O Homem e os tecidos da terra e do céu

Contos da minha casa – 1
O PRATO


Nos dias em que lá esteve, notou, mais com um ar de curiosidade do que de estranheza, que o silêncio não era própriamente um morador assíduo, e que no mais das vezes, o enfoque à mesa era de se deixar as coisas correrem, até mesmo se alguém risse de alguém. A casa era o que era: a opção única, bem diferente de outra que conhecera, da qual quase todos debandaram, por via talvez de não se entenderem. Coisa comum entre parentes é o se desejarem na Antártida, em Goa, nos Urais.

Pois bem: notou que uma vizinha sempre trazia algum petisco, coberto por uma toalhinha de fino tecido bordado, ou simplesmente recoberto com um guardanapo de papel – mas nunca descoberto. E isso tinha a contrapartida: aquele prato, após comida a guloseima, ficava ali até que houvesse algo do mesmo nível amistoso com que enchê-lo: pedaços de bolo, biscoitos, pudim, geléia, fosse o que fosse, aquele prato – que já ninguém mais sabia a quem pertencia, sendo já de todos e de ninguém – deveria sempre ir e vir cheio de vida.
DMC. Contos da Minha Casa – 1
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foto: Darlan

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Esta entrada foi postada em arte.

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