Carta à Mãe, nº 181 // Letter to my MOTHER, #. 181

Dona MARIA JOSÉ (89 anos)

MÃE

Quando eu vejo a Senhora, sempre nessa paciência, nessa bondade, e que adora cantar com os filhos, filhas, netas, netos, bisnetos e trinetas, eu fico pensando o que foi que eu fiz de bom para merecer uma Mãe tão espetacular, que sofreu tanto, e nunca reclamou de nada na vida.

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MOTHER,

When I see you, always with this patience, this kindness, and who loves to sing with your sons, daughters, granddaughters, grandsons, great-grandchildren, and great-great-grandchildren, I wonder what good I did to deserve such a spectacular Mother, who suffered so much, and never complained about anything in life.

Darlan M Cunha: foto e texto

Diógenes (Grécia), O Cínico // Diogenes the Cynic (Greece)/

Sem Mãe, sem Água e sem Luz não há e nem haverá nada. (DMC)

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Revendo essa foto que eu fiz deste lampião aqui em casa, lembrei-me do grande filósofo grego chamado DIÓGENES, O CÍNICO, que viveu na mesma época de outros mestres da Antiga Grécia (412 a.C. – 323 a.C.), que morava num imenso tonel na entrada de ATENAS, e um cachorro vira-latas. Um dia, ele pegou a lanterna de azeite, lamparina, em pleno dia, e a população não entendeu, e lhe perguntou: “Mestre, o que há ?” – Estou procurando um homem honesto em Atenas.”

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Reviewing this photo I took of this lantern here at home, I remembered the great Greek philosopher, called Diogens, the Scythian, who lived at the same time as other masters of Ancient Greece (412 BC – 323 BC), who lived in a huge vat at the entrance of Athens, and a mongrel dog. One day, he took out his oil lantern, lamplight, in broad daylight, and the people didn’t understand, and asked him, “Master, what is it?” – I am looking for an honest man in Athens.”

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Pois é: levem isso para BRASÍLIA.

Darlan M Cunha

estudar / study

ESCOLA

Li milhares de livros, desde que nasci – nasci com livro nas mãos. Entendo idiomas (russo, alemão, inglês, espanhol), converso com branco, preto, colegas de profissão, engenheiras, arquitetas, pedreiros, prostitutas, ex presidiárias, funcionárias públicas, músicos, publiquei vários livros – em papel, – e sei que quanto mais a gente sabe, mais modesto fica. Gosto muito de tocar meus dois instrumentos, e também de cozinhar. Pois é, num país poderoso como é o Brasil, as pessoas costumam ter um, dois, três carros na garagem – mas não tem nem um livro dentro de casa.

Pois é: Todos os homens e todas as mulheres do mundo são bem recebidas/os aqui.

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I have read thousands of books since I was born – I was born with a book in my hands. I understand languages (Russian, German, English, Spanish), I talk to white people, black people, professional colleagues, engineers, architects, bricklayers, prostitutes, ex-convicts, public servants, musicians, I have published several books – in print – and I know that the more one knows, the more modest one becomes. I love to play my two instruments, and also to cook. Yes, in a powerful country like Brazil, people usually have one, two, three cars in their garage – but not one book in the house.

Mas todos do mundo inteiro são bem vindos aqui, no quinto maior país do planeta.

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Darlan M Cunha

povão / The People

Mercado Central de BELO HORIZONTE, MG, no aniversário, com uma banda de músicos mandando bala, e o POVÃO junto.

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Gosto das feiras de rua – semanais -, e também dos mercados, onde você encontra gente de todo jeito, comprando umas coisinhas aqui e ali, conferindo preços, os trocadinhos que levou, pechinchando com educação – o que é correto -, e por aí vai a maratona alegre, o Povão sempre ali, rindo, e queixando-se dos preços – NÃO NECESSARIAMENTE DOS COMERCIANTES QUE, CADA VEZ MAIS, COMPRAM MAIS CARO, E DAS AGRICULTORAS (sim, no feminino) QUE CADA VEZ MAIS PLANTAM MAIS CARO, DEVIDO A INSUMOS E ETC – mas vamos que vamos, e por aí vai a festa que é a gente ir ao Mercado ou às Feiras de Rua, ainda que não se compre nada. Ah, em tempo: Esta Senhora aí, em primeiro plano, é um tesouro – nessa foto, com 84 anos, HOJE, com 89 anos, MINHA MÃE MARIA JOSÉ, cheia de filhos e filhas, netas e netos, bisnetas e bisnetos, e três trinetas.

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I like the street markets – weekly -, and also the markets, where you find people from all over, buying a few things here and there, checking prices, the small change they took, bargaining politely – which is correct -, and so on the merry marathon goes, the People always there, laughing, and complaining about the prices – BUT NOT NECESSARILY FROM THE SHOPPERS, WHO ARE BUYING MORE AND MORE PRICELY, AND FROM THE FARMERS (yes, in the feminine), who plant more and more expensive, due to inputs, etc. – and so on goes the party that is going to the Market or the Street Fairs, even if you don’t buy anything. Oh, in time: this lady, in the foreground, is a treasure – in this photo, when she was 84 years old, and today she is 89 years old, MY MOTHER MARIA JOSÉ, full of sons and daughters, granddaughters and grandsons, great-granddaughters and great-grandsons, and three great-great-granddaughters.

Darlan M Cunha: foto e texto

sábado

porta

Pedra livre / pedra que do barranco se solta / e ao solo volta e rola, e entre outras / se mete, porque é só mesmo entre os seus / que se pode ter consciência plena de si, / enquanto basalto ou diamante, / mica ou paralelepípedo. Assim as formas de ser: diferentes, mas unidas por algo sutil, / sumindo no cotidiano avaro, no labirinto, no funil da garganta.

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O sábado promete não fazer nada mais do que os homens e as mulheres não façam, ele é mesmo um dia especialmente eclético, e já se levanta com boas perspectivas, pois esta é de fato a imagem que os humanos fazemos dele, pelo menos em certas culturas, e porque hoje é sábado – como dizia Vinícius de Moraes – há-se que abri-lo com cuidados. Dizem que Deus descansou um dia, que talvez tenha sido o sábado, com suas saturnais, bacanais, procissões de todo tipo, risos e aleivosias, dia de uma visita que se estava devendo, dia de se cortar o cabelo e aparar as unhas e certas arestas pessoais, dia de amizade e ternura, porque o sábado é diferente, dia de se ouvir Elomar e Black Sabbath, de se rever algum provérbio e de contar casos para as crianças, sim, amanhã outro dia será, e assim, nada será como antes, como hoje: sábado.

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Darlan M Cunha: texto e foto

é tanto nada

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@1.

De vez em quando, levava a pequena câmera nas cinco corridas semanais pelo bairro Buritis e região. Um dia (há décadas que sempre corro no final da madrugada, início da manhã), encontrei essa beleza de bom humor.

@2.

KAFKA revisitado: Prezada(o) assinante, sugerimos estes ítens para avaliação e consequente aceitação dos novos cargos, não necessariamente encargos. Clique à esquerda, no alto, e quando for o caso indicaremos clicar à direita, e não esquecer nenhum dado obrigatório, pois a Empresa é rigorosa em sua postura de proteger os associados ou condôminos ou sócios e convivas, por isso mesmo podemos dizer que somos divisores de águas. Nossa Empresa tem alto conceito no ramo, e assim, clique em CONTINUAR, repita os dados solicitados, aponha a assinatura digital, não se esquecer de atender à exigência de que Você não é um ROBÔ, clique novamente na palavra FINALIZAR, desta vez em vermelho, dê OK. Lembra que a nossa Empresa não entra em contato através de telefonemas, de convites para pescarias, motéis, churrascadas, e sim que todos os meses apareça em nossos arquivos a contribuição devida, e assim movimentaremos com rigor os valores sempre mutantes na conta de V. S.ª

@3.

O mundo vaia, apupos nos bolsos, pedras na boca, estiletes são as unhas, ponto G em discussão – sempre – o mundo não cheira, só exala descontentamento, exara, sim, exara, depois de cada cada refeição de nem sempre, o mundo arrota e bate na pança – não a pança do dileto amigo Sancho Panza, não – e volta para o batente de uma porta sempre fechada sempre de cara fechada o mundo e suas pulgas e carrapatos, seus carrapichos e capetas, bem se disse que o inferno é os outros (J. P. Sartre), e lá vão os zumbis, todos felizes homens ocos, the hollow men (T. S. Eliot), e a epidemia de desconfiança vai de popa no vento, atalhos para fuga não há, os muros estão cheios de fuzilados, os sobreviventes fingindo-se felizes negociantes de peles, sim, o inferno é os outros, são os outros. Mamma mia!

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Darlan M Cunha: foto e texto