Darlan visita Ai Wei Wei, nº 2

Observação flutuando

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Baixa o olhar. Mais fácil te será a caminhada, se atentares para o sol onde pisam teus pés. Dante Alighieri. Divina Comédia. Purgatório, cap. XII, 13.

A isto já replico, ou completo: Levanta o olhar, o dorso e os pés sobre os destrossos da História, que assim te será menos penosa a jornada. DMC

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Desta exposição de algumas obras do chinês Ai Wei Wei, já disse ser difícil continuar cedendo ao hábito falido de não pensar, pois o sensato é lutar consigo mesmo/a quando algo for proposto nas vinte e cinco horas de cada dia, sim, o mundo vai depressa demais, e há muito tempo precisa de uma hora, ou mais, a mais.

Foto e texto: Darlan M Cunha

Música chinesa (instrumentos: erhu, cítara, flauta de bambu, banjo): https://www.youtube.com/watch?v=uiOgOQcWGsc

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A leveza pede passagem

Enredo de gala


Ao contrário do que se possa fazer crer, não sou caçador de ti e de mim, nem do Nada escondido no Nunca. Pois bem, mudando de catavento, ou de assunto, eu nunca fui convidado a um baile de máscaras. Pensando bem, para quê, se o mundo todo, se a showciedade vive travestida ? O que eu imagino sobre tais festas, sempre apresentadas com ar de muita classe, e nem digo etiqueta, nem é preciso dizer glamour, é que nelas devem acontecer situações como a de perguntas assim: – Bela máscara. Olá, você é a Cláudia ? Não ? Ah, já sei, essa é a voz da Ângela. Engano seu, cavalheiro. Divirta-se. Hahaha… só rindo.

Celso Renato

Enganos acontecem até no escritório. É, em frente, porque talvez um dia eu seja um dos convivas, mas preciso pensar que máscara preparar, que ideias desejo que ela transmita ou não transmita às belas e aos idiotas de plantão. Pois é, por mais alguns dias de sol no quintal eu iria a pé ao interior de Minas, principalmente na região das cidades históricas, onde há muita jabuticaba e muitas igrejas – mas estas últimas eu dispenso.

Darlan M Cunha – UMMA (romance)

Bom, preciso deixar livros de lado, isso não dá bom caminho, enquanto isso, espero com febre o convite às nuvens, aos degraus perigosos, escorregadios são os lábios do perigo. Mas toda hora é hora de permanecer na realidade, e assim o condomínio está pago. Fiz quinze anos há pouco, e nem percebi, nem tive tempo de contar quantos dedos tenho e quantas vontades de fazer algo, conseguir isso e aquilo, e de me aprimorar numa área, em duas ou três, mas sem me esquecer de ir à praça, de vez em quando, de rir e gritar numa cachoeira, de visitar as avós. Espero com febre o baile de máscaras.

Fotos e texto: Darlan M Cunha

o céu, enfim, cospe fogo

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Ave, planta, pedra, água e fogo, rastilho de pólvora, sempre insatisfeitos os humanos estão, não há quem escape de terminar seu tempo sem ter ido a tal lugar, feito esta ou aquela viagem, lido tal livro, o casamento errado ?, o rarefeito ar desta tua aldeia já não te conforma, nada aí te conforta, queres ser um rastilho de pólvora, cultivar nos dentes o delicado veneno letal (lembras de O Perfume ?), deves ir, urgência em desvestir dos teus olhos a silhueta desta aldeia, encontros e desencontros muito ricos e veramente pobres estão por todo lado, lá onde o sol não vai, lá onde só mesmo o medo se atreve, porque é genético, deves ir, morrer de fato todos os dias, e não morrer sem morrer (entenda), ser ou ser, esta, sim, é a questão da qual o inglês de nada soube, e assim chegarás ao Nada, saído ou fugido de um mundo insosso, provarás os Nove Círculos do Inferno, nos quais faço morada. Para trás com o grande engano. Melhor é o Mar Absoluto – não somente o de Cecília Meireles – como também o Mar Absoluto de Fogo, porque só assim se tem a sensação de se ter vivido de fato: arranhado.

Mar Absoluto

história é areia

Foto: ORIENTE MÉDIO by MARIA JOSÉ e sua neta NANCY

GNÔMON

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LETRA A DE ALA ARRITMIA AMIZADE

LETRA B DE BILBOQUÊ BESTUNTO BIBA

LETRA C DE CÚRCUMA CIO COSTAL

LETRA D DE DESCENÇO DICOTOMIA DOTE

LETRA E DE ÊMULO EITO EMENTÁRIO

LETRA F DE FÉCULA FEIURA FODA

LETRA G DE GÁRGULA GEMA GAIA

LETRA H DE HORROR HERA HÍMEN

LETRA I DE ÍON INERME IMERSO

LETRA J DE JIA JACA JACU JOIA JURA

LETRA K DE [buscar no idioma feito mundial]

LETRA L DE LÂMINA LASTRO LÂNGUIDO

LETRA M DE MIASMA METÁSTASE MÃE

LETRA N DE NORTEAR NÓIA NECTARINA

LETRA O DE ONIPRESENTE OI ÓXIDO

LETRA P DE PUA PINOIA PANDEMÔNIO

LETRA Q DE QUERO-QUERO QUESTIÚNCULA QUILHA

LETRA R DE RAZIA REPTO RASCANTE

LETRA S DE SISTEMA SESTRO SANGA

LETRA T DE TUDO TODO TUTANO

LETRA U DE URINA URÂNIO URRO

LETRA V DE VENAL VALHACOUTO VIL

LETRA W DE [buscar no idioma padrão]

LETRA X DE XILINDRÓ XÔ XENOFOBIA

LETRA Y DE (consulte o idioma feito mundial]

LETRA Z DE ZÉFIRO ZARABATANA ZERO

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23 Brazilian Must-Reads or 23 Brazilian to read

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Raduan Nassar

Vicente Franz Cecim

Machado de Assis

Denise Emmer

Clarice Lispector

João Ubaldo Ribeiro

João Cabral de Mello Neto

Jorge Amado

Evaldo Cabral de Mello

João Guimarães Rosa

Carlos Drummond de Andrade

Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira

Luís da Câmara Cascudo

José Guilherme Merquior

Dra. Nise da Silveira

Darlan M Cunha

Moacyr Scliar

Manoel de Barros

Érico Veríssimo

Lygia Fagundes Telles

Ana Maria Miranda

Ferreira Gullar

Armindo Trevisan

e os cientistas alemães pesquisando o Brasil: von MARTIUS e von SPIX


Darlan M Cunha

O pequeno mentecapto*

Universidade UNI-BH — um dos laboratórios >>> [clique na foto e leia o poema no anverso]

SONHO e DELÍRIO: OLHAI OS DELÍRIOS DA ALDEIA

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@1

Quando eu nasci, ouvi: Vixe, qui minino feio, Santa Filomena ! Puro drama rindo-se à custa do novato, mas após eu beber colostro, a mãe disse: – Não liga, filhinho, são as invejosas de plantão, sabem que você é lindinho. Pois bem, mãe é mãe, é pão sovado, salgado, é doce de não haver doce igual (assim, carrega água na peneira para ela, sem desperdiçar uma gota, ou te haverás comigo, o Diabo em pessoa). E depois do que ela falou eu caí na real, e botei para quebrar, tudo fucei com a maldade na bile, investi em mim, que já era líndio, e hoje sou um espanto imune a quebranto. Mas eu ficava ainda mais solar era quando minha mãe me vestia de marinheiro, com direito a um gorro e a palavrões (estes, por conta própria), iguais aos que se ouve num convés, lá onde tudo acontece, o convés é a rua dos navios, e é por isso que se diz que roupa suja se lava é na rua. Voltando à minha efígie, já cunhada para uma coleção de moedas de ouro, para colecionadoras e colecionadores, lembro-me da canção cubana, alfinetando: Soy feliz // soy un hombre feliz // y quiero que me perdonen por ese día // los muertos de mi felicidad.*

@2

Reli trechos dos dois primeiros livros – A Mãe e o Filho da Mãe (1966), e O Menino e o Pinto do Menino (1967) – do mineiro Wander Pirolli (1931-2006), um dos fundadores do jornal Hoje em Dia. Raramente releio, com exceção a meus livros, de Lavoura Arcaica (Raduan Nassar) e do Dom Quixote (Miguel de Cervantes Saavedra, 1547-1616). Na semana anterior, relera umas páginas de O Grande Mentecapto, rindo de cair, é de fazer a pessoa querer mudar-se para Ouro Preto, Mariana e adjacências, para talvez sentir no todo este livro maluco e engraçado, imaginando o personagem principal, o parvo Geraldo Viramundo, e o temível Montalvão, o manda-chuva nos bordéis sobre aquelas pedras inconfidentes. Então, ficamos assim: enquanto e onde houver gargalhadas, estaremos lá, todos salvos. Ave, Darlan, os que vão gargalhar te saúdam !

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Darlan M Cunha

OLHA, MARIA (Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque). Milton Nascimento canta, Tom Jobim, ao piano: https://www.youtube.com/watch?v=oJ3gLQFarig

Carta à Mãe, nº 110

Mãe – Algum Dom Doce >>> [clique na foto, leia o poema por trás da foto].

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QUERIDA MÃE

dois meses se foram desde a última carta contando-lhe amenidades e até tirando de mim as garras do mundo que crescem feito unhas de tamanduá, agarrando-se na gente feito a cabeleira do bicho-preguiça, na qual crescem fungos e musgo. Eis a sociedade na qual pelejamos, cuja moeda é a pressa e vice-versa, já me lembro do ditado popular dizendo que ser mãe é padecer no paraíso, mas que paraíso ? Ouçamos esta canção que as crianças cantam, sempre trocando o erre pelo ele: Minha mãezinha quelida / mãezinha do colação / ti adolalei toda vida / com muita emoção…

MÃINHA

Fiz exames com uma amiga, que resultou naquilo que eu desconfiava: pela primeira vez o colesterol total vazou as margens de segurança (é certo que ele requer cuidados, mas o coitado virou um alvo fácil, assim como o glúten, quase tudo é culpa do vilão glúten). O índice de gordura no sangue, sempre em torno de 170/180 mg/dL, saltou feito um João do Pulo, indo para os 278 mg/dL, e para completar a anormalidade, num padrão de 30 até 100 ng/dL, a vitamina D está em 8,94 ng/dL, baixíssima, e esta avitaminose pode causar problema, mas não se preocupe, devo agir.

MÃE,

todos notam como os preços dispararam, muitos são irreais, só inventados, cheios de números e gráficos, simpósios, explicações de produtores/as, mil e uma explicações governamentais, e o povão assistindo ao velho filme de terror, a showciedade está cheia de terroristas. Mamma mia! Madre mia! Oh Mom!

Bom, a tal semana santa vem aí (sei o quanto a Senhora é piedosa, e vai me arrancar as orelhas por eu escrever sem nenhuma cerimônia a respeito da maior semana de católicos e judeus, que são o mesmo balaio), mas o preço da despensa vai subir, o tomate ficará na memória do povo, as batatas fugindo da sopa, e a sardinha e a dobradinha sumidas dos barracos, e o que dizer do bacalhau, cujo preço está lá nas nuvens ? Ontem, contei os poucos caraminguás que eu tinha nos bolsos, e encomendei uma posta, para evitar correria de última hora, um homem prevenido vale por si mesmo, não por dois ou três sem juízo. Lembrei-me do Chacrinha: Vocês querem bacalhau ?

MÃINHA

ar bom está soprando aqui, e alguma chuva, o novo livro está indo, mas até hoje não sei como me livrar dessa praga, doença chamada livro, a gente fica meio fora do eixo, já não é de todo humano.

Mudando de assunto, há uma mistura de pasmo e cautela nas ruas, indignação, alívio e tensão pelos fatos políticos, e pelo despreparo quase geral da equipe nova do Governo, além de prisões e solturas, prisões com a pessoa ainda na fase de investigada. Enquanto isso, a Previdência, Mãe, coluna vertebral do sistema, está toda fraturada, vértebras em pó, precisa de milagre, e milagre não existe. Mas vamos ouvir a banda passar e o galo cantar, cientes de que é preciso estar atento e forte.

Dona MARIA, MEU ALGUM DOM DOCE

despeço-me, mas amanhã estarei aí, ciente de que estaremos juntos dia 13 de abril, a família toda, via imagens com a turma nos EUA, isso porque um aniversário nos chama. A Senhora sabe algo a respeito disso ? Mandei fazer belas cantoneiras de vidro para o banheiro – medir, desenhar e instalar, ah, devo comprar-lhe outro jogo de cama, bem florido… hehe.

Beijos e abraços do filho meio desmiolado, mas bom garoto.

DARLAN

Dia Mundial da Poesia

Poesia – mais que sombra

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Este livro / foi escrito por uma mulher / que fez a escalada / da montanha da vida / removendo pedras / e plantando flores.

Vintém de cobre: / ainda o vejo / ainda o sinto / ainda o tenho / na mão fechada. / Moeda triste / escura, pesada / da minha infância / da casa pobre.

Senhor, nada valho. / Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.

Maria se foi na garupa / de um vaqueiro, / desconhecido dali, / buscando boi de arribada. / Tagarelavam as comadres / nos fuxicos de terreiro / pelas portas conversando.

Prazo vencido.

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Poesia de CORA CORALINA (1889-1985, Goiás Velho, GOIÁS), do livro POEMAS DOS BECOS DE GOIÁS E ESTÓRIAS MAIS.

Foto: DARLAN M CUNHA

veias e artérias

HISTÓRIA [CLIQUE NA FOTO]



Os índios são filhos e filhas das madeiras, constroem as ocaras ou ocas, as canoas, gamelas, totens, ornamentos, a pequenina flecha embebida em curare ou voorara [que vai na cintura], flautas, tambores, cercas, extraem pastas e unguentos, enfim, remédios de graça.

Os chineses e os japoneses são mestres absolutos no manejo destas belezas da Terra, as árvores, com as quais constroem móveis refinados com bambus eles fazem tudo: flautas, armas, cercas, barragens, os famosos pauzinhos para comerem, etc.

Os luthieres do mundo todo são reais arquitetos e anatomistas de madeiras nobres, usadas para a confecção de instrumentos musicais que qualquer artista -de maior ou de prestígio- gostaria de tê- -os ao lado da cama.

Religiosos usam “terços” de ossos.



DARLAN M CUNHA