o par de tênis do saci

by Miika Järvinen

by Miika Järvinen

    

   História de gente que anda pelo apartamento sem maiores cuidados com a vizinhança não é incomum, pois há quem fique à solta em casa, cansado ou cansada de imposições de uma sociedade que nada tem de liberal, mesmo se comparada com uma época recente ou distante. Se se pisa na bola, tudo está acabado, no que diz respeito à interpretação dos atos de quem ouse ir de modo diferente para os dias, ou mesmo só por algumas opiniões manifestadas aqui e ali. Então, uma pessoa minha vizinha resolveu que a opinião alheia de nada lhe vale, pouco vale, que o seu arroz com feijão é fruto seu, que a sua doença é só sua, pelo que a cadeira ao lado da cama está quase sempre vazia ou ocupada por um telefone quase mudo. Aplicando ao seu cotidiano o dito ser ou não ser, passou a colocar na panela as porcas, parafusos e arruelas do cotidiano. Sem roupa, cicatriz ao longo do pescoço, uma cova em cada nádega, vai dando comida aos passarinhos, e uma música de nome sinal fechado entra na casa. E assim, descascando alhos, cebolas e mistérios, lembrou-se de ter lido:

“Cada cultura teve a sua referência. Os gregos, o homem;  a Idade Média, Deus; agora, o dinheiro. Para mim, a referência é a vida. Recebemos uma vida e vamos vivê-la até ao final. Mas para isso, necessitamos de liberdade, para que essa vida seja a nossa e não a que nos mandam ter.” *

Crônica: Darlan M Cunha, com um trecho de José Luis Sampedro, economista e escritor espanhol (1917 – 2013), autor do romance O Sorriso Etrusco.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s