A BRASILEIRA *


MAR & GABINETE

Ainda que possa parecer – e parecerá – desdém, incapacidade, ou só provocação, o fato é que a poesia de Fernando Pessoa nunca me disse nada. Acho-a pífia pelos laivos filosóficos, trelas de mar absoluto, o aquém e além-mar, suas medidas do torvelinho, de mulher distante (mas o que sabia de mulheres este guardador de rebanho, quase de uma nota só ? perpetrou sandices com elas, com essa parte do rebanho ? Ofélia Queiroz, a quem ele dedicou poemas e escreveu cartas, tê-lo-ia mantido, de uma forma ou de outra, menos distante da realidade do vulto-mulher ?). Devo ressaltar que, embora quase de uma nota só, era uma nota-árvore (raízes, tronco, galhos, flores, frutos, alguma praga temporã, ecos malvazes da Natureza) com variantes, perpassando colcheias, semitons, mínimas, semínimas, sóis abemolados e sustenidos maiores. No doubt.

Pífia, não por ter sido pensada e redigida a partir de birosca ou café-bar ou bar-café que, em parte, servia-lhe de consultótio sentimental, escritório, barca dos homens, estábulo para a guarda do rebanho, por atenção a quem vai nos trens ou nos autocarros, ou coisa que o valha. Falta-lhe a alta essência, um nível inequívoco à algazarra da morte. Algo da carne do cais.

Com uma intensidade bem diferente da que há em Octavio Paz – uma poesia rara sobre os portos psíquicos, com sutil acercamento e percepção do brilho, do fastio e da náusea amorosa, enfim, uma poesia do pensamento –, a poesia do Pessoa é de pastor nervoso com seu rebanho de fim-de-tarde em bar lisboeta, tem fim quase ali mesmo, vivendo somente pela fortuna crítica dos amorosos de sempre, ou pela fortuna de três ou quatro aficcionados seus, musicantes, gente talvez com visão de banqueiro anarquista.

Não é para mim, assim como não o é uma parte do Drummond de Andrade (para mim, o melhor dele, pela introspecção quase sempre corroborada pelo trevo ou travo amargo de um sujeito definido, diferente mas não longe do desamparo psíquico e da falência social em José, está nos livros Fazendeiro do Ar, Lição de Coisas, Boitempo, As Impurezas do Branco, A Paixão Medida). Bom mesmo, caros e caras, é O Caderno Rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst.

Não são para mim as invectivas, as tolices de Oswald de Andrade. Continuo aqui nesta perdição inigualada que é Andara, do Vicente Franz Cecim; com a típica febre alta dos conhecedores, nenhuma catatonia, calando fontes abjetas, envenenando árias, áreas e águas falso-circunspectas, enfim, matando o bicho e mostrando o pau-de-sebo, pau-mulato, pau-ferro, madeira-que-cupim-não-rói.

Continuo no torniquete, bebendo feito um gambá viúvo de menina nova, com o lume feito por tinhosos, sem lei humana nem divina capazes de me levar a hipnoindutores, prossigo com a vazão das vascas e a presença de súcubos e íncubos, peixadas e comigo-ninguém-pode, não dando trela a nada que me contrarie a insônia e me banalize o sono (não sonho).

Queres poeta português ? Ei-lo: Daniel Faria. Outro ? Luís Miguel Nava.

De certo livro germânico, disse-se, com propriedade, que “es lässt sich nicht lesen” – não se deixa ler.“* (Não vejo nada aqui além do Fausto e/ou do Assim falou Zaratustra. Nem A Metamorfose, A Ratazana e/ou a Ética. Nada).

(DMC)
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*: Café A Brasileira (103 anos) frequentado por Fernando Pessoa, em Lisboa, em frente ao qual há uma estátua dedicada a ele.
*: O trecho entre aspas em negrito foi trazido do sítio da Tatiana, no wordpress.com
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