cotidiano 4

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     Rabiscar os rostos da aldeia, de sua santíssima trindade, pode parecer heresia – porém, como é que algo ou atitude pode se parecer com aquilo que já não existe ? Salvo engano, nada mais, em lugar nenhum do mundo vasto mundo é heresia. Degolar caules frescos é corriqueiro (imagino-me de joelhos, sem garganta com que validar quem a mãe cingiu de desvelos). Não, nada aqui escrito é para desfile de tropas. Tudo. Ir às ruas é abandonar o medo ou repintar de nervos as esquinas, tornando-as cordas esticadas como uma linha untada com cerol ? É a cabeça, irmão. Tudo é teu, credor de tudo, as ovelhas no cercado, dizem os textos sagrados. Enquanto esperas, reler o Decamerão, o Dicionário do Diabo.

     Rabiscar os pilares da santíssima trindade da aldeia – amor amor amor – não dá fim a ela, só o fogo nos pastos urbanos, o rural trespassado pelas queimaduras do cotidiano, ó, neves da caatinga e águas do Atacama, o ministro fará cair véus, assombros que o Nunca nunca imaginou, ó, a realidade trocará a tua pele tantas vezes quanto o fazem as cobras, e o grito que contivestes será enfim julgado apto por ele que porá de vez sobre os ombros teus a cátedra ministerial belzebuana. Tudo será teu que sou o teu credor invisível.

     As cidades invisíveis existem, de fato e de direito, mas até elas começam a cercar-se de todos os meios, cientes dos gases em ebulição, frases de efeito, palavras sem palavra, as suicidades e monstrópoles de carne e ossos serviram de noção às cidades invisíveis, mas foi em vão, que o invisível já está em debandada. Carona para onde, se não há onde, se nenhuma alusão vai até onde queres ir, se nenhum caminho tem força centrípeta forte o bastante para jogar-nos para fora do curtume ?

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar…

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Música: Gonzaguinha. O que é, o que é ? – https://www.youtube.com/watch?v=2iMOXqKTh34

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imaginário

Teatro Francisco Nunes. Parque Municipal, BHte. Já me apresentei aí.

Teatro Francisco Nunes. Belo Horizonte, MG, Brasil (algumas vezes estive neste palco)

debates conferências teatro música reuniões de classes – há de tudo nesse tipo de casa

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No teatro se morre de morte prematura, violenta, idealizada

e a trupe pensa que é no palco que as coisas acontecem,

mas é na rua, a rua que o proscênio desconhece, onde o todo

se apresenta, é lá que se lava a roupa suja, que se aprende hábitos

que se manieta ou se impulsiona a usura, o pão do ódio, o ócio.

Foi lá que a foice e o martelo enferrujaram, outras normas

agora mamam e desmamam, prontas para te darem nova senha.

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foto e poema: Darlan M Cunha

Um lugar para todos: histriônicos, felinos, paus-mandados, frenéticos do sexo pro agressivo, artífices das flores do mal, de solstícios e equinócios repintados à mão [falsos]; sinônimo de perigeu, há porcos-espinho, víboras e salamandras, salários sem crédito, motoristas a soldo da firma A Inenarrável Algazarra da Morte, enfim, eis um lugar para além do bem e do mal – pois é na rua que as coisas acontecem

Minha Neguinha 1

uma das “namoradeiras” de Sabará, MG, Brasil

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LETRAS DE MÚSICAS

Eu faço samba e amor até mais tarde, não tenho a quem prestar satisfação. Escuto a correria da cidade, que alarde, será que é tão difícil amanhecer ? (Samba e amor. Chico Buarque)

Era um homem que vivia lá com seus botões. Sempre dizia que ser homem não é só ter colhões – tem-se que viver, enfrentar a corrente, desde cedo (Um homem, por dentro. Darlan M Cunha)

Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão (Dança da Solidão. Paulinho da Viola)

Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor (Nelson Cavaquinho // Guilherme de Brito  // Alcides Caminha

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foto: Darlan M Cunha

mães, avós, bisavós, trisavós – 2

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arte: Maria José M Cunha (84 anos)

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     Nasci de madrugada, mas não foi isso o que me fez insone, que me faz ir de madrugada à mesa sempre posta, à geladeira, a um livro, à janela ou ao banheiro, embora não tenha certeza da razão exata deste jeito de ser, de trocar o dia pela noite. Pensando melhor, não sou nada disso, só metade disso, ou, como diz o título do documentário sobre o poeta Manoel de Barros, dirigido por Pedro Cezar – Só dez por cento é mentira – o resto é invenção.

     Nasci no breu, candeeiros, fale baixo, alegria e apreensão iguais em todo parto normal, pinga e café na sala e na cozinha lotada pela vizinhança, otimismo, o desafio da parteira, o suor da mãe, pai nervoso, o nanico chorando, indo direto para a primeira refeição da vida: o colostro.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

Coisas da minha terra – 4

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     Na minha terra, usos e costumes não se perdem assim assim, não, por aqui o critério de perda não se resume na perda em si, vai mais além do fato de, por exemplo, de alguém esquecer um livro, uma sacola, a carteira, algum presente sobre um balcão qualquer, nos tantos lugares aos quais se vai todos os dias (perdi a conta dessas perdas), portanto, o pensamento em geral é de que perdeu-se o vazio da carteira, identidade e tudo lá dentro, mas não se perdeu a identidade que nos faz únicos, conhecidos ou desconhecidos da massa, enterrados num anonimato aceitável, ou pendurado numa potente lâmpada de led.

     Minha terra não tem palmeiras, muito poucas, que o mar é longe (nunca vi o mar, dizem que é bonito, dizem também que é bicho grande e mau, e que há quem nada pelado, no mar aparecem baleias adoidado, calipígias gingando nas marés alta e baixa, e tubarões famintos por uma aventura, piranhas não há no sal do mar). Pois é, aqui, nessa terra de minérios sem fim, o que se vê é um mar ou oceano de esculturas e pinturas ditas do Barroco, mas sou homem oco, só fico assim sentado, pasmado, mau olhado, ilhado, cercado de saudades por todos os lados, quase de todo largado por aí, asfixiado debaixo de tanta igreja. Mas vou ao BarTolo, pois nem mineiro é de ferro. Um ditado bem mineiro diz Tem isso aí ?” “Tem, mas acabou.”

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foto e texto: Darlan M Cunha

as direções do vento, da amizade…

uakti

UAKTI – Belo Horizonte, MG, Brasil

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     Poesia e música podem ser cravo e canela, nada, macarronada coberta com parmesão ralado, pão de queijo, forca, doce de batata doce com coco ralado, alegria, agonia, trato e distrato, a famosa tentativa de fuga, tentativa de compreender a rua onde se mora, enfim, escrever de verdade é sofrer de verdade.

II

     Terça de carnaval, quatro e cinquenta da manhã, comecei o dia ouvindo o Uakti, ou mais uma moçada verdadeiramente internacional daqui de BH (Uakti, Clube da Esquina, Grupo Corpo, Grupo Galpão, Grupo Giramundo, Skank, Sepultura, etc), tocando suas famosas Variações sobre a excepcional Águas de Março. Café à mão, biscoitos de polvilho caseiros. Antes de ouví-los, escrevi mais três textos para o próximo livro a sair este ano.

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Imagem: Por Gerardo Lazzari – Uakti, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2588711

Texto: Darlan M Cunha

das levezas

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       O leque é muito antigo, oriental, assim como, por exemplo, a pipa, ela também é de origem oriental, mais precisamente, outro legado chinês. Fico pensando em como, numa sociedade tão maquinizada, certos objetos ainda têm vida, e até prevalência. Vejamos o caso do martelo: como se pode aposentar o humilde martelo, sim, aquele mesmo que de vez em quando acerta teu dedo de descuidado ou de levemente embriagado ? Então, viva o martelo, a pipa, a pólvora, a flauta de bambu, a enxada, o leque, o alaúde – pai do violão -, viva o CARNEVAL, viva tudo, viva eu, viva você.

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foto e texto: Darlan M Cunha

babel moderna – 6

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       A pontuação ortográfica, a semântica de todo dia nas propagandas (renovadas, sempre as mesmas), ou seja, o que há de sibilino nos anúncios, nos avisos que se vê em todas as aldeias conformam as pessoas, e isso não é novo nem para alguém um-zero-à-esquerda. Porém, uma vez imerso no nada, pode ainda restar algo a dizer e a fazer. Como não ?, neste mundo da excelência em desencontros, descartes, fuligem nas bocas e nas bolsas, onde nenhum tipo de lentidão é admitido, pois a glória tem pressa, e a ira tem necessidade de crescer, de não deixar seus ovos gorar ? A diretriz de toda showciedade sempre foi e será tomar atitude para manter-se no topo; para isso, nada como fazer ver aos novos, ou a certos intrusos, o devido lugar deles. Babel tem esquinas, curvas, breus, clarões, chispas, nenhum silêncio, sua plástica tende só para o alto (saltar de qual pensamento ?). Esquinas, curvas, descidas e subidas, e tu estás neste momento nalguma delas, pois isto é Babel.

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arte mural: GUD (31)  9 8721 1025 (Belo Horizonte)

foto e texto: Darlan M Cunha

babel moderna – 5

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voar, voar, voar // soltar penas de pássaros no ar (Paulinho Pedra Azul, MG)

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      Aqui, em babel, é onde uns dançam, outros cantam, outros comem, outros não comem e não bebem, onde muitos infelizes iam cada vez mais aos braços de pastores, de bispos, de chantagistas da bolsa de valores, mãozinha nas coxas da criança, e por isso mesmo foram mortos, tivessem sido pais-de-santo ou pais do diabo, tiveram o fim merecido por enganar pensionistas do INSS.

     Aqui, em babel-salvador, e noutras aldeias desgostosas por verem este nome simples de aldeia ser mal misturado, aqui se esguicha ansiedade nos jardins e hortas, muitos morrem atropelados, enquanto outros acham que encontram a si mesmos quando medem forças e fraquezas num motel; outros há que fogem da polícia, polícia a qual foge dos magistrados, e estes nem sempre dormem em paz. Mulher leviana em casa, homem sujo dentro das quatro linhas da casa, é assim que as coisas acontecem em babel horizonte (o rio morreu já faz muito tempo), sabem que roupa suja se lava é na rua, e aqui a rua é O Cara, o espetáculo cotidiário sobre o qual as pendências jurídicas não têm nenhum valor.

     Aqui, em babel do sul marravilha, é proibido fumar, gritar durante cirurgia (mesmo sob anestesia), e durante o coito, é proibido dar esmola (barbaridade, chê, manézinho), bem como pendurar roupas nas janelas dos apertamentos. Lembro-me do livro Os Ratos, do psiquiatra Dionélio Machado, médico-craque.

     Na grande babel do amazonas land e na babel tocantins (palmas para quem as mereça), em todo este pequeno território, e em todos os outros, é preciso saber por que é que se diz que as coisas andam de mal a pior, segundo uns; mas, segundo outros, as coisas não poderiam estar melhor, ou seja, as antíteses de sempre: quando um chora, o outro ri. Babel é isso, e mais.

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foto e texto: Darlan M Cunha

arte mural: GUD (Belo Horizonte, MG) >>> fone: 9-8721-1025

babel moderna – 3

cao-vadio

Sem Nome – vadio, depois de ter sido cão de madame

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      O que fazer, se a estrada desaparece ? Ó, se um cão tem consigo tal pergunta, imagine o restante. O ontem foi hoje e foi amanhã; mas, embora ainda em parte insepulto, já podes cantar-lhe essa cova em que estás, com palmos medida – porque o ontem já não serve sequer para piada, o agora é que é O Cara.

     Sou um cão vadio, vou para onde o focinho aponta, para onde o rabo abana. Nada tenho com o fisco, mas devo estar atento aos palavrões, aos chutes e aos guizos que querem colocar no meu rabo, e assim fazerem com que eu enlouqueça com aquele barulho, sim, amigos meus, cães de grande coração, morreram de loucura, guizos no rabo. O mundo é. Certas perguntas deveriam servir geral. O que fazer, se o convite tão esperado não veio ?

     É certo que não gosto deles, dos caminhos cheios de gente – sinônimos de problemas, de dias e noites emperrados por desejos que não cedem, por falsas alegrias babando nos bares e nos lares, ó vida, margarida, é mais do que certo que não me atraem estes jogos florais, estes mercados de pulgas. O que fazer, se o sofá se torna pequeno, e se a rua já não sabe o que é dar-se as mãos ? Nesta Babel, falo só o idioma do uivo.

arte, foto e texto: Darlan M Cunha