sábado Brasil

no capricho caseiro

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E pensar que feijoada era comida feita pelos e para os escravos e escravas – estes e estas aproveitando partes do que lhes era dado ou jogado, e assim, uma vez a carne cozida e também o feijão, alguns temperos, foram fazendo a base de uma comida que hoje é um patrimônio nacional, sendo que hoje se pode receber quaisquer pessoas em casa para um almoço, sem receio de se estar servindo-lhes algo de terceira ou de quinta classe.

Darlan M Cunha: foto e texto

Nina

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Ontem, após tanto tempo, lembrei-me de um dos livros que li quando ensaiava aprender o idioma russo numa casa oficial aqui em Belo Horizonte, na Rua São Paulo, um livro de gramática da professora (até aqui a memória chegou) Nina Potapova – Нина Потапова , e eu me admirei disso, sabedor do que a memória esconde e, de repente, traz de volta.

Pois é, as trinta e três letras do alfabeto russo (cirílico) estão aqui dentro, seu timbre, nuanças. Depois, ia ao Mercado Central, na mesma região da cidade.

Viver é mesmo um espanto.

Darlan M Cunha: foto e texto

ângulos

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56 LIVROS QUE NÃO PUDE EVITAR

  1. Dom Quixote de La Mancha (M.C. Saavedra)
  2. Ó Serdespanto (V.F. Cecim)
  3. Grande Sertão: Veredas (J.G. Rosa)
  4. Sakuntala (Kalidasa)
  5. O Livro dos Mortos dos Maias
  6. Obras Póstumas de Brás Cubas (J.M.M. de Assis)
  7. Lavoura arcaica (R. Nassar)
  8. Um copo de cólera (R. Nassar)
  9. Viva o Povo Brasileiro (J. U. Ribeiro)
  10. O rio (J.C.M. Neto)
  11. O Alef (J.L. Borges)
  12. Cuando ya no importe (J.C. Onetti)
  13. Pedra do Sol (O. Paz)
  14. Os Homens Ocos (T.S. Eliot)
  15. O Inominável (S. Beckett)
  16. O pássaro pintado (J. Kosinski)
  17. Tipos Psicológicos (C.G. Jung)
  18. História da Beleza // História da Feiura (U. Eco)
  19. O Código de Hammurabi (Hammurabi, Rei da Mesopotâmia)
  20. Poderes terrenos (Anthony Burgess)
  21. Memorial do Convento (J. Saramago)
  22. O Evangelho segundo Jesus Cristo (J. Saramago)
  23. Satanás diz (S. Olds)
  24. A astúcia da mímese (J.G. Merquior)
  25. Sentimento do Mundo (C.D. de Andrade)
  26. Viagem a Andara (V.F. Cecim)
  27. Crime e Castigo (F.M. Dostoiévski)
  28. Os Irmãos Karamazov (F.M. Dostoiévski)
  29. Humilhados e Ofendidos (F.M. Dostoiévski)
  30. Divina Comédia (D. Alighieri)
  31. A Ratazana (Günter Grass)
  32. Dentro da noite veloz (Ferreira Gullar)
  33. A morte em pleno verão (Y. Mishima)
  34. A interpretação dos sonhos (S. Freud)
  35. O jogo da amarelinha / Rayuela (Julio Cortázar)
  36. Cem anos de solidão (G.G. Márquez)
  37. Zorba, o grego (N. Kazantzakis)
  38. Homens e Ratos (J. Steinbeck)
  39. Rei Lear (W. Shakespeare)
  40. Fausto (J.W. von Goethe)
  41. O pão nu (Mohamed Choukri)
  42. Poemas (N. Hikmet)
  43. Viagem ao Brasil – 3 vol. (von Martius, von Spix)
  44. Livro de Pré-Coisas (M. de Barros)
  45. Ana Karenina (Leão Tolstoi)
  46. Assim falou Zaratustra (F. W. Nietzsche)
  47. A função social da guerra na sociedade Tupinambá (F. Fernandes)
  48. O Povo Brasileiro (Darcy Ribeiro)
  49. Perto do coração selvagem (C. Lispector)
  50. A Paixão segundo G. H. (C. Lispector)
  51. Lampadário (Denise Emmer)
  52. Sumaimana (R.C. Colônia)
  53. Amavisse (H. Hilst)
  54. O Farol (V. Woolf)
  55. Poemas (W. Szymborska)
  56. Esboços e Reveses: O Silêncio (D.M. Cunha)

NOTA: Cada um destes livros relacionados aí acima me ajudaram e ajudam, cada qual com seu cabedal, no cotidiano – além de outros. (DMC)

@.2

Há dias em que eu fico pensando na vida / e sinceramente não vejo saída – diz a canção da dupla Vinícius e Toquinho, e parece que não há como imaginar alguém que não pare, pelo cansaço com isso ou com aquilo, e se veja às voltas com um ‘balanço’ pessoal: estigmas, laços afetivos, viagens feitas e nunca feitas, a dor na coluna, a cobrança indevida (uma dor de cabeça monumental), um par de sapatos, 2ª via dos documentos perdidos, visitas não feitas, ah… um trago vai bem: café, vodka com água de coco, ou um pé de vinténs plantado no quintal, nada mau, nada mal. Um morto, teimoso que só, levantou-se na minha frente, na de todos, pura catalepsia (raríssima). Então, imagine o horror de ver um morto, vivo, indagando sem parar: Onde estou ? o que houve ? por que correm e gritam e berram e choram ?

artífices & ditados

ZAUSS GOMES – Luthier, Bairro Santa Cruz, BHte, MG. Pessoa afável, de bom trato.

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Conheci ZAUSS GOMES, luthier, por acaso, numa visita ao meu tio e às minhas tias maternas, que moram próximas à casa e à lutheria dele. Acho que foi em 2014, num domingo – tenho certeza do dia, não do ano. Não importa, porque amigo não tem data, gente boa extrapola essa miudeza de nomes & sobrenomes, dias com data – como já escrevi em textos aqui no WP e nalguns dos meus livros publicados e não publicados. Vi o cartão de visitas que ele me deu, à época, e faço então estoutra postagem em consideração a todas as pessoas às quais eu chamo de “manuais“, embora todos nós sejamos manuais, de uma forma ou de outra, mas estes e estas, para mim, são diferentes, não melhores, mas me encantam de uma maneira especial: marceneiros, carpinteiros, pintores, pintoras, escultoras, pintores de parede, oleiros, luthiers, rendeiras, fazedores de pipas e de piões (aqueles que precisam ser jogados ao solo, enrolados num barbante ou cordinha especial, lembra ?). Ah, os luthiers ou construtores e consertadores de instrumentos musicais têm que ter um olho e um ouvido muito especiais, têm que conhecer madeiras, lixas e colas, aparelhos próprios, miúdos, antigos, enfim, esses caras são mesmo para lá de anormais, isso mesmo: para lá de anormais, além de terem uma paciência também ela anormal. E quando o instrumento chegar às tuas mãos, cuida bem dele, pois, do amigão.

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Já que estamos remanescendo, eis alguns ditados populares, todos eles na boca da minha mãe que, sempre contente, superior às inúmeras vicissitudes dela e da Showciedade em geral, está sempre dizendo algo assim da vivência popular:

1. Sou madeira que jegue não rói. (imagine os dentes de um jegue roendo um mourão).

2. Quem dorme com criança amanhece molhado.

3. Cada um no seu canto chora seu tanto.

4. Quem não tem pão, caça com o quê ? (paródia cruel com o original. A responsabilidade é deste “esmiuçador de pândegas alheias”).

5. Antes uma andorinha voando do que duas nas mãos.

6. Quem corre, se cansa; quem anda, alcança.

7. O pouco com Deus é muito.

8. Com as roupas e bocas dos mortos se vai à igreja rezar pelos vivos.

9. Se vai chover ? Pergunte aos pingos.

10. Quem canta seus males espanta.

11. Deixe o que comer, mas não deixe o que fazer – OU – não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje.

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Darlan M Cunha

tanto

O que será, que será, que dá dentro da gente… que não devia ? (Chico Buarque)

@1.

Já respondo a esta indagação, com uma assertiva: há conflitos internos, daí que, entre um dia e outro, fica-se cada vez mais se perguntando o que será ?, por que uma nova dúvida, quando virá de vez a decisão a respeito disso e daquilo ? quanto será a conta psíquica: será maior do que esta, já à mesa vazia, essa conta, posta onde deveria estar o pão, mas onde se vê o Sim, de olhos vazados, e em seu lugar um exemplar de Cão de olhos azuis, do García Márquez, ou O cão sem plumas, do João Cabral, se não O dicionário do Diabo, do Ambrose Bierce ?

Sim, já responderás a esta questão, sentado à beira do caminho, espinhos em cada mão, na cabeça uma coroa, ora, tu também és um cristo, foste pego sutilmente, mas logo depois as coisas mudaram, e hoje és o que és: outro paradigma da nulidade, um poço de dúvidas, um escracho, barco fazendo água, mas tu ainda tens crédito, porque continuas na luta, mesmo se perguntando, como Carlos Drummond se persignou no poema O lutador: Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos.

MINHA VIDA É ANDAR POR ESTE PAÍS, PRA VER SE UM DIA EU DESCANSO FELIZ… (Luiz Gonzaga e Gonzaguinha)

@2. Tempo de mochileiro // Backpacker’s time

Entendamos, juntos: mochileiro não é bater pernas pura e simplesmente, nada de tentar ir ao paraíso, ao que não existe, tentando, consciente ou inconscientemente, fugir dos dias e das noites sempre as mesmas, mesmos lugares, mesmas caras, odores, sons… não, não é por aí, como se diz, não é por aí. Ser mochileiro verdadeiro, como eu fui, é dar a si a chance de diluir espinhos antigos, ao mesmo tempo em que abre e anota nos novos caminhos, o que a boca dos lugares desconhecidos te disse, o que os novos temperos fizeram com o teu paladar, tiveste de procurar alguém para costurar-te as botas, tiveste de lavar a roupa à beira de um córrego ainda límpido, foste convidado a uma festa (prevenido, sempre levava calça e uma camisa de mangas compridas, para eventualidades, e não apenas camisetas poucas e poucas bermudas, violão, caderno grosso para anotações, lanterna, estojo de pronto-socorro, não havia telefone, ó, entrar noutra cidade e procurar um orelhão era outra história, e a família e os amigos e amigas agradeciam, hehe), entrava-se nalgum entrevero, por dormir nalgum terreno bem ermo, mas cujo dono era ranzinza. Mochileiro, assim como serenata, é sinônimo de extinção. Serenata é só mesmo na cidade do estado do Rio de Janeiro, chamada Conservatória, ela existe, e vive de /da/com a Música este pequeno e tão agradável miolo do prazer. É claro que em Ouro Preto, Mariana, Tiradentes e no mimo de nome Bichinho, e em Diamantina, ainda se ouve alguma serenata.

Guia do Viajante | CONSERVATÓRIA - RJ
A ESTÁTUA EM HOMENAGEM AOS FUNDADORES DO MUSEU DA SERESTA – OS IRMÃOS JOUBERT CORTINES DE FREITAS e JOSÉ BORGES DE FREITAS NETO. (GUIA do VIAJANTE: https://guiadoviajante.com/3392/conservatoria-rj/

Darlan M Cunha: texto e fotos, exceto a de Conservatória, RJ.

fluxo

Bu… guardiã

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Hoje, Ontem, Anteontem, Trasanteontem e Sempre, sempre é tempo de acontecer

Será preciso muito mais do que o caldeirão da Maga Patalógica, ou de um tipo assim tão misterioso quanto o monge Rasputin, para que se dê fim à Grande Onda Aérea Mundial. O monge tornou-se tão ou mais falado, temido e invejado pelas bebedeiras e libidinagens, do que pelos alívios feitos de poções, mezinhas, chás, suadouros, oferendas, rezas bravas e orações silenciosas, e de retiros espirituais, e por aí vai, visando melhorar a saúde do jovem príncipe Alexei, filho da Czarina Alexandra e do Czar Nicolau II, irmão das princesas Tatiana, Anastácia, Maria e Olga (a família foi executada aos 17 de julho de 1918, junto com seus fiéis serviçais, sem cerimônia, a não ser a do ultraje, a mando de Moscou, via mãos do Soviete Regional dos Urais / Partido Bolchevique. Enterrados aqui, ali e acolá, segredo absoluto, as ossadas só foram descobertas e analisadas no DNA há poucos anos, longe da casa de campo na qual estiveram prisioneiros durante meses, numa agonia muito difícil de ser imaginada (diz-se que do busto das princesas e da czarina diamantes saltaram, guardados para um eventual exílio, ou fuga para a Alemanha). Pois é, não se sabe como, o monge que fora até São Petersburgo foi levado ao palácio, e lá ficou, boa verve, ele, camponês que tinha fama de curandeiro com poderes assombrosos, o que lhe deu a proteção da Czarina, cujo filho, herdeiro do trono de todas as Rússias, sofria de hemofilia. O monge teve morte pavorosa: envenenado por amigos que o convidaram para uns tragos numa residência, foi atirado várias vezes, pois o gigante não morria, e até investia; depois, arrastado na gloriosa neve e no duro gelo da Mãezinha Rússia (assim o povo russo chama a Rússia: Mãezinha).

Pois é, eis os apavorados e as tristes de Hoje saibam que será preciso muito mais do que simples varredura na Showciedade, mas confio nas amigas e nos parentes da minha amiga da foto aí acima – Madame Bu. Mesmo assim vai ser difícil, não impossível, desde que os folgados e as doidivanas se toquem diante da morte passeadora. Confio na Bu, e já a liberei de estar à minha porta, para que dê caça infrene ao Pavor do Mundo, até espantar de vez O Assombro Gidantesco, Sinônimo de Falta de Ar, de Famílias Devastadas, Camas Ausentes.

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Today, Yesterday, the day before yesterday, the day after yesterday and always, it’s always time for it to happen

It will take much more than the cauldron of the Patalogic Maga, or a guy as mysterious as the monk Rasputin, to bring an end to the Great World Air Wave. The monk has become as or more talked about, feared and envied for his drunkenness and libidinousness, than for the reliefs made from potions, meadows, teas, sweats, offerings, wild prayers and silent prayers, and spiritual retreats, and so on, aimed at improving the health of young Prince Alexei, son of Czarina Alexandra and Czar Nicholas II, brother of Princesses Tatiana, Anastasia, Maria and Olga (the family was executed on July 17, 1918, along with their loyal servants, without ceremony, except for the outrage, at the behest of Moscow, via the hands of the Regional Soviet of the Urals / Bolshevik Party. Buried here, there and everywhere, in absolute secrecy, the bones were only discovered and analyzed for DNA a few years ago, far from the country house where they were imprisoned for months, in an agony very difficult to imagine (it is said that diamonds sprang from the bust of the princesses and the czarina, kept for an eventual exile, or escape to Germany). Well, no one knows how, the monk who had gone as far as St. Petersburg was taken to the palace, and there he stayed, a peasant with a reputation as a healer with amazing powers, which gave him the protection of the Czarina, whose son, heir to the throne of all the Russias, suffered from hemophilia. The monk died a gruesome death: poisoned by friends who invited him for a few drinks at a residence, he was thrown several times, for the giant would not die, and even invested; then dragged through the glorious snow and the hard ice of Little Mother Russia (as the Russian people call Russia: “Little Mother”).

So, here are the terrified and sad people of today, who know that it will take much more than a simple sweep of the Show Society, but I trust the friends and relatives of my friend in the picture above – Madame Bu. Even then it will be difficult, not impossible, as long as the slackers and nutjobs are touched in the face of strolling death. I trust Bu, and I have already released her to be at my doorstep, so that she can hunt the dread of the world to the end, until she scares away the Gidantesque Haunting, Synonymous with Breathlessness, Families Devastated, Beds Absent.

Darlan M Cunha