Rastros da minha aldeia – 6

Da tabacaria à sapataria

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     Nesta aldeia o uso de calçados foi descartado em definitivo, por não se ver neles razão de estarem mostrando-se por aí, gastando o dinheiro familiar. Basta de couro de jacaré, de sandálias de plástico, de saltos nº 8, 10 e mais; chega de tênis, vamos aos não correlatos, à leitoa assada no rolete, com uma bela maçã na boca, sua pele brilhante estalando.

     Os chineses andam sobre o que fazem de bambu e silêncio, e até dizem que a mais longa caminhada começa com o primeiro passo. Como discordar ? Nossa aldeia, modernizante, vetou o uso de supérfluos como os calçados, pelo que conhece o gosto de vidro e corte, do prazer de terra na sola dos pés, cheiro de água nos dedos (aqui, água tem cheiro, água é seda legítima).

     Não temos loja de nenhum tipo de material. Tudo é no escambo ou troca: uma vaca por dois bois, um homem vale um homem, uma mulher vale uma mulher. Entenda. Nem mais e nem menos. Entenda.

     Aqui é impensável que alguém diga ou escreva, por exemplo, ofensas como esta: ” Prove you’re not a robot, a pingback, a lunatic, a hacker, down machine, a beggar, machine downtime…

     Chutamos a bunda do deus do Tempo: Cronos. É verdade, não há nenhum relógio nestes domínios, dentro das fronteiras desta aldeia, e pelo que sabemos o relógio mais próximo está na capital, a qual evitamos, relógios aos milhões.

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foto e texto: Darlan M Cunha

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