subida

 

Subiu na construção como se um traquinas

e ficamos embaixo descascando dúvidas quanto

à possibilidade fatal, quanto a se ele poderia

e eu também poderia ficar ali sob o sal do dia

entre aquela gente estupefata, ciente de nada

toda esquecida de ir para casa, lassa, demente

e, como é de praxe entre dementes, sorridentes.

 

Olhou para baixo, como se procurasse o amor

de sua vida, sem intriga, um discreto aqui e ali

que assim é o amor – costuma ser cego, tolo

de uma doçura e de uma maldade sem fim.

E nada poderia impedir suas mãos alisando

aquelas paredes, seu sustento, o sustento exato

de seus rebentos, talvez uns dez, e talvez pensasse

na pelada de domingo, com cachaça e dobradinha.

 

Comeu feijão com arroz como se fosse páscoa

pois o pescoço do prazer não é de se desprezar,

e assim, olhos vidrados, olhou novamente para

o rosto do asfalto, o bafo das pessoas, o pacote

de pão no subaco de um, e o vestido xadrez de outra,

e assim ele olhou pela primeira vez para o céu

e sentiu algo de si em toda aquela súcia lá embaixo,

sentiu que o céu não era para ele, que o inferno,

sim, era promessa e premissa. Logo estaria com sua Nêga.

 

Texto e foto: Darlan M Cunha

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s