o escritor sem memória

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     Muito mais temida do que uma lenda malvaz, ou do que uma antiquérrima lei que tenha feito ene cabeças saírem de si, é uma doença que avança cada vez mais, com implicações sociais e familiares devastadoras, e da qual se sabe que ainda não há como fugir, por ainda estar imersa em muitas brumas a busca pela sua gênese. Há um escritor, nada conhecido, com um leque como o de poucos, que escreveu que o mágico abre caixotes, cadeados, cartolas; o escritor, às vezes, o futuro, pelo que muitos sintomas, assintonias e dissintonias podem existir por muito tempo, sem serem percebidas. Pode-se perguntar o que isso tem a ver com essa condição tão temida. Muito.

     Essa patologia age assim mesmo: sutil como bicho-da-seda ao devorar folhas de amoreira – o único alimento. Até que, lentamente, os números que faltam à pessoa, o rosto familiar que deixa de sê-lo, embora momentâneamente, e os óculos esquecidos num canto do universo de sua memória cada vez menor, comecem a chamar a atenção até mesmo dos mais ligados ao próprio umbigo, até pelo fato de que o tempo coevo é sinônimo de bólido, ar rarefeito, cegueira noturna, daltonismo, tremores de terra, psiquismo sob pressão similar ao empurra-empurra das placas tectônicas, à sua queda-de-braço monumental, ou seja, mundo endividado cada vez mais com a clareza. “Sou grato à dor, pois é ela que me diz que alguma coisa vai mal” – li isso há mil anos, no intróito de um livro, talvez de algum compêndio médico, do qual nem a pau eu me lembro.

     Falando em literatura, e afins, o fato é que comichões abriram-se em mim, a partir do que eu ia lendo nesta sempre bela e proveitosa página citada aí atrás, no wordpress, desta vez sobre a condição de saúde de um escritor de cepa excepcional, dos raros aos quais chamo de escritor, o qual se acha, pelo que é comentado, com as mãos nas bordas, se não no cerne do esquecimento, e os pés já em direção a não terem memória nenhuma da selva que ele próprio criou – cheia de bichos maravilhosos, uma fauna onde se pode ouvir buenos días, indo e vindo de um bicho para outro, ainda que de cepas diferentes, ou, levando para a biologia, ainda que não sejam do seu mesmo reino, filo, classe, ordem, família, gênero e espécie. Analisando assim, pode parecer-nos então que ele os imaginou como seres condenados à mais dura das solidões – de cem anos ou mais, a solidão de um baobá no meio do país do absurdo. Talvez sim; talvez não. Depende de ti, de mim; do que vejo, do que percebes.

     Essa pergunta terrível deixarei no mesmo redemoinho em que a encontrei (o diabo no meio do redemoinho): “E o que é um escritor sem memória ?

 

Foto e Texto: Darlan M Cunha

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