Escola: uma faca só lâmina (JCMNeto)

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escola de facas // school for cooking

*

     Uma faca não sofre de dúvida existencial, que a ela só lhe toca cortar com a calma mais fina (o bisturi), ou retalhar com a descompostura dos desatinados numa briga de rua ou de bar (peixeira, também dita lambedeira, canivete automático, facão, machado, gilete), que a ela não lhe dá se é domingo, segunda-feira ou se não é dia nenhum, até porque a sociedade vai em direção a abolir quase tudo aquilo que hoje é praxe, inclusive datações, e assim é que a memória já está de sobreaviso, cenho franzido, já se sabe condenada a ser memória sem memória, algo inerente aos que padecem de Alzheimer, mas de alcance geral, de afetar a todos em todos os lugares.

     Uma faca não sofre de hesitação existencial, com ou sem ferrugem, com ou sem dentes, afiada ou cega, torta ou em linha reta sua lâmina, com o cabo quebrado ou não, ela é de se achar e de se perder em algo: na polpa de uma fruta, nos tendões de um legume, no frouxo de um pudim, nas nervuras de homem e mulher, de modo a que se cumpra como tal: faca, e dela se possa dizer ou escrever algo, imaginar e desenhar-lhe o trajeto

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;*

*

Foto e texto: Darlan M Cunha

*: Em itálico: João Cabral de Melo Neto, excerto do poema Uma faca só lâmina

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