temática do assombro

SENTINELAS DECAPITADAS, MAS SENTINELAS, TESTEMUNHAS

Para espanto e regozijo, sem procurá-la, encontrei essa foto, feita há 15 ou 20 anos, mas eu não sei precisar o lugar, embora ache que foi numa das inúmeras caminhadas e corridas, mas acho que foi aqui perto da cidade de Nova Lima, ou de Raposos, a pé, sempre, ou foi depois do bairro Belvedere, aqui em BH. De todo modo, ela me agrada, até porque a cor é natural, eu não me lembro de tê-la tirado de sua roupagem original, até porque ainda nem sabia fazer isto. Ela me fez pensar, uma vez mais, na incrível rapidez da vida. As pessoas dizem: Um dia a mais. Outras dizem: Um dia a menos. Enquanto isso, os dias assobiam, e vão em frente, e muita gente fica pelo caminho, filosofando, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar – de acordo com a canção do Raul Seixas.

Darlan M Cunha

RAUL SEIXAS. Ouro de Tolo. Raul Seixas – Ouro de Tolo – YouTube

candura

O Mundo é logo ali

@1.

Comigo nunca aconteceu, mas quando a minha mãe esteve no Oriente Médio, com uma sobrinha que lhe deu a viagem de presente, aconteceu-lhes o extravio de suas malas, em Dubai. Pois bem. Na sexta-feira passada, dia 5, uma neta de minha mãe, e o marido, com o casal de filhos, desembarcaram em BH, vindos dos EUA. Seis malas extraviadas. Um dia depois, a Empresa lhes dava conta de que duas malas tinham sido localizadas, e as entregaram no sábado. Na segunda-feira, após um fim de semana de apreensão, encontraram e entregaram as outras quatro malas. A turma, é claro, veio à casa da bisavó, aqui em BH, e na terça-feira foram ver avó e avô paternos, ainda em Minas, longe de BH, e se eu conto estas peripécias é porque acontecem. Afinal de contas,  há milhões de malas no céu a todo instante. Tudo pode falhar, mas é um sufoco que não se deseja a ninguém. Em tempo: as crianças estão deitando e rolando na fazenda, sujas de terra, passeando na propriedade numa charrete puxada a cavalo, frutas no pé, ou seja, daquele jeito, enviaram fotos para matar o garoto de inveja.

@2.

Sejam bonzinhos e boazinhas, nas normas sosiais: escovar os dentes, nada de chulé, de falar alto e apressado, calma, o planeta vive fugindo a 27 mil quilômetros por hora (confira, se duvidas), e então vamos no macio, no sapatinho, como diz o povão brasileiro, sempre gozador: no sapatinho. Quem tem pressa, cansa; quem não tem, alcança – é um dos ditados antiquérrimos que a minha Mãe vive repetindo, e eu rindo.

@3.

Certa vez, noite feita, chegou a uma cidade onde nunca estivera. Na estação, absoluto silêncio, procurou em vão por alguém, nem sombra de vivalma. Pulgas atrás da orelha. O silêncio começou a lhe dar nos nervos, pelo que andou por uma rua mal iluminada, e não havia nada que ativasse no viajante o entusiasmo típico de quando se chega a um lugar qualquer do mundo: cansaço e ansiedade por um banho, e depois sair e conhecer gente e ruas. Nada disso. Numa cidade fantasma o viajor estava, sozinho, sem pai e sem mãe, abriu uma porta qualquer, e procurou cama, e dormiu feito uma pedra, de sapatos e tudo, de óculos e tudo, antes, bebeu uma dormideira – como diz o povo, dormiu feito pedra-granito, até acordar na própria cama, não se lembrando de nada. Só hoje, mil dias depois de ter estado numa cidade fantasma.

Darlan M Cunha

LUIZ MELODIA: Pérola negra: https://www.youtube.com/watch?v=bJjKyc7VeCc

MINAS: Não queremos saber de mar aqui, à porta.

Av. Armando Vaz de Melo – Barreiro de Baixo, BÊAGÁ

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Agora mesmo, mal liguei o ímã, a necessidade, lembrei-me que um antigo e folclórico vereador em BEAGÁ teve a ideia de trazer um braço de mar para a pacata e rica capital das GERAES. Ri tanto com tal antiga lembrança, que o bendito café, ou rubiácea, ou móca, me fez o desfavor de um desperdício, ao ir ao chão. Políticos, em geral, repito, não todos, dão trabalho. Pois é, deixo de antemão a opinião maior da mineirada – dez vírgula dois por cento da Nação – de que, embora agradecidos e agradecidas, preferimos ver o mar bem longe daqui, nada de tsunami, cachorro na praia, peteca, trânsito de mil e um pedestres por metro quadrado, vôlei, sumiço disso e daquilo, lanterna pros afogados, e me lembro da música do João e do Aldir – De frente pro crime – “e um bom churrasco de gato”, coliformes fecais aos trilhões (ó hepatite, ó icterícia, ó tungíase, ó micose), gente arrastando pipa, mais crianças perdidas, pois é, com todo o respeito que nos caracteriza, a nós, mineiros da gema, fique por lá a Grande Água. Chega de problemas, de saudade, não.

Cape Code – EUA (Foto by Dona Maria)

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Um homem é um homem é um homem, escreveu o alemão Bertolt Brecht, se não me falha a cachola. Mas, e um lagarto ? Um lagarto é um lagarto é um lagarto, mesmo depois de perder uma perna num combate ou num acidente entre as pedras, e de se regenerar, crescendo-lhe outro rabo ou outra perna, será que ele ainda é um lagarto ? A resposta a esta pergunta tão relevante é: Sim, o lagarto continuará sendo um lagarto, verde ou marrom, amarelo, azul ou preto, lagarto será.

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Darlan M Cunha

ROBERTA SÁ e JOÃO BOSCO: De frente pro crime (Aldir Blanc – João Bosco): https://www.youtube.com/watch?v=clHbMIBm4eQ

as visitas, 6 [final]

a santa, o drone, o ócio

O que levar e o que não levar ao trono das férias ? O cão do vizinho dá nos nervos, nada como um punhado de sol – mas eis que uma sirene abre as ruas rumo às mãos no peito e no parapeito, as mãos e as cãs já no chão, de volta, a sirena reabre as ruas, e todos voltam para a água. Em casa, o violão jaz no sofá ao qual lhe falta um pé, mas três tijolos lhe servem de esteio, os caolhos me confundem, rolinhos e varizes, a língua ferina da sirigaita, tudo é teu que te contempla, esqueça, abra a farofa e ria para a praia imensa da vida. O que levar das férias: sono ou aprendizado ?

Darlan M Cunha

as visitas, 5

clareia, manhã

Nenhuma reta no corpo do universo tudo é curva é a monotonia do espanto o que há é uma sequência infinita debaixo da qual e entre a qual nos damos aos dias com os nossos 206 ossos todos eles curvos. A própria Luz faz curva (pergunte ao Albert). A vida é curva.

Darlan M Cunha

as visitas, 4

horóscopo: peixes

Certos bichos não se abrem nem com eles mesmos, sendo ao mesmo tempo o nunca e o nada, decididos a cavarem a sós suas minas e suas rinhas, de modo que algum dia tenham a sensação de não se terem enganado em vão.

Darlan M Cunha