Viva o povo brasileiro (com licença, João Ubaldo Ribeiro)

BRASIL, REAL MADRI, ALEMANHA, MILAN

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@1.

Há décadas ele não entra num campo de futebol no Brasil, décadas, por poucos mas fortes motivos, e nem mesmo pela televisão – nela, só mesmo jogos como Real Madri x Barcelona ou, de 4 em 4 anos, a Copa do Mundo. Jogou uma barbaridade no time do Exército, meia armador, e tanto o Flamengo quanto o Atlético Mineiro estiveram com o pai dele, mas ele não quis saber, disse: Quero é continuar a ler, viajar e tocar instrumentos, saber psicanálise, sociologia, antropologia, arte marajoara, arte chinesa, russa, arte andina, entender de leve alguns idiomas, e algo sobre o Teatro de Sombras Tailandês, mais livros, e umas caipirinhas e peixe ensopado com batatas – peixada, etc.

@2.

Mudando de ambiente, isso foi dito no Mercado Central, informalmente, com muita sátira envolvida na roda de mulheres e homens: “Já que o País não tem presidente, e sim um pseudo durão, semi analfabeto, posso, sim, pensar num esforço ou no sacrifício de me candidatar.” Risos gerais. Marca registrada do povo brasileiro é o bom humor. Ande, viaje, leia, conviva com brasileiros e estrangeiros, saberás de fato desta particularidade admirada por estrangeiros: o bom humor nato – marca natural, não registrada, natural.

@3.

O BUDA sentado, esperando mamadeira

Quando o Buda dorme ele ronca feito um leão asmático, diz indecências enquanto moureja sobre o catre do tipo cama de faquir, a dois metros do meu catre, porque isso não é cama, mas a realidade exige que a gente adapte-se ao que há, onde se está. Eis o Buda bem esticado, como se morto, duro, parecendo estar em adiantado estado de rigidez cadavérica, mas não, de vez em quando O ILUMINADO solta um balão ou uma bufa, de modo que as cortinas dançam de meter medo, e eu aqui, querendo sair do forno, mas os guardas não deixam, já que sou convidado especial do iluminado Buda, e tudo dentro e fora de mim toma conta do prisioneiro que sou de mim mesmo.

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Darlan M Cunha: fotos e texto

o ocaso da alegria: Mundo

Área central de BELO HORIZONTE, MG. Não consegui o autor ou autora.

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@1.

Lembro-me ainda hoje, tantos anos depois, de uma frase do folclorista, sociólogo, antropólogo, nascido em Natal, RN, Luís da Câmara Cascudo (1898/1986), que, numa entrevista, disse “já perdi a capacidade de me indignar“. Vê-se, pois, que a engrenagem roda e roda e, fundamentalmente, pouco muda de rumo, as mentalidades são duras na queda, não cedem, e assim as visões sociais se atrasam, retardam, leis e mais leis são desenhadas quase em vão.

Ao ver essa pintura mural, numa manhã de domingo, não titubeei, e fiz a foto.

@2.

bolo de fubá recheado com pedaços de queijo

Na nossa casa no interior bem interior de Minas Gerais – Vale do Jequitinhonha – fazia-se muito tipo de bolos e biscoitos, isto era semanal, e fazia-se também manteiga, o que dá um trabalhão, e me lembro que a nossa mãe, Maria José (hoje com 89 anos, sadia), no grande quintal onde havia uma mangueira enorme dando sombra, trazia um pote pequeno com manteiga, acabada de ficar pronta, e a molecada metia o dedo, e ninguém tinha nem sombra de diarreia. O futuro e o dia de hoje são de tecnologia, tudo pronto, mas relembrar faz bem.

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Darlan M Cunha: fotos e texto

o espanto

A capa foi produzida / desenhada pelo amigo Víctor Taliberti

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MÍNIMOS CONTOS ORDINÁRIOS

Os mínimos contos ordinários e extraordinários que a gente vive todo dia, muito embora muitos não se deem conta disso, transformam de maneira óbvia o nosso jeito de ver e de fazer, de reagirmos sempre com estupidez, ou nos tornamos algo afeitos ao verbo pensar. Há quem viva sozinho com a sua simples aposentadoria, dormindo mal, falando só o necessário silêncio, alguém assim para quem a bile é alimento sagrado – salmão ou cogumelo, caviar ou surubim ensopado, leitoa assada no rolete ou o divino doce de nome pavê. Há quem se isola em definitivo, tramando a solidez de sua solidão. Há algumas felicidades, mas são muitas as infelicidades que cavamos para nós mesmos, sim, um dia só tem 1440 minutos, mas é o bastante para fatos incríveis acontecerem num só dia. O mundo é espanto, cada vez mais.

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Mínima narrativa após prótese – 14
RETRATO EM BRANCO & PRETO

Vive sozinho com sua aposentadoria. Dormindo mal, falando só o necessário silêncio, bebendo caipirinha, ou seja, sendo ele mesmo o tempo todo, o que é raro: ter opinião própria, nunca sendo maria-vai-com-as-outras. Vive de bem com a madrugada, até porque segundo suas próprias palavras, seu próprio jeito de cultivar o mutismo, o dia começa é na madrugada. A partir disso, vive suas manhãs arrítmicas, suas tardes vadias e suas noites mal resolvidas de uma pessoa difícil, sem capa na língua, e que por isso e por muito mais do que isso, vive entre a liberdade de ter algum desejo, e a prisão que resulta do fato de não realizar de fato qualquer desejo, assim de forma completa, uma vontade, a mais simples, sempre fica pelo meio, sim, há muitas infelicidades. E não se lembra de nada que o faça chorar ou sorrir com vontade.

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Darlan M Cunha: foto e texto

Sem névoa nos olhos // No mist in the eyes

sem bolsonaros
Brasil infantil (sem políticos)

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Os imprescindíveis

Há homens que lutam um dia

e são bons, há outros que

lutam um ano e são melhores,

há os que lutam muitos anos e

são muito bons. Mas há os que

lutam toda a vida e estes são

imprescindíveis.

  • BERTOLT BRECHT

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As lutas

E assim de luta em luta a vida entra

e sai de becos e sombras, quase se afoga

no choro, mas ela de novo sorri

como o sol da manhã, porque a vida é

teimosa como uma martelo, é suave

como um bolo caseiro, e imprevisível

feito um vulcão adormecido, um tsunami,

uma mulher com o sono avariado.

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The struggles

And so from struggle to struggle life enters
and out of alleys and shadows, and almost drowns
in tears, but she soon smiles
like the morning sun, because life is stubborn
like a hammer, it’s gentle
like a homemade cake, and unpredictable
like a sleeping volcano, a tsunami, a woman with broken sleep.

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Darlan M Cunha: fotos e poema As lutas

regime ?

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saber onde se está, e de onde se é, eis a questão simples, mas quase ninguém chega lá, não entra total no próprio enredo, no próprio entorno, desconhecendo assim suas formigas, as folhas no chão, os troncos no fundo do quintal, ah, essa pinga é boa, que belo vestido, biscoitos que tu sempre comeste em família, mas quase nada sabe deles. Tome juízo, não faça como eu que vivo cego surdo mudo sem miolos.

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Esse bacalhau me fez lembrar o que me contaram há muito tempo: um vereador aqui de BH, de nome Thibau – acho que já falecido, há tantos anos nunca mais ouvi falar dele -, segundo o que ouvi, pretendia entrar com um projeto o qual visava trazer água do mar para Belo Horizonte, linda, moderna, poderosa, através de um canal a ser aberto a partir do mar no Espírito Santo ou no Rio de Janeiro. Pois é, esse bacalhau me levou ao mar, naturalmente, e então me lembrei do digno vereador, e desta história que, parece-me, é estória.

Darlan M Cunha: fotos e texto

Brasiliana

ou Brasiliense – dia a dia

Chove pouco em Brasília, mas o lago Paranoá salva aquela suicidade única, o lago também foi projetado, ou a bela monstrópole não existiria. O ar é seco de tal forma que em determinada época do ano [agora], as pessoas são afeitas aos seus instrumentos musicais, em especial o piano, que colocam recipientes cheios de água em vários cantos da casa ou do apartamento, para minimizar os efeitos da sequidão, e poupar a madeira dos instrumentos, porque a evaporação ajuda instrumentos e moradores. É verdade, é real.

Por falar naquela aldeia nacional e internacional, mãe querida dos brasileiros e brasileiras – bom, isso é quanto ao que diz respeito à história maravilhosa de sua construção, porque depois as nuvens negras começaram a chegar e ficar, ou chegar e partir, com algum pedaço ou naco ou migas do bolo. Lembrei-me da bela música do Toninho Horta: Céu de Brasília, e também do mesmo querido autor a canção Beijo Partido.

Como não poderia deixar de ser, a palavra “pasta” é muito pronunciada em Brasília, bem mais do que a palavra Mãe, é, eu sei do que falo, às vezes, mas, de Brasília sou mais do que mentecapto, sou EXPERT, aliás, como todo mundo deste rio de risos e abraços que é o país do qual o dramaturgo Dias Gomes disse: “O Brasil é um país que desmoraliza o Absurdo.” Uma beleza, na mosca. Por falar em absurdo, meu vizinho Aprígio Nonato Villa-Real, disse que já comprou a caneta com a qual medirá forças com os papéis que lhe derem quando da implantação do NOVO//VELHO método de se ir à urna, e ficar matutando diante do grande estigma, do grande enigma, esgrimando diante destoutra herança bolsonarista, bolsonarina, bolsoruego, bolsopata, bolsorepto, bolsotático, bolsoraro. Irei, com fervor de patriota, votar numa gloriosa invenção brasileira que é a URNA ELETRÔNICA. E fim de papo.

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Darlan M Cunha: foto e texto