Viva o povo brasileiro (com licença, João Ubaldo Ribeiro)

BRASIL, REAL MADRI, ALEMANHA, MILAN

***

@1.

Há décadas ele não entra num campo de futebol no Brasil, décadas, por poucos mas fortes motivos, e nem mesmo pela televisão – nela, só mesmo jogos como Real Madri x Barcelona ou, de 4 em 4 anos, a Copa do Mundo. Jogou uma barbaridade no time do Exército, meia armador, e tanto o Flamengo quanto o Atlético Mineiro estiveram com o pai dele, mas ele não quis saber, disse: Quero é continuar a ler, viajar e tocar instrumentos, saber psicanálise, sociologia, antropologia, arte marajoara, arte chinesa, russa, arte andina, entender de leve alguns idiomas, e algo sobre o Teatro de Sombras Tailandês, mais livros, e umas caipirinhas e peixe ensopado com batatas – peixada, etc.

@2.

Mudando de ambiente, isso foi dito no Mercado Central, informalmente, com muita sátira envolvida na roda de mulheres e homens: “Já que o País não tem presidente, e sim um pseudo durão, semi analfabeto, posso, sim, pensar num esforço ou no sacrifício de me candidatar.” Risos gerais. Marca registrada do povo brasileiro é o bom humor. Ande, viaje, leia, conviva com brasileiros e estrangeiros, saberás de fato desta particularidade admirada por estrangeiros: o bom humor nato – marca natural, não registrada, natural.

@3.

O BUDA sentado, esperando mamadeira

Quando o Buda dorme ele ronca feito um leão asmático, diz indecências enquanto moureja sobre o catre do tipo cama de faquir, a dois metros do meu catre, porque isso não é cama, mas a realidade exige que a gente adapte-se ao que há, onde se está. Eis o Buda bem esticado, como se morto, duro, parecendo estar em adiantado estado de rigidez cadavérica, mas não, de vez em quando O ILUMINADO solta um balão ou uma bufa, de modo que as cortinas dançam de meter medo, e eu aqui, querendo sair do forno, mas os guardas não deixam, já que sou convidado especial do iluminado Buda, e tudo dentro e fora de mim toma conta do prisioneiro que sou de mim mesmo.

***

Darlan M Cunha: fotos e texto

o espanto

A capa foi produzida / desenhada pelo amigo Víctor Taliberti

***

MÍNIMOS CONTOS ORDINÁRIOS

Os mínimos contos ordinários e extraordinários que a gente vive todo dia, muito embora muitos não se deem conta disso, transformam de maneira óbvia o nosso jeito de ver e de fazer, de reagirmos sempre com estupidez, ou nos tornamos algo afeitos ao verbo pensar. Há quem viva sozinho com a sua simples aposentadoria, dormindo mal, falando só o necessário silêncio, alguém assim para quem a bile é alimento sagrado – salmão ou cogumelo, caviar ou surubim ensopado, leitoa assada no rolete ou o divino doce de nome pavê. Há quem se isola em definitivo, tramando a solidez de sua solidão. Há algumas felicidades, mas são muitas as infelicidades que cavamos para nós mesmos, sim, um dia só tem 1440 minutos, mas é o bastante para fatos incríveis acontecerem num só dia. O mundo é espanto, cada vez mais.

***

Mínima narrativa após prótese – 14
RETRATO EM BRANCO & PRETO

Vive sozinho com sua aposentadoria. Dormindo mal, falando só o necessário silêncio, bebendo caipirinha, ou seja, sendo ele mesmo o tempo todo, o que é raro: ter opinião própria, nunca sendo maria-vai-com-as-outras. Vive de bem com a madrugada, até porque segundo suas próprias palavras, seu próprio jeito de cultivar o mutismo, o dia começa é na madrugada. A partir disso, vive suas manhãs arrítmicas, suas tardes vadias e suas noites mal resolvidas de uma pessoa difícil, sem capa na língua, e que por isso e por muito mais do que isso, vive entre a liberdade de ter algum desejo, e a prisão que resulta do fato de não realizar de fato qualquer desejo, assim de forma completa, uma vontade, a mais simples, sempre fica pelo meio, sim, há muitas infelicidades. E não se lembra de nada que o faça chorar ou sorrir com vontade.

***

Darlan M Cunha: foto e texto

o imaginário / the imaginary

foco

***

Comece a narrativa com o que houver, principalmente, com o que não houver. A partir da cama tu vês boa parte do bairro, ou estás pensando no café da manhã ? aonde irás, após o ritual matinal ? qual será a primeira fila do dia ? deixe essa latinha ainda desligada um pouco mais – esqueça, poupe conversas inúteis, abobrinhas diárias, ou conversas pra boi dormir. Mude o valor das montanhas à frente. Estás bem de saúde ? Talvez já não estejas bem de saúde física ou mental, mas não sabes. Viver é teatro, é comprar e vender, cada qual com a sua pescaria, o mercado está em todo lugar. Meu nome é Nada, eu venho de Ur, cidade primeira da Mesopotâmia, hoje, Iraque, mas passei uns tempos em Sodoma e Gomorra. Comece ou continue a tua narrativa.

*

Start the narrative, dear friend, with whatever there is, especially with what there isn’t. From your bed, you see what: part of the neighborhood, or are you thinking about breakfast ? where will you go, after the morning ritual ? what will be the first line of the day ? leave that little can still off a little longer – forget about it, save yourself useless conversations, daily nonsense, conversations for sleeping. Change the value of the mountains ahead. Are you in good health ? Maybe you are not in good physical or mental health, but you don’t know it. Living is theater, it’s buying and selling, each one with his own fishery, the market is everywhere. My name is Nada, I come from Ur, the first city in Mesopotamia, today, Iraq, but I spent some time in Sodom and Gomorrah. Start or continue your narrative.

*

Darlan M Cunha: foto e texto

Mãe, teus pés são o meu rumo

MÃE

***

CARTA À MÃE nº 169

Dona MARIA,

a Senhora está dormindo, cá estou eu bebendo sins e nãos, bebendo café, rindo de mim e mais ainda do mundo, este idiota com e contra o qual se tem de lidar 25 horas por dia, mas deus – em quem não posso crer, porque sou o diabo em pessoa -, mas “deus proverá”, como a Senhora sempre diz, com essa bondade e esta alegria e esta energia aos 89 anos, que nem o poderoso chefão do céu tem, a Senhora com estes ene predicados que encantam a todos, e a quem a molecada não larga por nada.

Mãe, meu sossego, meu passatempo único (o qual muito me basta)

não se preocupe, porque a máquina de lavar roupas, que a rapaziada levou para uma troca de borracha e acho que de engrenagem, no dia de ontem, estará pronta e será entregue amanhã – sem falta, pois dei uma dura, de leve, caramba, R$490,00 o conserto, Mamma Mia ! Tive de pedir emprestado no boteco do Fuinha, pedi também para as minhas duas namoradas (até quando ? se descobrirem, estarei frito, terei de me mudar de barraco e de aldeia), um pouco também dos empréstimos veio do padre Abílio, e outro tanto veio do Gerardo Doido, bom rapaz. Mãe é Mãe.

Mãe, meu cordão de diamantes variados, minha catapulta para a felicidade

Ah, outra coisa: o dia de ontem foi de amargar, e olha que eu sempre tenho a segunda-feira como sendo, disparado, o melhor dia da semana, por ser o dia em que a galera ou o povão vai ralar, depois da macarronada e do frango e do fútilbol e do namoro dominicais, pois não há Plano B. Escute essas: A operadora de tv e/ou o banco aprontaram uma para cima de mim, que estava atrasado uns doze dias no plano de televisão de fibra ótica, sem saber, porque sempre foi débito automático, e este seu anjinho sem saber DE NADA, em tempo da Lei bater as botas sujas aqui na porta do humilde mas asseado barraco, e ainda mais nesses tempos de patologia letal, que colocou o mundo inteiro de joelhos, quando todos e todas se achavam, sim, os bonitões e gostosonas e poderosos e não se mais o quê. Menos uns poucos como eu e a Senhora, e muitas outras pessoas de bom tino. Eu tive de ir ao banco, com mil papéis e pedidos humildes, mas tive de resolver a parada. Além disso, fui procurar o rapaz para ir na casa da Senhora para ele trocar uma chave da porta da sala, a qual simplesmente resolvera quebrar-se e deixar um cotoco lá dentro, e como a Senhora tinha uma de reserva, nem foi preciso fazer outra, e não ficou nem dez minutos, mas lá se foram R$ 40,00 pilas, pilas, como se diz lá no Rio Grande do Sul, ou caraminguás, como se costuma dizer lá pras bandas do Nordeste, etc. Penso em me mudar para os anéis de Saturno, mas só se a Senhora também for comigo, pois os preços estão nas nuvens, mas Saturno fica muito acima delas. Mãe é Mãe.

Mãinha, colibri da minha existência

Não há de ser nada, não sou reclamão, a não ser quando é preciso, e isso é todo dia. Hoje, prepararei para a Senhora um delicioso chá de hortelã com legítimo mel de abelhas de Santa Bárbara, MG, onde moramos já faz um século (o tempo não espera). Sei que a Senhora está embalada em desenhar e bordar tecidos, linduras assim tão lindas quanto o arco-íris, e sei que a Senhora está um tanto triste com a volta da neta Fá com o marido e o casal de filhinhos, depois de umas semanas no Brasil, voltaram para os EUA, com muitos presentes da Vovó. Almoçaremos boa macarronada, ou chuchu com ovos, ou cará com carne moída, ou então o trio do qual a Senhora gosta: quiabo com moranga e carne de panela. Eu vou preparar, não quero ver a minha Mãe no lufa-lufa e eu bebendo café e cerveja. Toma juízo, zebedeu filisteu.

MÃE MARIA, minha brisa matinal, meu doce de batata doce com coco ralado e canela em pau

vou me despedir, sim, este seu filho meio lerdo e desmiolado, quase analfabeto, mas decerto um bom garoto já vai se despedir. Mãe é Mãe.

Dona MARIA JOSÉ, prontinha para a Abertura dos JOGOS OLÍMPICOS de TÓQUIO, entusiasmada como sempre, serelepe aos 89 anos.

DARLAN

circular

Oriente Médio – Jordânia, Israel, Emirados…

***

Duas vezes ao dia os pastores e seu sustento colinas acima e morros abaixo, que a vida é isso, simples de se levar, mas é engano, pois onde tem gente tem ebulição, caudal de venenos, é do homem saquear o homem, e aqui não vai nenhuma apologia, e sim constatação simples até para alguém pouco de juízo, de letras, de percepção maior, que é o caso deste incréu. Uma vez por dia vai-se para a turbulência necessária das hastes espinhosas, também conhecidas como ruas praças becos alamedas e avenidas, uma vez por dia o formigueiro acende seu facho no metrô, nas passarelas, viadutos, túneis, teleféricos, nos mil e um olhos vermelhos e nas rotatórias, filas e mais desenganos, enfim, é de se notar que nem todos sorriem quando voltam, se voltam.

Darlan M Cunha: foto e texto

onírico 1

NO DIA 13 SET 2013 FIZ UMA POSTAGEM COM ESSA MESMA TELA DO PINTOR JOAN MIRÓ. AQUI: https://uaima.wordpress.com/tag/cao-latindo-para-a-lua/

***

Gosto dessa tela, do distanciamento ao qual ela me leva, da sensação de impotência geral (note-se a frustração do pequeno vira-latas), à possibilidade de crescimento (o arquétipo escada diz tudo), um espaço e um tempo para pensar, estando consigo.

Cão uivando para a lua – o título dessa obra do espanhol Joan Miró (1893-1983), cujo estilo de pintar sugere a Infância, mas vai para além disso, extrapolando essa fase que ditará normas de coexistir, sendo que algumas ou muitas ficarão para trás, vencidas em seu tempo de encantamento, ou quase isso, porque nos enganamos.

Nunca me esqueci de uma vez em que estava em Arraial do Cabo, quando lá era sossegado, e a alguns quilômetros está a Praia do Sossego, um lugar tão pequeno que ainda nem se parecia com uma aldeia, uma vila, etc, mas hoje está com seus prédios e óbvios problemas. Era uma beleza. Depois do turismo em massa, eu e os e as colegas desaparecemos. Pois é, lembro-me com exatidão de estar sentado no areal, e uma garotinha e um cachorrinho iam e vinham correndo, gritando e rindo, o cãozinho latindo sem parar, por perseguirem e serem perseguidos pela maré, no seu infinito vaivém. Até hoje eu vejo aquela cena. Vamos que vamos.

Darlan M Cunha