De cainhos e de outros

joan-miró-cão-latindo-para-lua1

Tantas vezes ele mesmo foi um cão uivando para a rua e para a lua, tanto no adro da matriz quanto no terreiro de umbanda; na trilha à beira do rio quanto no beco da zona boêmia, latindo até mesmo para o outro lado de si mesmo, que perdeu a memória de muita coisa, e assim é que “quase-memória” é o que lhe pode caber de apelido, ainda que a título de pilhéria, embora a sua ira não dê tréguas a muitos estilos pelos quais a sociedade optou como básicos, ou padrões, fora dos quais se está morto, pois não há meio termo; e assim ele ainda é um cão rosnando para a rua sempre endividada com a clareza, acessível a qualquer vento, subserviente ao falso anel de esmeralda – que muita coisa não muda nos homens, sempre prontos para manterem intacta a pele, aptos a continuar erguendo, descendo, remendando e transportando a lona do Grande Circo. Sim, perdeu a conta de quanta atenção e, mais, quanto desdém rendeu e recebeu a sua vontade consciente de agir – prenúncio de sal sujo de medos, de uma sociologia de açúcar regrado, de capim seco, enfim, um ensaio sobre cegueira e mutismo.

Imagem: Cão latindo para a lua, tela de Joan Miró                                                                                                          
 
Texto: Darlan M Cunha
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s