Dom Quixote e os moinhos (gigantes contra os quais lutou)

Roda-gigante na Pampulha

“Ahora venga lo que viniere, que aquí estoy con ánimo de tomarme con el mismo Satanás en persona.” (Capítulo XVII, página 571)

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     Fiz essa foto na Pampulha, BH, no dia da 7ª Corrida da Cooperação, e imediatamente lembrei-me do glorioso e maluco fidalgo Dom Quixote e do seu fiel escudeiro o sempre resmungão Sancho Pança. Ri um bocado, até mesmo enquanto corria os quilômetros necessários, pela famosa cena em que Dom Quixote, delirante, entra em combate mortal contra os moinhos de vento. Só rindo da “coça” que ele levou das pás dos moinhos.

     Acho que o Dom Quixote, entre várias outras razões, 400 anos depois, se continua tão famoso e querido é porque quebrou qualquer vínculo com a Razão, de um modo único. E para completar, vai com ele o resmungão e esperto Sancho Pança, sempre tirando seu amo de encrencas, e assim é que se pode dizer que um não existiria sem o outro.

     Às vezes, quando certo desânimo quer sentar-se ao lado meu, olho para ele e penso que não posso consentir que tome conta de mim, porque para mandá-lo embora, depois de instalado, seria outra história. E aí me lembro dos mil e um percalços de Sancho e Quixote, lá pelas brenhas da Espanha – enfim, se o sossego nunca me deu a mão, é bom ter em conta que ele também fez, faz e fará o mesmo com bilhões de criaturas.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

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Carta à Mãe (nº 95)

Mínimos Contos Ordinários

Mínimos Contos Ordinários – DMC (o desenho da mulher na  capa é do meu amigo Víctor. O restante fui eu mesmo quem projetou).

 

Mãe Querida,

Eu penso na Senhora como penso num beija-flor, num rio, no mar, nas nuvens, nunca no céu, porque eu sei que o céu é a Senhora, e eu virei o Diabo em pessoa, embora a Senhora me arranque as orelhas todas as vezes em que falo isso, mas Diabo é Diabo.

Mãinha,

Hoje (me perdoe), hoje eu novamente “tô com a macaca”, como diz o povão, e eu sou povão. Tô invocado, não votarei em ninguém, até porque eu sou analfabeto, isento disso e daquilo, mas não de pagar mil impostos.

Mãe querida,

sei que a Senhora estará rindo, quando acordar, e as netas e bisnetas vão ler para a Senhora, nesta besteira de Internet, as bobagens que o seu filho mais velho escreve de vez em quando. Mas é como daqui de Minas, BH, dizemos, mundialmente famosos Clube da Esquina, “de tudo se faz canção”. Vou cantar e tocar, vou me casar com abelhas e formigas. Lembrei-me de João Guimarães Rosa: ” A gente não morre: fica encantada.”

Mãe,

vou me despedir, porque o ócio me chama. Amanhã, levarei mandioca e costela, para fazermos a delícia chamada “vaca atolada”.

Um beijo e um abraço do seu filho meio desmiolado – mas bom garoto.

DARLAN

uma escultura toda ouvidos:

mexilhão

Lembra carapaça de mexilhão, chapéu oriental, satélite, pião… (infelizmente, ainda não sei o nome do autor ou da autora desta bela obra).

Pampulha, BH, MG, Brasil

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@1

     Qual deve ser a sensação de se ter dois nomes, pois um deles não é autêntico, não é reconhecido em documentos oficiais, incapaz de segunda via deste e daquele, incapaz de fazer valer autenticações em cartórios, delegacias e bancos (por exemplo, alguém que queira tornar-se procurador legal de outra pessoa, manejando o extrato, etc) ?

     O que é ter nome de batismo e, por exemplo, ter por toda a vida um nome artístico, ou carregar nome e sobrenome surgidos sem que se pensasse em futuro para eles, coisa de brincadeira de botequim, uma alcunha arranjada para o carnaval, ou coisa que o valha ?

     Deita-se e levanta-se com qual deles ? Há trocas neste deitar-se e levantar-se ? Essa pergunta psicológicamente sofisticada e ao mesmo tempo satírica procede (penso que vai fundo no humano demasiado humano; na catarse, no desgastado ser ou não ser).

     A partir da boca do Outro, qual será o teu, o meu próximo nome e sobrenome ? No livro Todos os Nomes, José Saramago escreveu algo sobre os caminhos ou descaminhos nos quais os nomes costumam estagnar. Os nomes, como se vê, acham muitas pedras pelo caminho.

@2

     Numa entrevista, Jorge Amado, de dentro de sua calma inconfundível, de sua visão larga da vida, disse algo assim como que o Brasil, mais do que uma convivência de raças, é uma fusão de raças, esta é a essência de sua mestiçagem, e eu entendi que seja algo assim como fazer, juntos, a aldeia, e não apenas morar na mesma aldeia, embrenhando-se de fato uns nos outros. Isso me levou ao dramaturgo Dias Gomes, quando disse que o Brasil é um país que desmoraliza o absurdo.

@3

     São cinco da manhã, acabei de consultar uma folhinha ou folhetim especializado na questão, e notei, com pasmo, que o dia de hoje – 1 de agosto – não é dedicado a ninguém, a nenhuma profissão, a nada. Enfim, um dia de todos.

Carta à Mãe (94)

PAMPULHA Igreja São Chico de Assis (Niemeyer,

Igrejinha São Chico de Assis, 1943  (Oscar Niemeyer e Joaquim Cardozo. Foi ornamentada por Cândido Portinari, Alfredo Ceschiatti e Paulo Werneck.). PAMPULHA, BH, MG, BRAZIL

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Contagem regressiva

Êpa ! isso dá samba

Êpa ! isso dá samba, rock progressivo, cantiga de ninar…

A BELA 2018

A BELA DA MANHÃ – 29/07/2018

(7ª Corrida da Cooperação. Pampulha, BH, MG, BRASIL)

 

CARTA À MÃE nº 94

Dona MARIA,

voltei à Pampulha e me deixei levar pelo ror. Mãinha, ror significa multidão. Pois é, lá fui eu, meio alquebrado, mal preparado, mas fui à luta, como diz o povão, e enquanto eu corria a minha corrida, com a famosa lagoa ao lado, pensei coisas, nem sei como, isso porque esse tipo de cansaço quase faz a gente até delirar, quanto mais este teu filho que vive delirando, amante que é de nuvens e dunas.

Na primeira volta, veio-me uma lembrança do futuro (ou seja, o delírio já dava as caras), sonhei com um mundo todo pelado, sem lojas, nenhum cédula, nada de motores, porém, ou por isso mesmo, funcionando às mil e uma Xerazades, ou às mil e uma maravilhas. Vi com tudo todos os olhos, lembrei-me do rei Salomão com a sua máxima de “olho por olho…”, e quase errei a passada ao ver todos os templos do mundo e todas as igrejas em cinzas, não em ruínas, em cinzas, e nada de deus, só o diabo da alegria vigorando neste mundão que nada mais é do que uma feira de descalabros sem fim.

Mãinha,

não se preocupe, porque farei com que tudo vire ex: ex isto, ex aquilo, ex aquiloutro, menos o meu carinho pela Senhora, e o meu inesgotável incentivo ao bom humor, minha vontade de aprender a ler e a escrever nem que seja discurso político, apesar de que todo ato é político.

Mãe,

hoje, segundona querida ou segundona brava, desatei o nó da gravata, saí ao contrário do meu amigo, o filósofo grego Diógenes, O Cínico, procurando um homem (Êpa!) que seja algo assim mais ou menos desonesto. E vi que tudo mudará com a minha tática, sim, Mãinha, o mundo mudará com o eclipse que preparei para ele, hoje, às 23h 59s, ou para o dia que der, dará.

Tudo de bom, meu doce de coco com cacau, meu pavê. Verei a Senhora, amanhã, já respirando o Admirável Mundo Novo (um mundo já sonhado na década de cinquenta pelo inglês George Orwell, pobre coitado, um mundo já cantado ou antecipado por todas as mulheres e por alguns homens muitíssimo antes dele, ou seja, desde o primeiro dia).

Mãe,

levarei dois molhes de couve e um de ora-pro-nobis, e aquele queijo Canastra. Um beijo e um abraço do teu filho meio desmiolado, mas bom garoto.

Darlan

luadeluar hoje é noite de sombra… ação, pois !

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TRAVESSIA – Milton e Brant (Fiz essa foto em 2006, Praça da Liberdade, BH)

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     Hoje é o dia do eclipse mais longo do século 21. Curioso quanto a isso, não sei bem o que farei, talvez suba no telhado, e fique por lá esticado como uma lagartixa ao sol, ao luar ou à falta de luar, ou me transforme num gato com direito a sete vidas e mil e uma artimanhas próprias dos gatunos, segredos serão revelados e cabeças irão rolar, e talvez até se veja o que o Pink Floyd pensa ter visto, ou seja, the dark side of the moon.

    Numa situação incomum como a que acontecerá em algumas horas, é comum que as pessoas fiquem entusiasmadas ou alarmadas, não há meio termo, crentes ou descrentes, satíricas ou carrancudas, todas as pessoas sentirão o passar do astro, e os bêbados irão se fartar, ou porque vivem nas ruas, ou porque são poetas por natureza. Vão faltar verbos e adjetivos para tamanho eclipse. Mamma mia!

     São 5 da matina, supersticioso, tenho tanto medo do escuro como uma criança que foi sistemáticamente assustada e escorraçada, sofro ene pavores e suores, mas, pensando bem, ao diabo com sonatas ao luar, vou é botar meu bloco no topo da colina, e uma vez mais, com os Beatles, cantar day after day, the fool on the hill, ou the lunatic is on the grass, do Pink Floyd, ou cantar, com o Milton, a lua girou girou, traçou no céu um compasso, a lua girou girou, ó, pensando bem, hoje não é dia de cantar, dia nenhum é dia de cantar, foi declarado que estamos abolidos deste fardo. Mas o que será da terra e da lua e do sol, de deus e do diabo, se ninguém cantar feito galo, canário, gato, cão, uirapuru, hiena e veado, sortudo e azarado ? Revogada então está a proibição de cantorias nas terras do sem-fim, na terra do benvirá, nas carrancas do rio gavião, no grande sertão cheio de morte e vida severina, no Curral del Rey (nome primeiro de Belo Horizonte, 1897).

Vamos pra lua, lunáticas & lunáticos ! Vamos pra Pasárgada, lá seremos amigo/as do Rei.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Vídeo-tour da NASA (09 julho 2018): https://www.tecmundo.com.br/ciencia/129113-nasa-divulga-video-tour-lua-4k-assista.htm

outro homem sem qualidades

conversa pública

em aberto

 

@1

     É comum eu me lembrar de fatos ou situações quando estou fazendo algo sem nada de especial como, por exemplo, coar café ou tratar do canarinho Milton Sentimento e da periquita Ana a Vadia; nada incomum como levar um tropeção ou soltar um palavrão ao reclamar de outra fila, e foi assim que me lembrei do livro O Homem Sem Qualidades, do austríaco Robert Musil, um livro que ficou inacabado, pela morte do autor, cuja primeira parte foi publicada em 1930, e a segunda em 1937, marcando presença na Europa. É um livro de perguntas, questões filosóficas, de cordas sem pontas, de lápis sem razão de ser, de papel passado à inquietação, fala das muitas forças de opressão, do consciente e do inconsciente (sem ser uma obra psicanalítica), uma obra que nos leva a pensar em como é que tanta gente é levada ou permanece por toda a vida sem dar a cara – é assim que ainda o vejo: ético, sem saída, areal movediço, vários túneis ferroviários cruzando-se sem sinalização nenhuma, réplica e tréplica no esquecimento, alguém que ganhou na loteria, mas perdeu o bilhete.

     Por acaso, encontrei no blog Livros que eu li uma apreciação daquilo que Robert Musil apresentou numa conferência em Viena, em 1937, de nome Da Estupidez // Über die Dummheit. O autor do blog, Aguinaldo Medici Severino, escreveu que “ele começa a palestra provocativo, afirmando que a estupidez se assemelha tanto com o progresso, com o talento e com o aperfeiçoamento das coisas, que quase todos aprendemos que a atitude mais inteligente que podemos adotar neste mundo é a de nos fazermos notar o menos possível, a de passarmos por estúpidos.

@2

      Fiz essa foto durante uma corrida no bairro São Bento, BH, onde duas cadeiras, vazias como um diálogo moderno, como que anunciavam mais um dia de vácuo, ou quase. Não conseguindo ver nenhum dos vigias (note o detalhe do cabide), pensei ter ouvido vozes, e me inquietei ainda mais, já esquecido da corrida, pensei que eles podiam ser invisíveis, ou seja, para além das minhas possibilidades. Ser invisível acarreta inúmeras vantagens, e eu nem quero pensar que este dia para mim chegará.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

MOCHILEIRO

Tio DARLAN Motoqueiro

viejos tiempos  //  old times  //  alte Zeiten  

para TODAS e TODOS  //  para Divagações & Pensamentos  //  para Chronosfer2  //  para Cristileine Leão  //  para HangFerrero

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     Eu não fazia ideia que aqui em casa ainda existia baú – pois é, encontrei um ao abrir uma parede para fazer passagem para outro cômodo, e na qual penduraria uma cortina de sisal. Não, nada de cortina.

     Dentro da relíquia encontrei relíquias, ri, chorei, babei, bati cabeça nas paredes e botei a mão no fogo para sentir que não estava delirando, o baú é verídico, do século vinte ou talvez da época de Pedro II – já não me lembro, mas as fotos que lá estão dizem muito, e também as bandanas, correntes para o pescoço, pulseiras, decalques, cartas, uma carteira de couro de jacaré (em muito bom estado, mas o jacaré morreu), óculos de sol, um cubo de Kubik, uma garrafinha de bolso, uma camisa do Santos F. C.  e uma do Villa Nova Atlético Clube (Nova Lima, meia hora de BH), cartões postais, cartões de apresentação profissional (ora, queria eu saber de serviço ? não, mas os guardei em respeito ao Outro), anel de prata do Peru, cordas para charango, lágrimas bem guardadas num vidrinho, sim, lágrimas de uma bela adormecida, ou foi da própria Xerazade ? Não me lembro, embora me lembre, mas vamos em frente, aos chaveiros de vários lugares, UAI, Ó XENTE, BARBARIDADE CHÊ, o Brasil é grande, o mundo também, revirei uma parte da minha vida e, darlanianamente, sacudi a poeira, deitei-me na esteira, bela bebedeira para me lembrar com calma de gentes e assombrações, estradas, vilas, aldeias, cidades, rios, mares, cheiro de estrume, a barraca, escalavrões, gente má humorada, gente bem humorada, eis que na Argentina tem uma estátua dedicada à mulher grávida (acho que em Córdoba), ó vida, cadê o violão e a estação de trem, cadê a rodoviária, irei a pé, como fiz mais de uma vez, comendo banana debaixo de um sol mais caliente do que a casa do Demo, feliz da vida, bebendo garapa, topando com goiabeiras e mangueiras no meio das estradas poeirentas, sanduíches dormidos, pastéis de anteontem e de trasanteontem, cheios de vento, nada de SIDA//AIDS, bons tempos de bandeira e saúde na mochila, crianças seguindo a gente, curiosas por aqueles malucos mais sujos do que um gambá, felizes…

 

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Foto: Nem Sei Mais     >>>>>     Texto DARLAN M CUNHA

grãos 3

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Cape Cod, MA, USA

 

@1

     Muito embora nem sempre seja possível manter o rumo, tento manter aqui e alhures o ar de coisa boa como beijos de mãe, algodão doce, braços abertos no Corcovado, gol do Brasil, pescaria amadora, dindim nos bolsos (como se fosse água vazando pelo ladrão), enfim, fartura geral, sem nervos superaquecidos, sem a pressa que sufoca e infarta.

@2

     Depois de reler este conceito que se segue no livro Assim falou Zaratustra (faz muito tempo que o conheço), pensei até em sugerir, em tom de blague, que o balé e o tricô fiquem exclusivos para garotos, mas não sugiro que o chicote tenha as medidas das mulheres, pois não fui eu, e sim Friedrich Nietzsche quem escreveu “Vais ter com mulheres ? Não esqueças o chicote.” Está no Assim falou Zaratustra.

@3

     Dois dedos de prosa com o Diabo esclarecem dúvidas, pois a conversa orbita sobre o que há de mais precioso. Ontem, entre petiscos, risos, amuos, tragos, livros de cavalaria e canções de gesta e religiosas (ficam por último as canções picantes, libidinosas), ele revelou estafa, ou seja, tornou-se ou está se tornando “um pobre diabo”, e é exatamente assim que minhas vizinhas e vizinhos me qualificam. Precisamos melhorar.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

MÚSICA & AFINS: https://www.youtube.com/watch?v=leb0K-yUORA

mundo

garotos jogando futebol

Campinho em Rio Acima, MG, Brasil

 

     Neste fim de madrugada com café e broa caseira, viajei cinco minutos e trinta e dois segundos rumo às peripécias e desconfortos do sempre confiante Dom Quixote, através da música de mesmo nome de Egberto Gismonti. Se o clima social não está para peixe, dizem, continue com música, começando o dia assim em grande estilo, doenças a parte, ou dúvidas duelando com o entusiasmo que insiste em não sentar-se à beira do caminho. Depois de ouvir Quixote, eis que surge, abrindo-se durante oito minutos e vinte segundos a música cheia de premissas e promessas de todas as infâncias: a música Infância – irei feito criança (pretendo) aos 1440 minutos que cada dia tem: criança. E com a excepcional e mundialmente famosa música Água e Vinho, deixar a madrugada e entrar na claridade.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

3 em 1

IPÊ

Hana wa Saku  //  Flowers will Bloom  // As flores em floração

Autora: YOKO KANNO. Arranjo: YOSHIHIRO KOSEKI – Solo de violão: KAORI MURAJI

 

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     Espavorido, temente a Deus, ao que não seja escrúpulo, Dom Quixote entrou aqui, e na penumbra pareceu-me sem um braço, mas intacta estava a personalidade, entrou e disse algo que soou ininteligível, que só mesmo Sancho para traduzir sua verve sempre inflamada (na penumbra, confundira-me ele com o gordo Sancho Panza ?).

     Pois é, o famoso cavaleiro de triste figura não é de sentar-se, a não ser no lombo do fiel Rocinante, e não aceitou cadeira. Quanto ao que se perdera na viagem, que ao que me parece se tornara para ele algo assim como um rito de iniciação, ele não sabia dizer, e porque chovia, trouxe Rocinante até um canto do meu jardim. Adeus margaridas.

     Dom Quixote, não sei como, aceitou um copito de vinho tinto, ameaçou sentar-se, mas recuou mum átimo, e continuou de pé, delirando: “El que de vos vive ausente, dulcísima Dulcinea, a mayores miserias que éstas está sujeto.” (Será que me confundira com a sua amada Dulcineia del Toboso ?) Disse, agradeceu pela acolhida e prostrou-se no sofá, onde está até hoje, melhor dizendo, eu pu-lo na estante principal.

 

Foto e texto: Darlan M Cunha  

Dom Quixote e Sancho Panza, trazidos daqui: MALUDICO http://maludico.tumblr.com/post/83349479787