Para subir na vida, um cajado por empréstimo, sim, pergunte ao Dr. Fausto, o Diabo é solícito

Buritis

Buritis, Belo Horizonte, MG

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       Crer ou descrer passa por não saber, lá onde a dúvida ainda é soberana, algo normal fluindo seu magma, de leve, até que a pressão seja maior do que a boca, e então a boca explode palavras como pedras em chamas sobre as camas os asfaltos os consultórios os estádios, enfim, a boca toma juízo, e se cumpre, botando verbos pelo avesso, degolando  sintaxes, pobres adjetivos – ele é bom, ela é má -, seccionando colhões de advérbios e pronomes, é isso: crer ou descer e ficar na apatia, enquanto o mundo vasto mundo inventa moda atrás de moda.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

Leia-me no Poem Hunter: https://www.poemhunter.com/poem/mimesis-and-symbiosis/

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Lagoa da Pampulha 1

Lagoa da Pampulha, BELO HORIZONTE, MG

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       Em agosto, o vento dá as caras por aqui, e ainda que não mate, cresta os rostos e dá asas aos anúncios, às placas de trânsito e às saias. As mãos, por terem pouca irrigação, sofrem suas picadas. Mas o que é o vento natural diante dos ventos sociais, quase nunca de bem com a saúde do cotidiano ? Lembro-me do poema Congresso dos Ventos:

 

Na várzea extensa do Capibaribe, em pleno mês de agosto

Reuniram-se em congresso todos os ventos do mundo;

Àquela planície clara, feita de luz aberta na luz e de amplidão cingida,

Onde o grande céu se encurva sobre verdes e verdes, sobre lentos telhados, […]*

 

       Em agosto, que a vida seja leve, que as vítimas não saibam de nada, comentários se abram (como é difícil deixar umas palavras, talvez porque falar cansa, escrever dói – é o que parece). Em agosto, não se ouça a palavra julho, talvez seja melhor citar setembro, o amanhã, mas um sambista diz que meu tempo é hoje.*

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foto e texto: Darlan M Cunha

rota do peixe e do riso

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o riso e o peixe

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     Já faz muito tempo que o riso sumiu nas brumas do Homem, os peixes correm grande perigo, insetos antigos veem com pasmo as pancadas em suas portas e janelas, bichos de todo tipo em seus túneis, locas, tocas, grutas, cavernas, labirintos térreos e aquáticos – as cobras do deserto, os castores – veem com apreensão o momento humano, sentindo que os mares e as terras não estão nem pra peixe e nem para formigas, que as ruas do mundo estão cheias de indecisões, de falsas alegrias pelas altas tecnologias, etc. Já faz um bom tempo que o riso das hienas domina o cenário, que suas garras seguram tudo. Entenda.

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imagem: INTERNET     >>>>>     texto: Darlan M Cunha

enteus & ateus – 2

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Fluxos orientais, gerais (desde quando aprendemos a domesticar ?)

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     Meu nome é Kaldi, sou homem modesto, que a nada mais aspira do que ver meu rebanho bem sadio, e a bem servir ao senhor, melhor digo, senhora – a água, tão escassa neste areal imenso. Água é lei severa, é trunfo, butim de guerra.

     Meu nome é Kaldi, e já faz um bom tempo, mais de mil anos, que o mundo diz que fui o primeiro a me espantar, no século nove D.C., com a vivacidade do meu rebanho de cabras, aqui na Abissínia, que hoje se chama Etiópia, ao perceber seu gosto por uma planta de nome café, cujo origem está na localidade de Kaffa – mas o nome café foi espalhado pelos da Arábia (Coffee arabica), e vem do nome árabe para o vinho: kahwa.

     Bons goles, ó filhos e filhas dos computadores. Vocês foram mais longe, ao aprender a domesticar, selvagizar, escravizar homens. Pensando bem, isto é antigo, muito antigo, é de antes do meu tempo, de todos os tempos – genético. Mas, se mudarem este GENE, o da posse, tudo estará acabado, fadado ao mesmismo. Será ? Tudo é antigo, apenas ‘reciclado e renomeado’, de modo que os bites sempre estiveram por aí, zanzando.

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Texto: Darlan M Cunha

Foto: MJMC  //  Nancy

Sestros da minha terra – 3

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     Na minha terra, que nunca mais vi, tinha um rapaz meio abilolado, de nome romano Suetônio,* de bom porte, bom para suspiros, mas abilolado, bom para a molecada que caía na pele dele, sem dó, como é geral nas crianças o fato de serem especialmente perversas, bem treinadas que são por pais e escolas, pelo mundo cheio de orquidários, planetários e bibliotecas deixadas às traças. Penitenciárias sempre nos vídeos do dia. O pai do Suetônio, Antônio Alvarenga da Costa – quase nome de inconfidente – fã dos eventos em Roma e na Grécia, quase sempre encontrava na pequena bibioteca municipal algo a respeito de gregos e romanos, mas evitava gaúchos e baianos, porque a nossa história estava engatinhando, muito pouco dela lhe despertava a atenção, e que, a não ser pela covardia da tríplice aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai, contra o Paraguai, e pelo massacre do místico Antônio Conselheiro, e seus milhares de esfarrapados seguidores, mortos pelas forças da Nação, em Canudos, quase mais nada havia, restando esperar por eventos marcantes, edificantes, ele dizia. Mas Suetônio pagou o pato, pagou pelo interesse literário ou histórico do pai, e assim não tinha sossego na aldeia onde a molecada insistia em lhe arrancar a fórceps o bom-humor, o sono, a educação, porque o chamavam de Seu Antônio, enquanto corriam e caíam na gargalhada as crianças e os adolescentes todos uns fdp, como ele dizia, levando o peso do nome romano transformado em pilhéria. A vida é breve, o mundo costuma ser mau.

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Suetônio*: O historiador romano Caio Suetônio Tranquilo (69 d.C./ 141 d.C.), foi também secretário do Imperador Adriano.

Foto e texto: Darlan M Cunha

remédio de amplo espectro: Rir

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Reginaldo e o Imperador-Cacatua, Zé I O Iluminado, O Venturoso

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       A que vem tanto apego às estátuas em alto e baixo relevo, de bronze, ferro, gesso, aço, madeira, plástico, fibra de vidro, granito e mármore, em todo  lugar, menos nos polos, por enquanto: busto e cabeça, cabeça, mãos (hollywood), pés (futebol), homem montado em cavalo, homem de pé com chapéu na mão, mulher olhando destemidamente para o futuro, homem e cão em pedestal magnífico, homem com espada, um homem por trás dos óculos (Vinícius // Drummond). Para que tanta estátua no meio do caminho ? Não vou desmerecer alguns homenageados, está fora de questão, mas a partir de agora exijo que no momento propício, que é agora mesmo, me façam uma homenagem toda em granito com filigranas de diamantes lá de Diamantina e ouro da Mina de Morro Velho (Nova Lima). Meu caráter é mole, preciso de granito, ferro, aço, kevlar e diamante, pois já que judeus e cristãos dizem que sou de barro, preciso destes materiais, com  esta inscrição:

     A Aldeia homenageia Darlan, sábio entre sábios, satírico entre desalmados, é um dos nossos, doutor entre doutores e mestres, elevado à enésima potência, este garoto peralta que azucrina a Aldeia, zanzando com amigos de infância, e amigas e mais amigas, ele que mais de uma vez viveu dias ruins, falcatruas, corrupções medonhas, mas aos gênios e às crianças tudo se perdoa, embora ele tenha dormido sob as asas da Lei mais de uma vez, sempre dizendo que a comida do cárcere é a melhor porque é de graça, e tem hora certa de chegar. Então, eis a justa homenagem da nossa modesta sociedade ao grande artista e grande sábio Darlan, também conhecido pelo epíteto ou alcunha ou saboroso nome ou graduação de Landar I, O Magnífico.

 

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assina: Toda a ALDEIA

surubim

surubim

SURUBIM  >>>  Sorubimichtthys planiceps  //  Pseudoplatyatoma coruscans 

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     Onde está o peixe que foste pescar ? No mercado, sob gelo e ofertas do dia ? Onde está aquele feixe de sabores e proteínas de fácil digestão, e preço quase acessível a todos ? Desconfio que o rio em que pescas é igual ao meuou seja, é logo ali na esquina, já vem embrulhado, e com recomendações do peixeiro especialista dizendo para não deixá-lo desmanchar na panela, sua carne é tenra. Dirá para prepará-lo com batatas, tomates, ovos, coentro e azeite. Caipirinha. Dormirás com os anjos, ou com o diabo. Dirá o peixeiro.

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Foto, texto e peixada: Darlan M Cunha

quarta-feira de cinzas // ash wednesday

arco-iris

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Porque não espero

Porque não espero retornar

A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto

Não mais me empenho no empenho de tais coisas

(Por que abriria a velha águia suas asas ?)

Por que lamentaria eu, afinal,

O esvaído poder do reino trivial ?

Porque não mais espero conhecer

A vacilante glória da hora positiva

Porque não penso mais

Porque sei que nada saberei

Do único poder fugaz e verdadeiro

Porque não posso beber

Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,

Pois lá nada retorna à sua forma […]

 

Poema: T. S. ELIOT. Quarta-feira de cinzas (1930)

 

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       A mãe rediz que todo dia começa uma nova fase da vida, que todo dia tem todas as quatro estações embutidas nele, e o filho fica pensando e repensando, gastando em vão tantos dias debaixo de tanta chuva de impertinências, tantos desaforos e tristezas próprias e alheias (que o outro existe, é preciso sabê-lo por inteiro), e assim vão os dias. Nunca dizer “um dia a mais”, não, deve-se dizer “um dia a menos”, outro dia para ser vivido, e não apenas para ser gasto, como se gasta com a couve, o batom e a cerveja, com a viagem e o conserto da geladeira. Viver também é isto: arco-íris.

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Texto: Darlan M Cunha

a horse with no name

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     Dizem, muito acertadamente, que à cavalo dado não se olha os dentes, não, e também se pode completar que há muitas outras coisas que se deve evitar, por exemplo: não perturbar o vizinho, não cuspir no saguão, não chamar moça de rapariga (isto é lícito lá em Portugal, o idioma lá permite isso, mas aqui é confusão pesada na certa), também não é conveniente andar com senhas na carteira ou na bolsa, e muitíssimas outras situações que devem ser evitadas a todo custo. Dito isso, perdoem-me, porque vou beber um cafezinho, pôr arreios no cavalo, e ir ver a bem-amada, que mora em Quixeramobim – mas esta é outra história.

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foto e texto: Darlan M Cunha

seios/flores

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     As primeiras flores das quais tive notícia foram os seios de minha mãe – sua tessitura suave, seu odor, seu néctar, ou seja, o colostro. Desde então, tenho visto e sentido outras pétalas e sépalas, mas nada igual àquelas primeiras, sendo daí que o povão sempre diz, com a boca cheia e os olhos marejados, diz que “mãe é mãe“.

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Foto e texto: Darlan M Cunha