passar / to pass

Bairro Buritis – BELO HORIZONTE, MG. Durante 23 anos tive essa vista a partir da sala.

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Uma canção do compositor Cartola nos diz “Tive, sim, outro grande amor antes do teu”, mas num contexto diferente deste que está nessa fotografia que eu agora revejo, um ano e meio depois de me mudar de endereço. Fatos e não-fatos reapareceram lentamente – erros, acertos, mortes na família, amigos e amigas mortos, enfim, uma salada sem vários dos ingredientes originais, é verdade, mas com muitos outros sempre prontos para quando chamados a nos chamarem de novo a atenção para a efemeridade da Vida diante da “inenarrável algazarra cotidiana da morte).

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A song by the composer Cartola tells us “I did have, yes, another great love before yours,” it tells us in a different context from the one in this photograph that I now review, a year and a half after moving away. Facts and non-facts slowly reappeared – the mistakes, the hits, the deaths in family, friends and friends dead, changed, in short, a salad without several original ingredients, it is true, but with many others always ready for when called upon to call our attention again to the ephemerality that is Life in the face of the “unspeakable daily racket of death.

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Darlan M Cunha: foto e texto

o imaginário / the imaginary

foco

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Comece a narrativa com o que houver, principalmente, com o que não houver. A partir da cama tu vês boa parte do bairro, ou estás pensando no café da manhã ? aonde irás, após o ritual matinal ? qual será a primeira fila do dia ? deixe essa latinha ainda desligada um pouco mais – esqueça, poupe conversas inúteis, abobrinhas diárias, ou conversas pra boi dormir. Mude o valor das montanhas à frente. Estás bem de saúde ? Talvez já não estejas bem de saúde física ou mental, mas não sabes. Viver é teatro, é comprar e vender, cada qual com a sua pescaria, o mercado está em todo lugar. Meu nome é Nada, eu venho de Ur, cidade primeira da Mesopotâmia, hoje, Iraque, mas passei uns tempos em Sodoma e Gomorra. Comece ou continue a tua narrativa.

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Start the narrative, dear friend, with whatever there is, especially with what there isn’t. From your bed, you see what: part of the neighborhood, or are you thinking about breakfast ? where will you go, after the morning ritual ? what will be the first line of the day ? leave that little can still off a little longer – forget about it, save yourself useless conversations, daily nonsense, conversations for sleeping. Change the value of the mountains ahead. Are you in good health ? Maybe you are not in good physical or mental health, but you don’t know it. Living is theater, it’s buying and selling, each one with his own fishery, the market is everywhere. My name is Nada, I come from Ur, the first city in Mesopotamia, today, Iraq, but I spent some time in Sodom and Gomorrah. Start or continue your narrative.

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Darlan M Cunha: foto e texto

floral

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Segunda-feira é o dia, outra segundona brava no teu crédito, estás radiante, o metropolitano espera, sem atraso, deves apresentar-te para a glória de mais uma fila de sorrisos amarelos, o gosto da macarronada dominical ainda contigo, vais em busca do tesouro, dindin não faz mal a ninguém no ponto dos mil ônibus. Vai, meu irmão, você tem razão / de correr assim, diz a canção, embora tenha outro contexto a letra, esse trecho serve aqui. Não te preocupes, logo estarás de volta ao lar. O dia é breve.

Darlan M Cunha: foto e texto

é tanto nada

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@1.

De vez em quando, levava a pequena câmera nas cinco corridas semanais pelo bairro Buritis e região. Um dia (há décadas que sempre corro no final da madrugada, início da manhã), encontrei essa beleza de bom humor.

@2.

KAFKA revisitado: Prezada(o) assinante, sugerimos estes ítens para avaliação e consequente aceitação dos novos cargos, não necessariamente encargos. Clique à esquerda, no alto, e quando for o caso indicaremos clicar à direita, e não esquecer nenhum dado obrigatório, pois a Empresa é rigorosa em sua postura de proteger os associados ou condôminos ou sócios e convivas, por isso mesmo podemos dizer que somos divisores de águas. Nossa Empresa tem alto conceito no ramo, e assim, clique em CONTINUAR, repita os dados solicitados, aponha a assinatura digital, não se esquecer de atender à exigência de que Você não é um ROBÔ, clique novamente na palavra FINALIZAR, desta vez em vermelho, dê OK. Lembra que a nossa Empresa não entra em contato através de telefonemas, de convites para pescarias, motéis, churrascadas, e sim que todos os meses apareça em nossos arquivos a contribuição devida, e assim movimentaremos com rigor os valores sempre mutantes na conta de V. S.ª

@3.

O mundo vaia, apupos nos bolsos, pedras na boca, estiletes são as unhas, ponto G em discussão – sempre – o mundo não cheira, só exala descontentamento, exara, sim, exara, depois de cada cada refeição de nem sempre, o mundo arrota e bate na pança – não a pança do dileto amigo Sancho Panza, não – e volta para o batente de uma porta sempre fechada sempre de cara fechada o mundo e suas pulgas e carrapatos, seus carrapichos e capetas, bem se disse que o inferno é os outros (J. P. Sartre), e lá vão os zumbis, todos felizes homens ocos, the hollow men (T. S. Eliot), e a epidemia de desconfiança vai de popa no vento, atalhos para fuga não há, os muros estão cheios de fuzilados, os sobreviventes fingindo-se felizes negociantes de peles, sim, o inferno é os outros, são os outros. Mamma mia!

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Darlan M Cunha: foto e texto

Brasiliana

ou Brasiliense – dia a dia

Chove pouco em Brasília, mas o lago Paranoá salva aquela suicidade única, o lago também foi projetado, ou a bela monstrópole não existiria. O ar é seco de tal forma que em determinada época do ano [agora], as pessoas são afeitas aos seus instrumentos musicais, em especial o piano, que colocam recipientes cheios de água em vários cantos da casa ou do apartamento, para minimizar os efeitos da sequidão, e poupar a madeira dos instrumentos, porque a evaporação ajuda instrumentos e moradores. É verdade, é real.

Por falar naquela aldeia nacional e internacional, mãe querida dos brasileiros e brasileiras – bom, isso é quanto ao que diz respeito à história maravilhosa de sua construção, porque depois as nuvens negras começaram a chegar e ficar, ou chegar e partir, com algum pedaço ou naco ou migas do bolo. Lembrei-me da bela música do Toninho Horta: Céu de Brasília, e também do mesmo querido autor a canção Beijo Partido.

Como não poderia deixar de ser, a palavra “pasta” é muito pronunciada em Brasília, bem mais do que a palavra Mãe, é, eu sei do que falo, às vezes, mas, de Brasília sou mais do que mentecapto, sou EXPERT, aliás, como todo mundo deste rio de risos e abraços que é o país do qual o dramaturgo Dias Gomes disse: “O Brasil é um país que desmoraliza o Absurdo.” Uma beleza, na mosca. Por falar em absurdo, meu vizinho Aprígio Nonato Villa-Real, disse que já comprou a caneta com a qual medirá forças com os papéis que lhe derem quando da implantação do NOVO//VELHO método de se ir à urna, e ficar matutando diante do grande estigma, do grande enigma, esgrimando diante destoutra herança bolsonarista, bolsonarina, bolsoruego, bolsopata, bolsorepto, bolsotático, bolsoraro. Irei, com fervor de patriota, votar numa gloriosa invenção brasileira que é a URNA ELETRÔNICA. E fim de papo.

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Darlan M Cunha: foto e texto

solar

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O que mais dizer da luz que a água absorve, e com os seres reparte, eles próprios já com a sua cota diária, algo assim tão natural que já não fazem caso dessa condição ? Sabe-se que quando o Sol morrer ainda haverá oito minutos e meio de luz – de vida. Depois, o frio benfazejo que nos livrará uns dos outros.

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What more can be said about the light that water absorbs and shares with beings, themselves already with their daily quota, something so natural that they no longer take notice of this condition ? It is known that when the sun dies there will still be eight and a half minutes of light – of life. Then, the benign cold that will rid us of each other.

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Cos’altro si può dire della luce che l’acqua assorbe e condivide con gli esseri, essi stessi già con la loro quota quotidiana, qualcosa di così naturale che non fanno più caso a questa condizione? Sappiamo che quando il sole muore ci saranno ancora otto minuti e mezzo di luce – di vita. Poi, il freddo benefico che ci libererà l’uno dall’altro.

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¿Qué más se puede decir de la luz que el agua absorbe y comparte con los seres, ellos mismos ya con su cuota diaria, algo tan natural que ya no reparan en esta condición? Sabemos que cuando el sol muera todavía habrá ocho minutos y medio de luz, de vida. Entonces, el frío benéfico que nos librará de los demás.

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Was kann man noch über das Licht sagen, das das Wasser aufnimmt und mit den Wesen teilt, die selbst schon ihr tägliches Pensum haben, etwas so Natürliches, dass sie diesen Zustand gar nicht mehr wahrnehmen? Wir wissen, wenn die Sonne stirbt, gibt es noch achteinhalb Minuten Licht – von Leben. Dann, die wohltuende Kälte, die uns von einander befreien wird.

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Что еще можно сказать о свете, который вода поглощает и разделяет с существами, которые сами уже имеют свою ежедневную норму, нечто настолько естественное, что они больше не обращают внимания на это состояние? Мы знаем, что когда Солнце умрет, все еще будет восемь с половиной минут света – жизни. Затем – благотворный холод, который избавит нас друг от друга.

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Darlan M Cunha: foto e texto