as cidades, 8 [final]

Bairro Buritis (prédios), BELO HORIZONTE, MG

@1.

De repente, à nossa frente, ou dentro da gente, um beco com saída, logo vem a pergunta: E agora ? Mas, se se estica a vista, a mão em pala na testa, se pode sentir algo da trama urbana, suburbana ou rural, o rescaldo do incêndio diário, um choro de mãe, o pão à mesa, e que aquela viagem saia do papel de ser só vontade ainda não cumprida, ó, o mundo é sopetão, sustos e outros recados; sendo assim, dê uma geral no teu bairro, na tua aldeia; antes, porém, uma geral nas tuas ruas, becos, alamedas e avenidas interiores – as tuas, teu espelho, teu sofá, o fogão sempre solícito, tua cama porventura triste. Quando não estou bem, quero ficar pior ainda, até chegar ao fundo mais fundo do poço, e assim não ter mais para onde ir, senão voltar à superfície, com doloroso esforço.

@2.

A monstrópole tem muita fome e muita sede, vive comendo o sanduíche do barulho, decibéis são festa, pelo que ninguém dorme, todos felizes diante da tela às tantas da madrugada, sim, o dia começa é na madrugada, repito uma vez mais: o dia começa é na madrugada. A suicidade é gulosa, mas também é generosa, cheia de oportunidades às claras; outras, mais ou menos sutis, escondidas, boas oportunidades, escadas para se subir socialmente, e coisas e tais. Encantado, encantada ? Vá.

@3.

Meu amigo Gengis Khan disse, e muito mais fez disparates, maldades sem fim, de forma que onde seu cavalo pisava nunca mais nascia grama; rindo, estuprava, rindo, mandava esfolar ou degolar, sempre risonho este mongol, ridente, o amigo de lá das longínquas estepes, encavalado, comandando um exército de malvados, hehe… Ó vida, Margarida. Khan disse: Eu sou um castigo, um flagelo de Deus. E se você não cometeu grandes pecados, Deus não teria enviado um castigo como eu.

@4.

Decerto que o teu silêncio / diz boas noções / sobre alguma meta / que tenhas em mente. / Decerto que as tuas angústias / forram os teus dias / mas o meu cansaço é outro / meu egoísmo não dá sossego / e, pior, me afasta dos outros.

@5.

Vamos ao que interessa, sem maiores delongas, sem meias palavras, sem papas na língua, vamos ao Absurdo, ao Avesso do Avesso, sem maiores perlongas, noitadas em branco, as impurezas do branco (Drummond), ir é o melhor supositório, o melhor escritório é ir, a clínica mais eficiente, o medicamento exato é a atitude ir.

Universidade PUC, Barreiro de Baixo, BELO HORIZONTE – Moro a dois quarteiróes daí, mas noutra rua, sossegada.

Darlan M Cunha: fotos e texto

FERNANDA ABREU canta Samba e Amor (Chico Buarque): https://www.youtube.com/watch?v=bTbN5gKGdV4

2 respostas para “as cidades, 8 [final]”

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