Alzheimer

Não toda a dor do mundo está aqui nesse texto, mas algo das febres do mundo aqui está, sempre o pasmo e a esperança, a louça infernal e a cozinha divinal.

O pai sofrendo Alzheimer, no fim da vida aquele riso demente perpassando de forma incrível a mesmice dos dias, sestro extremamente instigante por parecer sempre um insuperável escárnio contra tudo e todos. A mãe sofrendo Alzheimer, e aquela dor nunca mitigada apenas viera juntar-se a tantas outras infinitas dores que a vida lhe dera. Quando chegou a sua vez de padecer desta progressiva e incurável patologia, viu-se rindo com escárnio, de si e do mundo, notando-se mais leve ao abrir a sua caixa de mantimentos e a sua adega com líquidos os mais variados: de estricnina a cianeto de potássio, passando por ácido sulfúrico e curare. E assim lhe são os 1440 minutos de cada dia: recheados de chocolate amaro, os dentes de alguma besta bem cravados na sua insônia.

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