outro incerto entardecer: o Homem no chão

E LÁ SE VAI MAIS UM DIA

***

Dos roedores e insetos, dos galináceos e batráquios ao Homo sapiens sapiens

A frase terrível de Dostoiévski cabe aqui: Todos nós somos culpados de tudo. Essa outra também tem uma estirpe nada engraçada: Sou o mesmo de ontem: mas diferente. (DMC). Pois bem, todos e todas com máscara e gel, sob o pavor constante do invisível, embora seja bem visível sua presença, cuja origem ainda é de fato desconhecida. Quebrou a espinha dorsal do mundo vasto mundo gasto mundo.

Enquanto isso, o povo perambula, deambula e vira bula, mas o mundo arcará com sequelas por duas décadas, ou mais, bem perceptíveis a olho nu e cru, outras tantas percepções serão sutis, mas o fato é que aqui e ali e acolá e além-lá todo mundo está sonso, o desânimo em cada poro, a gente toda toda raivosa, fora de si, de um modo ou de outro, insones, cuja vigília dá em êmese e pirexia, sim, vômito e febre, e eis que o céu da boca tornou-se deserto, mas os e as farristas continuam de vento em popa, e por isso ouvi ontem no Mercado Central de BH a pergunta erudita: Torquemada (foi Inquisidor-Mor da Inquisição Espanhola), o que foi feito do garrote vil da Idade Média, e de antes, de depois, contra estes necrófagos, estas zinhas ?

Onde uma cama ou maca com pregos e selos para o fim deste Terror ? Não há cama para o drama que assola senhores e damas, reis e rainhas e suas ladainhas ? este que fustiga reis do rock progressivo, tanto quanto atrizes do mundo lascivo; que desarma da vida jovens e até crianças, que suga as notas musicais que tu e eu ainda temos que tocar, e que se abate sobre nós feito um cardume de piranhas, feito o veneno do baiacu, as pinças da jararaca e o veneno letal, este, sim, dos preços nas bancas ?

Darlan M Cunha

MPB-4 canta SIDNEY MILLER.Pois é, pra quê. : Pois é, pra que – MPB 4 – YouTube

MPB-4 canta MAGRO e PAULO CÉSAR PINHEIRO. Canto dos Homens – MPB4. – YouTube

Mãe

Dona MARIA JOSÉ – hoje, 13 Abril 2021: 89 anos (1932, Medina, MG)

Carta à Mãe nº 146

Dona MARIA,

segundo a Senhora, eu nasci por volta das duas horas da madrugada (teria sido já um indício desta vidinha de breu, que ninguém vive, senão eu ?), pois é, assim como os outros nove partos, tudo ocorreu bem, sem contratempo; ora por mãos de parteira, ora por mãos de médico/a, e, ainda por cima, para felicidade de toda a Família, a Senhora nunca esteve sob a necessidade de uma internação, para alegria também das mil amigas e amigos sinceros que a Senhora fez durante a sua longa e incrivelmente dinâmica existência de pintura a óleo, pintura em panos de prato, crochê, tricô, doces mil e mil salgados, chás e sopas, que nem Deus sabe, de tal forma que eu sempre digo, sempre sério, mas meus amigos e amigas, que conhecem a Senhora, sabem disso, mas ficam rindo da minha cara de sonso, quando digo que eu fico cansado só de ver a Senhora trabalhar, não sossega, está sempre com um dito popular, entre vários outros, por exemplo: enquanto descansa, carrega pedras.

Mãe, Flor entre Flores

não poderia ser de outra maneira: a Senhora nasceu de dia, veio incrementar a luz de Hélio, também conhecido pelo nome de Sol, e veio incrementar também pautas de Música, com a nota Sol, é isso, Dona Maria, Soy feliz, soy un hombre feliz / y quiero que me perdonen / por este día / los muertos de mi felicidad. (SILVIO RODRIGUEZ, Cuba).

Mãinha, meu Lema sem dilema, ó, a Senhora é O CARA

é um sonho tê-la ao lado de tanta gente, preocupada com os que moram tão perto e com os que moram tão distantes, noutro país, ou seja, 15 netas e netos, 14 bisnetas e bisnetos e três trinetas, não é fácil, não para os simples mortais, mas como eu sempre suspeitei que a Senhora veio dos Anéis de Saturno, então, é possível, foi possível, possível será.

Mãe, meu algodão doce, inveja maior de Deus e de Nossa Senhora (com todo respeito)

chega de escrever, mas já estou indo para casa, já comprei um presentinho para a Senhora – Luz entre Luzes, Suavidade entre Decibéis Exagerados, Cascata Límpida como os olhos de uma Humilde Abelhinha, sim, tudo isto e muito mais a Senhora MARIA JOSÉ foi, é e será.

MÃE e Filho, nos 89 anos da Dona MARIA.

Mil beijos e ene abraços deste filho meio desmiolado, mambembe, analfabeto, mas bom garoto

DARLAN

comportamento(s)

o pão nosso de nem sempre

***

@1

Vamos zelar pela fresca sobre a feira geral: verduras legumes carnes queijos quitutes e tachos, imagine uma peixada ou feijoada ou sopa de legumes nestas panelas de pedra-sabão, doces nos tachos de cobre, o mercado abre às seis, vamos descarregar a alegria, esvaziar caminhões e arrumar as bancas, porque o povão, os bárbaros vêm aí.

@2

Assisti na RAI Italia uma longa e delicada entrevista com Pelé, algo adoentado, o mestre, sempre solícito, concedeu uma longa entrevista à televisão italiana, ele respondendo às perguntas a partir da casa dele, com tradução simultânea do italiano para ele. Vieram à tona a Suécia, os mais de 1200 gols documentados, foi eleito por milhares de jornalistas do mundo todo como sendo O Atleta do Século 20, o único jogador com 3 Copas do Mundo, sendo que a primeira delas, um feito nunca igualado, foi aos 17 anos, e por aí foi a conversa bem humorada com os italianos mostrando o grande mestre sendo recebido por papas, rainhas, reis, crianças, mostrou-o recebendo uma dose da anti-covid 19, e então eis a foto incrível com a Rainha Elizabeth II, a qual fez questão de ir ao vestiário do Santos no dia do gol número 1000: Pelé estava todo ensaboado na foto magistral, modesto e encabulado, mas sorridente pelo grande feito, foi cumprimentado pela Rainha da Inglaterra, imagens mostrando-o com diplomatas, atrizes e atores, presidentes de várias nações, ele com outros grandes atletas do mundo, enfim, uma lenda verdadeira de ossos e carne. Muito embora esteja adoentado, retirado da vida tão atribulada, mantém o carisma, o respeito para com o Outro, o que sempre o caracterizou. Vi e ouvi essa entrevista de grande gabarito ontem à noite, por acaso, enquanto rodava pelos poucos canais que assisto.

@3

Amanhã, terei um compromisso inarredável: minha Mãe Maria José completará 89 anos. Um sonho, algo que extrapola qualquer nível de emoção. Lúcida, anda pra lá e pra cá, faz tricô e crochê, faz doces e biscoitos para os netos netas bisnetas bisnetos e vizinhos, não sossega. Tô rindo à toa. Bobão e babão é isso.

Darlan M Cunha

ELZA SOARES canta GONZAGUINHA (VÍDEO OFICIAL): Comportamento geral: https://www.youtube.com/watch?v=Ttn6V_r3D9Y

tentáculos

“Que tragédia é essa que cai sobre todos nós ?” (MILTON – Estrada do Sol)

***

Os opostos vivem em todos os lugares. Sempre foi assim: uns precisam dos outros. Elementar. Olha, de se ser um girassol do espanto, ou de se ser uma árvore, não se canse quem tentar, pois através de suas sementes, do pólen, as árvores caminham há muito mais tempo do que os humanos. Quanto ao meu vizinho à esquerda, outro da mais pura lavoura arcaica ele é junto aos outros, como poucos. Estamos na Era Nano, vírus é nano, embora nem todos. Em tempo, eu ouço que é preciso que cada qual encontre e dialogue com o seu próprio oposto, aquele que está por aí, a um palmo de distância de cada pessoa, com o seu jeito soez ou não, relapso ou não, cruel ou não, um jeito mimético ou aberto como se fosse um leque, uma varanda, um sorriso matinal. Ontem eu saí de casa, vim com a mala cheia de exclusão, o mundo é enganosamente grande, tudo é diferente, mas tudo sempre nos lembra algo similar, alguma coisa quase da mesma cor e quase com as mesmas formas, embora quase nunca se lhes saiba as intenções. E é justamente nisso – na Incógnita – que resiste / existe a beleza. Estou de bruços, nada me dói, tudo me dilacera, vivo como quem irá à feira daqui a pouco, mas tenho medo do que é invisível, é preciso cautela contra isso. Estamos todos de um jeito diferente, uma febre diferente nos tornou ariscos e amargos, trêmulos e sonsos, enfim, estamos assim feito espantalhos sem serventia numa grande lavoura ressecada, Mas há tempo, parece, de se pisar neste terrível rastilho, neste algoz, neste ladrão da alegria, nesta inenarrável algazarra da morte. Quando um muro separa, uma ponte une, diz a canção.

***

Opposites live everywhere. It has always been this way: one needs the other. Elementary. Look, of being a sunflower of wonder, or of being a tree, don’t get tired who tries, because through their seeds, through pollen, trees have been walking much longer than humans. As for my neighbor to the left, another of the purest archaic farming he is along with the others, like few others. We are in the Nano Age, viruses are nano, though not all. In time, I hear that it is necessary for everyone to find and dialogue with their own opposite, the one that is out there, an inch away from each person, with its own way or not, relapse or not, cruel or not, a mimetic or open way as if it were a fan, a balcony, a morning smile. Yesterday I left home, I came with a suitcase full of exclusion, the world is deceptively big, everything is different, but everything always reminds us of something similar, something almost the same color and almost the same shapes, although we almost never know their intentions. And it is precisely in this – in the Unknowns – that beauty resists / exists. I am on my stomach, nothing hurts, everything tears me apart, I live like someone who will go to the fair in a while, but I am afraid of what is invisible, one has to be careful against that. But there is time, it seems, to step on this terrible fuse, this tormentor, this thief of joy, this unspeakable racket of death. When a wall separates, a bridge unites, says the song.

Darlan M Cunha

FAMÍLIA ASSAD e KEITA OGAWA cantam e tocam Milagre dos Peixes, de MILTON NASCIMENTO: https://www.youtube.com/watch?v=ppVU_zC6Qnk

tema aflito

ARTISTA: Ai Wei Wei (CHINA), Numa Exposição em BELO HORIZONTE, MG – Abril 2020, Centro Cultural BANCO do BRASIL

O Incógnito

Ele viaja no núcleo do vento
pois o vento aceita tudo
e então se aproxima, rasteiro
e silencioso feito um réptil
abraça amigas e amigos teus
e dentro deles sussurra
e abre suas gotas de ciência –
e apenas isto é o que basta
para ser o terror do Mundo
com seu veneno pulmonar,
pois enquanto as aldeias
brigam ou fazem festa
ele mostra o rosto de Sombra,
vindo de longe ou de perto,

até que se cansa de sua solidão
e se transforma em pesadelo geral.

***

The Unknown

He travels in the core of the wind
for the wind accepts everything
and then it approaches, creeping
and silent like a reptile
embraces your friends
and within them whispers
and opens its drops of science –
and this alone is enough
to be the terror of the World
with your lung poison,
for while the villages
are fighting or partying
he shows the face of Shadow,
coming from far or near,

until he tires of his loneliness
and becomes a general nightmare.

Darlan M Cunha

E agora ? And now ?

O viajante silencioso

*

Demasiado desumano

ele viaja no núcleo do descuido

após um silencioso trabalho

vai cortando os dias

e roendo as noites

e nenhuma estrela social está livre

de sua escala de fobias.

Ele invade o núcleo social

desperto do anonimato

abre a canção do desespero

não imita: sabe

do trigo e da falta

da alegria, enfim, em falta.

Quando de nada se abre mão

e a vida já não é moeda

de tudo se faz mais questão

mas, sem aviso, sutil

(com um número na testa)

o Nada se espalha

pelo desleixo geral – usura

da boca até as mãos.

***

The silent traveler

*

Too inhuman

he travels in the core of carelessness

after a silent work

it cuts through the days

and gnawing the nights

and no social star is free

from his scale of phobias.

He invades the general core

awakened from anonymity

opens the song of despair

he doesn’t imitate: he knows

of wheat and lack

of joy, at last, in lack.

When nothing is given up

life is no longer currency

everything is questioned

but, without warning, subtle

(with a number)

the Nothingness spreads

through general neglect – usury

from mouth to hands.

Darlan M Cunha

DeepL.com // Tradutor