Wislawa e o comprimido

cérebro // brain

NA CALMA DAS MÃOS

Comprimido, Wislawa, sou um acalmado
por via de meios legais e ilegais,
mais estes do que aqueles, sim, eles
me mantêm sob contrato, afeito
ao que de natural não sou, não tendo
memória que me arrase, nada conspurca
o meu viver, muito menos o fato de que
mesmo estando comprimido, acalmado
com os cotovelos num balcão de onde
só misérias se avista, rio-me assim mesmo,
que a demência geral faz de um bom homem
um ex bom homem, o faz rir e até gargalhar
e gargalhar até morrer, cara Wislawa.
 
 
Poema: Darlan M Cunha

Wisława Szymborska (b. July 2, 1923 in Bnin, P...
Wisława Szymborska (b. July 2, 1923 in Bnin, Poland), Polish poet, and Nobel Prize winner. She lives in Cracow, Poland (Photo credit: Wikipedia)
OBSERVAÇÃO: Escrevi este poema aí acima, após ler este poema (abaixo) da W. Szymborska.
FOLHETO


Sou o comprimido calmante.
Actuo em casa,
sou eficaz na repartição,
sento-me no exame,
apresento-me em tribunal,
colo minuciosamente a louça partida.
Basta que me tomes,
que me ponhas debaixo da língua,
que me engulas
com um copo de água.
Sei o que fazer na desgraça,
como aguentar a má notícia,
diminuir a injustiça,
desanuviar a falta de Deus,
escolher o chapéu de luto a condizer.
Por que esperas?
Confia na piedade química.
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