Vamos nessa

Master CHEF... hehe. Hoje, 18-06-2018

No dizer do Povão, “chofer de fogão”

 

@ 1

     Atitudes que não combinam de jeito nenhum com os argumentos que a gente deve levar ao fogo – nas trempes ou no forno – são o telefone e o computador, pelo fato de que estes distraem, e o fogo não espera.

@ 2

     Um lugar sem eus: euforbiácea, eubiótica, aneurisma, heurística, eufemismo, Euterpe (ó música), eutanásia, enfim, um lugar de nada, lugar de derrotas, tudo procura lugar, ocupar espaço, e se faz lasso, erro crasso, dia após dia.

@ 3

     Silensidão de porta em porta, silensidão exalando de cada janela, indo ao porão remoer paixões vencidas em seu tempo de encantamento, rever o futuro só dúvidas.

@ 4

     Pode ser vã a glória de suar a camisa, se se rasga pelo avesso a honra, enfim, a lenda se espalha de forma a nunca mais diluir-se, sentando-se à mesa onde macruros, micruros e anuros, antônimos e sinônimos se vergastem até chegarem a um possível lacre geral ou abertura total.

@ 5

     Choro de velho é de doer lá no fundo, porque inquieta, aflige ao extremo, uma forte noção de impotência cobre as pessoas em volta quando um velho ou uma velha chora, e assim é de se perguntar quantos erros, quantas omissões, quantas incompreensões estão inconscientemente na vazão daquelas lágrimas.

@ 6

     Um timbre de voz, porque é único, não engana, mas, se insiste, pode enganar o ovo e a galinha; e assim é que após muito tempo sem ir à introspecção de fixar-me no próprio umbigo, de ater-me ao vácuo, eis que, sentado num lugar ao qual nunca tinha ido, no interior do estado, um lugar que é um misto de mercearia e bar, um pequeno mundo quase de todo alheio ao grande mundo, de repente me vi solfejando uma canção, e de muito longe me veio uma voz que logo reconheci, após tanto tempo, como sendo a voz do Madredeus – Teresa Salgado (ela separou-se do grupo), tocando numa rádio.

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O Mundo visto de dentro de um caldeirão

mIN i mAGA

 

     Dancei com Madame Min na floresta durante quarenta dias e quarenta e uma noites, depois fomos jogar cartas, e ela naturalmente trapaceou, me ferrou bonito, levando-me os últimos trocados, mas como foi por uma boa causa não me importei, porque ela doou o dinheirinho para uma creche a boa garota descabelada. Para repormos as energias, ela preparou um panelaço especial, sendo que não faltaram cerveja choca e pão caseiro feito de trigo selvagem, sem veneno tão comum na showciedade, comemos glúten e alimentos com altas taxas de colesterol, nós tiramos isso de letra, e por aí vão nossas estrepolias, nossa heresia, nossa velha e insuperável sátira.

     Maga Patalógica desaparecera floresta adentro com o namorado atual dela, um tal de Bidu Bandalheira, gente muy fina, fino trato, cicatriz na cara do tipo Scarface, a mesma do grande e generoso Mr. Al Capone, que tinha a alcunha de Scarface (meu sobrenome Cunha terá algo a ver com isto ?).

     Min preparou panelaço com asas e coração de morcegos zarolhos, costelas do Homem de Neanderthal, cocô de Rattus rattus, olho de vidro roubado do cego Agiraldo enquanto ele dormia, dois frangos pretos e duas galinhas albinas, canelas de seriema, pinto de besouro rola-bosta, três rabinhos e três focinhos de porcos criados num lugar no Oriente Médio ou Middle West, urina reciclada de astronauta (está na moda), penas de rabo de pavão, três litros e um quarto de leite de camela manca de duas corcundas (dromedário), uma caneta de um político condenado pela justiça (derretida num vu), sal grosso, pimenta sete-molhos, gengibre selvagem, jiló, um sutiã de Cleópatra (seda pura), óleo de fígado de bacalhau, dezessete gotas de estricnina (tem de coincidir o mesmo número de gotas com o dia do mês), dois grandes baiacus (peixes mortais), folhas de aningapara, chamada de comigo-ninguém-pode, pernas e boca serrilhada das terríveis formigas de fogo da Amazônia, a tocandira (na época dos rapazes passarem de fase, ou seja, rito de iniciação, os mestres enfiam um braço deles num recipiente de fibras, onde centenas das terríveis picadoras injetam ácido fórmico nos garotos que incham e gemem e choram e zonzeiam e uns desmaiam, e só assim serão considerados homens pela aldeia). A mão fica parecendo uma bola, é o preço da tradição.

     Tomamos a sopa inigualável, manjar dos deuses, bebemos muita pinga de fundo de quintal, o paraíso existe. Depois da carraspana ou bebedeira, antes de irmos roncar no meio da floresta, fogueira acesa, Min recitou alguns de seus poemas, começando com o famoso Ukelelê Ziriguidum, ode ao amor, à maneira da famosa filha da ilha de Lesbos, na Grécia, a poetisa Safo. O amor é lindo, disse um cego do tempo do Abracadabra.

 

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Texto: Darlan M Cunha

Arte gráfica: Mundo HQ, Ivan Saldenberg, GramUnion

Guerreiras G

Bolo de mandioca.com coco ralado

Bolo de mandioca com coco ralado (Dona Maria José, 86)

 

@1

Em categorias e tags o melhor é usar aqui uma única palavra: delícia. Dizem que mães e avós nos acostumam mal, de maneira que, volta e meia, mesmo já marmanjo, casado ou não, a gente está sempre fazendo uma visita àquelas mesas que estão sempre abertas.

@2

Ficar numa estação de viagem (Pedro pedreiro, penseiro, esperando o trem)*, alta ou baixa madrugada, ouvindo o silêncio interior, o vento, os passos de algum passageiro afobado, ouvindo um grito recém solto lá no Iraque. Mala na mão, vais partir…

@3

Tens saudades, rapaz, do tempo mochileiro ? Ainda é tempo, garoto, guarda no baú estas lembranças, ajeita o fluxo sanguíneo na cabeça (É a cabeça, irmão)*, toma o pulso do dia e da noite, e vá para onde o nariz apontar. Ainda há tempo, menina. Conhecer é mais.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

 

Guerreiras D

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Bar do BIGODE – bairro Prado, BH

 

     Eis a couve, retalho da terra que sobre o balcão se debruça, à espera dos toques de amor de uma faca guerreira. Eis o ambiente no qual os odores se mesclam e atiçam as criaturas: couve, alho, cebola, coentro, salsa, azeite, vinagre, pimentas, maionese, ovos, bifes, a enorme panela onde o arroz flutua ou dança sua dança do cisne, eis a conversa, o riso, café com pastel e pão de queijo, pão com salame, a cachacinha sagrada para ir à luta, operário começar o dia, o vinho para a bela executiva executar o que tenha que ser feito, e assim os dias e os trabalhos. Eis o norte de cada um, o sul, o leste e o oeste; eis as latitudes e as longitudes, lua cheia e morna, sol a pino, solstícios de verão e de inverno, eis o Homem no afã de melhorar, custe o que custar. Ecce Homo, Nietzsche escreveu.

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

milmolhos

Paraíso das pimentas - Mercado Central, BHte, MG, Brasil

Paraíso das pimentas – Mercado Central, BELO HORIZONTE

(HOJE, 22 de Abril de 2018, completo 11 anos no Portal WORDPRESS, que me felicitou e agradeceu.)

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     @1.

     Mal dava para imaginar que em pouco tempo a mesa do mundo mudaria, isso porque pimentas diversas, pimenta do reino, chá, café, cravo da Índia, canela, açafrão, louro e outros temperos e ervas aromáticas e medicinais valeriam mais do que o ouro. Europeus ferviam com tantos sabores e odores, e eis a cana de açúcar que mudaria hábitos alimen-tares no mundo. Na Europa ainda se come açúcar de beterraba. Sempre que vou a uma banca como esta aí acima eu me lembro disso, dos caminhos da História.

     @2.

     Durante décadas o país não produziu quem se destacasse, a não ser no torpor, sempre zanzando por aí feito zumbis, escravos da indolência e da lascívia, da morte em vida, atitude capaz de causar estupor, inveja e ira desmesuradas na vizinhança próxima e nas distantes. “Filhos (ouvi no mercado) são como os bilros das rendeiras, são fios, depois são tecidos que precisam ser bem trançados, ou a obra vai desfiar.”

     @3.

     O escritor busca incógnitas, é um demente com um teclado à frente e a sociedade no pensamento. Vive assim, de olho no imponderável, alquebrado, à espera do imprevisível, de vez em quando salta dele uma lágrima, um sorriso cheio de palavras não percebidas.

     @4.

     Dos amigos e amigas a gente deve querer saber o máximo – pendências, tendências e carências, pois assim vigora uma verdadeira amizade, e vigora também mesmo se não se sabe nada ou quase nada do Outro.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

folia

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O Mercado Central nos 120 anos de BELO HORIZONTE (12 dez 2017)

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     Já ouvi e já contei histórias inúmeras no Mercado Central de BH, o qual foi eleito pela população como sendo “A cara de BH”, concorrendo, por exemplo, com a internacional Pampuha, a Praça Sete, o imenso Parque das Mangabeiras, o Mineirão, etc.

    Mas vamos a outros pontos ou a outras paragens, opiniões, divergências, gargalhadas, choros, desejos reprimidos (tantos !). 

     Pelo menos uma vez por dia deixe a boca de lado, racional, porosa, previdente, e fale com o coração, pelo menos uma vez por dia chute os baldes e execre o que se acha são, batendo a porta na tua cara e nas caras do entorno. Ó, miséria pouca é bobagem, diz o povo, mas o povo não sabe de nada, só ri, ri até cair e ficar por aí, com dor nas costas, cefaleia, dívidas.

    Lembra: enquanto dormes, coisas acontecem, fendas se abrem, mas a felicidade luta.

***

Foto e texto: DARLAN M CUNHA

Surubim

Surubim

Surubim= pintado, moleque, loango, brutelo e cachara

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     Quando estou nervoso, vou espraiar na cozinha, romper correntes sociais, matar saudades seja lá de que tipo forem – de amigos e amigas que se foram, alguma cidade, algum livro, uma canção, um rio ou um riacho, alguma viagem imprevista que tenha se tornado marcante, enfim, sempre há uma lembrança dentro da gente.

    Quando estou nervoso, abro o verbo, digo que estou com a macaca, que odeio gente em geral, que desprezo qualquer tipo de religião, filosofia barata, sonho comigo batendo bolsas e carteiras, rindo de velhos e jovens, colocando pregos debaixo de pneus, pondo escorpiões nos sapatos alheios, mexendo com a mulher do próximo, enfim, o cão.

     Mas sou bom garoto. Perguntem à minha mãe – que comeu comigo este surubim que preparei nesta linda panela de pedra, uma peixada com azeite, cebola, pimentão, batatas, coentro, salsa, tomate e azeitonas.

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Foto, peixada e texto: DARLAN M CUNHA

 

Almoço urbano

Cavalo, almoçando em frente à nossa casa.

Um cavalo almoçando em frente à minha casa

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              “Mortos os mortos, e vivos os vivos, assim os contemplei, e mesmo aquele que alcançou ver os originais destes fatos não viu algo mais perfeitamente verdadeiro do que eu vi no chão, enquanto, cabisbaixo, avançava. Curvai a fronte, deixai a postura altiva, ó filhos de Eva, e observai sob os vossos pés o vosso caminho soturno.”

 

Foto: Darlan M Cunha

Texto: Dante Alighieri (A Divina Comédia, p. 160)

Texto

sabor a mi

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panela de pedra-sabão ainda por ser “curada” para o uso cotidiário

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     Insetos no piano, o tabuleiro de damas soltando vivas à incoerência, formigas no polo sul e beija-flores no polo norte, um pé virado para trás, vigiando as pegadas. Foi assim que ele ficou depois de algum tempo consigo mesmo – aloucado, como se tivesse sofrido uma trepanação mal sucedida, ou se a conta bancária tivesse sido invadida, via homebanking, mas sem clarear nada sobre o assunto. Afinal, em se tratando da própria via crucis, nem sempre a melhor atitude pode ser a de pôr a boca na orquestra, em especial, no trombone ou no baixo-tuba.

     O primo Haroldo Dente Azul sabe disso (a Dinamarca teve monarca com esse nome e essa alcunha), uzeiro e vezeiro em transgredir o novo e o arcaico, inventa todo tipo de instrumento musical, pás para desovar a terra, sentindo seus impulsos, cava e escava feito dentista na lida. E assim ele põe boca de trompete nos bandolins, perna de violoncelo nos violões, réstias de alho e de cebola nos címbalos, bolas de algodão no interior de bumbos e taróis, além de dar nó nas flautas transversas, de modo que o ré bemol e o sol sustenido ficam alterados, enfim, uma rareza. Leio com ele Memórias Não Ditas de Brás Cubas, e de outros que o mundo certamente tem e esconde. Memórias sem futuro, mas é preciso ir a elas, ou nunca saberemos um pouco de nada.

     Nada como uma segunda-feira radiosa, jubilante, com dois pesos e três medidas.

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foto e texto: Darlan M Cunha

Louvaminhas numa quinta-feira

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calos da terra

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Louvados sejam o sal e a cal que tudo demandam em prol de ti

louvados sejam os trevos que nos enchem os nervos

com canseiras maiores do que pode a cama absorver e comutar

louvemos os aríetes com que derrubarmos demências na forma de muros

embora que por algum tempo os muros nos salvem do Outro

nos salvem de nos revelarmos de todo a nós mesmos

louvados sejam o prumo para a construção e o arroz ao lado do feijão

a boca cheia de tufões ou de formigas senão de vontades esquecidas

mas tanto no céu da boca quanto no céu divino o que há de fato

escapa à compreensão cabal do nome e do sobrenome cada vez mais

sem escala própria sem identidade sem aquilo que é ainda pior

de não se ter à mão: a intimidade e a vontade própria e consciente para agir

tornando padrão o exato necessário ao teu chão – o sim e o não.

*****

cozinha, foto e poema: Darlan M Cunha