Say no to tobacco [trash]? As campanhas mentem, pois o cigarro é soberano, ícone. Queimem dinheiro, mas não culpem o glúten pelos males cotidiários… hehehe, y hasta la vista

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EM CERTOS ASSUNTOS, RIR É O PIOR REMÉDIO, MAS… VAMOS LÁ !

Eu fumo e bebo e faço libidinagens e meto as mãos nos caixas desprevenidos e toco fogo nos adros (a madrugada nos torna descuidados com a fogueira amiga) e faço músicas de protesto e me desligo de entubados deixados ao seu bel-prazer e uso palavrões antes e depois de cada frase e urino nas pias, sim, mas ainda me faltam outras rotas para chegar à rota da seda

(You say yes  //  You say no … You say goodbay // Y say hello…)*

(Lucy in the sky with diamonds)* 

BEATLES

Um lugar para todos: histriônicos, felinos, paus-mandados, frenéticos do sexo pro- agressivo, artífices das flores do mal, de solstícios e equinócios repintados à mão [falsos]; sinônimo de perigeu, há porcos-espinho, víboras e salamandras, salários sem crédito, motoristas a soldo da firma A Inenarrável Algazarra da Morte, enfim, eis um lugar para além do bem e do mal – pois é na rua que as coisas acontecem

Minha Neguinha 1

uma das “namoradeiras” de Sabará, MG, Brasil

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LETRAS DE MÚSICAS

Eu faço samba e amor até mais tarde, não tenho a quem prestar satisfação. Escuto a correria da cidade, que alarde, será que é tão difícil amanhecer ? (Samba e amor. Chico Buarque)

Era um homem que vivia lá com seus botões. Sempre dizia que ser homem não é só ter colhões – tem-se que viver, enfrentar a corrente, desde cedo (Um homem, por dentro. Darlan M Cunha)

Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão (Dança da Solidão. Paulinho da Viola)

Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor (Nelson Cavaquinho // Guilherme de Brito  // Alcides Caminha

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foto: Darlan M Cunha

uma casa de pernetas, daltônicos, gagos, lábios leporinos, fans de rock proagres- sivo, estudiosos de minhocas e do bicho-da-seda, duetos do globo da morte – a rua

a luta

Ó vida, margarida !

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Eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender*

     Numa das muitas vezes em que passei pela avenida Nossa Senhora do Carmo, BH, um pouco desviado da minha rota mais comum para casa, deparei-me com esta cena, nem digo espetáculo. Todos já viram este cenário, palco, luta de gente botando seu bloco, seu oco nas ruas, até porque é preciso estar atento e forte. É a cabeça, irmão.

     Assim como a rua é uma casa muito engraçada, também é memória de panos negros, de painéis de cabeça para baixo, um grito parado no ar, e logo ali num bar as conjecturas, as filosofias de mal casados, descasadas, separadas, amaziados, desquitados, roedores de unhas (onicofagia), e por aí vai este longo rosário de sapatos cheios de pedrinhas que a suicidade comporta.

     Eu também quero botar meu ovo na rua.

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foto e texto: Darlan M Cunha

VISITE: https://www.poemhunter.com/darlan-m-cunha/

o suprassumo do (desa)sossego

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Mohammad Mohiedine Anis (70) e a sua vitrola mecânica – Aleppo, Síria.

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Quero ficar só, deixar-me ao alcance do sossego

da própria intimidade tão dividida por razias

bombas arrasando tetos, o sono, o sexo, a escola

a água da cidade, a luz, o hospital e coisa e tal.

Zumbis, sou um deles, já sem nome e sobrenome

que um dia os tive, numa escala nobre os quis.

 

Quero estar com a música e o cachimbo, com os gritos

da infância aí fora jogando bola de pano, alheia ao dano

da guerra a infância, ou quase isso, não é nada disso

pois elas tudo percebem, e distanciam-se

da balança que pesa mortos e vivos, distanciam-se

 

dos discursos de quem ora, dos discursos que acabam

em riscos vindos do céu, onde Alá já não mora.

Quero estar só, na casa esburacada, na rua soterrada

de uma cidade que já não existe; mas, mesmo sem fé, teimosa

sob ferro e fogo, mesmo deitada, insiste em ficar de pé.

*

Poema: Darlan M Cunha

Foto: Joseph Eid (Ag. France Press)

um cavalo sem nome* // um homem sem qualidades**

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Loja de artigos de montaria, ao lado do mercado municipal de Medina, MG

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     Sem o cavalo, a História teria sido muito diferente do que foi, e do que é, mas amanhã não precisaremos dele, que outros serviçais já foram e continuam sendo trazidos cada vez mais ao parque temático das relações trabalhistas, ou seja, robôs aliviam homens e cavalos – e aí o cavalo, enfim, poderá descansar, ou ficar numa situação análoga à dos escravos que, quando alforriados pela princesa Isabel, ficaram como que zumbis, zanzando de um lado para outro – sem dono, sem trabalho, sem horizonte, nenhum respeito (como antes). E os homens desesperando-se num ritmo acelerado e perigoso, ritmo de destruição, por falta do que fazer, pela ausência de empregos. De Gêngis-Cã aos tropeiros de hoje, aos cavaleiros do pantanal, o cavalo é parte muito grande da História.

*

Foto e texto: Darlan M Cunha

Ouça o AMERICA cantar A Horse With No Name (Um cavalo sem nome): https://www.youtube.com/watch?v=4N-OiKzZjws 

*: Título de uma canção do AMERICA.

**: Título de um livro do austríaco ROBERT MUSIL (1880-1942)

batente

batente

***

    Nada como a sátira. Eu estava chegando em casa (moro no último), subia algo contente os degraus da vida (ou descia, sei lá), quando encontrei essa beleza, ri, fotografei, e agora reparto este aviso: “Vai buscar”.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

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Minha percepção das coisas, dos instrumentos com os quais construímos e destruímos o mundo, refina-se com estas quatro poetisas, ou poetas, como uns preferem:

Mariana Ianelli –  https://www2.uol.com.br/marianaianelli/index.htm

Denise Emmerhttps://www.letras.com.br/busca.htm?buscar=denise+emmer

https://deniseemmergerhardt.blogspot.com.br/

Hilda Hilsthttp://www.hildahilst.com.br/

Adélia Prado – http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/adelia-prado-poemas/

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Sugiro que ouça Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Heraldo do Monte – juntos: https://www.youtube.com/watch?v=NayDac-xLi4

as direções do vento, da amizade…

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UAKTI – Belo Horizonte, MG, Brasil

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     Poesia e música podem ser cravo e canela, nada, macarronada coberta com parmesão ralado, pão de queijo, forca, doce de batata doce com coco ralado, alegria, agonia, trato e distrato, a famosa tentativa de fuga, tentativa de compreender a rua onde se mora, enfim, escrever de verdade é sofrer de verdade.

II

     Terça de carnaval, quatro e cinquenta da manhã, comecei o dia ouvindo o Uakti, ou mais uma moçada verdadeiramente internacional daqui de BH (Uakti, Clube da Esquina, Grupo Corpo, Grupo Galpão, Grupo Giramundo, Skank, Sepultura, etc), tocando suas famosas Variações sobre a excepcional Águas de Março. Café à mão, biscoitos de polvilho caseiros. Antes de ouví-los, escrevi mais três textos para o próximo livro a sair este ano.

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Imagem: Por Gerardo Lazzari – Uakti, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2588711

Texto: Darlan M Cunha

à mesa – 2

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     Cá estamos, à tua espera, nesta mesa com opiniões sob a custódia do espanto, ó seres do espanto, vigiai os tetos desta aldeia, as meninas e os meninos deste mundo fechado em smartphones, vírus da fala, o mundo da pressa, de desejos frustrados, de ofertas pagáveis-em–mil-prestações, de presidentes amalucados, o mundo namorando a loucura, a miséria é antiga, ora, onde estão as mesas cheias de petiscos, de não haver mãos e bocas capazes de esvaziá-las de todo ? Falar é semear, colher, mas resta doar alguma coisa, por exemplo, 1/2 litro de sangue, uma vez por ano, dos 5 ½ litros que se tem.

     Camões perdeu um olho em batalha, e Miguel de Cervantes um braço em batalha, por mares já navegados, e assim mesmo, debaixo de sina tão adversa, conseguiram deixar Os Lusíadas e o Dom Quixote. Assim, para o Museu de Tudo, começarei doando meus velhos chinelos, cheios de tropassos, a insônia cheia de taquicardia, cheia de viagens agradáveis e não agradáveis, ó, o futuro não será negro, não terá cor nenhuma sendo a maioral. Saúde. A caipirinha tá demais.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

soberbas letras – 6

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antíteses

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MORTE E VIDA SEVERINA

(João Cabral de Melo Neto, poema / Chico Buarque, melodia)

 

Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada não se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida

É a parte que te cabe deste latifúndio
(É a terra que querias ver dividida)

Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas à terra dada nao se abre a boca

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Foto: Darlan M Cunha

Ouça AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=gGLDaE01PdA

soberbas letras – 5

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Ruas Paraisópolis e Divinópolis, bairro Santa Teresa – BELO HORIZONTE, MG, Brasil

CLUBE DA ESQUINA nº 1                                                                                        

(Márcio Borges / Lô Borges / Milton Nascimento)

 

Noite chegou outra vez, de novo na esquina
Os homens estão, todos se acham mortais
Dividem a noite, a lua e até solidão
Neste clube a gente sozinha se vê, pela última vez
À espera do dia naquela calçada
Fugindo de outro lugar.

Perto da noite estou,
O rumo encontro nas pedras
Encontro de vez, um grande país eu espero
Espero do fundo da noite chegar
Mas agora eu quero tomar suas mãos
Vou buscá-la onde for
Venha até a esquina, você não conhece o futuro
Que tenho nas mãos.

Agora as portas vão todas se fechar
No claro do dia, um novo encontrarei
E no curral D’el Rey
Janelas se abram ao negro do mundo lunar
Mas eu não me acho perdido
Do fundo da noite partiu minha voz
Já é hora do corpo vencer a manhã
Outro dia já vem, e a vida se cansa na esquina
Fugindo, fugindo pra outro lugar.

*               

Ouça AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=PH7NdNBFeX4

O CLUBE DA ESQUINA nunca foi lenda, ao contrário, é uma realidade bem plasmada, muito bem conceituada mundo afora, orgulho de quem pensa claro, de quem percebe a força da palavra, e também do silêncio que existe entre os acordes, cientes de que as palavras se entendem e se desentendem, mas, com isso, criam algo novo, e o CLUBE DA ESQUINA  sempre teve e ainda conserva com grande contentamento seu convívio com as letras, com o bom humor e, principalmente, com a pedra-base da amizade.

Foto e texto: Darlan M Cunha