pois é

Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos  – escritores. BIBLIOTECA PÚBLICA DE MG – Belo Horizonte

[CLIQUE NA FOTO ACIMA]
Carlos Drummond de Andrade [farmacêutico] e Pedro Nava [médico] – escritores.
Rua Goiás, centro de Belo Horizonte, MG
Murilo Rubião, escritor, um dos fundadores do Suplemento Literário de MG. BIBLIOTECA PÚBLICA DE MINAS GERAIS. Belo Horizonte


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O amor contém glúten ? o amor se faz mímese de quê, sinônimo

ou antônimo de si mesmo ? o amor se faz antinomia e apostasia

de quantas necessidades humanas já demasiado distantes entre si ?

O que mais cansa no amor: o caos na cozinha e no banheiro

as flores murchas na copa, o aquário vazio

a dúvida à mesa, entre o copo com água e duas palavras,

um ímã inócuo com o vizinho ou vizinha, ou a espera infinita  

por areia e sol, deixando para trás, para o nunca, o vazio

já definido, talvez com seguro de vida garantido pelo velho retângulo ?

O amor contém luto ? dá votos, retira fotos? ele vive de quê, afinal ?

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Fotos e poema: Darlan M Cunha

CLUBE DA ESQUINA nº 1 >>> MILTON NASCIMENTO [Márcio Borges, Lô Borges, Milton Nascimento]: https://www.youtube.com/watch?v=YkLjtrJjXEM


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Todos os Nomes [José Saramago]

CELSO RENATO [1919-1992]
[Clique na foto]


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     Escrevo aqui sobre uma realidade que considero fora de propósito no estágio social em que esta e outras sociedades estão, que diz respeito ao fato comum de se mudar o sobrenome da mulher que se casa, apondo-lhe o sobrenome do marido, por exemplo – ele é Souza e ela é Mendes, era Mendes, de agora em diante será Souza. Escrevi algo sobre o delicado tema há alguns anos numa das minhas páginas internet, mas não me lembro em qual delas. Penso que se algum dia a lei disser que não será mais obrigatório ou necessário mudar o sobrenome da cônjuge, isso terá sem dúvida um grande impacto social e psicológico, porque pode até parecer banal, mas não é bem assim o fato de uma pessoa ceder parte do próprio nome. Alguém dirá que o amor é lindo, sacrifica-se.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

ÚLTIMA FORMA. Baden Powell // Paulo César Pinheiro. Cantada pelo MPB-4: https://www.youtube.com/watch?v=2MR98Ls1NOw

O Homem e seus símbolos [C. G. Jung]

An amazing exposition: CELSO RENATO [1919-1992], brazilian painting. He used oil on canvas, wood, and sand, pen...
Palácio das Artes, BELO HORIZONTE, MG, BRAZIL.
CELSO RENATO [1919-1992] – Sem título
[Clique na foto]

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Dizem que deus fez o mundo em seis dias, depois foi andar, pois ninguém é de ferro, como diz o povo. Mas, nestas idas e vindas da história vivida por todos através dos milênios – de invasores e invadidos – a humanidade foi tomando ciência de alguma coisa aqui e outra ali, sempre pela metade, ou menos, e assim continuará, pois sua sina é mesmo a de embaralhar a seda e o linho, enquanto procura num baú cheio de destroços uma saída para a  bela insônia, com dois dedos de prosa com belzebu, em busca de orientações, mas o diabo, que tem uma agenda ovípara e onívora, etc, está sempre no milímetro do cansaço, porque há pretendentes demais à sua fogueira de matar vaidades.

Bom, o que se diz por aí, voltando à primeira frase, é que deus ergueu o mundo em seis dias, segundo as mentiras dos pergaminhos, dos papiros e outros documentos inflados por ventos cuidadosos, escondidos em fendas estratégicas, grutas energizantes. Mas o bom deus, decerto sob leve embriaguez pelos feitos de sua semana única, cometeu o gravíssimo erro de inventar degraus, para que deles os homens e as mulheres fizessem a pauta de sua existência – assim, sem escada, nada feito, sem degraus, nada feito, dizemos uns aos outros numa cobrança feroz e feraz.

Parece, pois,  não haver dúvida de que a invenção da escada [tornada simbologia] deu forma ao caráter humano.

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Foto e texto: Darlan M Cunha. Visite: https://www.poemhunter.com/darlan-m-cunha/

 

Padaria Darlaniana

petiscos avulsos

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É verdade que se virarmos uma barata de cabeça para baixo ela morre ?
Não. Às vezes pode fingir-se de morta para fugir de seus predadores ou caçadores.

FONTE: http://www.ambiente.bio.br/pergunte-ao-biologo/saiba/?p=E-verdade-que-se-virarmos-uma-barata-de-cabeca-para-baixo-ela-morre–&id=10

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Se essa moda pega… O fato é que as baratas são de fato sobreviventes, sim, na mais profunda ou alta acepção desta palavra, daquilo que nós entendemos por sobreviventes. E assim como os tubarões e os escorpiões, que estão intactos há milhões de anos, as teimosas e destemidas e até simpáticas baratinhas estão aí por todos os lados ou cantos do planeta já todo ele podendo ser considerado como um Planeta-Inseto ou Insetífero ou Insetilândia ou coisa que o valha; só que elas, muito ao contrário dos escorpiões e dos tubarões, enfrentaram e enfrentam diariamente um bombardeio incrível de venenos, com o que envenenamos a nós mesmos, e as lindas e lustrosas e gordinhas baratinhas estão por aí, rindo de nós, chamando-nos de panacas, imbecis, trouxas em gastar money com venenos inúteis, somos mitridatizadas [esse termo vem do rei Mitrídate, inimigo mortal de Roma], ou seja, somos imunes ou imunizadas. Não me recordo bem, mas acho que Ítalo Calvino, no seu excelente livro As Cidades Invisíveis, não se referiu a estas renitentes habitantes das suicidades e dos campos. Frequentam igrejas e cabarés com a mesma desenvoltura, vão frequentemente às mil reuniões governamentais, e de altas patentes militares, do mesmo modo como vão às escolas primárias e universidades colher mais e mais conhecimentos, sim, essas garotas são um barato.

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             Roscas (com ajuda da Dona MARIA), foto e texto:                               

                      Darlan M Cunha

                      

clave de sol >>> 22 de novembro, dia da música

“La musica è la figurazione delle cose invisibili.” Leonardo da Vinci [1452-1519]

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     Não por diletantismo ou atitude parecida, coloco aqui essas três imagens, distantes no tempo de suas realizações, pegas assim ao léu, num vu, entre muitas outras guardadas aqui no baú de ossos – para usar o título de um dos livros do falecido médico e escritor memorialista, o mineiro Pedro Nava. Tenho uma relação de unha e carne e tutano com a Música, que é chamada de mãe das artes, embora trilhe outros caminhos, sempre que posso atuo com ela, e uma vez e outra paro para pensar a quantos lugares fui, e quanta gente conheci devido a ela, e um dos meus livros, por exemplo, fala algo de algumas das canções do Clube da Esquina.

    Meu avô materno – Dino – um modesto alfaiate em Medina e São Pedro, lá no Vale do Rio Jequitinhonha, tocava baixo tuba na banda do lugarejo, e a minha mãe até hoje vive cantando ao preparar biscoitos e doces, almoço e jantar.  Às vezes eu a acompanho, e isto, caros e amadas, é que é luxo: acompanhar, descalço e sem camisa, dentro de casa, músicas cantadas pela própria mãe. Repetirei aqui um trecho da letra do cubano Silvio Rodríguez, da Pequeña Serenata Diurna: “Soy feliz, soy un hombre feliz, e quiero que me perdonen por este día los muertos de mi felicidad.”

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Fotos e texto: Darlan M Cunha


uma longa e sinuosa estrada

cemitério do Bonfim, Belo Horizonte

[clique na foto]

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A impermanência já nos revelou muitas verdades, mas há um tesouro final sob sua guarda, que fica profundamente escondido de nós, cuja existência não suspeitamos e não reconhecemos, embora seja nosso do modo mais íntimo.

SOGYAL RINPOCHE. O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, p. 65

https://dharmalog.com/2013/01/31/as-verdades-que-a-impermanencia-nos-revela-no-livro-tibetano-do-viver-e-do-morrer-de-sogyal-rinpoche/

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Algumas vezes certas questões deixadas de lado encostam sua voz na nossa teimosa desatenção, e só nos resta ouvir, sentir, arrepiar, tentar sermos objetivos ao analisar tanta pressa e tantos erros diários, pelo que sentimos vergonha ou raiva de nós, sentimos uma impotência amarga, alguma música tocando ao contrário, sem escala, sem pauta, sem som que se possa aturar.

A felicidade dá vários passos à frente, todas as vezes em que ensaiamos um passo rumo a ela, eis o fundo das coisas, dos nossos tormentos, o sistema de prisão a que estamos condenados, motivo pelo qual, pessoalmente, não me importam as “ciências” de estudar o outro mundo, reencarnações, punições dantescas, guia espiritual abrindo o mar com simples gesto para que o povo se safasse de perseguidores, e outras mil e uma balelas. Fico aqui, pasmo de ver e ouvir, pasmo de que alguém passe sem desejar um mero bom dia, o fio da meada bem ao alcance, parece que o amor perdeu as mãos, amputou a fala doce, corpo e mente cederam à mãe pressa.

Cuando ya no importe é o título de um livro excelente, cujo título já é uma obra completa, escrita pelo uruguaio Juan Carlos Onetti [1909-1994], Prêmio Cervantes de Literatura, que não se enredou em se preocupar com almas mortas, a não ser que, pouco de luzes como sou, não tenha percebido bem sua profundidade. A felicidade dá vários passos à frente, todas as vezes em que nos damos em sua direção.

Foto e texto: Darlan M Cunha

persona

Teatro de Arena Alfredo Tenuta - Buritis, BH

teatro AROLDO TENUTA – bairro Buritis, Belo Horizonte

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       O Mundo como Vontade e Representação é o título de um famoso livro lançado em 1819, composto de quatro volumes, de autoria do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que li já faz algum tempo. Essa foto me fez lembrar da obra, embora tenha outras vazões com que me ocupar. O inconsciente age sobre nós constantemente, não te esqueças.

      Eis o preço. Acostuma-te então à fadiga com os dedos cruzados e os olhos fechados. Valha-me, senhor dos anéis, todos dizem isso nos momentos de impasse, porque aflição pouca é bobagem, o macarrão está no fim. Ah, hoje é domingo ? Amanhã, segunda será, e aquele acerto terá que à mesa sentar-se. Não molhe os cactos. Esta é uma cidade grande, capital de estado poderoso, mas definitivamente sem nenhum pendor para o turismo, porque passam ao largo os turistas nacionais e estrangeiros, indo para Sabará, Mariana, Tiradentes, Bichinho, Diamantina, Rio Acima, Ouro Preto, às vezes, pernoitam na capital carente de sacudidelas via atrativos. É um dos preços do mormaço mental, do pouco, do pobre turismo a oferecer. Voltando a outras amarras, lembro-me de ter ouvido que um antigo vereador, já falecido, em certa época de sua carreira política, aventou, a partir de uma mesa de bar no edifício Arcângelo Maletta, se não me engano, aventou sobre a possibilidade, tratada por ele naquele então como possibilidade real de se abrir um braço de mar até aqui, vindo do Rio de Janeiro ou de Vitória. Votei no destemido visionário, mas não deu em nada, a não ser em chacotas, pilhérias, sátiras, nonadas, silvos, piadas, trocadilhos em bares e restaurantes, padarias e estádios, chocolaterias [é como se diz e se escreve, por exemplo, no RS], feiras de rua e – pasmem, ridentes – até em velórios ou gurufins, que são famosos pelos altos papos em nada inerentes com a dor que ali teóricamente deveria vazar de todos. 

       A dor é o preço, a conta da lei na ponta da intimidação, uma faca só lâmina. Ganhei par de meias, como é bom vestir roupa nova, melhor ainda é ter opinião própria, carente, nada peço ao senhor dos anéis, de nenhum senhor sou suserano ou vassalo, longe disso, aprecio canções do Elomar e do Gismonti, não há xerox, 2as vias não há. Pois é, ontem foi hoje, foi chamado de amanhã, é estranho, pois o ontem está tão perto e já tão distante está essa estrela decadente no calendário geral mundial, porque até mesmo os boreais e os austrais têm pressa, a caça está escassa, ó trocadilho supimpa, genial, irado, infame: a caça está escassa ! Ó é título de um livro. Quando você foi embora ela não aparentou, não deu no couro, não arrefeceu o entusiasmo, aparentemente, o mesmo sol e a mesma lua com ela, quando você foi embora, pessoas que gostavam de você fizeram o pelo sinal, vade retro, Satanás! Confesso que vivi, confesse tu também, tudo a ti mesmo, nada de confessionário do vigário, tudo a temer em tal covil, quem teme pouco, quem tem pouco cuidado anda de muletas, cheia de tretas e mutretas é a rua, também a vila, a aldeia, a cidade, o país, o mundo, as mil casas de vender deus, o morto, segundo disse um compositor e cantor assassinado. Tungada é pancada, mossa é vestígio de pancada. Mossas em moças são comuns de serem vistas por aí, embora se escondam, envergonhadas, sim, há muitas infâmias, desgraças diante das quais fazemos vistas grossas e ouvidos moucos, porque é mais fácil irmos à praia do que irmos doar sangue uma vez por ano, com direito legal de não se ter o dia de trabalho descontado. Deixa pra lá. Não, nada disso.

       Atenção ao preço do cotidiano, ao peso psíquico que sobre nós incide e nos adoece, à tabela movimentada na calada da noite, enquanto fornicas, e o vizinho, também ele um ateu, bebe que nem gambá num alambique, comendo que nem gato no celeiro, rato na casa do queijeiro. Ó vida de margaridas no quintal, trabalhar cansa, mas a horta deve continuar, a aorta deve pulsar, carótida em dia com a PA, pressão arterial, vamos dar um passeio no parque, montar as crianças nos jericos para darem voltas no parque. Depois, crianças na casa da vovó, vamos ao circo, ao globo da morte ouvir motos barulhentas e motociclistas procurando maca. Depois, o trivial. Amanhã não vai ser outro dia. Será ? Os preços estão na Constelação de Apus ou de Andrômeda. Cabe procurar, ou não, preços indigestos dispõem para ti mil e uma noites de ressalvas, castigos, insônia. Pense bem, aja três vezes antes de pensar. Persona. Todos e todas são personas agindo no Grande Teatro, à espera da inenarrável algazarra da morte.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

abstract: oblivion [3]

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I am the grass; I cover all (Carl Sandburg)

MILTON – Clube da Esquina nº 1: https://www.youtube.com/watch?v=YkLjtrJjXEM

o mundo é tempero

Temperos

temperos alguns do mundo

 

     “afeiçam deles he seerem pardos maneira dauerme lhados de boõs rrostros e boos narizes bem feitos. / amdam nuus sem nenhuua cubertura nem estiman nenhuua coussa cobrir e mostrar suas vergonhas, e estam açerqa disso com tamta jnocemçia…”

A Carta de PERO VAZ DE CAMINHA – p. 72

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     Como se sabe, na época das grandes navegações, dos descobrimentos, temperos nunca antes vistos pelos usurários europeus ajudaram a fazer suas riquezas, a Europa era pobre, e assim os temperos valiam mais do que ouro e diamante, e quem tivesse seu monopólio estaria muito bem. Tempero era música do desvairio… hehe.

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

semana literária: suicidas 4: MAIAKOVSKI

Vladimir Maiakovski (Rússia, 1893-1930)

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BLUSA FÁTUA

 

Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
Pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.

Que a terra gema em sua mole indolência:
“Não viole o verde de as minhas primaveras!”
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
“No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!”

Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!

( Maiakóvski – tradução: Augusto de Campos )

Mais poemas de VLADIMIR MAIAKOVSKI no blog POESIAS POEMAS E VERSOS: http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/maiakovski/ 

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MAIAKOVSKI teve impulso específico ou determinante para a revolta que foi sua marca registrada contra os desencontros sociais da Rússia (nascera na Geórgia), solidário com ela por toda a vida, o que naturalmente refletiu-se de modo claro na sua obra. Sempre de cabeça erguida, olhos furiosos, desconfiado, não media esforços rumo à vida – embora que ele mesmo daria fim a ela. Sua poesia grita no convés dos pescadores, em vão, bota fogo nos adros, canta e dança nos descampados, nas aldeias e bordéis, incentiva os camponeses: que olhem nos olhos das beterrabas, enfim, um patriota, órfão, azedo e doce, conforme as circunstâncias que ele, até certo ponto, tecia, sem ficar no meio do caminho. E isso fez toda a diferença / And that has made all the difference – como escreveu no seu mais famoso poema o estadunidense Robert Frost.

Darlan M Cunha       

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