Icone-communication (The sounds of the silence)

Icone-communication

Silêncio é pão e água

*****

 

     Silensidão pode significar o que pensas que tal palavra seja, pode não ser, às vezes, até eu, que inventei e publiquei em livro a junção dessas duas palavras fui ao fundo dela. Silensidão é a mistura de silêncio e imensidão, talvez também de receio e meditação. Mas onde pousar para em silêncio ficar ? Nem no Nepal nem no Butão nem no Tibete, e muito menos numa toca de tatu ou de urutu, já cercadas por minhocas de ferro e aço.

*****

Foto e texto: DARLAN M CUNHA

AQUI-Ó: https://www.flickr.com/photos/aqui-o/

POEM HUNTER: https://www.poemhunter.com/darlan-m-cunha/

ESCRITAS: https://www.escritas.org/pt/ver/perfil/darlandematoscunha

Anúncios

povo povaréu plebe massa cidadãos gente

A orquestra esquenta o MERCADO

“Todo artista tem de ir aonde o povo está / Assim sempre foi, assim será…” *

***

 

     O povo diz: Se o diabo mora nos detalhes, vamos a eles, vamos ao demo em sua postura de não deixar para depois o que pode e deve ser feito hoje ainda, porque o diabo sabe o que diz, sabe onde o lucro, cansado de baratas tontas, ele inflete sobre íncubos e súcubos, bota a viola no saco e se manda. Isso é o que o faz diabo, e isso faz toda a diferença.*

     Eis o povo em construção, em toda a sua pseudo-majestade, sua gama de sensações, seu varal de roupas multicores, o cinza dos dias e a cinza nos pulmões, ei-lo contando os caraminguás, ou seja, seus trocados, feliz da vida, musical ele é ao extremo, cai no frevo e ferve no samba feito um pacote bêbado.*

     Quando o rio transborda, quando sua água se acelera de tal forma que se parece com um corredor de cem metros rasos, é quando o povão gosta de ir até a ponte, e ficar por lá durante horas, vendo a correnteza levar tocos, galhos, pedaços de muros, vacas, gente, levar seu pensamento enquanto mastiga um sanduíche e bebe o trago de sempre sobre o piso suspenso sobre a correnteza. O povo ama a velocidade das águas, a ferocidade delas, e a própria.

     O povo em construção, constituinte de boca aberta, esperando a morte chegar,* o presidiário de sempre, desde os primeiros tempos, por isso é preciso estar atento e forte.*

 

***

Texto e foto: DARLAN M CUNHA

86 anos

MERCADO CENTRAL, 12-12-2017

Felicidades muitas, Dona MARIA JOSÉ

***

     Dona Maria José sempre foi elétrica, incansável, mesmo aos 86 anos completados hoje, dia 13 de abril de 2018, mesmo tendo tido dez filhos, com treze netos e netas, dezesseis bisnetas e bisnetos e duas trinetas, nos EUA. Sempre diz que o dia deveria ter 25 horas, mas ela logo iria querer os dias todos com 30 horas, ou mais, hehe…

     Digo que me canso só de ver a Dona Maria trabalhar, porque quando não há serviço ela inventa. Faz croché, tricô, pintura a óleo, costura, borda, está sempre fazendo bolos, biscoitos, tortas, doces, sempre levando um pouco para a vizinhança – ato raro. Não tem pingo de maldade nem de malícia. Sempre ensinando as netas e as vizinhas que querem receita tal, mas ela faz tudo é “de cabeça”. Uma graça a Dona MARIA, que é o verdadeiro esteio de toda a família. Vive cantando, e eu a acompanho de vez em quando, no violão.

     Não abre mão de ir à igreja. Um dos pratos preferidos é quiabo com moranga, angu e carne moída – bem tradicional mineiro. Também não abre mão dos queijos, mormente o queijo Canastra, o queijo do Serro, etc.

     No espaço de um ano e dez meses ela perdeu três rapazes, dois afogados em lugares e datas diferentes: Múcio, 29 anos; Eduardo, 23 anos; Heber, 33 anos.

     Há quatorze anos (2004) abri para ela uma página no MUSEU DA PESSOA, onde conto a trajetória de sua vida, desde o nascimento, casamento, etc. Modesta, viajou por vários países, com a ajuda de filhas, netas, nora, filhos, genros, etc, tendo ido, por exemplo, à Jordânia, Israel, aos Emirados Árabes Unidos (Dubai), Paraguai, Argentina, EUA, etc.

AQUI: http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/maria-jose-matos-cunha-e-o-seu-entorno-magico-40077

***

MIL E UMA FELICIDADES, Dona MARIA JOSÉ

Texto, site, foto: DARLAN M CUNHA

folia

e tome PISTON....JPG

O Mercado Central nos 120 anos de BELO HORIZONTE (12 dez 2017)

***

 

     Já ouvi e já contei histórias inúmeras no Mercado Central de BH, o qual foi eleito pela população como sendo “A cara de BH”, concorrendo, por exemplo, com a internacional Pampuha, a Praça Sete, o imenso Parque das Mangabeiras, o Mineirão, etc.

    Mas vamos a outros pontos ou a outras paragens, opiniões, divergências, gargalhadas, choros, desejos reprimidos (tantos !). 

     Pelo menos uma vez por dia deixe a boca de lado, racional, porosa, previdente, e fale com o coração, pelo menos uma vez por dia chute os baldes e execre o que se acha são, batendo a porta na tua cara e nas caras do entorno. Ó, miséria pouca é bobagem, diz o povo, mas o povo não sabe de nada, só ri, ri até cair e ficar por aí, com dor nas costas, cefaleia, dívidas.

    Lembra: enquanto dormes, coisas acontecem, fendas se abrem, mas a felicidade luta.

***

Foto e texto: DARLAN M CUNHA

braço

DSC02548 (1)

monstro à porta de casa

***

 

     Todos precisamos de manutenção, e ela virá nalguma altura da existência, isso é bem normal, e nada pode escapar, ninguém se livrará disso, que até mesmo a carne deste caminhão necessitará de médicos especialistas. Nós, sob tanto sol, tanta ira e apreensão, enfim, as coronárias sofrem, os rins sofrem com tanta bebida, o fígado grita horrores, a cefaleia é quase uma constante, taquicardia, pressão arterial a 160/120, alguma dívida, o time de futebol de preferência sempre “nas últimas”, a vovó adoentada, o dente latindo, o trânsito nosso de cada dia – este maravilhoso feitor de surdos, e assim por diante. Tudo precisa de uma geral, de vez em vez, mas é por isso mesmo que se sabe que se está vivo. Viva a vida.

***

 

Texto e foto: DARLAN M CUNHA

Almoço urbano

Cavalo, almoçando em frente à nossa casa.

Um cavalo almoçando em frente à minha casa

***

              “Mortos os mortos, e vivos os vivos, assim os contemplei, e mesmo aquele que alcançou ver os originais destes fatos não viu algo mais perfeitamente verdadeiro do que eu vi no chão, enquanto, cabisbaixo, avançava. Curvai a fronte, deixai a postura altiva, ó filhos de Eva, e observai sob os vossos pés o vosso caminho soturno.”

 

Foto: Darlan M Cunha

Texto: Dante Alighieri (A Divina Comédia, p. 160)

Texto

N. S. do Rosário – Santa Bárbara, MG

Nossa Senhora do Roário dos Pretos

SANTA BÁRBARA, MG (na praça ao lado da minha ex-casa)

***

 

     Já faz muito tempo que perdi a fé no que quer que seja – menos na amizade, que é uma construção humana digna de ser preservada, embora que nesses tempos de se ir e vir sem que se olhe para o vizinho as coisas ficam complicadas. Mas vamos em frente, que atrás vem gente – diz o ditado popular. Esquecer o celular, e de frente conversar.

Darlan M Cunha

Santa Bárbara, MG

Nossa casa. A janela era no quarto dos nossos pais.

Morei nesta maravilha bicentenária (100 km de BH), cidade histórica, onde nasceu um presidente da república, noutra casa muito bonita: Afonso Pena.

***

 

     O ano mal começou, e dois meses e meio já se foram. Ainda “ontem” – dia sete de janeiro -, ou seja, um dia após o dia de Reis, eu estava desarmando a árvore de natal da casa de minha mãe. A vida voa. E novamente me lembro da canção que diz: “o tempo não para no porto, não apita na curva, não espera ninguém”

***

Darlan M Cunha

 

 

 

 

cotidiano 4

DSC02045

***

 

     Rabiscar os rostos da aldeia, de sua santíssima trindade, pode parecer heresia – porém, como é que algo ou atitude pode se parecer com aquilo que já não existe ? Salvo engano, nada mais, em lugar nenhum do mundo vasto mundo é heresia. Degolar caules frescos é corriqueiro (imagino-me de joelhos, sem garganta com que validar quem a mãe cingiu de desvelos). Não, nada aqui escrito é para desfile de tropas. Tudo. Ir às ruas é abandonar o medo ou repintar de nervos as esquinas, tornando-as cordas esticadas como uma linha untada com cerol ? É a cabeça, irmão. Tudo é teu, credor de tudo, as ovelhas no cercado, dizem os textos sagrados. Enquanto esperas, reler o Decamerão, o Dicionário do Diabo.

     Rabiscar os pilares da santíssima trindade da aldeia – amor amor amor – não dá fim a ela, só o fogo nos pastos urbanos, o rural trespassado pelas queimaduras do cotidiano, ó, neves da caatinga e águas do Atacama, o ministro fará cair véus, assombros que o Nunca nunca imaginou, ó, a realidade trocará a tua pele tantas vezes quanto o fazem as cobras, e o grito que contivestes será enfim julgado apto por ele que porá de vez sobre os ombros teus a cátedra ministerial belzebuana. Tudo será teu que sou o teu credor invisível.

     As cidades invisíveis existem, de fato e de direito, mas até elas começam a cercar-se de todos os meios, cientes dos gases em ebulição, frases de efeito, palavras sem palavra, as suicidades e monstrópoles de carne e ossos serviram de noção às cidades invisíveis, mas foi em vão, que o invisível já está em debandada. Carona para onde, se não há onde, se nenhuma alusão vai até onde queres ir, se nenhum caminho tem força centrípeta forte o bastante para jogar-nos para fora do curtume ?

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar…

 

*****

Foto e texto: Darlan M Cunha

Música: Gonzaguinha. O que é, o que é ? – https://www.youtube.com/watch?v=2iMOXqKTh34

cotidiano 3

TEM DOIDO PRA TUDO

***

 

     Se não me falha a memória, parece-me ter lido uma entevista com Egberto Gismonti, na qual ele cita ter visto um homem levitar-se, na Índia, nas viagens mundo afora feitas pelo grande músico. Isso já faz tempo. Pensando nisso no fim da madrugada, imagino ter visto o meu rosto no café, mas foi imaginação; porém, o que vemos no cotidiano tem tudo de sons imaginários, de colores y dolores fictícias, tudo nos convence de vivermos numa realidade cheia de delírios, e deliramos cada vez mais, voamos, flanamos, enfim, nos livramos de ficar com os pés e a mente no chão, de maneira que um solo de clarineta nos mantém no alto. Ontem, para assombro meu, melhor dizendo, já de todo indiferente para certas coisas, vi um automóvel voador, e o desaforado jogou-me uma piadinha do tipo Ei, garoto, um programinha ?, e foi por aí o atrevimento ao qual não respondi, pelo que ele urinou gasolina e graxa sobre mim. Devolvi o acinte, e botei fogo nele, ou seja, como leio muito, a lei de Talião ajudou-me num compasso delicado, um mal-entendido. Sem dúvida, ir à rua é ir pro ar, de lá se vê, como um motor de busca ou mecanismo de pesquisa, o lar o bar o mar a passeata o atentado ao pudor os cartazes o templo o bordel o estádio lixo sobre lixo a cadeia e o cemitério, enfim, a infinita algazarra da aldeia em cujo mercado vamos comprar e trocar e vender histórias e estórias.

 

*****

Foto e texto: Darlan M Cunha