magia & realidade

TRÊS TEMPOS DE UM REPASTO. (POR FAVOR, SENTE-SE E SIRVA-SE) >>>>> [clique na foto…] Para CRISTILEINE LEÃO // para TODOS E TODAS

*****

O QUADRO DE PANO *


Os filhos são adestrados como camaleões, mas não só por isso conta-se aqui uma bela história que eu nunca ouvira, acordado ou em vigília, uma história ou estória passada em lugar e tempo incertos, melhor dizendo, tem origem no Tibete, história ou estória falando dos inumeráveis sacrifícios maternos e de rixas entre jovens irmãos, mas isso é mesmo humano.

*****

Imagine encontrar numa feira de rua um quadro com uma paisagem

capaz de chamar a atenção dos cegos, desenhada num tecido

de cor indefinida, causando sensações estranhas, mágica peça

chamando e até gritando seu desespero, sim, um quadro intrigante,

feito de pano, com uma paisagem tão clara quanto uma manhã

quase perfeita, não fosse pelo fato de que irmãos se desentendam

pela peça, e de que as mães sofram sem aparentar, em silêncio,

mas é preciso correr atrás do necessário (e até do desnecessário)

e assim é que numa tela comprada numa feira do mundo

pode-se de repente perceber uma cruz, uma pedra ou uma luz

um funil  e um túnel, e também se pode achar algum assombro

numa pintura crivada de azul feito o oceano e o céu de certas bocas,

e assim é que pode acontecer, numa andança sem pé nem cabeça,

ao azar mais completo, de encontrarmos numa feira no Tibete, por

exemplo, uma razão para coabitarmos melhor, embora condenados

a buscar o pão da felicidade recheado com a geleia da insônia

pois se pode achar de tudo na pele e no fundo do mundo, até mesmo

encontrar-se a si mesmo se pode, e se a ave nos vai bicando o fígado

ela logo se cansará de ti, duro na queda que és, subindo montanhas

e descendo da forca no último instante, e a andança continuará

nua e crua, e na bagagem irá um quadro de pano com o contorno

de um rosto entre homem e mulher, mas não o do cristo –

que isso é pouco, e aqui se diga que os viúvos vivem numa janela

sem tempo e sem espaço – ambos abolidos da perspectiva deles -,

e se alguém recita uma dor, outros tentam colorir a rua onde moram

ou tentam dormir onde o sono também foi abolido, e ainda há quem

incuta nos erros um ar de legalidade, há quem chute a pedra no seio

do caminho, enquanto a música, este antigo seixo, abre nossos poros

e quebra nosso desleixo. E se o caldo familiar engrossa, lembra

que roupa suja se lava é na rua, na feira, no pátio dos templos,

roupa suja se lava é ao ar livre, queimando-a numa fogueira

especial, levando com ela o irrisório e o monumental. Jardim, cinzas.*

Comprei numa feira de rua certa felicidade: um quadro de pano. Magia.

*****

DARLAN M CUNHA

2 comentários em “magia & realidade

  1. Não conhecia esse conto popular ” O quadro de pano” fiquei encantada. Pelo jeito, ele te pegou de jeitos, risos. Abraços Darlan🙋🏽‍♀️

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    • Ah, para que não fique mal entendido, não conhecia esse conto popular antes de publicá-lo no YouTube, pelo jeito você também gostou porque lhe inspirou. Agora sim, risos, o comentário ficou completo 😂🙋🏽‍♀️

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