pimentas, angu e couve (Sancho Panza virá de visita, o barril de vinho está reservado)

pimentas, angu e couve

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     Na fazenda dos meus avós paternos não havia sinal do que viria anos depois, nada ali se ressaltava, a não ser as couves e as alfaces, os tomates, mangas, romãs, laranjas e limões, despencando, ou seja, na falta de mãos para colhê-las, frutas e legumes ficavam pelo chão, que a fartura da terra era algo tão comum quanto a fartura de ar claro, ar bom, no qual a gente escrevia o nome da amada, do amado.

     Meus avós morreram, minha fazenda deteriorou-se, diluiu-se por completo, muito de mim morre todo dia – não pela fazenda, mas pelo que nós nos damos de herança todos os dias: a fuga da razão, do que pensamos ser razão, do que nunca existiu, pois em nenhuma Era da trilha humana a razão foi levada a sério.

     Penso nisso, cortando couve e bebendo lágrimas de cana de açúcar, com limão capeta. E enquanto o assado pipoca, de leve, releio algo do Dom Quixote (riso certo), revejo o gordo e tagarela Sancho Pança, sempre imaginando petiscos e vinho. Para entrar no inferno é preciso estar de bem com o diabo, porque o diabo é o ícone, e o inferno benesses.


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Foto e texto (e o preparo na cozinha): Darlan M Cunha

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Um comentário em “pimentas, angu e couve (Sancho Panza virá de visita, o barril de vinho está reservado)

  1. […] via pimentas, angu e couve (Sancho Panza virá de visita, e o barril de vinho está reservado) — uaím… […]

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