cabeças

The Great Heads - by Trey Ratcliff

The Great Heads – photo by Trey Ratcliff

Cabeça 1

Tenho um amigo que me diz com ar de velada amargura que ele tem feridas que nunca se fecharão de todo, são pétalas abrindo-se cada vez mais, indo ao chão, sem solução. Embora sejamos amigos de longa data, tenhamos viajado, estudado juntos, nunca lhe perguntei de chofre acerca de tais agruras, embora possa perceber algo pelas frestas, o bastante para ficar calado diante de sua batalha interior. Talvez sejam feridas de antes de termos conhecido um ao outro, que na infância e na puberdade a gente toma pancadas definitivas para a formação psicológica. Umas viram pesadelo de todo o sempre.

Cabeça 2

Meu tio Antônio, cujo nome a família abrevia, e é pronunciado como se a gente fosse dizer ton-alidade, ton-elero, tôn-ica, e não to-nalidade, numa espécie de silabação maravilhosa, quebrando regras, ou sei lá o quê, é uma pessoa que estimo. A gente pronuncia como se fosse o “on” inglês. É isso exatamente, e eu nunca ouvi uma pronúncia assim, em lugar nenhum, em nenhum dos idiomas dos quais tenho alguma noção. Ton-alidade, pronunciada bem assim, com a primeira sílaba deturpada, e não como Tom, de Tom Jobim. Há uma diferença incrível, uma sutileza danada aí, porque a fala TEM de ser anasalada rumo à letra “n”, mas sem duplicar o “o”, dita seca ou suavemente. Desde sempre minha família chama assim a esta pessoa bondosa ao extremo – pai, avô e bisavô, sempre sorridente este irmão de minha mãe. Pois é, sempre de camisa branca, de mangas compridas, calça e sapatos pretos, religioso, dado a andar horas pelos descampados, mesmo aposentado, trabalha como vigia, ele tem o curioso e antigo hábito de sentar-se de cócoras, como é comum entre os vietnamitas, por exemplo, povo antigo, sem melindres, até porque nem existia cadeira. Quem não está acostumado a ficar de cócoras, calmamente fumando ou jogando conversa fora, pode desistir de imitá-los, pois em poucos minutos você se levanta com dificuldade, porque na tal posição não dá para ficar jogando nada fora – nem conversa e nem fumaça de cigarro. Rir nesta posição é difícil.

Cabeça 3

*
O que é o amor, senão contidas
incertezas, vieses de que lua e sol
podem olhar-se no deserto, de frente,
sem de todo se fazerem dementes ?

O que é o amor, senão gavetas
com velhas joias da fala, olvidadas ?
Se amar é carência alimentar, assunto
subliminar, cabe medir se o Homem
pode sobreviver ao que cria.

***
Texto: Darlan M Cunha
Fotografias de // photos by Trey Ratcliff:

https://www.google.com.br/search?q=trey+ratcliff+burning+man&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=5lHWVNPaHcKnNpCsgegN&ved=0CB4QsAQ&biw=1525&bih=777&dpr=0.9

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