Os Inconfidentes / As Noites / Os Alergologistas

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A Devassa da Devassa:* O Riso (Quem ri primeiro…)

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@1.

     Como não é de praxe perguntar o indevido, pergunto: quando teremos todos nós 21 dedos, para talvez melhor darmo-nos conta do alheio ? 21 é um jogo de baralho ? Ó, 21 é feriado nacional originado na inquieta Minas, onde um punhado de pessoas sigilosas, de profissões e interesses muito diversificados, se reuniram para o grande avanço, tentando um basta à gula da Coroa, pois o mundo sempre teve gente dinâmica ou utópica assim, taciturna, revoltada, algo ciente de seus deméritos e inflexões, quanto das armaduras, de sua visão quiçá social, e assim é que, como diz a canção Coração tranquilo: Tudo é uma questão de manter a espinha ereta.*

@2.

     E a noite não rompe as horas, quase morta, estagnada, é algo assim como um burro empacado diante de um mata-burro. Sofres tua insônia de modo diverso de quem sofre sua clarividência, ou demência, enfim, todos querendo diálogo com o sossego.

@3.

Falando em alergia… pólen. Conheço uma menina que, pelo método seguido pelos pais, come flores diariamente, embora não só de flores viva o Homem. Lembra.

@4.

“Todo mineiro é conspirador”, publiquei em livro.

 

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Imagem: Internet: 1 7zZuP84TRa-5TjIuPrTbEg.jpeg

Texto: Darlan M Cunha

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Urtigão

Urtigão

Urtigão: personagem criada por Dick Kinney e Al Hubbard

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      Cinco da manhã, a caverna sob neblina, eu preparava chá-bravo, e me inquietei pelo sumiço da criatura lá nas profundas dos infernos, esgueirado-se no anonimato, como é do seu feitio tão conhecido e invejado pelo resto do mundo.

Todos querem ser Urtigão, pelo menos um dia.

     Ri na madrugada ao me lembrar do meu amigão do peito, irascível, mas que se abre comigo, rindo de modo a espantar deuses e demônios, ariranhas e javalis, pisamos em cobras, no rabo de lagartos e na cabeça de pequenas rãs multicores venenosíssimas, que comemos assadas, porque nós somos mitridatizados, ou seja, imunes a venenos.

Todas querem ter Urtigão, pelo menos um dia.

     URTIGÃO disse que gostaria de alegrar o mundo, e topei essa ideia na qual já estamos trabalhando, pelo que tristezas vão rolar, e até o inferno será pouco para tal espetáculo, e a visão de Nero pondo fogo em Roma não dá nem para o nosso cafezinho, porque até as nuvens se encherão de labaredas, e assim é que vai chover diferente.

Todo mundo quer aderir ao modo Urtigão de viver, pelo menos um dia.

     Como dizem os avisos das emissoras de televisão: Next / A seguir / Aguarde…

 

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Imagem: WIKIPÉDIA

Personagem criada por Dick Kinney e Al Hubbard

Texto: DARLAN M CUNHA

Arqueologia, e a sensação do primeiro livro

FIGURAS RUPESTRES ENCONTRADAS NAS CAVERNAS DA REGIÃO DE LAGOA SANTA

Pinturas rupestres encontradas na região de Lagoa Santa, MG, Brasil

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     Nunca se esquecerá da sensação sufocante ao receber em casa os exemplares de seu primeiro livro, sufocante teor de alegria, pasmo, trêmulo, ali estava diante daquilo que tantos veem como sendo “um filho”. Bebeu um trago e deitou-se já sem peso, e não havia ninguém no mundo, só ele e as pessoas que lhe haviam povoado o imaginário, e todos estavam longe, embora do outro lado da rua, ele os alijara para poder pensar em algo ou em nada, um pouco sobre o fato de estar vivo, pendente para um lado ou para outro lado, bem ou mal, claro ou escuro, e lembrou-se da música A Flor e o Espinho,* pelo que se vê que há marcas mais duradouras do que a marca no couro de bois e vacas, e a razão pela qual as garotas não se esquecem do primeiro sutiã e nem da menarca. Assunto não falta ao imaginário, à memória, e assunto não falte ao errante violeiro.*

 

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Foto e texto: DARLAN M CUNHA

ESCRITAS: https://www.escritas.org/pt/n/t/59099/tua-vez

Um certo Raphael

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Raphael Rabello (Rio de Janeiro, (1962 / 1985)

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@1.   

     Desconheço o projeto dos deuses, mas esses tipos só têm uma meta, um foco, alguma viga na qual se agarrarem, são pífios demais para o meu livre exercício de inquietação, surdos demais para a música ou, como Leonardo da Vinci a chamava, ele que também era músico – ele e os do seu tempo a chamavam de la figurazione dell’invisibile. Por falar em arqueologia da arte, em especial sobre música

@2.

     um garoto, sim, um púbere acabou de encontrar o tesouro de Harald Blue Tooth, Haroldo Dente Azul, mil anos após ter este sido escondido num ermo na Alemanha. Atraído pela arqueologia, o garoto certamente vive fuçando o quintal de sua casa, colinas, descampados, vales e inconscientemente também a si mesmo, porque isto é marca registrada da juventude – a busca em meio ao caos adulto, adultos que tudo adulteram, de tal maneira que as crianças e os púberes, com tantos maus exemplos, tornam-se piores do que os pais e os avós. Preto no branco e vice-versa. Retrato em preto e branco.

     Um canal estrangeiro logo mostrou o local das escavações com as indefectíveis marcações de limites, num lugar que hoje é plano, descampado, o qual certamente foi um bosque ou uma floresta. De repente vi sair do fundo daquelas escavações um moço com um violão, sentaram-se, e recomeçaram de onde pararam, e sequer pediram água de botija, pão com salsichas brancas e uma garrafa de schnaps, algo assim, mas a boa hospedagem logo se fez presente, e uma toalha bem bordada foi esticada diante da jovem dupla, e assim revi, sem surpresa nenhuma, mas com uma alegria imarcescível o violonista Raphael Rabello tocar todo o disco Todos os Tons.

 

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Imagem: YOUTUBE: JOSÉ FREITAS / VIOLÃO BRASIL

Texto: DARLAN M CUNHA

cotidiano 4

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     Rabiscar os rostos da aldeia, de sua santíssima trindade, pode parecer heresia – porém, como é que algo ou atitude pode se parecer com aquilo que já não existe ? Salvo engano, nada mais, em lugar nenhum do mundo vasto mundo é heresia. Degolar caules frescos é corriqueiro (imagino-me de joelhos, sem garganta com que validar quem a mãe cingiu de desvelos). Não, nada aqui escrito é para desfile de tropas. Tudo. Ir às ruas é abandonar o medo ou repintar de nervos as esquinas, tornando-as cordas esticadas como uma linha untada com cerol ? É a cabeça, irmão. Tudo é teu, credor de tudo, as ovelhas no cercado, dizem os textos sagrados. Enquanto esperas, reler o Decamerão, o Dicionário do Diabo.

     Rabiscar os pilares da santíssima trindade da aldeia – amor amor amor – não dá fim a ela, só o fogo nos pastos urbanos, o rural trespassado pelas queimaduras do cotidiano, ó, neves da caatinga e águas do Atacama, o ministro fará cair véus, assombros que o Nunca nunca imaginou, ó, a realidade trocará a tua pele tantas vezes quanto o fazem as cobras, e o grito que contivestes será enfim julgado apto por ele que porá de vez sobre os ombros teus a cátedra ministerial belzebuana. Tudo será teu que sou o teu credor invisível.

     As cidades invisíveis existem, de fato e de direito, mas até elas começam a cercar-se de todos os meios, cientes dos gases em ebulição, frases de efeito, palavras sem palavra, as suicidades e monstrópoles de carne e ossos serviram de noção às cidades invisíveis, mas foi em vão, que o invisível já está em debandada. Carona para onde, se não há onde, se nenhuma alusão vai até onde queres ir, se nenhum caminho tem força centrípeta forte o bastante para jogar-nos para fora do curtume ?

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar…

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Música: Gonzaguinha. O que é, o que é ? – https://www.youtube.com/watch?v=2iMOXqKTh34

imaginário

Teatro Francisco Nunes. Parque Municipal, BHte. Já me apresentei aí.

Teatro Francisco Nunes. Belo Horizonte, MG, Brasil (algumas vezes estive neste palco)

debates conferências teatro música reuniões de classes – há de tudo nesse tipo de casa

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No teatro se morre de morte prematura, violenta, idealizada

e a trupe pensa que é no palco que as coisas acontecem,

mas é na rua, a rua que o proscênio desconhece, onde o todo

se apresenta, é lá que se lava a roupa suja, que se aprende hábitos

que se manieta ou se impulsiona a usura, o pão do ódio, o ócio.

Foi lá que a foice e o martelo enferrujaram, outras normas

agora mamam e desmamam, prontas para te darem nova senha.

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foto e poema: Darlan M Cunha

Um lugar para todos: histriônicos, felinos, paus-mandados, frenéticos do sexo pro agressivo, artífices das flores do mal, de solstícios e equinócios repintados à mão [falsos]; sinônimo de perigeu, há porcos-espinho, víboras e salamandras, salários sem crédito, motoristas a soldo da firma A Inenarrável Algazarra da Morte, enfim, eis um lugar para além do bem e do mal – pois é na rua que as coisas acontecem

Minha Neguinha 1

uma das “namoradeiras” de Sabará, MG, Brasil

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LETRAS DE MÚSICAS

Eu faço samba e amor até mais tarde, não tenho a quem prestar satisfação. Escuto a correria da cidade, que alarde, será que é tão difícil amanhecer ? (Samba e amor. Chico Buarque)

Era um homem que vivia lá com seus botões. Sempre dizia que ser homem não é só ter colhões – tem-se que viver, enfrentar a corrente, desde cedo (Um homem, por dentro. Darlan M Cunha)

Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão (Dança da Solidão. Paulinho da Viola)

Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor (Nelson Cavaquinho // Guilherme de Brito  // Alcides Caminha

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foto: Darlan M Cunha

mães, avós, bisavós, trisavós – 2

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arte: Maria José M Cunha (84 anos)

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     Nasci de madrugada, mas não foi isso o que me fez insone, que me faz ir de madrugada à mesa sempre posta, à geladeira, a um livro, à janela ou ao banheiro, embora não tenha certeza da razão exata deste jeito de ser, de trocar o dia pela noite. Pensando melhor, não sou nada disso, só metade disso, ou, como diz o título do documentário sobre o poeta Manoel de Barros, dirigido por Pedro Cezar – Só dez por cento é mentira – o resto é invenção.

     Nasci no breu, candeeiros, fale baixo, alegria e apreensão iguais em todo parto normal, pinga e café na sala e na cozinha lotada pela vizinhança, otimismo, o desafio da parteira, o suor da mãe, pai nervoso, o nanico chorando, indo direto para a primeira refeição da vida: o colostro.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

Coisas da minha terra – 4

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     Na minha terra, usos e costumes não se perdem assim assim, não, por aqui o critério de perda não se resume na perda em si, vai mais além do fato de, por exemplo, de alguém esquecer um livro, uma sacola, a carteira, algum presente sobre um balcão qualquer, nos tantos lugares aos quais se vai todos os dias (perdi a conta dessas perdas), portanto, o pensamento em geral é de que perdeu-se o vazio da carteira, identidade e tudo lá dentro, mas não se perdeu a identidade que nos faz únicos, conhecidos ou desconhecidos da massa, enterrados num anonimato aceitável, ou pendurado numa potente lâmpada de led.

     Minha terra não tem palmeiras, muito poucas, que o mar é longe (nunca vi o mar, dizem que é bonito, dizem também que é bicho grande e mau, e que há quem nada pelado, no mar aparecem baleias adoidado, calipígias gingando nas marés alta e baixa, e tubarões famintos por uma aventura, piranhas não há no sal do mar). Pois é, aqui, nessa terra de minérios sem fim, o que se vê é um mar ou oceano de esculturas e pinturas ditas do Barroco, mas sou homem oco, só fico assim sentado, pasmado, mau olhado, ilhado, cercado de saudades por todos os lados, quase de todo largado por aí, asfixiado debaixo de tanta igreja. Mas vou ao BarTolo, pois nem mineiro é de ferro. Um ditado bem mineiro diz Tem isso aí ?” “Tem, mas acabou.”

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foto e texto: Darlan M Cunha

as direções do vento, da amizade…

uakti

UAKTI – Belo Horizonte, MG, Brasil

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     Poesia e música podem ser cravo e canela, nada, macarronada coberta com parmesão ralado, pão de queijo, forca, doce de batata doce com coco ralado, alegria, agonia, trato e distrato, a famosa tentativa de fuga, tentativa de compreender a rua onde se mora, enfim, escrever de verdade é sofrer de verdade.

II

     Terça de carnaval, quatro e cinquenta da manhã, comecei o dia ouvindo o Uakti, ou mais uma moçada verdadeiramente internacional daqui de BH (Uakti, Clube da Esquina, Grupo Corpo, Grupo Galpão, Grupo Giramundo, Skank, Sepultura, etc), tocando suas famosas Variações sobre a excepcional Águas de Março. Café à mão, biscoitos de polvilho caseiros. Antes de ouví-los, escrevi mais três textos para o próximo livro a sair este ano.

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Imagem: Por Gerardo Lazzari – Uakti, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2588711

Texto: Darlan M Cunha