeiros grãos de riso e ecos de gozo se sucedam, nada nosso pertença ao mundo conhecido

O LIVREIRO DE CABUL
“Nós não iremos a lugar algum, enquanto seres humanos, se não cometermos erros.”

A jovem jornalista norueguesa Asne Seijerstad trabalhou no Iraque, tendo antes passado cinco meses hospedada com uma família no Afeganistão, cujo chefe se chama Sultan Khan. Com direito às regras locais, às poeiras física e psicológica que sotopõem aquelas mulheres ao que há de tão incompreensível para uma grande parte do mundo, à pesada burka, às compras, ouvindo os dois lados de uma mesma questão que, decerto, comporta mais ângulos, ela, uma vez terminada a sua estadia no país afegão, começou a escrever as suas impressões de tal experiência.

Vigiado, perseguido e preso pelo Talibã, Sultan Khan foi livreiro durante 30 anos num país totalmente de analfabetos, tanto na escrita quanto pelo desinteresse em verem à frente, ou sequer periféricamente, e já lhe havia dito que “o livro é seu, você é quem o está escrevendo, então pode falar o que lhe aprouver”, algo assim, mas eis que se sentiu ofendido após lê-lo, um ano após ser publicado na Noruega (2002), tornando-se num dos mais vendidos nos últimos anos em alguns países.

Certamente que o Khan – que foi à Noruega, com advogado, acertar-se judicialmente com a autora – exige de seu clã obediência severa, cheio de si, observa as dragas de seu próprio passado moer-lhe as entranhas, embora, à primeira vista, seja um cabeça boa. Lembra-me “um cordeiro na rua, um tirano em casa”.

A jornalista pensa ter vislumbrado algo do país da Papaver somniferum, embora no seu segundo livro, 101 Dias em Bagdá, se note que não tenha tido, como correspondente de guerra, tempo para enfeixar noutro livro uma história mínima de intimidades com uma Era que ainda existe, colhe e espalha os bulbos de seu pensamento… até porque, parece, Alá é grande.
(DMC)
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Poema de Darlan
O Salário do Credo

Usa lemas legítimos no coração,
a íntima louça não se nega, não
sendo natural de seu vezo, mais de seu ofício,
o mostrar a arquitontura de que é capaz
uma criatura como ela mesma ou
igual a qualquer criatura que canta
desde que o sal era mormaço
nas salinas, sim, cá está o sol, estou eu
campo de estrias, terreno minado
sou a que usa e abusa da arquitetura
do choro entre arcos e aspas
sob burkas e metralhas
seguro a dura lança
de meus recados não ditos, amuo-me
comigo mesma debaixo da tara
dos dias faço a mim mesma duas ou
três diárias promessas, mas
o areal me tolhe, a não ser que
deixe de véus, íntimas peças
naturais, ah, isso já não me toca, cansada
de terra e sangue nas barbas do homem
que não me nomeia, natural aqui
é o risco da serva, o sexo plano
de vida: “Trate de dar-me um varão, ou
com outras me caso, além destas que aqui estão… trate
de fazer com que Alá me conceda, através
de ti, um plantador da Lei”.
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foto: Enciclopédia Tio Sam

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