PARA UMA BAIANA QUE NÃO ME PEDIU ESSE TEXTO

sertão, caatinga, chapada, bahia

Elomar Figueira Mello

DAS QUADRADAS DO RIO GAVIÃO, ÀS BARRANCAS DAS ÁGUAS PERDIDAS

 

O meu conceito acerca da Música diz-me que só há um músico realmente único em todos os Brasis – os de ontem e o de hoje -, e o seu nome é Elomar Figueira Mello, bahiano da Bahia, mas não a do folclore distorcido, de algum duvidoso sincretismo, aliás, de folclore nenhum. Ele arquiteta a sua canção de forma a que os ângulos espúrios fiquem ao largo dela, e para isso cerca-a de minúcias como a clareza de intentos, a excelência de acordes ou  de movimentos, (e ponha ‘incelença’ nisso) os solos da caatinga, do sertão, da chapada, da Bahia do sim e do não, pode crer, camarada, com suas nuvens-do-nunca-vem, terras do sem fim é o que é essa música que agrada aos bodes quanto aos humanos mais sensíveis. Um passarinho me contou que a boa bisca lhe soprou que a fazenda do dito cujo cidadão é por ali, conquista sua, por lá estarei, em breve, algum dia, já sabendo que todos são bem vindos, em que pese o natural recato do distinto e pacato cidadão em questão. Elomar gosta de chuva, é maluco com raios e trovões, melhor, respeitoso com essa manifestação tão natural de dois em um, já que raio e trovão são dois temperos de uma mesma comida. Prato de bóia boa, de nome chuva, chuvisco, toró, pé d’água, dilúvio, aguaceiro, tromba d’água, um frege danado de água arrancando mourão e cancela, ponte e pinguela, de arrastar marruaz e mulher nova, cachorro e gato, novilho e homem graúdo, casa e casebre, cascavel e lebre… chuva de carregar o sono do mundo, de abrir de alegria a boca do mundo na roça da Joana e do Raimundo.

Joana flor das alagoas
Olha como Deus é amô
Encheu d´água as alagoa
Sem flor, em flor”

O ouvinte que tenho em mim é assim: vai levando na destra uma lenda, e na sinistra a consciência de não ter perdido algo maior do que aquilo que pode manter. Leva no pé direito, que é um pouco menor do que o pé esquerdo, devido a um aleijão tão antigo que não tem data em sua memória, tão antigo que ele até mesmo desconfia de que seja do tempo da formação do mundo, leva no pé direito e nos ombros uma pergunta cíclica: Deus existe ? Talvez seja mesmo uma pergunta inoperante ou, mais do que isto, desimportante. Pois bem, o fato é que com o pé e o ouvido esquerdos este ouvinte mantém na sombra o medo e afasta a ojeriza, empurra a náusea e previne-se da peste que é rir sem rir, chuta os baldes da indigência mental e da mendicância moral, e é por lutar para estar sempre leve, que ouve versos tais como “sete candeeiros iluminam a sala de amor”, e assim relaxa ao ouvir “vem, amiga, e conta uma coisa linda para mim”, isso porque “lá dentro no fundo do meu sertão, tem uma estrada das areias de ouro”, “ouço, em toda a noite escura”, assim sendo, meu compadre, “já que tu vai lá pra feira, trás umas coisinhas para mim…”

“Si eu tivé di vivê obrigado
um dia inhantes dêsse dia eu morro
Deus fêiz os hômi e os bicho tudo fôrro
já vi iscrito no livro sagrado”

Ouvi falar sobre Elomar Figueira Mello, pela primeira vez, em 1980, através de um rapaz, estudante de engenharia, do qual eu, desafortunadamente, não me lembro do nome agora que escrevo esta resenha. Lembro-me bem que nos conhecemos no Restaurante Tio Patinhas, em BH, ao lado de onde eu e a minha companheira Antje (hoje, já falecida) morávamos. Ele nos deu de presente o requinte da época: duas fitas cassete BASF, com dois discos do menestrel do sertão bahiano. Nunca me esqueci daquela gentileza. O apreço pela obra em questão foi imediato, e eu logo estava identificado com o significado pavoroso e abrangente daquele tocador, cantador e escritor, sim, narrador pleno do pleno sertão, amigo do ouro das manhãs e do pudim que há no céu do entardecer, amigo dos regos e boqueirões, das bibas e lagartixas, borboletas e coiós, sanhaços e graúnas, cascavéis e tatus, rabudos e mandacarus, piabas e bagres, pintassilgos e gaviões, carcarás, bodes e leitões. E assim, parece-me, é que ele vai arquitetando de leve os dias e as noites, violão à mão, família ao lado, as amizades suaves como uma peça de algodão, prestativo como um bornal, uma embira, uma vela de cera bruta. Uma caninha, vez que outra, vai bem, que as visitas merecem o bom caldo da amizade. E um céu de dormir sem comprimidos.

“Lá dentro no fundo do sertão

Na estrada das areias de ouro”

Elomar Figueira Mello, sertanejo e sertanista da melhor cepa, criador de bodes, violeiro e cantador, é o único compositor que achou um trevo de 11 (onze) folhas, e é também arquiteto formado pela UFBA, mas abomina ou pelo menos evita as cidades, sim, temos isto em comum: o fato de não nos sentirmos bem no burburinho. Sinto-me muito mal na cidade, mas vou criando bodes imaginários, uma que outra bezerra, novilha, égua… à beira de uma estrada também ela de areias de ouro, ainda e sempre capaz de “meter o dedo na viola”.

Longa e saudável vida ao cantador Elomar Figueira Mello, e Família.

DARLAN M. CUNHA

*****

A foto mostrando  ELOMAR FIGUEIRA MELLO foi trazida daqui:

VC – Vitória da Conquista, BA (on line), O Site da Cidade, 09-02-2011

http://www.vitoriadaconquista.com.br/tag/elomar-figueira/

Anúncios

2 comentários em “PARA UMA BAIANA QUE NÃO ME PEDIU ESSE TEXTO

  1. Angela Felipe disse:

    Mto legal a maneira como vc descreve, um pouquinho, desse grande homem.

    Curtir

    • uaíma disse:

      Muito obrigado, Ângela Felipe, pela visita e pelo comentário. Elomar é gente, é bode, é nuvem, candeia, varal… larga visão social.
      Um abraço.
      Darlan

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s