Cenas inesperadas do cotidiano

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A mesma esquina da crônica de hoje – mas com outro acontecimento.

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     Hoje eu vi da minha janela (Da janela lateral do quarto de dormir),* uma cena interessante, embora banal: um homem de uns 40 anos, motorista de caminhão-reboque, guinchava um carro quando um senhor de uns 80 anos parou junto ao caminhão e puxou conversa, o rapaz acedeu, mas continuou passando correntes, depois levantou a carroceria com o carro em cima. Conversaram um pouco.

     Mas eu achei o máximo foi o interesse do vovô em torno daquele trabalho, algo assim como uma criança vendo um marceneiro dar forma a um móvel. O vovô agradeceu, abanou a mão, e dobrou lentamente a esquina, levando uma pasta. Acho que mora no bairro ao lado – o Estrela Dalva.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Trecho da música “Paisagem da janela”, de LÔ BORGES

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Pampulha – BELO HORIZONTE, MG – BRAZIL

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Eu queria fazer muitas coisas – e fiz. Muitas outras também fiz; e milhares de outras ainda nem deu tempo. Mas como eu (e vocês) estamos na flor da idade, então, será possível.

É como diz uma das minhas sobrinhas – uma pestinha: “Tiô, nóis vai botá pá quebá.” Pois é, só rindo. Bom domingo, boa semana.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

uma escultura toda ouvidos:

mexilhão

Lembra carapaça de mexilhão, chapéu oriental, satélite, pião… (infelizmente, ainda não sei o nome do autor ou da autora desta bela obra).

Pampulha, BH, MG, Brasil

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@1

     Qual deve ser a sensação de se ter dois nomes, pois um deles não é autêntico, não é reconhecido em documentos oficiais, incapaz de segunda via deste e daquele, incapaz de fazer valer autenticações em cartórios, delegacias e bancos (por exemplo, alguém que queira tornar-se procurador legal de outra pessoa, manejando o extrato, etc) ?

     O que é ter nome de batismo e, por exemplo, ter por toda a vida um nome artístico, ou carregar nome e sobrenome surgidos sem que se pensasse em futuro para eles, coisa de brincadeira de botequim, uma alcunha arranjada para o carnaval, ou coisa que o valha ?

     Deita-se e levanta-se com qual deles ? Há trocas neste deitar-se e levantar-se ? Essa pergunta psicológicamente sofisticada e ao mesmo tempo satírica procede (penso que vai fundo no humano demasiado humano; na catarse, no desgastado ser ou não ser).

     A partir da boca do Outro, qual será o teu, o meu próximo nome e sobrenome ? No livro Todos os Nomes, José Saramago escreveu algo sobre os caminhos ou descaminhos nos quais os nomes costumam estagnar. Os nomes, como se vê, acham muitas pedras pelo caminho.

@2

     Numa entrevista, Jorge Amado, de dentro de sua calma inconfundível, de sua visão larga da vida, disse algo assim como que o Brasil, mais do que uma convivência de raças, é uma fusão de raças, esta é a essência de sua mestiçagem, e eu entendi que seja algo assim como fazer, juntos, a aldeia, e não apenas morar na mesma aldeia, embrenhando-se de fato uns nos outros. Isso me levou ao dramaturgo Dias Gomes, quando disse que o Brasil é um país que desmoraliza o absurdo.

@3

     São cinco da manhã, acabei de consultar uma folhinha ou folhetim especializado na questão, e notei, com pasmo, que o dia de hoje – 1 de agosto – não é dedicado a ninguém, a nenhuma profissão, a nada. Enfim, um dia de todos.

Carta à Mãe (94)

PAMPULHA Igreja São Chico de Assis (Niemeyer,

Igrejinha São Chico de Assis, 1943  (Oscar Niemeyer e Joaquim Cardozo. Foi ornamentada por Cândido Portinari, Alfredo Ceschiatti e Paulo Werneck.). PAMPULHA, BH, MG, BRAZIL

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Contagem regressiva

Êpa ! isso dá samba

Êpa ! isso dá samba, rock progressivo, cantiga de ninar…

A BELA 2018

A BELA DA MANHÃ – 29/07/2018

(7ª Corrida da Cooperação. Pampulha, BH, MG, BRASIL)

 

CARTA À MÃE nº 94

Dona MARIA,

voltei à Pampulha e me deixei levar pelo ror. Mãinha, ror significa multidão. Pois é, lá fui eu, meio alquebrado, mal preparado, mas fui à luta, como diz o povão, e enquanto eu corria a minha corrida, com a famosa lagoa ao lado, pensei coisas, nem sei como, isso porque esse tipo de cansaço quase faz a gente até delirar, quanto mais este teu filho que vive delirando, amante que é de nuvens e dunas.

Na primeira volta, veio-me uma lembrança do futuro (ou seja, o delírio já dava as caras), sonhei com um mundo todo pelado, sem lojas, nenhum cédula, nada de motores, porém, ou por isso mesmo, funcionando às mil e uma Xerazades, ou às mil e uma maravilhas. Vi com tudo todos os olhos, lembrei-me do rei Salomão com a sua máxima de “olho por olho…”, e quase errei a passada ao ver todos os templos do mundo e todas as igrejas em cinzas, não em ruínas, em cinzas, e nada de deus, só o diabo da alegria vigorando neste mundão que nada mais é do que uma feira de descalabros sem fim.

Mãinha,

não se preocupe, porque farei com que tudo vire ex: ex isto, ex aquilo, ex aquiloutro, menos o meu carinho pela Senhora, e o meu inesgotável incentivo ao bom humor, minha vontade de aprender a ler e a escrever nem que seja discurso político, apesar de que todo ato é político.

Mãe,

hoje, segundona querida ou segundona brava, desatei o nó da gravata, saí ao contrário do meu amigo, o filósofo grego Diógenes, O Cínico, procurando um homem (Êpa!) que seja algo assim mais ou menos desonesto. E vi que tudo mudará com a minha tática, sim, Mãinha, o mundo mudará com o eclipse que preparei para ele, hoje, às 23h 59s, ou para o dia que der, dará.

Tudo de bom, meu doce de coco com cacau, meu pavê. Verei a Senhora, amanhã, já respirando o Admirável Mundo Novo (um mundo já sonhado na década de cinquenta pelo inglês George Orwell, pobre coitado, um mundo já cantado ou antecipado por todas as mulheres e por alguns homens muitíssimo antes dele, ou seja, desde o primeiro dia).

Mãe,

levarei dois molhes de couve e um de ora-pro-nobis, e aquele queijo Canastra. Um beijo e um abraço do teu filho meio desmiolado, mas bom garoto.

Darlan

luadeluar hoje é noite de sombra… ação, pois !

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TRAVESSIA – Milton e Brant (Fiz essa foto em 2006, Praça da Liberdade, BH)

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     Hoje é o dia do eclipse mais longo do século 21. Curioso quanto a isso, não sei bem o que farei, talvez suba no telhado, e fique por lá esticado como uma lagartixa ao sol, ao luar ou à falta de luar, ou me transforme num gato com direito a sete vidas e mil e uma artimanhas próprias dos gatunos, segredos serão revelados e cabeças irão rolar, e talvez até se veja o que o Pink Floyd pensa ter visto, ou seja, the dark side of the moon.

    Numa situação incomum como a que acontecerá em algumas horas, é comum que as pessoas fiquem entusiasmadas ou alarmadas, não há meio termo, crentes ou descrentes, satíricas ou carrancudas, todas as pessoas sentirão o passar do astro, e os bêbados irão se fartar, ou porque vivem nas ruas, ou porque são poetas por natureza. Vão faltar verbos e adjetivos para tamanho eclipse. Mamma mia!

     São 5 da matina, supersticioso, tenho tanto medo do escuro como uma criança que foi sistemáticamente assustada e escorraçada, sofro ene pavores e suores, mas, pensando bem, ao diabo com sonatas ao luar, vou é botar meu bloco no topo da colina, e uma vez mais, com os Beatles, cantar day after day, the fool on the hill, ou the lunatic is on the grass, do Pink Floyd, ou cantar, com o Milton, a lua girou girou, traçou no céu um compasso, a lua girou girou, ó, pensando bem, hoje não é dia de cantar, dia nenhum é dia de cantar, foi declarado que estamos abolidos deste fardo. Mas o que será da terra e da lua e do sol, de deus e do diabo, se ninguém cantar feito galo, canário, gato, cão, uirapuru, hiena e veado, sortudo e azarado ? Revogada então está a proibição de cantorias nas terras do sem-fim, na terra do benvirá, nas carrancas do rio gavião, no grande sertão cheio de morte e vida severina, no Curral del Rey (nome primeiro de Belo Horizonte, 1897).

Vamos pra lua, lunáticas & lunáticos ! Vamos pra Pasárgada, lá seremos amigo/as do Rei.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Vídeo-tour da NASA (09 julho 2018): https://www.tecmundo.com.br/ciencia/129113-nasa-divulga-video-tour-lua-4k-assista.htm

outro homem sem qualidades

conversa pública

em aberto

 

@1

     É comum eu me lembrar de fatos ou situações quando estou fazendo algo sem nada de especial como, por exemplo, coar café ou tratar do canarinho Milton Sentimento e da periquita Ana a Vadia; nada incomum como levar um tropeção ou soltar um palavrão ao reclamar de outra fila, e foi assim que me lembrei do livro O Homem Sem Qualidades, do austríaco Robert Musil, um livro que ficou inacabado, pela morte do autor, cuja primeira parte foi publicada em 1930, e a segunda em 1937, marcando presença na Europa. É um livro de perguntas, questões filosóficas, de cordas sem pontas, de lápis sem razão de ser, de papel passado à inquietação, fala das muitas forças de opressão, do consciente e do inconsciente (sem ser uma obra psicanalítica), uma obra que nos leva a pensar em como é que tanta gente é levada ou permanece por toda a vida sem dar a cara – é assim que ainda o vejo: ético, sem saída, areal movediço, vários túneis ferroviários cruzando-se sem sinalização nenhuma, réplica e tréplica no esquecimento, alguém que ganhou na loteria, mas perdeu o bilhete.

     Por acaso, encontrei no blog Livros que eu li uma apreciação daquilo que Robert Musil apresentou numa conferência em Viena, em 1937, de nome Da Estupidez // Über die Dummheit. O autor do blog, Aguinaldo Medici Severino, escreveu que “ele começa a palestra provocativo, afirmando que a estupidez se assemelha tanto com o progresso, com o talento e com o aperfeiçoamento das coisas, que quase todos aprendemos que a atitude mais inteligente que podemos adotar neste mundo é a de nos fazermos notar o menos possível, a de passarmos por estúpidos.

@2

      Fiz essa foto durante uma corrida no bairro São Bento, BH, onde duas cadeiras, vazias como um diálogo moderno, como que anunciavam mais um dia de vácuo, ou quase. Não conseguindo ver nenhum dos vigias (note o detalhe do cabide), pensei ter ouvido vozes, e me inquietei ainda mais, já esquecido da corrida, pensei que eles podiam ser invisíveis, ou seja, para além das minhas possibilidades. Ser invisível acarreta inúmeras vantagens, e eu nem quero pensar que este dia para mim chegará.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

vãos

Escultura em aço, av. Raja Gabáglia, BH

Av. Raja Gabáglia, 2280 – Cidade Jardim, BêAgá

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     Até ontem eu não sabia nada de nada, mas sempre me renovo, mesmo no vazio, crio coragem para melhorar para mim mesmo a minha imagem (isso até dá samba & poesia, parece que sim, parece que não), queria ser escultura que muitos, não todos, parassem para perguntar algo a si mesmos, ou a mim (isso faz muita diferença), de platina, de aço, de alumínio ou de estrume, queria ser escultura na qual jogassem pedras e até fezes (não te lembras da Geni ?), porque a aldeia é o nosso lar – nele estão os instrumentos da minha e da tua percepção geral, os unguentos cotidiários contra a tortura de um sapato apertado, das ruas apinhadas, do metrô às escuras, puro terror, é isso, hoje é um novo dia, dizer que é um dia a mais está certo, mas dizer que é um dia a menos na conta geral também está correto. Escolher.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Visite AQUI-Ó: https://www.flickr.com/photos/aqui-o/

samba pa ti*

Moça inquieta com balões.

Aniversário de BH – 12 DEZ – no Mercado Central de Belo Horizonte, MG

 

A gente não escapa do passado, pelo menos não de todo, ó, pensando bem, tudo vai com a gente” – disse, o entorno calou-se, abrindo memórias entre bebidas e tira-gostos.

     A propósito da postagem de ontem – Mochileiros – falou-se sobre andanças pessoais, as quais, como outras, podem ser sentidas e ‘vividas’ por pessoas que não conhecemos ao vivo.

     Pois bem, ainda ontem, num canal de tevê ouvi um fundo musical que me levou de novo a uma época vivida tão bem quanto me foi possível, muito embora eu não tivesse consciência disso, mas o que importa é que o que saía do solo da guitarra era a suave Samba pa ti, do Carlos SANTANA, e eu logo viajei no lombo de Cronos, deus do tempo, e hoje eu posto esta homenagem que é também para mim que sobrevivi a muitas batalhas – como você certamente também sobreviveu.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

SAMBA PA TI (SANTANA BLUES BAND): https://www.youtube.com/watch?v=j5AUm_xaE9A

MERCADO CENTRAL de BELO HORIZONTE (Site Oficial): Mercado Central de BELO HORIZONTE, MG

Caminhos do Mundo – 1

Caminhos do Mundo - 1

ir e vir

 

       Se a alegria vive fantasiada, perdida numa sombra maior do que ela, crianças notam o rumo das coisas, os fatos, as rugas no rosto do dia, ainda que esteja vestido de palhaço, noel ou disfarçado de coelho saindo da cartola. Dentes ao sol, há o que ler, ver e fazer.

 

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Foto: Vó Maria José M C     >>>>>     Texto: Darlan M Cunha

Visite: http://www.gargantadaserpente.com/toca/poetas/darlan_cunha.php

Um só

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Região do bairro Belvedere, BH – Mata do Jambeiro

 

    A solidez da solidão é sóbria, vasta é a sordidez da comunhão de bens para uns e outras – Ó, isso é meu, e o que é teu também é meu. A solidão às vezes depura, outras vezes enlouquece e leva à loucura, e de certa forma todos nós somos atrelados a ela, suas vítimas, sua razão de existir, porque sem nós ela não existiria, ou será que ela é mais antiga do que a própria genética, do que a própria noção do psiquismo atuando, do que a própria invenção de deus e do diabo dividindo os terráqueos ? Durma, melhor dizendo, deite-se com essa. 

     Essa foto mostrando um homem caminhando na vastidão, num domingo de manhã, me lembra o dito chinês que diz que o caminho mais longo começa com o primeiro passo.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Leia-me aqui: POEM HUNTER: https://www.poemhunter.com/darlan-m-cunha/