Cismas e sismos da minha aldeia – 7

acidente caseiro. antebraço esquerdo

acidente caseiro, antebraço esquerdo

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     Na minha aldeia há um só idioma, resultante da mistura de outros, banidos. Surdo, cego e mudo eram os idiomas, melhor, os dialetos que viviam surrando-se entre si, destruindo num dia o que no dia anterior se erguera. Após muitas baixas, certo grau de razão, muito pelo fato de que já não nasciam crianças, porque presas fáceis para o rapto, serviam de fonte de renda para os de idiomas rivais. Cegos surdos mudos.

     Na minha aldeia não há crimes, não há classificação nem mesmo na nossa Botânica, e nada de gente feia ou bonita. Aqui, a história da feiura e a história da beleza não têm vez, nossas livrarias não vendem estes livros do Umberto Eco. Aqui, onde cismas e sismos estão a postos, somos durões e duronas, cientes de que a vida é um corte sem sutura, de que é preciso estar atento e forte.

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foto e texto: Darlan M Cunha

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Tiques da minha gente – 5

aldeotas

infinity: ∞∞∞ //  terra de homens ocos  //  city of hollow men

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     Na minha terra tudo se pode: cantar de galo, cantares de amor, descartar pai e mãe, padrasto e madrasta, avós e consorte, e se pode atolar o indicador no bolo, abrir e fechar enterros com frevo ou pagode, e não há feriado de espécie alguma, mas é desejável que cada um se aplique ao ofício do outro, bem como é altamente recomendável que ninguém se feche em casa, sob pena de moção de censura geral, porque deve-se mostrar a cara, a que veio ao mundo: jogar, beber, fornicar, viajar e, se possível, trabalhar (competindo cada vez mais com robôs), é isso, na minha aldeia a música grita, não há padres nem delegados e os impostos prediais e de automóveis foram banidos, não há automóveis, a não ser os ônibus escolares, e todos têm o Triste Fim de Policarpo Quaresma e o Dom Quixote nas estantes e na cabeça.

     Para se unir, os pares não têm dificuldade, pois é só reunir qualquer número de cidadãos ou cidadãs – a partir de duas pessoas – que a união estará legitimada pela aldeia, nos três sentidos: masculino-feminino, masculino-masculino, feminino-feminino. Mas ainda nos resta dizer que nunca mandaremos ninguém daqui para a lua ou para marte. Quem tomaria conta do rio que aqui nasce, das árvores cheias de si, pássaros sem fim ?

     Em tempo: todos se lembram de quando os refrigerantes foram expulsos, de quando os jornais fecharam, a tevê é piada ruim, mas os carrinhos de bebês fazem a ronda nas praças ruas avenidas becos pinguelas pontes pontilhões e rampas, farra de decibéis. Bicicletas e parapentes. O jejum é bem visto, que o mundo precisa de faquires. Aqui se dorme pouco, como diz a música, é preciso estar atento e forte.

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Fotos e texto: Darlan M Cunha

Montagem feita online com PHOTOFUNIA: https://photofunia.com

Coisas da minha terra – 4

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     Na minha terra, usos e costumes não se perdem assim assim, não, por aqui o critério de perda não se resume na perda em si, vai mais além do fato de, por exemplo, de alguém esquecer um livro, uma sacola, a carteira, algum presente sobre um balcão qualquer, nos tantos lugares aos quais se vai todos os dias (perdi a conta dessas perdas), portanto, o pensamento em geral é de que perdeu-se o vazio da carteira, identidade e tudo lá dentro, mas não se perdeu a identidade que nos faz únicos, conhecidos ou desconhecidos da massa, enterrados num anonimato aceitável, ou pendurado numa potente lâmpada de led.

     Minha terra não tem palmeiras, muito poucas, que o mar é longe (nunca vi o mar, dizem que é bonito, dizem também que é bicho grande e mau, e que há quem nada pelado, no mar aparecem baleias adoidado, calipígias gingando nas marés alta e baixa, e tubarões famintos por uma aventura, piranhas não há no sal do mar). Pois é, aqui, nessa terra de minérios sem fim, o que se vê é um mar ou oceano de esculturas e pinturas ditas do Barroco, mas sou homem oco, só fico assim sentado, pasmado, mau olhado, ilhado, cercado de saudades por todos os lados, quase de todo largado por aí, asfixiado debaixo de tanta igreja. Mas vou ao BarTolo, pois nem mineiro é de ferro. Um ditado bem mineiro diz Tem isso aí ?” “Tem, mas acabou.”

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foto e texto: Darlan M Cunha

quarta-feira de cinzas // ash wednesday

arco-iris

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Porque não espero

Porque não espero retornar

A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto

Não mais me empenho no empenho de tais coisas

(Por que abriria a velha águia suas asas ?)

Por que lamentaria eu, afinal,

O esvaído poder do reino trivial ?

Porque não mais espero conhecer

A vacilante glória da hora positiva

Porque não penso mais

Porque sei que nada saberei

Do único poder fugaz e verdadeiro

Porque não posso beber

Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,

Pois lá nada retorna à sua forma […]

 

Poema: T. S. ELIOT. Quarta-feira de cinzas (1930)

 

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       A mãe rediz que todo dia começa uma nova fase da vida, que todo dia tem todas as quatro estações embutidas nele, e o filho fica pensando e repensando, gastando em vão tantos dias debaixo de tanta chuva de impertinências, tantos desaforos e tristezas próprias e alheias (que o outro existe, é preciso sabê-lo por inteiro), e assim vão os dias. Nunca dizer “um dia a mais”, não, deve-se dizer “um dia a menos”, outro dia para ser vivido, e não apenas para ser gasto, como se gasta com a couve, o batom e a cerveja, com a viagem e o conserto da geladeira. Viver também é isto: arco-íris.

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Texto: Darlan M Cunha

as direções do vento, da amizade…

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UAKTI – Belo Horizonte, MG, Brasil

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     Poesia e música podem ser cravo e canela, nada, macarronada coberta com parmesão ralado, pão de queijo, forca, doce de batata doce com coco ralado, alegria, agonia, trato e distrato, a famosa tentativa de fuga, tentativa de compreender a rua onde se mora, enfim, escrever de verdade é sofrer de verdade.

II

     Terça de carnaval, quatro e cinquenta da manhã, comecei o dia ouvindo o Uakti, ou mais uma moçada verdadeiramente internacional daqui de BH (Uakti, Clube da Esquina, Grupo Corpo, Grupo Galpão, Grupo Giramundo, Skank, Sepultura, etc), tocando suas famosas Variações sobre a excepcional Águas de Março. Café à mão, biscoitos de polvilho caseiros. Antes de ouví-los, escrevi mais três textos para o próximo livro a sair este ano.

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Imagem: Por Gerardo Lazzari – Uakti, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2588711

Texto: Darlan M Cunha

à mesa – 2

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     Cá estamos, à tua espera, nesta mesa com opiniões sob a custódia do espanto, ó seres do espanto, vigiai os tetos desta aldeia, as meninas e os meninos deste mundo fechado em smartphones, vírus da fala, o mundo da pressa, de desejos frustrados, de ofertas pagáveis-em–mil-prestações, de presidentes amalucados, o mundo namorando a loucura, a miséria é antiga, ora, onde estão as mesas cheias de petiscos, de não haver mãos e bocas capazes de esvaziá-las de todo ? Falar é semear, colher, mas resta doar alguma coisa, por exemplo, 1/2 litro de sangue, uma vez por ano, dos 5 ½ litros que se tem.

     Camões perdeu um olho em batalha, e Miguel de Cervantes um braço em batalha, por mares já navegados, e assim mesmo, debaixo de sina tão adversa, conseguiram deixar Os Lusíadas e o Dom Quixote. Assim, para o Museu de Tudo, começarei doando meus velhos chinelos, cheios de tropassos, a insônia cheia de taquicardia, cheia de viagens agradáveis e não agradáveis, ó, o futuro não será negro, não terá cor nenhuma sendo a maioral. Saúde. A caipirinha tá demais.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

babel moderna – 5

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voar, voar, voar // soltar penas de pássaros no ar (Paulinho Pedra Azul, MG)

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      Aqui, em babel, é onde uns dançam, outros cantam, outros comem, outros não comem e não bebem, onde muitos infelizes iam cada vez mais aos braços de pastores, de bispos, de chantagistas da bolsa de valores, mãozinha nas coxas da criança, e por isso mesmo foram mortos, tivessem sido pais-de-santo ou pais do diabo, tiveram o fim merecido por enganar pensionistas do INSS.

     Aqui, em babel-salvador, e noutras aldeias desgostosas por verem este nome simples de aldeia ser mal misturado, aqui se esguicha ansiedade nos jardins e hortas, muitos morrem atropelados, enquanto outros acham que encontram a si mesmos quando medem forças e fraquezas num motel; outros há que fogem da polícia, polícia a qual foge dos magistrados, e estes nem sempre dormem em paz. Mulher leviana em casa, homem sujo dentro das quatro linhas da casa, é assim que as coisas acontecem em babel horizonte (o rio morreu já faz muito tempo), sabem que roupa suja se lava é na rua, e aqui a rua é O Cara, o espetáculo cotidiário sobre o qual as pendências jurídicas não têm nenhum valor.

     Aqui, em babel do sul marravilha, é proibido fumar, gritar durante cirurgia (mesmo sob anestesia), e durante o coito, é proibido dar esmola (barbaridade, chê, manézinho), bem como pendurar roupas nas janelas dos apertamentos. Lembro-me do livro Os Ratos, do psiquiatra Dionélio Machado, médico-craque.

     Na grande babel do amazonas land e na babel tocantins (palmas para quem as mereça), em todo este pequeno território, e em todos os outros, é preciso saber por que é que se diz que as coisas andam de mal a pior, segundo uns; mas, segundo outros, as coisas não poderiam estar melhor, ou seja, as antíteses de sempre: quando um chora, o outro ri. Babel é isso, e mais.

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foto e texto: Darlan M Cunha

arte mural: GUD (Belo Horizonte, MG) >>> fone: 9-8721-1025

babel moderna – 1

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cemitério // graveyard – Sabará, MG, Brasil

FRASES EM LIVROS:

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  1. Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica.

A lua vem da Ásia. Campos de Carvalho (Uberaba, MG – 1916 / 98)

 

  1. Andam nuus sem neñhuma cubertura, nem estiman nhuña coussa cobrir nem mostrar suas vergonhas, e estam açerqua disso com tamta jnocemçia como teem em mostrar orrostro.

A carta de Pero Vaz de Caminha (Porto – 1450 / 1500)

 

  1. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.

Grande sertão: veredas. João Guimarães Rosa (Cordisburgo, MG – 1908 / 67)

 

  1. É preciso recomeçar tudo, em outros termos, ou nos mesmos termos, ordenados de outro modo.

     O Inominável. Samuel Beckett. (prêmio Nobel. Irlanda – 1906 / 89)

 

  1. Como uma via intermediária, procuro entrar e permanecer no reino da pergunta – ou de uma explicação que não explica nunca.

Ó. Nuno Ramos (São Paulo – 1960 / )

 

  1. 6. – Maldita semi-noite, costumava dizer baixinho Serdespanto, tropeçando nas coisas duras que ela, a sonsa, sempre espalha à frente dos caminhos dos homens para nos despertar, com quedas, do sonho de estar vivo.

Ó Serdespanto. Vicente Franz Cecim (Belém, PA – 1946 / )

 

  1. Um grito atravessa o céu. Isso já aconteceu antes, mas nada que se compare com esta vez.

O Arco Íris da Gravidade. Thomas Pinchon (EUA, 1937 – )

 

  1. A verdadeira guerra é uma comemoração de mercados. Mercados Orgânicos, que os profissionais têm o cuidado de rotular de  “negros”, surgem por toda a parte. Libras esterlinas, marcos, ações continuam a circular, solenes como num balé clássico , em suas anti sépticas câmaras de mármore. Mas aqui embaixo , no meio do povo , surgem moedas mais verdadeiras. Assim os judeus são negociáveis. Exatamente como cigarros, bocetas e barras de chocolate .  ( … )

O Arco Íris da Gravidade. Thomas Pynchon (EUA, 1937 – )

 

  1. Sempre é necessário saber aquilo que nos separa e aquilo que nos une. O que nos separa é muito e muito.

Ensaios de interpretação dostoievskiana. A cinza do purgatório. Otto Maria Carpeaux (Viena, Rio de Janeiro, 1900 / 78)

 

foto: Darlan M Cunha

soberbas letras – 6

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antíteses

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MORTE E VIDA SEVERINA

(João Cabral de Melo Neto, poema / Chico Buarque, melodia)

 

Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada não se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida

É a parte que te cabe deste latifúndio
(É a terra que querias ver dividida)

Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas à terra dada nao se abre a boca

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Foto: Darlan M Cunha

Ouça AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=gGLDaE01PdA

Escola: uma faca só lâmina (JCMNeto)

escola-de-facas

escola de facas // school for cooking

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     Uma faca não sofre de dúvida existencial, que a ela só lhe toca cortar com a calma mais fina (o bisturi), ou retalhar com a descompostura dos desatinados numa briga de rua ou de bar (peixeira, também dita lambedeira, canivete automático, facão, machado, gilete), que a ela não lhe dá se é domingo, segunda-feira ou se não é dia nenhum, até porque a sociedade vai em direção a abolir quase tudo aquilo que hoje é praxe, inclusive datações, e assim é que a memória já está de sobreaviso, cenho franzido, já se sabe condenada a ser memória sem memória, algo inerente aos que padecem de Alzheimer, mas de alcance geral, de afetar a todos em todos os lugares.

     Uma faca não sofre de hesitação existencial, com ou sem ferrugem, com ou sem dentes, afiada ou cega, torta ou em linha reta sua lâmina, com o cabo quebrado ou não, ela é de se achar e de se perder em algo: na polpa de uma fruta, nos tendões de um legume, no frouxo de um pudim, nas nervuras de homem e mulher, de modo a que se cumpra como tal: faca, e dela se possa dizer ou escrever algo, imaginar e desenhar-lhe o trajeto

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;*

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Foto e texto: Darlan M Cunha

*: Em itálico: João Cabral de Melo Neto, excerto do poema Uma faca só lâmina