imaginário

Teatro Francisco Nunes. Parque Municipal, BHte. Já me apresentei aí.

Teatro Francisco Nunes. Belo Horizonte, MG, Brasil (algumas vezes estive neste palco)

debates conferências teatro música reuniões de classes – há de tudo nesse tipo de casa

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No teatro se morre de morte prematura, violenta, idealizada

e a trupe pensa que é no palco que as coisas acontecem,

mas é na rua, a rua que o proscênio desconhece, onde o todo

se apresenta, é lá que se lava a roupa suja, que se aprende hábitos

que se manieta ou se impulsiona a usura, o pão do ódio, o ócio.

Foi lá que a foice e o martelo enferrujaram, outras normas

agora mamam e desmamam, prontas para te darem nova senha.

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foto e poema: Darlan M Cunha

da sega às bancas

Mercado Central, BHte, MG, Brasil Mercado Central (1929). BHte, MG, Brasil (uma das oito entradas)

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Sete entradas tem o mercado diário

nove buracos o inferno dantesco

mil e uma bocas a sede e a fome

ene braços a insônia que come

o homem sem nome e sobrenome.

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foto e poema: Darlan M Cunha

Os tempos não mudam de todo… fingem.

pelourinho

doce chibata, amado pelourinho, santo capitão-do-mato, gentil patrão

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     Até mesmo em Belo Horizonte, cidade quase pacata, se comparada a muitas outras, usar os coletivos tornou-se uma fonte de apreensão e de desprazer, principalmente se você não tem paciência larga, se tem o estopim curto, daqueles que ficam bem perto do barril de pólvora. É o meu caso essa tipologia pessoal e intranferível, mas não intransferível como um cartão de banco, uma URL, uma senha, ou o RG – embora cada vez mais tudo esteja tornando-se vulnerável. Eu disse “quase”. Hackers e piolhos.

     A quantidade de caronas nos ônibus, ou seja, aqueles ônibus que carregam as pessoas através das veias da cidade, é simplesmente de pasmar. Entram, ficam de pé ao lado do motorista, ou assentam-se no lugar onde os idosos põem os pés, quando não se sentam nas poltronas a estes dedicadas, não perdem tempo em cumprimentar ninguém, vários deles com roupas de “grife”, feitas no Paraguai, e seguem conversando, como se tivessem nas mãos o futuro da cidade e do mundo. Talvez até já estejam neste patamar, ou quase. Eu disse “quase”. Não se dignam a olhar para os parvos que estejam ao lado, à frente ou na parte de trás do comboio, certamente porque se sabem distantes,  alijados das benesses do establishment. Assim, parece que cabe a nós trazê-los para a luz, mas não contem comigo, tenho repolhos e tomates para cuidar, lagartas feitoras de seda, totens e tabus, fantasmas, etc. Além disso, preciso ler psicanálise, neurologia, sociologia, música, prosa e poesia, enfim, continuar a aprender a ler e escrever. Êpa !, a panela de pressão está apitando (e este “apitando” serve também como alusão aos fatos sociais).

     Essa postagem me fez lembrar de um poema que é, com justiça, tão famoso: um texto do poeta Eduardo Alves da Costa, de nome No caminho com Maiakóvski, um texto que vai fundo, décadas após escrito, ele ainda bate contra o marasmo, a vontade bamba, o que dá espaço para tipos como os caronas acima citados.

Foto e crônica: Darlan M Cunha

PALIAVANA4: https://paliavana4.blogspot.com

POEM HUNTER: https://members.poemhunter.com/members/club/profile.asp?member=5647848

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     Trecho do poema de Eduardo Alves da Costa (1936 – ), escrito na década de 60. Pseudônimo: Diana Gonçalves. Trazido do RECANTO DAS LETRAS: http://www.recantodasletras.com.br/poesias/5655034

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

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o suprassumo do (desa)sossego

mohammad-mohiedine-anis-70-fuma-o-seu-cachimbo-e-ouve-musica-em-sua-vitrola-em-seu-quarto-em-aleppo-na-siria-conhecido-na-regiao-pelo-seu-apelido-abu-omar-o-sirio-e-dono-de-uma-colecao-d

Mohammad Mohiedine Anis (70) e a sua vitrola mecânica – Aleppo, Síria.

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Quero ficar só, deixar-me ao alcance do sossego

da própria intimidade tão dividida por razias

bombas arrasando tetos, o sono, o sexo, a escola

a água da cidade, a luz, o hospital e coisa e tal.

Zumbis, sou um deles, já sem nome e sobrenome

que um dia os tive, numa escala nobre os quis.

 

Quero estar com a música e o cachimbo, com os gritos

da infância aí fora jogando bola de pano, alheia ao dano

da guerra a infância, ou quase isso, não é nada disso

pois elas tudo percebem, e distanciam-se

da balança que pesa mortos e vivos, distanciam-se

 

dos discursos de quem ora, dos discursos que acabam

em riscos vindos do céu, onde Alá já não mora.

Quero estar só, na casa esburacada, na rua soterrada

de uma cidade que já não existe; mas, mesmo sem fé, teimosa

sob ferro e fogo, mesmo deitada, insiste em ficar de pé.

*

Poema: Darlan M Cunha

Foto: Joseph Eid (Ag. France Press)

batente

batente

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    Nada como a sátira. Eu estava chegando em casa (moro no último), subia algo contente os degraus da vida (ou descia, sei lá), quando encontrei essa beleza, ri, fotografei, e agora reparto este aviso: “Vai buscar”.

*

Foto e texto: Darlan M Cunha

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Minha percepção das coisas, dos instrumentos com os quais construímos e destruímos o mundo, refina-se com estas quatro poetisas, ou poetas, como uns preferem:

Mariana Ianelli –  https://www2.uol.com.br/marianaianelli/index.htm

Denise Emmerhttps://www.letras.com.br/busca.htm?buscar=denise+emmer

https://deniseemmergerhardt.blogspot.com.br/

Hilda Hilsthttp://www.hildahilst.com.br/

Adélia Prado – http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/adelia-prado-poemas/

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Sugiro que ouça Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Heraldo do Monte – juntos: https://www.youtube.com/watch?v=NayDac-xLi4

Saldo do dia: cefaleia, dívidas, despejo, o dono do bar olhando de soslaio…

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,.. mas Deus ajuda quem madruga

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Estou pensando sériamente em mudar de postura,

sair desta vida dura, parar de viver no pindura,

nada de delícias e gostosuras várias, dárias, não

porque já estou de fato resolvido que doravante

serei mau amante, mercador de glostora, de jurubeba e do

horrível perfume lancaster, que tonteia gatas e gatos, sim

prometo ser uma nova criatura com outra postura

perante o mundo mau, cara de pau, embora eu não

me chame raimundo e nem segismundo, e acho até

que já nem tenho nome, sou o que todo mundo é:

apenas número na carceragem, no inss, no exército,

no banco, nos dedos do taxista (são R$52,00, cavalheiro, e pague por inteiro),

sim, prometo-me que um dia serei rei, bei, marajá

e com a bela e sábia Xerazade irei me deitar.

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Foto e poema: Darlan M Cunha

quarta-feira de cinzas // ash wednesday

arco-iris

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Porque não espero

Porque não espero retornar

A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto

Não mais me empenho no empenho de tais coisas

(Por que abriria a velha águia suas asas ?)

Por que lamentaria eu, afinal,

O esvaído poder do reino trivial ?

Porque não mais espero conhecer

A vacilante glória da hora positiva

Porque não penso mais

Porque sei que nada saberei

Do único poder fugaz e verdadeiro

Porque não posso beber

Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,

Pois lá nada retorna à sua forma […]

 

Poema: T. S. ELIOT. Quarta-feira de cinzas (1930)

 

*

       A mãe rediz que todo dia começa uma nova fase da vida, que todo dia tem todas as quatro estações embutidas nele, e o filho fica pensando e repensando, gastando em vão tantos dias debaixo de tanta chuva de impertinências, tantos desaforos e tristezas próprias e alheias (que o outro existe, é preciso sabê-lo por inteiro), e assim vão os dias. Nunca dizer “um dia a mais”, não, deve-se dizer “um dia a menos”, outro dia para ser vivido, e não apenas para ser gasto, como se gasta com a couve, o batom e a cerveja, com a viagem e o conserto da geladeira. Viver também é isto: arco-íris.

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Texto: Darlan M Cunha

à mesa – 2

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     Cá estamos, à tua espera, nesta mesa com opiniões sob a custódia do espanto, ó seres do espanto, vigiai os tetos desta aldeia, as meninas e os meninos deste mundo fechado em smartphones, vírus da fala, o mundo da pressa, de desejos frustrados, de ofertas pagáveis-em–mil-prestações, de presidentes amalucados, o mundo namorando a loucura, a miséria é antiga, ora, onde estão as mesas cheias de petiscos, de não haver mãos e bocas capazes de esvaziá-las de todo ? Falar é semear, colher, mas resta doar alguma coisa, por exemplo, 1/2 litro de sangue, uma vez por ano, dos 5 ½ litros que se tem.

     Camões perdeu um olho em batalha, e Miguel de Cervantes um braço em batalha, por mares já navegados, e assim mesmo, debaixo de sina tão adversa, conseguiram deixar Os Lusíadas e o Dom Quixote. Assim, para o Museu de Tudo, começarei doando meus velhos chinelos, cheios de tropassos, a insônia cheia de taquicardia, cheia de viagens agradáveis e não agradáveis, ó, o futuro não será negro, não terá cor nenhuma sendo a maioral. Saúde. A caipirinha tá demais.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

soberbas letras – 6

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007

antíteses

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MORTE E VIDA SEVERINA

(João Cabral de Melo Neto, poema / Chico Buarque, melodia)

 

Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada não se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida

É a parte que te cabe deste latifúndio
(É a terra que querias ver dividida)

Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas à terra dada nao se abre a boca

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Foto: Darlan M Cunha

Ouça AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=gGLDaE01PdA

Escola: uma faca só lâmina (JCMNeto)

escola-de-facas

escola de facas // school for cooking

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     Uma faca não sofre de dúvida existencial, que a ela só lhe toca cortar com a calma mais fina (o bisturi), ou retalhar com a descompostura dos desatinados numa briga de rua ou de bar (peixeira, também dita lambedeira, canivete automático, facão, machado, gilete), que a ela não lhe dá se é domingo, segunda-feira ou se não é dia nenhum, até porque a sociedade vai em direção a abolir quase tudo aquilo que hoje é praxe, inclusive datações, e assim é que a memória já está de sobreaviso, cenho franzido, já se sabe condenada a ser memória sem memória, algo inerente aos que padecem de Alzheimer, mas de alcance geral, de afetar a todos em todos os lugares.

     Uma faca não sofre de hesitação existencial, com ou sem ferrugem, com ou sem dentes, afiada ou cega, torta ou em linha reta sua lâmina, com o cabo quebrado ou não, ela é de se achar e de se perder em algo: na polpa de uma fruta, nos tendões de um legume, no frouxo de um pudim, nas nervuras de homem e mulher, de modo a que se cumpra como tal: faca, e dela se possa dizer ou escrever algo, imaginar e desenhar-lhe o trajeto

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;*

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Foto e texto: Darlan M Cunha

*: Em itálico: João Cabral de Melo Neto, excerto do poema Uma faca só lâmina