doce lembrança // sweet memory

ELVIRO FERREIRA CUNHA, mestre em ESTATÍSTICA, pelo IBGE – meu pai (1922/2012)

***

BREVES PALAVRAS

Meu pai era um homem calado, simples, gostava muito de ler, nunca o vimos nem ouvimos levantar a voz para a nossa Mãe Maria José, 63 anos de casados. Hoje, 26 de agosto 2021, já se vão nove anos do seu falecimento. Trabalhou a vida inteira no INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Alzheimer.

My father was a quiet, simple man, he loved to read, we never saw or heard him raise his voice to our Mother Mary Joseph, 63 years of marriage. Today, August 26, 2021, it will be nine years since his passing. He worked all his life at the BRAZILIAN INSTITUTE OF GEOGRAPHY AND STATISTICS – IBGE. Alzheimer’s.

***

OUTRAS PALAVRAS

Uma grande amiga minha, Ana M., jovem doçura, e um bom humor maravilhoso, médica pediatra, me disse que uma garotinha de cinco anos foi consultar-se com ela – evidentemente acompanhada dos pais, ambos engenheiros, e que depois da consulta e da prescrição, etc, a garotinha agradeceu, e os pais também, e ela falou assim: “Doutora, eu quando é grande, eu vai ser médica, eu e o meu irmãozinho, a gente vai ajudar todo mundo.”

IN OTHER WORDS

A good friend of mine, Ana M., a sweet young woman with a wonderful good humor, a pediatrician, told me that a five year old girl went to see her, accompanied by her parents, both engineers, and that after the consultation and the prescription, etc., the girl thanked her, and so did her parents, and she said: “Doctor, when I grow up, I’m going to be a doctor, me and my little brother, we’re going to help everyone.

Darlan M Cunha: foto e texto

Ó, mamma mia!

roscas feitas em casa // home made
sorria ou chore // smile or cry

***

E PORQUE HOJE É DOMINGO

E porque hoje é domingo, muitas pessoas ficarão em casa, afáveis, cansadas de mil correrias, eis os chinelos, a bermuda e a camiseta, mas onde estão os sorrisos e as piadas ? Nada de cílios postiços, nem de relógio, e muito menos de internet – basta de inutilidades ! isso porque hoje é o dia depois do dia de sábado, e quem vive sozinho, sozinha não fique. E porque é domingo, uma esticadinha na praça aqui perto, bom exemplo. Sol é bom, e as lagartixas gostam. De volta, um tropeção, e um pequeno palavrão, para desafogar. Lavar a roupa e ajeitar os móveis. Música com poucos decibéis, música é para se ouvir e viajar dentro dela, não seja arma para irritar a vizinhança, ora. E porque é domingo – feijão, arroz, salada e macarronada, ou seja, o que houver para comer. Certo ? Felizes iguais às borboletas, os sapos, as rãs, os bichos-preguiça, as bibas dependuradas no teto, de cabeça para baixo, nós todos felizes, iguais aos cofres do governo, cheios do suor do Povão. Mas está tudo bem, porque hoje é domingo, hoje é domingo.

*

AND BECAUSE TODAY IS SUNDAY

And because today is Sunday, many people will stay at home, affables, tired of running, here are the slippers, the shorts and the T-shirt, but where are the smiles and the jokes ? No false eyelashes, no watch, and even less internet – enough with the uselessness! because today is the day after Saturday. and those who live alone, don’t be alone, and because it is Sunday, a little stretch in the square nearby, a good example. Sun is good, and lizards like it. On the way back, a stumble, and a little swearing, to relieve the pressure. Doing the laundry and tidying up the furniture. Music with low decibels, music is for listening to and traveling in, not for annoying the neighborhood. And because it is Sunday – beans, rice, salad and noodles, whatever you have to eat. Right ? Happy as butterflies, the frogs, the toads, the sloths, the bibies hanging from the ceiling, upside down, we are all happy, just like the government coffers, filled with the sweat of the People. But that’s okay, because today is Sunday,today is Sunday.

*

Darlan M Cunha: foto e texto

passar / to pass

Bairro Buritis – BELO HORIZONTE, MG. Durante 23 anos tive essa vista a partir da sala.

***

Uma canção do compositor Cartola nos diz “Tive, sim, outro grande amor antes do teu”, mas num contexto diferente deste que está nessa fotografia que eu agora revejo, um ano e meio depois de me mudar de endereço. Fatos e não-fatos reapareceram lentamente – erros, acertos, mortes na família, amigos e amigas mortos, enfim, uma salada sem vários dos ingredientes originais, é verdade, mas com muitos outros sempre prontos para quando chamados a nos chamarem de novo a atenção para a efemeridade da Vida diante da “inenarrável algazarra cotidiana da morte).

*

A song by the composer Cartola tells us “I did have, yes, another great love before yours,” it tells us in a different context from the one in this photograph that I now review, a year and a half after moving away. Facts and non-facts slowly reappeared – the mistakes, the hits, the deaths in family, friends and friends dead, changed, in short, a salad without several original ingredients, it is true, but with many others always ready for when called upon to call our attention again to the ephemerality that is Life in the face of the “unspeakable daily racket of death.

*

Darlan M Cunha: foto e texto

ajustes / adjustments

doce de leite caseiro

***

Ajustes diários, viver é ajustar-se, lavar-se disso e daquilo, juntar-se a isso e àquilo, a este e àquela, mudar-se de casa, de rua, de bairro, de aldeia, do mundo, revigorar conceitos já arcaicos e até insuportáveis, mamar noutras mamadeiras, doando sangue, suor e lágrimas (lágrima é a breve arquitetura do choro, segundo o poema Lágrima, do Eugénio de Andrade), e assim resta seguir o desconhecido, de tropeços em tropassos, ir é o que há: ir.

*

Daily adjustments, living is to adjust, to wash yourself of this and that, to join this and that, this and that, to move house, street, neighborhood, village, world, to reinvigorate already archaic and even unbearable concepts, to suckle at other bottles, donating blood, sweat, and tears (lágrimas is the brief architecture of crying, according to Eugénio de Andrade’s poem Lágrima), and so it remains to follow the unknown, from one stumble to another, to go is what there is: to go.

Darlan M Cunha: foto e texto

Mãe, teus pés são o meu rumo

MÃE

***

CARTA À MÃE nº 169

Dona MARIA,

a Senhora está dormindo, cá estou eu bebendo sins e nãos, bebendo café, rindo de mim e mais ainda do mundo, este idiota com e contra o qual se tem de lidar 25 horas por dia, mas deus – em quem não posso crer, porque sou o diabo em pessoa -, mas “deus proverá”, como a Senhora sempre diz, com essa bondade e esta alegria e esta energia aos 89 anos, que nem o poderoso chefão do céu tem, a Senhora com estes ene predicados que encantam a todos, e a quem a molecada não larga por nada.

Mãe, meu sossego, meu passatempo único (o qual muito me basta)

não se preocupe, porque a máquina de lavar roupas, que a rapaziada levou para uma troca de borracha e acho que de engrenagem, no dia de ontem, estará pronta e será entregue amanhã – sem falta, pois dei uma dura, de leve, caramba, R$490,00 o conserto, Mamma Mia ! Tive de pedir emprestado no boteco do Fuinha, pedi também para as minhas duas namoradas (até quando ? se descobrirem, estarei frito, terei de me mudar de barraco e de aldeia), um pouco também dos empréstimos veio do padre Abílio, e outro tanto veio do Gerardo Doido, bom rapaz. Mãe é Mãe.

Mãe, meu cordão de diamantes variados, minha catapulta para a felicidade

Ah, outra coisa: o dia de ontem foi de amargar, e olha que eu sempre tenho a segunda-feira como sendo, disparado, o melhor dia da semana, por ser o dia em que a galera ou o povão vai ralar, depois da macarronada e do frango e do fútilbol e do namoro dominicais, pois não há Plano B. Escute essas: A operadora de tv e/ou o banco aprontaram uma para cima de mim, que estava atrasado uns doze dias no plano de televisão de fibra ótica, sem saber, porque sempre foi débito automático, e este seu anjinho sem saber DE NADA, em tempo da Lei bater as botas sujas aqui na porta do humilde mas asseado barraco, e ainda mais nesses tempos de patologia letal, que colocou o mundo inteiro de joelhos, quando todos e todas se achavam, sim, os bonitões e gostosonas e poderosos e não se mais o quê. Menos uns poucos como eu e a Senhora, e muitas outras pessoas de bom tino. Eu tive de ir ao banco, com mil papéis e pedidos humildes, mas tive de resolver a parada. Além disso, fui procurar o rapaz para ir na casa da Senhora para ele trocar uma chave da porta da sala, a qual simplesmente resolvera quebrar-se e deixar um cotoco lá dentro, e como a Senhora tinha uma de reserva, nem foi preciso fazer outra, e não ficou nem dez minutos, mas lá se foram R$ 40,00 pilas, pilas, como se diz lá no Rio Grande do Sul, ou caraminguás, como se costuma dizer lá pras bandas do Nordeste, etc. Penso em me mudar para os anéis de Saturno, mas só se a Senhora também for comigo, pois os preços estão nas nuvens, mas Saturno fica muito acima delas. Mãe é Mãe.

Mãinha, colibri da minha existência

Não há de ser nada, não sou reclamão, a não ser quando é preciso, e isso é todo dia. Hoje, prepararei para a Senhora um delicioso chá de hortelã com legítimo mel de abelhas de Santa Bárbara, MG, onde moramos já faz um século (o tempo não espera). Sei que a Senhora está embalada em desenhar e bordar tecidos, linduras assim tão lindas quanto o arco-íris, e sei que a Senhora está um tanto triste com a volta da neta Fá com o marido e o casal de filhinhos, depois de umas semanas no Brasil, voltaram para os EUA, com muitos presentes da Vovó. Almoçaremos boa macarronada, ou chuchu com ovos, ou cará com carne moída, ou então o trio do qual a Senhora gosta: quiabo com moranga e carne de panela. Eu vou preparar, não quero ver a minha Mãe no lufa-lufa e eu bebendo café e cerveja. Toma juízo, zebedeu filisteu.

MÃE MARIA, minha brisa matinal, meu doce de batata doce com coco ralado e canela em pau

vou me despedir, sim, este seu filho meio lerdo e desmiolado, quase analfabeto, mas decerto um bom garoto já vai se despedir. Mãe é Mãe.

Dona MARIA JOSÉ, prontinha para a Abertura dos JOGOS OLÍMPICOS de TÓQUIO, entusiasmada como sempre, serelepe aos 89 anos.

DARLAN

arco-íris / rainbow

esmero caseiro

Dizem que na época de frio as pessoas se tornam um pouco benevolentes, só um pouco, pois isso, parece, não faz parte de sua índole, do seu psiquismo, sua retórica, sua moralidade – o Homem é solitário por natureza, e bruto. Mas há exceções, há momentos outros. Hoje vai ter sopa ? de que: macarrão com carne moída, com chuchu, batatas, salsa, coentro, manjericão, ovos cozidos, cebolinha verde, alho, cebola, fios de azeite, belas folhas de repolho (rasgadas com as mãos), toda esta sopa acompanhada de pão ? Mal se pode esperar, aguente firme, vá ralar, à noite terás a recompensa.

***

They say that in the cold season people become a little benevolent, just a little, because that, it seems, is not part of their nature, their psyche, their rhetoric, their morality – Man is solitary by nature, and brutish. But there are exceptions, there are other moments. Today there will be soup ? of what: noodles with ground beef, with chayote, potatoes, parsley, coriander, basil, hard boiled eggs, green onion, garlic, onion, strings of olive oil, beautiful cabbage leaves (torn with the hands), all this soup accompanied by bread ? You can’t wait, hang in there, go grate, in the evening you will have your reward.

***

  • Darlan M Cunha: foto e texto