ação e reação

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cabo de guerra

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     Pelo que me lembro, os últimos cabos de guerra de que participei foi no Exército, no milênio passado (lexicógrafos e dicionaristas, enfim, os doutos no idioma fizeram tanta força, de lado a lado, que a grafia deste substantivo perdeu os hífens, foram para o chão), mas outros cabos de guerra e de falsas baianas existem e nos afligem todos os dias (falsa baiana é o tormento de se caminhar numa corda suspensa, e segurar-se noutra, acima da cabeça, entre as quais os infelizes andam, balançam e gemem e tremem, às vezes, caem no rio cuja boca sorridente espera pelos fracos e descuidados), mas esta é outra história.

     Nesse tipo de brincadeira o que não falta é o ar de pilhérias e gargalhadas sem fim, tombos e bundas doendo, às vezes, alguma aposta esdrúxula faz com que os dois lados se esforcem em dobro.

     Pensando nisso, está na hora de ir ao Grande Mercado, ao Enxame do Dia, à Lavoura do Incerto. Haja corda, haja pescoço… e pilhérias e gargalhadas. É como diz a canção, e a gente vai tomando, que também sem a cachaça, ninguém segura esse rojão.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

Não precisa da solidão, todo dia é dia de viver*

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Heliporto, bairro São Bento e região. BELO HORIZONTE, MG

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       A cidade faz suas partilhas, atende de segunda a segunda, sem descanso, não imita Deus, que descansou no sétimo dia, de acordo com a lenda, ora, a suicidade é lépida, tem o que fazer, inventando e desinventando entradas e saídas, ela é totem e tabu, lugar por excelência de encontros e despedidas, arena de encontros fortuitos e camaradagens rápidas, na conta de uma dúzia de cervejas e mil opiniões e recomendações, verdade, a monstrópole tem boca roaz, mas é nela que vive a felicidade ambulante, cheia de dedos e psicologias ocas, perneta e zarolha, carente de muito, cheia de vazões, crimes para dar e vender, a aldeia é o máximo divisor comum, fedendo a peixe, ferve de gente nas feiras e mercados, filas para isso e aquilo, é uma beleza de sorrisos no canto da boca, do outro lado da boca o cigarro e o desdém, o pigarro e um amém de todos, mal raia o dia, diz o poema, “entanto lutamos”. “Todos se acham mortais, dividem a noite, a lua e até solidão.”

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foto e crônica: Darlan M Cunha

Carlos Drummond de Andrade: poema O Lutador. Fernando Brant, Márcio Borges e Lô Borges >>> Para Lennon e McCartney.  Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges >>> Clube da Esquina nº 1

não responda não pergunte*

Av. Prof. Mário Werneck... Buritis, BH

O cerebelo da Era Lula // Temer no Museu do Futuro

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       O cerebelo age sobre os movimentos ou reflexos voluntários, coordena a postura corporal, responsável pelo tono muscular, etc. Pois bem, dizem que o governo – o qual está sendo julgado neste momento, no Congresso Nacional, ou não, porque há os que advogam uma abstenção de voto – está em perigo, pois é isso mesmo o que acontece com quem anda em más companhias.

       Eu também cometi esse engano, ene vezes, esquecido dos conselhos da mamãe Maria José, conselhos de toda mãe: – “Filho, fique longe dessa gente, dessas más companhias. Procure um ofício, mude-se de cidade, vá morar com seus avós maternos ou paternos”, dizia-me a mãezinha, hoje com 85 anos, mas tudo em vão, pois o Mal é um ímã poderoso, capaz de cegar até certos governos, tornando-os desgovernos. Só rindo, chorando.

       Como diz a canção do ilustre compositor Walter Franco, “é a cabeça, irmão”, e essa outra também do próprio: “não pergunte, não responda”.

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foto e texto: Darlan M Cunha

(bairro Buritis, Belo Horizonte, MG)

elementos

Lagoa da Pampulha 1

Lagoa da Pampulha, BELO HORIZONTE, MG

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       Em agosto, o vento dá as caras por aqui, e ainda que não mate, cresta os rostos e dá asas aos anúncios, às placas de trânsito e às saias. As mãos, por terem pouca irrigação, sofrem suas picadas. Mas o que é o vento natural diante dos ventos sociais, quase nunca de bem com a saúde do cotidiano ? Lembro-me do poema Congresso dos Ventos:

 

Na várzea extensa do Capibaribe, em pleno mês de agosto

Reuniram-se em congresso todos os ventos do mundo;

Àquela planície clara, feita de luz aberta na luz e de amplidão cingida,

Onde o grande céu se encurva sobre verdes e verdes, sobre lentos telhados, […]*

 

       Em agosto, que a vida seja leve, que as vítimas não saibam de nada, comentários se abram (como é difícil deixar umas palavras, talvez porque falar cansa, escrever dói – é o que parece). Em agosto, não se ouça a palavra julho, talvez seja melhor citar setembro, o amanhã, mas um sambista diz que meu tempo é hoje.*

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foto e texto: Darlan M Cunha

dia sadio

The King, The Balistic Missil, WindMan

Quenianos e etíopes, com todo o respeito que lhes é devido, que se cuidem.

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     O que aqui se faz aqui se paga, diz o povo, em sua sabedoria, deixando de fora deus e o diabo, que o acerto seja feito aqui, que aqui se pague o faroeste, a lei de Talião, de Salomão, do Rubicão, do Chicão e de quem mais, ou não, pois há tantos erros e crimes não pagos que o melhor é levar em conta que desvios conscientes de conduta tomaram conta dos lares (ainda existem ?), das ruas, das casas públicas.

     O mar é museu de cuspo branco, de jogar suas anáguas na praia, de vomitar um caldo negro muito antigo de enome poder & discórdia, com prazo marcado para acabar. O que se faz aqui, aqui se paga, diz o povo; e se há pragas de gafanhotos e de formigas, se há virologias renovadas nas esquinas, o homem não desanima, que o instinto não permite baixar a guarda, e até mesmo as pedras reagem ao fim, escondendo-se no próprio pó, pelo que ninguém mais dirá que uma pedra no meio do caminho. Sem pedras não há como construir uma educação pela pedra, e nem pela pedrada.

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foto e poema: Darlan M Cunha

https://paliavana4.blogspot.com

Na vendinha da aldeia ouça Valsinha de Vila

VENDINHA

Restaurante Rancho Fundo – Buritis, BH, MG

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     Mesmo ciente de que a sua sabedoria está cada vez mais sendo posta de lado, o povo, teimoso que só, ainda leva consigo certas marcas, nódoas, luzes de sempre, e a música exige estar em seu lugar, a música: mãe dos doidos, irmã dos atazanados, filha do sal e do açúcar. O mesmo povo com seus ditos, chistes, sarcasmos:

– Só em casa de mineiro é que a gula não é pecado.

– Enquanto descansa, carrega pedra.

– Sou madeira que jegue não rói.

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texto e foto: Darlan M Cunha

UAKTI toca VALSINHA de VILA: https://www.youtube.com/watch?v=676JHKfL8HM

40

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Minas Gerais – by Múcio Matos Cunha. Pintor, desenhista de moda. BH, MG (1957-87)

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       Essa tela está completando 40 anos, pintada por um dos meus irmãos, falecido no mar em Nova Almeida, ES. Ela dá uma boa ideia das cidades históricas não só de Minas, como também da Bahia, do Rio de Janeiro, de Goiás, etc. Mudei móveis, telas e livros de lugar, e ontem eu a estava observando, quando me dei conta do ano em que foi pintada, e lá está, no canto inferior direito: Múcio – 77. A vida é minuto. De novo, repito Niemeyer. Ele tinha cerca de vinte anos ao pintá-la. E de novo a arte ficou.

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foto e texto: Darlan M Cunha

vietato lamentarsi

 

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     Pois é, de grão em grão se vai longe, até que alguém dá um murro na mesa ou chuta o balde, dando nome aos bois e às vacas. O papa Chico é também um humorista sutil, ou um sátírico com palavras de algodão, mas com espinhos dentro. Mudando de assunto, ou seja, deixando de lado os muros de lamentações mundo afora, pelos seios e pênis de silicone, pelas torneiras que não vazam senão ar, saleiros com sal umidificado dentro dele (arroz cru nele), e mil outros entraves cotidiários aos quais todos estão sujeitos, o mundo vai em frente, e uma amiga minha diz que gosta de ficar pensando sobre que cara fariam, por exemplo, os da Idade Média diante do pouso de um jato de guerra, com seus decibéis e sua beleza esguia nos arredores das aldeias, espantando pastores e ovelhas e salteadores, todos caídos de joelhos diante do Novo Senhor, ou fazendo ‘razias’ sobre legiões romanas e sobre os soldados dos gloriosos Carlos Magno e Gêngis Cão, quando não sobre o castelo de Ivan IV, o Terrível, de madrugada, porque era de madrugada que ele ia rezar, e após as matinas diárias às quais seu remorso e sua loucura não o deixavam faltar, ele descia aos porões do próprio inferno, para infringir em pessoa torturas inenarráveis aos presos. A amiga tem bom gosto, tem o senso do tétrico que ela tenta verter para a sátira.

     Parodiando Guimarães Rosa (Minas são muitas), se vê que o mundo tem muitos ecos.

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imagem de La Stampa (Itália)    

texto de Darlan M Cunha

quadrilha & partilha

O capciosoO capciosoO capciosoO capciosoO capcioso

O capciosoO capciosoO capciosoO capciosoO capcioso

NA VISÃO DE TRÊS ESCRITORES

 

QUADRILHA

Carlos Drummond de Andrade

lido por Drummond: https://www.letras.mus.br/carlos-drummond-de-andrade/460652/

 

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

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FLOR DA IDADE

Chico Buarque de Holanda

canta CBH: https://www.letras.mus.br/chico-buarque/84969/

 

[…] Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que

amava Paulo que amava Juca que amava Dora que

amava Carlos amava Dora que amava Rita que amava Dito que

amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava

Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto

que amava a filha que amava Carlos que amava Dora

que amava toda a quadrilha.

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PARTILHA

Darlan M Cunha

https://members.poemhunter.com/members/club/profile.asp?member=5647848

 

A palo seco a cidade resiste porque o amor insiste

mas quem é que sabe o que isso quer dizer, diga

que vida é essa sem trilha certa sem vinhedo sem

hora tarde ou cedo sem nada para dizer

sem nada para contradizer os ouvidos da quadrilha ?

O que se há de fazer senão merecer a partilha

que o amor exige de ti de mim de todos no mundo

que exige tudo de ana sílvia nara e raimundo ?

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ARTE-IMAGEM: Internet

clave de sol

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o cafofo para fins-de-semana e feriadões

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     Uma vizinha de uma de minhas avós dizia que mulher de músico ou de médico não tarda a descobrir o desânimo. Até hoje, tanto tempo após ouvir isso, isso me recorda o espanto, o hilário, o asco entre paredes, a bile, o silêncio, o trágico. E eis que o programa espanhol sobre literatura – Página Dos (TVE, 205) – entrevistou o escritor David Trueba, autor de Tierra de Campos, no qual o músico personagem diz que “No conozco a ninguna mujer que no se arrepienta de haberse enamorado de un músico.” Mas vamos devagar, sem generalizar, pois há muitos músicos com os dedos e a cabeça bem equilibrados. Decerto que seus itinerários, jornadas, noitadas, ensaios e viagens podem interferir na vida em comum, além de que por outros detalhes uma casa possa desandar. Há música quando nascemos, nos aniversários, nas formaturas, quando ganhamos na loteria, no fim das guerras, quando nos casamos, quando os filhos chegam, quando nos aposentamos e quando falecemos.

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foto e texto: Darlan M Cunha