MOCHILEIRO

Tio DARLAN Motoqueiro

viejos tiempos  //  old times  //  alte Zeiten  

para TODAS e TODOS  //  para Divagações & Pensamentos  //  para Chronosfer2  //  para Cristileine Leão  //  para HangFerrero

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     Eu não fazia ideia que aqui em casa ainda existia baú – pois é, encontrei um ao abrir uma parede para fazer passagem para outro cômodo, e na qual penduraria uma cortina de sisal. Não, nada de cortina.

     Dentro da relíquia encontrei relíquias, ri, chorei, babei, bati cabeça nas paredes e botei a mão no fogo para sentir que não estava delirando, o baú é verídico, do século vinte ou talvez da época de Pedro II – já não me lembro, mas as fotos que lá estão dizem muito, e também as bandanas, correntes para o pescoço, pulseiras, decalques, cartas, uma carteira de couro de jacaré (em muito bom estado, mas o jacaré morreu), óculos de sol, um cubo de Kubik, uma garrafinha de bolso, uma camisa do Santos F. C.  e uma do Villa Nova Atlético Clube (Nova Lima, meia hora de BH), cartões postais, cartões de apresentação profissional (ora, queria eu saber de serviço ? não, mas os guardei em respeito ao Outro), anel de prata do Peru, cordas para charango, lágrimas bem guardadas num vidrinho, sim, lágrimas de uma bela adormecida, ou foi da própria Xerazade ? Não me lembro, embora me lembre, mas vamos em frente, aos chaveiros de vários lugares, UAI, Ó XENTE, BARBARIDADE CHÊ, o Brasil é grande, o mundo também, revirei uma parte da minha vida e, darlanianamente, sacudi a poeira, deitei-me na esteira, bela bebedeira para me lembrar com calma de gentes e assombrações, estradas, vilas, aldeias, cidades, rios, mares, cheiro de estrume, a barraca, escalavrões, gente má humorada, gente bem humorada, eis que na Argentina tem uma estátua dedicada à mulher grávida (acho que em Córdoba), ó vida, cadê o violão e a estação de trem, cadê a rodoviária, irei a pé, como fiz mais de uma vez, comendo banana debaixo de um sol mais caliente do que a casa do Demo, feliz da vida, bebendo garapa, topando com goiabeiras e mangueiras no meio das estradas poeirentas, sanduíches dormidos, pastéis de anteontem e de trasanteontem, cheios de vento, nada de SIDA//AIDS, bons tempos de bandeira e saúde na mochila, crianças seguindo a gente, curiosas por aqueles malucos mais sujos do que um gambá, felizes…

 

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Foto: Nem Sei Mais     >>>>>     Texto DARLAN M CUNHA

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Grãos Especiais // Special Grains

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FONTE  //  SOURCE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/jovens-e-treinador-presos-em-caverna-na-tailandia-sao-encontrados-com-sinais-de-vida-diz-governo-local.ghtml

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Voluntárias celebram  //  Volunteers celebrate

FONTE  //  SOURCE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/meninos-deixam-caverna-na-tailandia-no-terceiro-dia-de-resgate.ghtml

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     E porque hoje não é sábado e nem segunda-feira, hoje é dia nenhum, sem data, 1440 minutos propícios à meditação bem pessoal, profunda, para talvez ver algo para além do túnel que cavamos insistentemente e nele entramos, e do qual, parece, ainda incapazes de sair. Mas há esperança de colocarmos uma terceira face na moeda, até porque, como escreveu CDA, entanto lutamos,* e o que aconteceu no país dos thai reforça essa crença de que se pode quebrar os ranços antigos da humanidade, os métodos de desconstrução inventados por nós contra nós e contra tudo que compartilha conosco o planeta.

     Cerca de mil pessoas participaram in loco, in vivo, in situ do resgate dos garotos que passaram dias sem comida, tendo por cama o desafio de não fechar ao mesmo tempo os olhos sobre a cova úmida e escorregadia. Ao longe, mães. Comentário de uma amiga: nenhum deles tem diabetes, não se salvaria. Alguém lembrou-se dos mineiros chilenos. Das mil pessoas, entre tailandesas e de vários países, uma faleceu na caverna.

     A respeito deste episódio que terminou (talvez ainda não) em grande estilo, elevando um pouco o moral da humanidade, ontem, no mercado, ouvi dizer que a FIFA convidara os garotos a irem a Moscou, para a final da copa do mundo – respeitada a decisão das muitas equipes médicas. Sei não. Hoje, como ninguém confia em ninguém, ninguém crê em bondade, ninguém abre a mão ou um sorriso sequer para um vizinho, é esperar para ver. De qualquer forma, ficarão pelo menos dez dias de quarentena, o que não é nada para quem, de certa forma, esteve mais do outro lado. Segundo consta, dois diretores de uma empresa de filmes, cristã, de Hollywood (cristãos em Hollywood ?), já estão na Tailândia, em busca de acordo para rodarem um filme sobre os Wild Boars.

     Daqui, desejamos uma longa e sadia vida aos garotos da equipe tailandesa de futebol Javalis Selvagens.

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Miniatura em grande estilo

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Choro de mãe, Wagner,* sabemos que é pausado

não é igual ao da maneira de ser

de gente afeita ao puro espetáculo, amigo

sabemos que choro de mãe não é por capricho

e sim que ele tanto vem de muito perto

quanto de muito longe para fluir suas lágrimas

ou a breve arquitetura do choro**

segundo escreveu um poeta ciente das cores

e da afeição por teclados, cordas e madeiras,

cientes todos nós do fluxo suave de um regaço que, por ser

de mãe, adormece aberto em leque – ela bem ali

esquecida de si, do que lhe seja cansaço.

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Textos: Darlan M Cunha

  • * asterisco: Do poema O Lutador, de Carlos Drummond de Andrade.
  • ** asteriscos: Alusão à linda canção do maestro Wagner Tiso – Choro de mãe -, com o violonista Nelson Faria.
  • *** asteriscos: Do poema do português Eugênio de Andrade. Prêmio Camões.

grãos – 5

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cogumelos na praia  //  mushrooms on the beach   >>>>> Cape Cod, MA, USA

 

     No quintal e na varanda da casa ao lado vivem um gato tinhoso, nojento que só ele, de nome Bhin (com agá, ele sempre frisa isso, sim, o próprio gatuno fala e ralha e corrije), e um vira-latas pequenino, feio feito o diabo, retinto que nem petróleo, nome que aliás é o dele: Petróleo. Vivem ao léu, ao deus-dará, sempre engalfinhados com desafetos nas ruas da aldeia, quando não emaranhados em sem-vergonhice com as caras-metade.

     Penso nisso, enquanto as rugas dizem que é hora de ir às ruas, escritórios, gabinetes consultórios, sobe e desce escadas, a pressão arterial indo e vindo. Meu vizinho Asclépio diz que fica-se velho mais rápido do que a mão movendo as pretas e brancas do xadrez, ou mais célere do que responder a um sim ou a um não.

 

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Foto: Ione e Carlos     >>>>>     Texto: Darlan M Cunha

grãos – 4

Carantonha na praia

A raiz da fala

 

     A carantonha do mundo tem um olho enorme com um quê de desdém e de insolência, ao mesmo tempo em que pode tomar-nos pelas mãos e pelos pés. Enquanto releio o texto, lembro-me da canção “mas agora eu quero tomar suas mãos”, porque o mundo nos pede compromisso com o real, já de todo falso feito falsa coral, o mundo está agônico, flerta com a vontade de deitar-se numa boa. Segundo os antigos, a noite foi feita para o descanso, meditação que nos leve à manhã seguinte, abrindo-nos para a nova jornada – até não haver mais para onde ir.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

grãos 3

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Cape Cod, MA, USA

 

@1

     Muito embora nem sempre seja possível manter o rumo, tento manter aqui e alhures o ar de coisa boa como beijos de mãe, algodão doce, braços abertos no Corcovado, gol do Brasil, pescaria amadora, dindim nos bolsos (como se fosse água vazando pelo ladrão), enfim, fartura geral, sem nervos superaquecidos, sem a pressa que sufoca e infarta.

@2

     Depois de reler este conceito que se segue no livro Assim falou Zaratustra (faz muito tempo que o conheço), pensei até em sugerir, em tom de blague, que o balé e o tricô fiquem exclusivos para garotos, mas não sugiro que o chicote tenha as medidas das mulheres, pois não fui eu, e sim Friedrich Nietzsche quem escreveu “Vais ter com mulheres ? Não esqueças o chicote.” Está no Assim falou Zaratustra.

@3

     Dois dedos de prosa com o Diabo esclarecem dúvidas, pois a conversa orbita sobre o que há de mais precioso. Ontem, entre petiscos, risos, amuos, tragos, livros de cavalaria e canções de gesta e religiosas (ficam por último as canções picantes, libidinosas), ele revelou estafa, ou seja, tornou-se ou está se tornando “um pobre diabo”, e é exatamente assim que minhas vizinhas e vizinhos me qualificam. Precisamos melhorar.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

MÚSICA & AFINS: https://www.youtube.com/watch?v=leb0K-yUORA

mundo

garotos jogando futebol

Campinho em Rio Acima, MG, Brasil

 

     Neste fim de madrugada com café e broa caseira, viajei cinco minutos e trinta e dois segundos rumo às peripécias e desconfortos do sempre confiante Dom Quixote, através da música de mesmo nome de Egberto Gismonti. Se o clima social não está para peixe, dizem, continue com música, começando o dia assim em grande estilo, doenças a parte, ou dúvidas duelando com o entusiasmo que insiste em não sentar-se à beira do caminho. Depois de ouvir Quixote, eis que surge, abrindo-se durante oito minutos e vinte segundos a música cheia de premissas e promessas de todas as infâncias: a música Infância – irei feito criança (pretendo) aos 1440 minutos que cada dia tem: criança. E com a excepcional e mundialmente famosa música Água e Vinho, deixar a madrugada e entrar na claridade.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

grãos 2

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Cape Cod, MA, USA

 

    Um comício na areia uma cantada no areal várias pernas correndo atrás de bola sobre os grãos que um dia foram montanha ou cordilheira e que o vento o sol a chuva o gelo e o descaso modificaram as faces do Grande Templo tornando-o no Grande Problema, yes, eis uma banda tocando na praia há tendas e uma venda e ambulantes e um cão urinando e também um varão enviando marimbondos a uma mulher esticada na esteira pensando bobeira, ou não, e mais ao longe as salinas reverberando o sol enquanto um idiota perde esta cena alguém ronca a sono solto com uma face vermelha como uma lagosta e a outra face enterrada no areal e também se pode ver lagartixas tomando sol sobre pedras azuis um convite ao perigo eis a pintora o policial o aposentado o ladrão de objetos ou rato de praia uma garota com miçangas e babilaques e mais garotas e garotos e coroas tatuados carregando sua idolatria momentânea (o arrependimento mata), pegadas de se perdê-las de vista na praia diferem das pegadas no asfalto para onde todas e todos logo voltarão pois o dever chama, melhor, a Mãe Pressa chama, a escravidão conferindo os súditos capachos vassalos lacaios paus-mandados a postos para a falsa alegria cotidiária.

 

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Foto: Acervo da família     >>>>>     Texto: Darlan M Cunha

Escute, e não se arrependerá: https://www.youtube.com/results?search_query=pois+%C3%A9+pra+que+mpb+4

Um só

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Região do bairro Belvedere, BH – Mata do Jambeiro

 

    A solidez da solidão é sóbria, vasta é a sordidez da comunhão de bens para uns e outras – Ó, isso é meu, e o que é teu também é meu. A solidão às vezes depura, outras vezes enlouquece e leva à loucura, e de certa forma todos nós somos atrelados a ela, suas vítimas, sua razão de existir, porque sem nós ela não existiria, ou será que ela é mais antiga do que a própria genética, do que a própria noção do psiquismo atuando, do que a própria invenção de deus e do diabo dividindo os terráqueos ? Durma, melhor dizendo, deite-se com essa. 

     Essa foto mostrando um homem caminhando na vastidão, num domingo de manhã, me lembra o dito chinês que diz que o caminho mais longo começa com o primeiro passo.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Leia-me aqui: POEM HUNTER: https://www.poemhunter.com/darlan-m-cunha/

algum dom doce

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No parque na Rua Manila, 224, bairro Estrela Dalva, BH

 

     Este parque é pequeno, sossegado, fica a poucos minutos a pé daqui de casa. Sentar-se num parque, em meio ao sossego temporário (mas logo se tem de voltar à salva de traumas das buzinas e celulares dos transeuntes tão ligados que esbarram no que houver pela frente), pode nos fazer viver e reviver instâncias de clara e gema, de ouro e barro, trazer de volta algum caso engraçado, ao qual estavas presente, já faz séculos, e tu ficas rindo sozinho/a, ao relembrar, rever o rosto e o timbre de voz de todos/as, as manias de cada qual, enfim, é uma viagem.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

3 em 1

IPÊ

Hana wa Saku  //  Flowers will Bloom  // As flores em floração

Autora: YOKO KANNO. Arranjo: YOSHIHIRO KOSEKI – Solo de violão: KAORI MURAJI

 

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     Espavorido, temente a Deus, ao que não seja escrúpulo, Dom Quixote entrou aqui, e na penumbra pareceu-me sem um braço, mas intacta estava a personalidade, entrou e disse algo que soou ininteligível, que só mesmo Sancho para traduzir sua verve sempre inflamada (na penumbra, confundira-me ele com o gordo Sancho Panza ?).

     Pois é, o famoso cavaleiro de triste figura não é de sentar-se, a não ser no lombo do fiel Rocinante, e não aceitou cadeira. Quanto ao que se perdera na viagem, que ao que me parece se tornara para ele algo assim como um rito de iniciação, ele não sabia dizer, e porque chovia, trouxe Rocinante até um canto do meu jardim. Adeus margaridas.

     Dom Quixote, não sei como, aceitou um copito de vinho tinto, ameaçou sentar-se, mas recuou mum átimo, e continuou de pé, delirando: “El que de vos vive ausente, dulcísima Dulcinea, a mayores miserias que éstas está sujeto.” (Será que me confundira com a sua amada Dulcineia del Toboso ?) Disse, agradeceu pela acolhida e prostrou-se no sofá, onde está até hoje, melhor dizendo, eu pu-lo na estante principal.

 

Foto e texto: Darlan M Cunha  

Dom Quixote e Sancho Panza, trazidos daqui: MALUDICO http://maludico.tumblr.com/post/83349479787