17 de Outubro: Dia da MPB – Música Popular Brasileira

Era um homem que vivia lá com seus botões… (Música e letra: DMC)

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O dia 17 de outubro é dedicado a celebrar a incrível MPB – Música Popular Brasileira – cuja diversidade de ritmos, assuntos, tons, instrumentos, etc, é espantosa. Há muito tempo eu noto a pobreza das letras de gigantes da música internacional, a qual fica restrita no dueto EUA e Inglaterra, ou seja, uma mendicância risível, insuportável. As letras dos Stones sempre foram boas, por incrível que pareça, até hoje os vovôs evitam musicar tolices, e assim o Pink Floyd, Frank Sinatra, Bruce Springsteen, Joan Baez, Sting, e me distancio um pouco mais dos estadunidenses e dos ingleses, para falar de Mercedes Sosa e Elis Regina, que não compunham, mas que tinham um foco, um faro incrível para selecionar o que gravariam, assim também as canções do cubano Silvio Rodríguez, e também o extinto grupo inglês Moody Blues, e Cat Stevens, autor, entre outras, da canção Father and Son, e mais uma dúzia de artistas, gente da Música, não mais. Água e Vinho, GISMONTI.

Então, se você quiser se sentir bem, ouça com atenção melodias e letras do SIDNEY MILLER, falecido muito jovem, as canções do TAIGUARA, idem, o inacreditável ELOMAR FIGUEIRA MELLO, maestria nas letras e nas harmonias, sua visão larga, alta e profunda da vida, a enciclopédia musical e literária mineira, com suas canções também ímpares de todos os integrantes deste clube de fama internacional que é o CLUBE DA ESQUINA; e eis as letras do Paulo César Pinheiro, e a sutileza do Walter Franco, cujas letras andam sozinhas e ventilam obtusos, e as letras do CARTOLA (praticamente um analfabeto) são tão fora de série, são de um idioma que não é o comum, pois ele tratou o idioma com tanta leveza que, quando faleceu, eis que o farmacêutico e poeta CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE escreveu na coluna dele no Jornal do Brasil, a respeito de um verso da canção As Rosas Não Falam, o mestre escreveu algo assim, se não me falha a cachola: Este é o verso que eu gostaria de ter escrito: Queixo-me às rosas, / mas que bobagem, as rosas não falam / simplesmente as rosas exalam / o perfume que roubam de ti.

Bom, para terminar, Águas de Março são o começo do Mundo, e eu fiquei sabendo, à socapa, por fontes fidedignas, que o próprio Senhor Deus andou tentando fazer-se coautor da distinta canção, nos órgãos competentes para o registro de direitos autorais, de registros musicais do país. Em vão. Essa tentativa sorrateiramente divina não deu certo. A outra construção, sim, dentro da lei, tijolo por tijolo. Digo isto com uma caipirinha, saudades de pessoas com P maiúsculo, que partiram, mas aqui estamos ouvindo a música Ouro de Tolo, do RAUL SEIXAS, depois veio Roda carreta, do gaúcho Paulo Ruschel, gravada por ELIS REGINA, e o incansável ZÉ GERALDO cantando CIDADÃO, do autor LÚCIO BARBOSA.

@2.

Minha mãe Maria José (89) é apegada incondicionalmente à música e às plantas, de tal forma que é algo comum ela estar cozinhando e cantando (todo mundo da Família sabe cozinhar), e algum filho ou neta ou bisneta cantando com ela e tocando um instrumento. Eu não consigo imaginar algo mais chique, mais doce do que a visualização de um quadro assim – comum na nossa família, e na de outras famílias Brasil afora.

@3.

A música brasileira – é de se notar que até aqui eu não me referira a Heitor Villa-Lobos, Radamés Gnattali e Marlos Nobre, ora, por que falaria de tais maestros ? Pois é, a MPB é um Rio Amazonas, suas ondas sem fim, caudal para banhos, e cada banho de acordes vem com peixes e algas diferentes.

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Darlan M Cunha: foto e texto

numeral

cotidiano mundial // world daily life

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@1.

As sociedades em transe, a Terra em transe, vales e montanhas tristes porque fracos em seu potencial de alimento e de beleza, e nos rios e nos mares os poucos peixes foram vencidos no jogo desleal contra os monômeros & os polímeros, ou seja, o plástico nosso de todo dia – novo salmo, nova ladainha, a morte por asfixia.

@2.

Ontem, num mercado aqui do bairro, ouvi que “tudo vai dar certo.”, o que me deixou encantado por tal leveza na fala, leveza e certeza inabalável. Não mudei meu conceito a respeito disso ou daquilo, mas ainda agora, horas depois, lembro-me do sal e do açúcar contidos numa concepção alheia de bem quanto à vida, uma opinião bem clara e resoluta – coisa rara. Sim, tudo vai dar certo.

@3.

No dia da criança, anteontem, uma turma de alegres impenitentes aqui da região, saímos com cartazes, sem alarde, sem intrigas, brigas, isso é para desqualificados, e a bandeira foi o cartaz onde se lia NÃO SEJA CRIANÇA, É PERIGOSO, PODE SER PREJUDICIAL À SAÚDE. Num mundo cheio de iscas venenosas, virtuais e (a)normais, todo cuidado é pouco.

Alguém perguntou se neste ritmo o milhão de mortos de cada um destes gigantes, via pandemia, chegará: do Brasil, da China, da índia e dos EUA. Uma pergunta terrível, nua e crua, sem contemplação, porque o Pavor Geral não dorme.

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Darlan M Cunha: foto e texto

Viva o povo brasileiro (com licença, João Ubaldo Ribeiro)

BRASIL, REAL MADRI, ALEMANHA, MILAN

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@1.

Há décadas ele não entra num campo de futebol no Brasil, décadas, por poucos mas fortes motivos, e nem mesmo pela televisão – nela, só mesmo jogos como Real Madri x Barcelona ou, de 4 em 4 anos, a Copa do Mundo. Jogou uma barbaridade no time do Exército, meia armador, e tanto o Flamengo quanto o Atlético Mineiro estiveram com o pai dele, mas ele não quis saber, disse: Quero é continuar a ler, viajar e tocar instrumentos, saber psicanálise, sociologia, antropologia, arte marajoara, arte chinesa, russa, arte andina, entender de leve alguns idiomas, e algo sobre o Teatro de Sombras Tailandês, mais livros, e umas caipirinhas e peixe ensopado com batatas – peixada, etc.

@2.

Mudando de ambiente, isso foi dito no Mercado Central, informalmente, com muita sátira envolvida na roda de mulheres e homens: “Já que o País não tem presidente, e sim um pseudo durão, semi analfabeto, posso, sim, pensar num esforço ou no sacrifício de me candidatar.” Risos gerais. Marca registrada do povo brasileiro é o bom humor. Ande, viaje, leia, conviva com brasileiros e estrangeiros, saberás de fato desta particularidade admirada por estrangeiros: o bom humor nato – marca natural, não registrada, natural.

@3.

O BUDA sentado, esperando mamadeira

Quando o Buda dorme ele ronca feito um leão asmático, diz indecências enquanto moureja sobre o catre do tipo cama de faquir, a dois metros do meu catre, porque isso não é cama, mas a realidade exige que a gente adapte-se ao que há, onde se está. Eis o Buda bem esticado, como se morto, duro, parecendo estar em adiantado estado de rigidez cadavérica, mas não, de vez em quando O ILUMINADO solta um balão ou uma bufa, de modo que as cortinas dançam de meter medo, e eu aqui, querendo sair do forno, mas os guardas não deixam, já que sou convidado especial do iluminado Buda, e tudo dentro e fora de mim toma conta do prisioneiro que sou de mim mesmo.

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Darlan M Cunha: fotos e texto

o ocaso da alegria: Mundo

Área central de BELO HORIZONTE, MG. Não consegui o autor ou autora.

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@1.

Lembro-me ainda hoje, tantos anos depois, de uma frase do folclorista, sociólogo, antropólogo, nascido em Natal, RN, Luís da Câmara Cascudo (1898/1986), que, numa entrevista, disse “já perdi a capacidade de me indignar“. Vê-se, pois, que a engrenagem roda e roda e, fundamentalmente, pouco muda de rumo, as mentalidades são duras na queda, não cedem, e assim as visões sociais se atrasam, retardam, leis e mais leis são desenhadas quase em vão.

Ao ver essa pintura mural, numa manhã de domingo, não titubeei, e fiz a foto.

@2.

bolo de fubá recheado com pedaços de queijo

Na nossa casa no interior bem interior de Minas Gerais – Vale do Jequitinhonha – fazia-se muito tipo de bolos e biscoitos, isto era semanal, e fazia-se também manteiga, o que dá um trabalhão, e me lembro que a nossa mãe, Maria José (hoje com 89 anos, sadia), no grande quintal onde havia uma mangueira enorme dando sombra, trazia um pote pequeno com manteiga, acabada de ficar pronta, e a molecada metia o dedo, e ninguém tinha nem sombra de diarreia. O futuro e o dia de hoje são de tecnologia, tudo pronto, mas relembrar faz bem.

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Darlan M Cunha: fotos e texto

o espanto

A capa foi produzida / desenhada pelo amigo Víctor Taliberti

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MÍNIMOS CONTOS ORDINÁRIOS

Os mínimos contos ordinários e extraordinários que a gente vive todo dia, muito embora muitos não se deem conta disso, transformam de maneira óbvia o nosso jeito de ver e de fazer, de reagirmos sempre com estupidez, ou nos tornamos algo afeitos ao verbo pensar. Há quem viva sozinho com a sua simples aposentadoria, dormindo mal, falando só o necessário silêncio, alguém assim para quem a bile é alimento sagrado – salmão ou cogumelo, caviar ou surubim ensopado, leitoa assada no rolete ou o divino doce de nome pavê. Há quem se isola em definitivo, tramando a solidez de sua solidão. Há algumas felicidades, mas são muitas as infelicidades que cavamos para nós mesmos, sim, um dia só tem 1440 minutos, mas é o bastante para fatos incríveis acontecerem num só dia. O mundo é espanto, cada vez mais.

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Mínima narrativa após prótese – 14
RETRATO EM BRANCO & PRETO

Vive sozinho com sua aposentadoria. Dormindo mal, falando só o necessário silêncio, bebendo caipirinha, ou seja, sendo ele mesmo o tempo todo, o que é raro: ter opinião própria, nunca sendo maria-vai-com-as-outras. Vive de bem com a madrugada, até porque segundo suas próprias palavras, seu próprio jeito de cultivar o mutismo, o dia começa é na madrugada. A partir disso, vive suas manhãs arrítmicas, suas tardes vadias e suas noites mal resolvidas de uma pessoa difícil, sem capa na língua, e que por isso e por muito mais do que isso, vive entre a liberdade de ter algum desejo, e a prisão que resulta do fato de não realizar de fato qualquer desejo, assim de forma completa, uma vontade, a mais simples, sempre fica pelo meio, sim, há muitas infelicidades. E não se lembra de nada que o faça chorar ou sorrir com vontade.

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Darlan M Cunha: foto e texto

no forno

Do Vale do Rio Jequitinhonha, MG, Brasil

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Reagir, ou cair no pior dos esquecimentos, sim, pedra sobre pedra é o que restará, verdade é que no seio do caminho hoje não há sequer um laivo de esperança, o instrumento está sem cordas, a fachada está de pintura nova, também chamada de pichação. Amanhã comerei a carne branca de um jacaré, verá quem é o chefe da água, ele verá. Reaja, ou dormirás na barriga de um jacaré, não como o Jonas da bíblia, que foi parar no estômago de uma baleia. Metáfora é metáfora – coisa pouca.

Darlan M Cunha: foto e texto