optar

Paredão ou Luz (Cachoeira da SAMSA. Rio Acima. MG, Brasil)

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Darlanianas

no Dia Mundial das Livrarias

@1.

O rubor chegou e ficou de pé, imprensado contra a parede e contra si mesmo, teve que ouvir frase lapidar, depois dela ouviu prédicas, ladainhas, sermões hiper admoestadores e, por fim, ouvir uma caudal de nome discurso, porque o rubor é indefeso diante de certos fatos. Sua reação é involuntária, sobe e esquenta as faces, às vezes, ele até chora e solta pontapés e palavrões para todos os lados, coerente e incoerente consigo mesmo, pelo que fez e não fez – está vivo, suando frio, mastigando erros e acertos, projetos inconclusos, rios de dúvidas e tristeza, querendo bem longe de si certo tipo de mundo.

@2.

Hoje é dia de temor na aldeia a qual nas sextas-feiras – dia treze ou não – é vigiada com mais minúcias ainda, talvez nada aconteça, como de outras vezes, mas já no início da madrugada soou o alarme, pois uma criança, ou algo parecido, foi vista na ala norte, e logo, horrorizado, o povo notou-a sem rosto, locomovendo-se como se o tivesse, a aldeia se fez de joelhos, seu antigo costume de dar-se de joelhos – menos eu e outros, resolvidos a não darmos fim a tal expiação e bulício, porque talvez o melhor seja rever como é que o povo paga pelo que faz a si mesmo a cada giro da ampulheta.

@3.

Continuando sua explanação, seu delírio momentâneo, ela disse que “homem de roupão é o máximo, vi na tevê” – disse, e eu fiquei na minha, calado que nem um bode ressabiado, tarado com vontade doida de esganar homem roupão cipreste barco arco reflexo e arco e flecha também esganar gato cachorro bolsa de valores incendiar presídios igrejas fóruns quartéis & mil réis, dar sumiço nos pobres parasitas vadias matar todas as baratas a chineladas pulgas e piolhos, enfim, eu fiquei alucinado com aquela ingênua confissão, e foi então que me percebi muito doente, sim, um pré paciente já nos últimos gorgolejos da Razão, tragada por um egoísmo só visto no seio das piores causas, no meio de ruas mais abandonadas e confusas do que certas mentes, eu me notei sem prumo, perdido no meio da aldeia quanto nas veias da casa.

@4.

Temeroso, ao extremo de suar em bicas, levado a custo por gente amiga ao cadafalso – foi assim que ele se referiu ao consultório do urologista, fazendo pilhéria para ver se se relaxava um pouco, pois era preciso, e alguém disse o de sempre: Ó, vai ser bem rápido e indolor – no que aquele paciente com hora marcada não acreditou. Mas foram, sentaram-se dentro do silêncio branco, até que seu nome foi citado, pareceu muito distante, e foi para o exame, de onde voltou radiante, porque nada de câncer prostático, a sua neoplasia é benigna, ou seja, é melhor do que o Mundo. Benigna. Fomos às cervejas. Amigo é pra essas coisas, para a hora difícil.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

MPB_4. Amigo é pra essas coisas (autores: Sílvio Silva – Aldir Blanc): https://www.youtube.com/watch?v=lhi7YIfuwmQ

a câmera= vida ou tempo, frente e verso

Revivida pelo artesão Zauss – bairro Santa Cruz, Belo Horizonte, MG.

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Na estrada das areias de ouro *

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Numa foto recente os ídolos cheios de cãs e rugas, quase irreconhecíveis, irreversível é o imponderável pondo a mesa, e há quem perca a coragem de ir ao espelho, de se ver como uma anamorfose, uma imagem distorcida que talvez já seja a sua realidade não percebida, mas quem inventou o pavor não fui eu. Para alguns, pouco importa viver com rugas, hérnia, tremores, catarata, rinite, conjuntivite, diabetes, insuficiência renal, disritmia, alta PA, obesidade, impotência sexual, ai. Noutros, o que mais lhes dá nos nervos é o fato de não saberem o que foi feito daquilo que não fizeram, dos trevos que encontraram e não entraram, e hoje acordaram de analisar o Tempo, o que fizeram ou não fizeram dele os ídolos e os fãs que já deixaram as motos, as passeatas e bandanas, comem e bebem pouco, pois o tempo avisa dos riscos, mas a música continua, e assim é que quando ouves alguma daquelas joias, reentras na estrada, e tome ponta-cabeça em beiras de estradas, vilarejos, amor de uns dias, vidas de um dia, e tome estrada, lá onde não se fica velho, engano, fake news, querem nos enganar, desconfie dos baratos, de deus e do diabo, tudo, já ponho o viés de volta na estrada, caminhos de pedra & seda, risco de perdas & danos – como convém. Vamos, o mundo está farto de toc, balcões, refrigerantes, igrejas e refugiados. Eu quase me esquecia de uma vítima da Grande Gastronomia, o glúten, mais antigo do que o primeiro cozinheiro. Ora, direis, és mesmo um tipo para se odiar. Não tens o que fazer, a não ser satirizar ? Tenho, sim. Por exemplo: ainda hoje, cuidarei de uma pequena cirurgia a ser feita na minha mãe, Dona Maria. O Mundo pode ser pétala e sépala, Mãe é Mãe, ou seja, é um universo à parte.

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Texto e foto: Darlan M Cunha

A Horse With No Name >>> Ventura Highway. AMERICA : https://www.youtube.com/watch?v=4N-OiKzZjws >>> https://www.youtube.com/watch?v=4N-OiKzZjws

ELOMAR FIGUEIRA MELO. Na estrada das areias de ouro: https://www.youtube.com/watch?v=5XO2bqGY5rY

Acharás a bola, talvez, o rumo de casa

suor

Somorra & Godoma

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@1.

Eis a esquina onde a Comédia foi agredida e escorraçada feito uma cadela já bêbada, vândala; mas não te assustes, porque daqui se pode sair quando nos últimos estertores, após uma sova severa, exemplar, eis a libidinosa Filosofia, após levar uma curra corretiva, por assim dizer, nesta rotatória o mundo de muitas opções ruiu diante da voracidade de uns poucos, tantos e tantas, elos são feitos e desfeitos num vu, num mesmo protesto, pelo que se depreende que toda esquina, parece, tornou-se prejudicial à saúde; mas, sem perigos à vista, sem estupores, sem a caligrafia moldando o verbo “ir”, em que se resumiria o Homo sapiens sapiens (título dado por ele mesmo) ? Não sendo de Pasárgada, vou para minhas casas sempre invejadas e invadidas: Somorra e Godoma.

@2.

Quero para mim o que não desejo para o Outro, desculpe-me o ego, mas é que sem tormentas ninguém sabe que existe algo de nuvem sobre o plano geral, e assim assumo todas as negras embalagens do céu – fico com todas elas, caro Senhor Vendeiro, que o Povo não as merece, que o Amor não padeça delas. Fico com o breu áspero desta neblina, daquela cerração, destes cúmulos e destes cirros, todos, que o dia de céu limpo, enfim, chegou. |Dou-vos.

VIAJAR É MAIS QUE O QUE HÁ ENTRE MUROS & PAREDES, FOSSOS, PONTES PARTIDAS, TOSSE REUMÁTICA, DOR DE AMOR. ESCUTE ESTA CANÇÃO.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

AMERICA. VENTURA HIGHWAY : https://www.youtube.com/results?search_query=america+ventura+highway

Textos curvos: ilhas, iscas & uivos – 8 (final)

CORDAS EM PARALELO: SIMBOLISMO
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Apressar o passo das colheitas, da marreta, do ato, aligeirar a preguiça, o manco e o cego, o surdo e o mudo, a afronta salarial, verticalizar todos os inapetentes e desassombrar as frígidas, fazendo o Bem sem olhar a quem, ou o Mal. Isso depende de muitos fatores. Desliza por baixo das anáguas do mar, nas espumas bem cláridas da Ilha do Nada.

DARLAN M CUNHA (MG, Brasil)

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Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar. Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto, quem não muda as marcas no supermercado, não arrisca vestir uma cor nova, não conversa com quem não conhece. […] Talvez não tenha vivido em mim mesmo, talvez tenha vivido a vida dos outros.”

PABLO NERUDA (Chile. Nobel de Literatura 1971. CONFESSO QUE VIVI).

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Ninguém se atreveu a intervir. Uriarte perdera terreno, Duncan então carregou. Os corpos já quase se tocavam. O aço de Uriarte buscava a cara de Duncan. Subitamente, nos parecera mais curto, porque penetrara no peito. Duncan ficou estendido na grama. Foi então que disse com voz muito baixa: – Que esquisito. Tudo isso é como um sonho. Não fechou os olhos, não se moveu, e já tinha visto homem morto. Maneco Uriarte inclinou-se sobre o morto e pediu-lhe que o perdoasse. Soluçava mesmo. O que acabara de cometer o dilacerava. Agora sei que se arrependia menos de um crime que da execução de um ato insensato.

PABLO NERUDA (Chile, Nobel de Literatura 1999. HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA & OUTRAS HISTÓRIAS).

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A esposa, sob a fantasia contínua, não só chegou temerariamente a essa conclusão, como esta transformou sua vida em mais alargada e perplexa, em mais rica, e até supersticiosa. Cada coisa parecia o sinal de outra coisa, tudo era simbólico, e mesmo um pouco espírita dentro do que o catolicismo permitiria. Não só ela passou temerariamente a isso como – provocada exclusivamente pelo fato de ser mulher – passou a pensar que um outro homem a salvaria. O que não chegava a ser um absurdo. Ela sabia que não era. Ter meia razão a confundia, mergulhava-a em meditação.  //  O marido, influenciado pelo ambiente de masculinidade aflita em que vivia, e pela sua própria, que era tímida mas efetiva, começou a pensar que muitas aventuras amorosas seriam a vida.  //  Sonhadores, eles passaram a sofrer sonhadores, era heroico suportar. Calados quanto ao entrevisto por cada um, discordando quanto à hora mais conveniente de jantar, um servindo de sacrifício para o outro, amor é sacrifício.

CLARICE LISPECTOR (Ucrânia / Brasil). A LEGIÃO ESTRANGEIRA, cap. Os Obedientes.)

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Foto: Darlan M Cunha. (Fim da série).

A ESTRADA & O VIOLEIRO, autor SIDNEY MILLER (RJ, Brasil – 1945 / 1980). Cantam: MPB-4 e QUARTETO EM CY: https://www.youtube.com/watch?v=rMzhevB_y-U

Textos brutos: dias de breu, noites rubras – 7

densidade
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“Os recalques atualizam e requintam a inveja, a injúria, o ódio, a insônia, e a recíproca é verdadeira.”

DARLAN M CUNHA – (MG, Brasil)

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“E aquele homem suou sangue // para fazer essa ferrovia // e o que ele conseguiu com isso ? // Ele disse uma coisa: Como ela custa // como qualquer guerra contra os índios custa ao governo // 20.000 dólares por cabeça // para eliminar os guerreiros de pele vermelha, seria mais humano / e até mais barato educar […]”

EZRA POUND. OS CANTOS, Canto XXII – (USA)

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O lugar onde os tupiniquins foram aprisionados ficava a umas duas boas milhas distante da costa. Remávamos então tão depressa quanto podíamos, de volta para a terra, a fim de acamparmos novamente no mesmo sítio que a noite passada. Pela tarde, pouco antes do pôr do sol chegamos à terra, em Maembipe. Levou aí cada um seu prisioneiro para a sua cabana. Aqueles que estavam muito feridos foram arrastados à praia, mortos imediatamente e cortados em pedaços, segundo o seu costume, assando-se então a carne. Entre os que foram assados nessa noite, encontravam-se dois mamelucos que eram cristãos. Um deles era um português de nome Jorge Ferreira, filho de capitão, que o havia tido de uma índia. O outro chamava-se Jerônimo. Havia capturado este um selvagem chamado Paraguá, que morava comigo numa cabana. Paraguá assou Jerônimo durante a noite, a um passo mais ou menos da minha cama. Jerônimo (que Deus o tenha) era parente próximo de Diogo de Braga.

HANS STADEN (Alemanha). Duas viagens ao Brasil – 1542 / 1555, cap. 43

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Era sabido que ele viera dos sertões advogar os sagrados direitos da Igreja com o mesmo fanático destemor com que saíra a pregar para selvagens sedentos de sangue, destituídos de compaixão humana, e de qualquer outro tipo de culto. Rumores de proporções legendárias falavam de suas vitórias como missionário além dos olhos de gente cristã. Ele havia batizado nações inteiras de índios, vivendo entre eles como se fosse ele próprio selvagem. Contava-se que o padre costumava cavalgar com os seus ídolos, dias a fio, seminu, carregando um escudo de pele de boi e sem dúvida uma longa lança também – quem sabe ?

JOSEPH CONRAD (Polônia). NOSTROMO, cap. 5

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Imagem: Darlan M Cunha

MPB-4 (RJ, Brasil). PESADELO. : https://www.youtube.com/watch?v=OOZ0TVSKBWU&list=OLAK5uy_n92bpW8gdIKrP96UpMfpnMZgpX6w-YS_k

Textos frios: rastilhos & pavios – 6

A Grande Serpente de Pedra
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UMA MANHÃ
para Xia, que viaja sozinha para o Tibete

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Uma manhã
uma manhã com bocejos e cansaço
eu imagino
entre você e as terras altas
o céu é impensável
profundo
sem vento, sem nuvens, sem névoa
translúcido o azul evanescente como em nenhum outro lugar
[…]

[…] O tempo oscilante
engravida meus sonhos
as montanhas nevadas no ar rarefeito
colhem ansiosas
a fumaça de seu suspiro
.

LIU XIAOBO. NOBEL de Literatura 2010 – CHINA, 1955/2017

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Eu não quero ir lá embaixo. Quando criança, brinquei nas casamatas e encontrei uns ossinhos, até um crânio, não sei de quem. Ela que vá ! Ela que se enfurne o mais fundo possível, e que todos os ratos do mundo sejam tragados pela terra, em sua companhia, eu viro a página, e quero que as coisas continuem. Quero ficar com pelancas, sulcado de rugas, velho e decrépito, contando malvadas histórias da carochinha […] // A velha grita, em alemão, primeiro sozinha, depois acompanhada pela oceanógrafa: – Parem com essa contagem idiota de águas-vivas ! […] // Chove, como é frequente chover neste verão que a chuva estragou. Fora isso, não acontece nada, até que alguém atira uma pedra e vidraças se estilhaçam, ao que muitas pedras são atiradas. As janelas da fachada do Instituto de Pesquisas Básicas não demoram a ficar todas quebradas.

A RATAZANA. GÜNTER GRASS (Nobel de Literatura 1999. Alemanha)

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Nem pense nisso. Ele gostava dela. Acho mesmo que ele nunca amou mulher nenhuma como amou essa. E já a entregaram a ele sofrida e talvez louca. Amou-a tanto que passou o resto de seus anos arriado numa cadeirinha de cipó olhando o caminho por onde a levaram para o cemitério. Perdeu o interesse por tudo. Desocupou suas terras e mandou queimar os trastes. Uns dizem que foi porque estava cansado, outros porque a desilusão tomou conta dele, a verdade é que expulsou as pessoas e se sentou na cadeira de cipó, de cara para o caminho.

PEDRO PÁRAMO. JUAN RULFO (Prêmio Príncipe das Astúrias 1983. México)

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CANTIGA BRAVA. GERALDO VANDRÉ (PB, Brasil): https://www.youtube.com/watch?v=09bZl8Rr-NQ

Textos rudes: calabouços & confessionários – 5

OPRICHNIKI ou Os Cães de Guarda do Czar IVAN IV, O TERRÍVEL (1530-1584, RÚSSIA). Créditos da imagem by NAZGUL RINGWRAITH.
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O ano de 1570, os habitantes da cidade russa de Novgorod foram acusados de traição para com o czar, supostamente por engendrar motins. Ivan, o Terrível, expediu ordem para que sua cavalaria negra saqueasse a cidade e punisse os envolvidos na trama conspiratória: durante alguns meses, os oprichniki pilharam, torturaram e massacraram a população de Novgorod, quase a exterminando. // Embora o soberano da Rússia acreditasse que os responsáveis pela suposta deslealdade fossem os boiardos (os nobres)* e os membros da igreja local, a perseguição se estendeu à classe média e ao campesinato com igual brutalidade. // Após a devastadora carnificina gerada pela lâmina dos oprichniki, a fome e o frio elevaram o número de vítimas, o qual diverge incrivelmente entre 2.700 e 60 mil mortos. Pesquisadores atuais acreditam em 7.500 mortos. // Resenha sobre OPRICHNIKI, Os Cães de Guarda do Czar IVAN IV, O TERRÍVEL – por EUDES BEZERRA

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A sabedoria com as coisas da vida não consiste, ao que me parece, em saber o que é preciso fazer, mas em saber o que é preciso fazer antes, e o que fazer depois. O tempo e a paciência são dois eternos beligerantes. (LEÃO TOLSTOI – Guerra e Paz – Rússia)

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O LINGUADO, capítulo DO QUE NÃO QUERO ME LEMBRAR — GÜNTHER GRASS, Prêmio NOBEL de Literatura de 1999. Escultor e pintor — 1927/2015, Alemanha)

Da palavra excessiva, da gordura rançosa, do coro sem cabeça: Mestwina. Do caminho para Eisiedeln e da volta: da pedra no punho, no bolso. Daquela sexta-feira, 4 de março, da minha mão na caixa de greve. Das flores de gelo (suas) e da minha respiração. De mim, como corri: fugindo das panelas, sempre história abaixo. Do Dia dos Pais, recentemente, do Dia da Ascensão do Senhor, naturalmente que eu estava presente. Da louça suja em cacos, misturada com cacos, dos suecos em Hela, da lua sobre Zuckau, do sujeito atrás da giesta, do silêncio, do surdo dizer sim. Da gordura e da pedra, da carne e do punho, histórias bobas como esta.

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POSTAGEM: DARLAN M CUNHA

NA TERRA COMO NO CÉU  –  GERAlDO VANDRÉ  (Pb, Brasil): https://www.youtube.com/watch?v=-41iWu0rVDc

Textos duros: luz & mistério* – 4

Bairro Buritis // BH >>> Cidade dentro de cidade
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FRASES – HÉLIO PELLEGRINO – (Psicanalista. MG, Brasil)

Humor é uma vingança contra o destino, a vingança contra a injustiça, a vingança contra o opressor  //   É uma saída através do riso  //  Todo humor, no fundo, é bondade. O humor transforma-se num exercício de liberdade, e dissolve o rancor  //  O poeta é uma caixa de ressonância, concha acústica, orelha enorme, uma parabólica aferindo – e conferindo – as sílabas dos tempos que estão por vir  //  O tempo passa depressa porque nos distraímos de sua passagem, temerosos de perceber que somos nós que passamos. 

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O INOMINÁVEL – SAMUEL BECKETT — (Nobel de 1969. Irlanda)

Agora não tenho mais do que uma perna, tendo rejuvenescido, ao que parece. Isso faz parte do programa.Tendo me colocado em artigo de morte, em gangrena senil, tiram-me uma perna e epa, eis-me de novo de pé e andando por toda parte, como um jovem, em busca de um esconderijo.

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VIGIAR E PUNIR — MICHEL FOUCAULT – (Filósofo, França)

A certeza de ser punido deve desviar o homem do crime e não mais o abominável teatro; a mecânica exemplar da punição muda as engrenagens. Por essa razão, a justiça não mais assume publicamente a parte da violência que está ligada a seu exercício // Quase sem tocar o corpo, a guilhotina suprime a vida, tal como a prisão suprime a liberdade, ou a multa tira os bens // Apresentamos exemplo de suplício e de utilização do tempo. Eles não sancionam os mesmos crimes, não punem o mesmo gênero de delinquentes. Mas definem bem, cada um deles, um certo estilo penal. Menos de um século medeia entre ambos. // Desapareceu o corpo supliciado, esquartejado, amputado, marcado simbolicamente no rosto ou no ombro, exposto vivo ou morto, dado como espetáculo. Desapareceu o corpo como alvo principal da repreensão penal.

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ALEXANDRE LACASSAGNE – França – “A sociedade tem os criminosos que merece.

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Imagem: Darlan M Cunha

VINCENT (Starry, starry night) >>> DON MCLEAN >>> (EUA): https://www.youtube.com/results?search_query=vincent+starry+starry+night