Espera em si que o ar da manhã se faça, o cão abra o sorriso, a mão cubra outra mão, e a areia cubra tudo.

O LIVRO DE AREIA

Abri-o ao acaso. Os caracteres me eram estranhos. As páginas, que me pareceram gastas e de pobre tipografia, estavam impressas em duas colunas, como uma bíblia. O texto era apertado e estava ordenado em versículos. No ângulo superior das páginas havia cifras arábicas. Chamou-me a atenção que a página par levasse o número (digamos) 40514 e a ímpar, a seguinte, 999. Virei-a; o dorso estava numerado com outra cifra. Trazia uma pequena ilustração, como é de uso nos dicionários: uma âncora desenhada à pena, como pela desajeitada mão de um menino. […]

Sempre em voz baixa o vendedor de bíblias me disse:
– Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que estão enumeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número. […]

JORGE LUIS BORGES. O Livro de Areia, O Livro de Areia.
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Poema de Darlan

Coisas de que os ombros não se arrependam, nada
que se amolde a eles fora do areal a que se acostumaram
desde há muitos ancestrais, o roxo
dos caranguejos, a pífia luz
de um sorriso que, por humano, se quer pegar, ao entrar assustada na história
a mão do menino escrevendo o seu próprio
livro de areia.

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foto e escultura: Gisele Prata Real (SP)

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