POST nº 1007: Carta a DOSTOIÉVSKI

Faz escuro, mas eu canto (verso do poeta THIAGO DE MELLO)

Caro Fiódor Mikhailovitch DOSTOIÉVSKI,

       Entendo que num mesmo dia se possa sentir frio e calor, fome e saciedade, dar com os burros n’água e ser carregado em apoteose; entendo que a prisão não seja para todos, sabemos que há muitos tipos de prisão, mas em nenhuma delas a mente sossega. Vamos refrescar a memória, com texto teu, mas antes, devo dizer, após pensar, bebendo uma xícara de café e uma dose de vodka com água de coco, sim, devo dizer-te que tudo é teu, tudo é meu, é nosso – tudo aquilo que a todos nós acompanha como um sossego ou como uma maldição, nada nos deixa em paz, e assim, falando no coletivo, ponho algumas palavras tuas aqui, do teu livro OS DEMÔNIOS:

“Os nossos não são apenas os que degolam e ateiam fogo, e ainda fazem disparos clássicos ou mordem. Gente assim só atrapalha. Não concebo nada sem disciplina. Ora, sou um vigarista e não um socialista, eh! eh! Ouça, tenho uma relação de todos eles: O professor que ri com as crianças do Deus delas e do berço delas, já é dos nossos. O advogado que defende o assassino culto que por essa condição já é mais evoluído do que suas vítimas e que, para conseguir dinheiro, não pode deixar de matar, já é dos nossos. Os colegiais que matam um mujique para experimentar a sensação são dos nossos. Os jurados que absolvem criminosos a torto e a direito são dos nossos.”

E assim se pode ver e sentir, caro Fiódor, subjugado que foste pelo jogo de baralho (mas também nisso foste coerente, porque a vida é mesmo um jogo, segundo a boca do povo), eis a força e a abrangência do pronome nós, o qual também é verbo, substantivo e partícula apassivadora, que é o que o “se” é: partícula apassivadora, e por aí vai o mundo, tresloucado, vendo e fazendo coisas que o próprio Satã duvida que sejam possíveis – mas gente é gente, é capaz de maravilhas ao avesso. Sei que o próprio Sigmund Freud lia você com cuidado, com um pé atrás, como se diz de determinadas situações ou avaliações, ele ia aprendendo contigo as nuanças do comportamento, da ira incontrolável, a ira de profundo cunho genético, psiquíco, sim, o cara de Viena tremia nas bases, enquanto a tua epilepsia te castigava.

Meu dileto amigo, vou para casa, as feridas dos grilhões ainda estão abertas, iguais às tuas, purulentas, coçam barbaridade, doem, sangram, é preciso cuidar delas constantemente, porque a gangrena não dorme, sabemos, sim, foram duros aqueles anos no cárcere: os piolhos, a sarna, um balde para o banho semanal, os mil acossos, e toda aquela súcia, aquele bolo de homens e lobos transformados em zumbis, com imprecações, todos sempre com correntes nos tornozelos, quarenta graus negativos, semana após semana, mês após mês, ano após ano, muitos deitaram-se para não mais, isso porque na Rússia se nasce no gelo, vive-se no gelo, e se morre no gelo.

Sobrevivemos, mas ainda me lembro do pavoroso episódio em tua vida, e de muitos dos teus companheiros de infortúnio, levados ao pátio, vários soldados perfilados para o fuzilamento, mas no último momento chegou uma ordem suspendendo o programado. Era tudo armação, mas posso imaginar o vazio, o silêncio, o tremor dos dedos nos gatilhos, suores frios, a lembrança da Mãe, eis um pálido retrato da situação, ou a grandeza da honra quando ou se sob tal ameaça, olhos nos olhos. Foi uma armação cruel, maquiavélica, algo para corações e mentes fortes, não houve nenhum desmaio no pátio.

Caro amigo Fiódor, despeço-me já, porque é preciso, mas logo voltarei a montar a cavalo. pescar, e talvez, assim como o teu personagem, o jovem estudante Raskolnikov, em Crime e Castigo, eu também talvez mate alguém. Pois é, o pobre Raskolnikov matou a velhota usurária, para roubar-lhe algum dinheiro escondido no colchão, na louça. Matou-a, simplesmente, após subir a fria escadaria rumo ao quarto da pão dura, no entendimento dele, era injusto um jovem sem um copeque sequer no bolso, mas com curto-circuito na mente ou na alma, para quem crê em alma, e uma velha carcaça daquela cheia de dinheiro. Algo teria de ser feito, e ele fez. Depois, foi aquele jogo psicológico intenso do delegado sobre o jovem – gato e rato.

Aquele abraço, prezado petersburguês, ou natural de São Petersburgo / Санкт-Петербург

Darlan M Cunha

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