à mesa – 3

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tormento gratuito

*

     Há quem come depressa, esbaforido, num vu, ao passo que outras pessoas comem pouco e devagar, avaliam os ventos do dia, o peso e o avesso do anonimato, a pesca rumo ao conhecimento, as vestes do desãnimo, e coisas e tais, mas os contrastes à mesa não acabam aí, não, porque há os ovívaros e os pantagruéis, ou seja, comem absolutamente de tudo; e há aqueles e aquelas, com melindres de “ah, não como isso e nem aquilo, não gosto de jiló, pimenta, pequi e abacaxi; ovo me faz mal, não consigo ver a cara de pepino, carne de porco me dá pipocos na cara, espinhas, e assim por diante, além de que a balança me dá nos nervos da barriga, mesmo que seja só vaidade masculina”. Pois eu também – alguém à mesa pode dizer –, não suporto coentro e peixe frito, não me dou com quiabo, não posso com a coqueluche de caranguejos marinhos, ostras e mexilhões, embora que em muitos países, se não em todos do extremo oriente, tais como a Indonésia, a Tailândia, o Vietnam, a China, etc, se come absolutamente de tudo, é só ir aos milhôes de feiras e mercadinhos e restaurantes em plena rua, para provar grelo de bambu, rãs, escorpiões fritos ou torrados, marimbondos, cobras e enguias vivas, aptas a serem esfoladas e preparadas ali mesmo, peixes nadando tranquilamente, os quais logo estarão tanto na boca do populacho quanto na mesa dos bacanas locais e dos turistas (devagar com o andor do entusiasmo).

     Mas há quem não come nada de nada, porque doentes; e há quem não come nada de nada, porque a guerra come todo o dinheiro da nação, come a merenda escolar, atua sobre a vontade de reagir; a guerra é insônia, é falta de menstruação, mesmo que não se esteja grávida, yes, la guerre c’est un oiseaux de fer, un oiseaux sans plumes, e isso me lembra as telas Os comedores de batatas, de van Gogh, e Os retirantes, de Portinari. No entanto, nada é para sempre, diz o povão, pelo que resta a vontade de seguir, e assim vamos aos novos endereços. Hora é, com fome qualquer coisa serve, no auge do delírio da fome, até a sola da botina se transforma num suculento bife de búfala da ilha de marajó. Num dos filmes de Charlie Chaplin há uma cena assim.  Rir é o segundo melhor remédio, porque ir é o que há de mais sensato. Pé na estrada, porque viajar é mais. Ir.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

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