cotidiano 2

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       O verbo murar está na moda, muito embora sempre tenha deixado suas pegadas na história, como os fossos e as pontes levadiças dos castelos medievais, a suicidade de três risíveis donos, a muralha da China, a muralha de Trajano e muitas outras barreiras ainda mais antigas, bem como as fortalezas japonesas da era dos samurais, nas quais, mesmo se o inimigo conseguisse entrar, após ene peripécias, dificilmente sairiam vivos dos labirintos e seus truques contra invasores. No tempo do homem das cavernas, é de se pensar que os morcegos tenham sido treinados para cuidar do sono dos inquilinos do momento, abrindo seu sonar ainda primitivo, gritando feito malucos, caso alguma tribo tentasse invadir a toca de seus amos, e assim por diante (depois o som dos morcegos tornar-se-ia inaudível a nós). Sabemos que os muros sempre tiveram simpatizantes, por esta ou por aquela razão. Pensando nisso, cada qual constrói para si e, muitas vezes, contra si, verdadeiros baluartes, dos quais nunca mais escapam. Beco sem saída é coisa de gente, é um ovo muito antigo. Ah: os castores, entre outros prevenidos, constroem fortalezas ou barragens, modificando rios, pelo que não estamos sozinhos no afã de construir muralhas muros paredes grades cercas redes labirintos becos abismos e túneis de fuga. Muro, no melhor dicionário de um idioma inexistente, significa ilusão de segurança. Tanto é que todos os dias muitos veem cair o grande muro que os separa da demência total: o emprego. E agora, José ? Há muitas obras sobre tal assunto, mas essa crônica me basta. Entre les Murs. Border Walls. Murs, voyage le long des barricades. Os Muros que nos Dividem. The Wall. Wall Street. Father and Son... De uma forma ou de outra, todo conceito tem germe mural.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Duas imagens trazidas da INTERNET:  mundo geografia  //  pre.univesp.br

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o suprassumo do (desa)sossego

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Mohammad Mohiedine Anis (70) e a sua vitrola mecânica – Aleppo, Síria.

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Quero ficar só, deixar-me ao alcance do sossego

da própria intimidade tão dividida por razias

bombas arrasando tetos, o sono, o sexo, a escola

a água da cidade, a luz, o hospital e coisa e tal.

Zumbis, sou um deles, já sem nome e sobrenome

que um dia os tive, numa escala nobre os quis.

 

Quero estar com a música e o cachimbo, com os gritos

da infância aí fora jogando bola de pano, alheia ao dano

da guerra a infância, ou quase isso, não é nada disso

pois elas tudo percebem, e distanciam-se

da balança que pesa mortos e vivos, distanciam-se

 

dos discursos de quem ora, dos discursos que acabam

em riscos vindos do céu, onde Alá já não mora.

Quero estar só, na casa esburacada, na rua soterrada

de uma cidade que já não existe; mas, mesmo sem fé, teimosa

sob ferro e fogo, mesmo deitada, insiste em ficar de pé.

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Poema: Darlan M Cunha

Foto: Joseph Eid (Ag. France Press)

Algum dom doce

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Felicidades, Dona MARIA JOSÉ, pelos 85

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Dizem que o mundo tanto é quadrado quanto redondo, e que há tantas disparidades, egoísmos, cegueiras, mãos estendidas para dentro dos próprios bolsos, que ele até se torna risível, e que está cada vez mais afastando as pessoas de si mesmas, e das outras.

Pois bem, neste quadro caótico, filho da Pressa, ainda há quem seja capaz de ignorar todas estas mazelas, todos estes choques psíquicos, choques anafiláticos, ml e um atropelos, e fazer a alegria de um sem-número de criaturas.

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Foto: Cris / Flaví

Texto: Darlan M Cunha

remédio de amplo espectro: Rir

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Reginaldo e o Imperador-Cacatua, Zé I O Iluminado, O Venturoso

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       A que vem tanto apego às estátuas em alto e baixo relevo, de bronze, ferro, gesso, aço, madeira, plástico, fibra de vidro, granito e mármore, em todo  lugar, menos nos polos, por enquanto: busto e cabeça, cabeça, mãos (hollywood), pés (futebol), homem montado em cavalo, homem de pé com chapéu na mão, mulher olhando destemidamente para o futuro, homem e cão em pedestal magnífico, homem com espada, um homem por trás dos óculos (Vinícius // Drummond). Para que tanta estátua no meio do caminho ? Não vou desmerecer alguns homenageados, está fora de questão, mas a partir de agora exijo que no momento propício, que é agora mesmo, me façam uma homenagem toda em granito com filigranas de diamantes lá de Diamantina e ouro da Mina de Morro Velho (Nova Lima). Meu caráter é mole, preciso de granito, ferro, aço, kevlar e diamante, pois já que judeus e cristãos dizem que sou de barro, preciso destes materiais, com  esta inscrição:

     A Aldeia homenageia Darlan, sábio entre sábios, satírico entre desalmados, é um dos nossos, doutor entre doutores e mestres, elevado à enésima potência, este garoto peralta que azucrina a Aldeia, zanzando com amigos de infância, e amigas e mais amigas, ele que mais de uma vez viveu dias ruins, falcatruas, corrupções medonhas, mas aos gênios e às crianças tudo se perdoa, embora ele tenha dormido sob as asas da Lei mais de uma vez, sempre dizendo que a comida do cárcere é a melhor porque é de graça, e tem hora certa de chegar. Então, eis a justa homenagem da nossa modesta sociedade ao grande artista e grande sábio Darlan, também conhecido pelo epíteto ou alcunha ou saboroso nome ou graduação de Landar I, O Magnífico.

 

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assina: Toda a ALDEIA

olha // looks

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Windows of buildings

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     Senhoras e senhores, o sarcófago está pronto. Urge ocupar cada qual seu lugar e cantar para espantar os males, como se diz – essa cova em que estás, com palmos medida– cantar o sismo e a cisma diária que o condomínio-esquife oferece aos seus ilustres anônimos, toda a poesia e toda a heresia do mundo habitam esse túmulo, a sátira, o sexo furtivo, o maldito fator de gente fritando sardinhas no 402, rock pesado no 901, beijos e tapas no 1002, no 204 e no 604, alguém pendurado/a no blá blá blá do telefone esqueceu uma janela aberta no 800, e a criança fugiu.

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Imagem: GettyImages. Arnd Dewald

Texto: Darlan M Cunha

seios/flores

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     As primeiras flores das quais tive notícia foram os seios de minha mãe – sua tessitura suave, seu odor, seu néctar, ou seja, o colostro. Desde então, tenho visto e sentido outras pétalas e sépalas, mas nada igual àquelas primeiras, sendo daí que o povão sempre diz, com a boca cheia e os olhos marejados, diz que “mãe é mãe“.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Día de los Muertos (México)

ele

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Altar de dia dos mortos México

Por Eneas de Troya – http://www.flickr.com/photos/eneas/4072192627/, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=11952725

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Catrina

 

 

No México, os mortos voltam

para celebrar os dois dias

a eles reservados, finados

vêm somar bons momentos

 

beber e comer nas ruas

os vivos com a boca cheia

de caveirinhas de açúcar.

Eis o agricultor e o pescador

 

la mama y la abuela, el maíz

el guacamole y el plátano

a dança e a música, uma flor

nos cabelos, o céu e a lua

como convidados (feito anéis)

 

sobre a longa e sofrida história

dos filhos dos astecas dos maias

dos toltecas. Vai pensando nisso

um viajante rumo à festa anual.

 

Poema: Darlan M Cunha

Som

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com MARILTON BORGES, irmão mais velho dos irmãos Borges: MÁRCIO BORGES, LÔ BORGES, IÉ, SOLANGE…etc (CLUBE DA ESQUINA), são 11 irmãos e irmãs. Bairro Santa Teresa, BHte, MG, BRasil. Ao fundo, à direita, o Bar do MARILTON, grande músico, pianista.

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O intento do viajante é ir, porque ir é o melhor remédio
mas é certo que o trajeto a ser cumprido pelo passageiro
não pode ser de todo contado – pelo fato de que bons
e maus imprevistos acontecem quando se vai ao distante
horizonte, às terras do Nunca, avisos em idiomas nunca sentidos
na pele, e assim, no íntimo do viajor vão as alegrias mais sãs                                                  numa noite fria num banco de ferroviária ou num banho
gelado num banheiro 2×2, uma tempestade, um acidente ou
algo como o que se passou no conto La autopista del Sur (Cortázar),
sim, é preciso ir, trocar de roupa como as cobras, ir de déu em déu
descobrindo certos infernos, descobrir ou esquecer o céu.

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 Foto e texto: Darlan M CUnha

Darlan M Cunha
(poema escrito especialmente para a página ChronosFer, no WORDPRESS,e repetida aqui).

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casal simpático

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     Entraram na padaria como se nunca tivessem visto uma, como se o sagrado pão lhes fosse completamente desconhecido, como se o trigo nunca existira. Entre modestos e desconfiados, perguntaram algo, em tom baixo, ao proprietário – um tipo quase sempre de má vontade. Mas a paciência e a humildade daquele casal nunca visto por aquelas bandas afrouxou um pouco a rabugice do patife comedor de empregadinhas, misturador de milho nos pães de trigo, reconhecido também como um escroque. Sentaram-se, absortos com a quantidade de imbecis pilotando celulares, pediram dois copos de leite, e navegaram neles como Camões navegou, como Ulisses navegou, como Cabral desembarcou nessas terras. E então se foram para nunca mais. Felizes. Acho.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Diário com sombras dentro

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Oficial turco exibindo um pão para provocar crianças armênias famintas – ano de 1915.

(Diante disso, é preciso muito equilíbrio para não chorar, não cuspir fogo, como o dragão chinês, não cuspir marimbondos, não sofrer pesadelos até o fim da vida. No entanto, ainda vemos filmes assim, todos os dias, mundo afora.)

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     Para entrar no inferno é preciso estar de bem com o diabo. Mudando de assunto, ontem, na banca de verduras e legumes sem agrotóxicos, avalizada pela prefeitura de BHte a vender seus produtos uma vez por semana aqui no bairro, falou-se que “as coisas, no mundo todo, nunca entrarão nos eixos, isso porque onde tem gente tem distúrbio, há dissabores a partir de linguagens diferentes e até mesmo mortalmente antagônicas, sim, é verdade que o mundo é grande, mas a estupidez é maior, e cresce de modo geométrico. Bom… agora lhes peço licença, meus caros e amadas, vou à acunputura auricular, porque não estou ouvindo bem, e, além disso, a cegueira avança- disse, e se foi da gloriosa banca de legumes e verduras sem agrotóxicos.) Para entrar no inferno é preciso estar de bem com o diabo.

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Foto trazida do blog Foto na História, blog de Luciano Urpia.

Texto: Darlan M Cunha

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