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LIVRARIA STATUS >>> bairro SAVASSI – BHte, MG
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DARLANIANAS

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@1.

Novembro aí está, quente feito areal, para uns e umas, crescerá rápido feito bambu, para outros e outras terá passo de lesma, dolorido ou álacre, se dividirá de modo a que todos e todas tenham oportunidades, não iguais, porque não é do homem a igualdade. Novembro tá rodando, o homem quer ser maior do que o próprio alfabeto com o qual engana e é enganado.

@2.

Infância e adolescência são excelentes meios de transporte para se colar ideias alheias, sejam nebulosas ou claras, de mau ou de bom augúrio, para hoje e amanhã, mas afirmar que é para sempre esta empatia às vezes forçada, a qual mais tarde poderá tornar-se uma animosidade severa, é uma pretensão sem solidez, esperança de nuvens no deserto.

@3.

Há truques, táticas, manhas que nunca aprendi, belezas que não consegui executar, tal como assobiar colocando um mindinho em cada canto da boca, ó inveja e raiva dos meus amigos rindo-se da minha careta de idiota pego com as calças nas mãos. Mas deus proverá, como o povão diz, e assim me tornei no que sou: zero à esquerda, pavio encharcado de medos, às vezes, sonho com mulheres me maldizendo, e acordo geladinho.

@4.

Esta sociedade de facilidades, de premissas e promessas cada vez maiores em quase todos os aspectos, tem o seu lado azedo, feroz e até mesmo lúgubre, o qual, no conceito de muitos, passou de tal forma dos limites que não é possível dar-lhe mais campo de atuação, porque se faz necessário tentar outra visão para um convívio hoje tão leviano que é capaz de revirar os mortos. O que há de mais humano senão ser desumano ? De que se fala, quando se fala de respeito ? De algo estranho, de um morto do qual já não há resquício. Esqueçam Marylin, Luz del Fuego, lady Godiva, Somorra & Godoma, deixe-as cavalgar em paz, colher sua horta, pulverizar seu pomar contra pulgões da angústia.

@5.

Parece que as crianças vivem bem quando se descuida delas, aí reside o perigo, porque se ficam a sòs, vão ao mundo, descobrem algo, e uma delas aqui perto das escavações fez a aldeia tremer: – Achei um crânio. Quem quer alisar ou chutar de bola ? Adivinhem de quem é ? – perguntou e sorriu, ao contrário de Hamleto.

@6.

Na medida das horas, o formigueiro até então esparso nos passeios torna-se uma caudal com as mãos ao alto para frear os ônibus. Estão indo para casa, algum remorso pela pechincha não comprada, o emprego foi uma vez mais adiado, os papéis da aposentadoria estão incompletos, a batida foi feia, tanto que afundou a testa do ônibus urbano, mas todos voltam para suas casas, os pés inchados, um sorriso.

@7.                                                                                                  

Nasceu sob Sagitário, mas como não se dá a ler horóscopo, não sabe se viveu conforme os preceitos reservados aos sagitarianos, mas porque são louváveis, até capazes de extasiar, de fazer pessoas se comprometerem com o seu dia, com as suas perspectivas para a semana, atentos quase todos ao seu trajeto social, seu mundo afetivo, merecem um esforço de compreensão.

@8.

Não sei o tamanho deste lugar que já foi aldeia, arraial, povoado, vila e hoje é cidade que medra a olhos vistos, cresce feito certos bambus que chegam a 15 centímetros de crescimento diário, sim, a cidade passa a suicidade, passa a monstrópole com todos os seus deveres e haveres, muito mais aqueles do que estes, o formigueiro espalha-se, o longe fica ainda mais longe, decibéis levados nos tímpanos para casa, muitos microgramas e/ou miligramas diários de ar com chumbo, enxofre, parece que só perde para o cigarro em sua diversidade de sabores ou venenos. E todos felizes fingidamente felizes.

@.9

Breve história de uma obsessão ou compulsão ou mania ou simplesmente hábito, seria dizer que uma pessoa tem um fraco por talheres, e só por causa disso qualificar de maníaco alguém que se encontra consigo mesmo quando entre talheres e trempes está, pelo fato de que lhe apraz ir à cozinha, ainda que não todo dia, e servir uma mesa corriqueira a si e, às vezes, às visitas ? Cozinhando, pode-se viajar através dos cheiros e das cores, das formas e dos segredos de cada alimento, mormente dos temperos e condimentos tais como a canela e o cravo-da-índia. Hoje, tantas nuvens e véus após esta época, parece estranho que tenham havido escaramuças, batalhas pelo domínio de tudo aquilo que envolvia a posse de tais sabores. Os europeus sabem disso, depois de artimanhas pouco claras, pode-se imaginar bem a baba dos invasores ao sentirem o cheiro e o gosto escravizante do chocolate feito pelos Astecas (a Noite chegara, en nombre del Rey, en nombre de Diós), o mundo é isto de só saber dar voltas, por bem ou por mal, e em cada uma um mando diferente, ou tentativas.

@10.

Uma vizinha pegou-me num particular, porque queria me fazer saber o quanto gosta de mim, e o quanto isto é doloroso, nefasto e aniquilador para ela. Insciente da situação, pedi-lhe que me esquecesse, mas que, se fosse necessário, eu até me mudaria temporariamente, até que me esquecesse, até que sua memória me deletasse, porque a minha casa foi muito bem  pensada, e não iria deixá-la por nada – uma máscara do Benim, vasos e potes e ânforas no estilo greco-romano, cerâmica marajoara, queñas do Peru e da Bolívia, pipas, bilboquês e bolinhas de gude na mesa de centro da sala, e, para espanto das visitas, um estojo de vidro contendo doces típicos feitos para a maior festa dos mexicanos que é o Día de Los Muertos, a festa à qual todos vão passar a noite e a madrugada junto com seus parentes e amigos já falecidos, tudo bem regado com caveirinhas doces, isso mesmo, docinhos lindos feitos no formato de caveirinhas. Dá até dó comê-los, mas que não se faça desfeita. Sim, a festa das caveirinhas é em novembro. Bom, em frente, porque novembro promete, espero que sem os calcanhares da bela vizinha.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

mundo

ovo óvulo oval ovóide – Ovação, começo do mundo
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O que se sabe da história do ovo ? Não, nada de brincar com a cansativa pergunta sobre o que terá vindo primeiro ao mundo: ovo ou galinha. Mistério que ao cemistério vai.

Calma, deixe a cebola suar, depois, desfrute, até porque o mundo demorou a ser o que ele é hoje, e ainda assim o eixo dele continua inclinado e, igual aos seres que o habitam, é de se desconfiar dele(s). Aproveite o dia, com alardes, vocais intempestivos, mas adivinhe qual é a cor do púbis da mulher do Diabo, dos sovacos de suas concubinas, dos cílios e unhas de suas filhas. Adivinha quem irá para o trono, hoje, porque amanhã outro caminho será, um novo rio te banhará.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

solitude

EDWARD HOPPER (USA) – Night-shadows, 1921
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A EDUCAÇÃO PELA PEDRADA

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Incógnita durante o voo

uma pedra caiu no quarteirão

vizinho, logo

duas e mais pedras retornaram

reabrindo o vínculo de parábolas,

o círculo de fogo pulverizando tudo

de forma que em breve faltará pedra

e a educação pela pedrada

ficará em maus lençóis, vazios.

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Poema: Darlan M Cunha

aeiouar*

Viver é SER degrau gradIENTe instintO
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Aqueles que se rejeitam sabem que não buscam os mesmos caminhos, não estudam os mesmos múltiplos de três, não se abrem às trilhas mais indóceis, são a febre sem limites que as aldeias pregam todos os dias, porém, mais além delas, outros rastilhos de pólvora procuram um pavio redentor, pois ao largo de tantos radicais, há quem se cumpra noutro tipo de renovação, qual seja o de se estar pendente para a fusão, não para a fissão, que o mundo, embora multipolar, são bipolares seus usuários.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

OBS.: A expressão ou palavra que titula essa postagem, minha memória trouxe-a de João Guimarães Rosa, mas não me lembro em qual obra dele ela está, muito embora eu a conheça há muito tempo, e até mesmo a utilizei em livro meu.

flanar

FOOTSITE
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Meu nome é Plataforma, ajo dentro da lei dos negócios ditados por mim, pela minha visão do horizonte daqui a uma hora, a pressa é necessária neste Grande Emaranhado, diferente, por exemplo, da obra do pintor Edward Hopper em sua serenidade também ela algo defensiva, quase doentia.

Eu me chamo Site, e advogo, para mim e os meus, mais trevos ou apêndices ou coletores de dados ou rastreadores, a fatia que me cabe e a que não me quer no Grande Engodo, e por isso mantenho à mesa este escancarado radical, mas objetivo: Dai a César o que é das cesarianas.

Fui inventado com o nome Blog, devo ser os calcanhares da pressa sobre os incapazes de escolher até mesmo batatas no mercado, e instigo as vítimas a continuar no funil eletrônico, no bueiro, não raro, pedindo a própria senha emprestada ao ladrão, trocando seus dividendos sadios por dados podres na dança de mensagens e comentários – a balança dos aprendizes.

Meu nome já foi infinito, hoje, dentro e além-lá das entradas sem saída da www, ele ri do medo / fear / miedo / ängstlicht / сtрах / paura/ 恐懼的… enfim, ri do Corpo de Baile Geral.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Textos curvos: ilhas, iscas & uivos – 8 (final)

CORDAS EM PARALELO: SIMBOLISMO
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Apressar o passo das colheitas, da marreta, do ato, aligeirar a preguiça, o manco e o cego, o surdo e o mudo, a afronta salarial, verticalizar todos os inapetentes e desassombrar as frígidas, fazendo o Bem sem olhar a quem, ou o Mal. Isso depende de muitos fatores. Desliza por baixo das anáguas do mar, nas espumas bem cláridas da Ilha do Nada.

DARLAN M CUNHA (MG, Brasil)

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Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar. Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto, quem não muda as marcas no supermercado, não arrisca vestir uma cor nova, não conversa com quem não conhece. […] Talvez não tenha vivido em mim mesmo, talvez tenha vivido a vida dos outros.”

PABLO NERUDA (Chile. Nobel de Literatura 1971. CONFESSO QUE VIVI).

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Ninguém se atreveu a intervir. Uriarte perdera terreno, Duncan então carregou. Os corpos já quase se tocavam. O aço de Uriarte buscava a cara de Duncan. Subitamente, nos parecera mais curto, porque penetrara no peito. Duncan ficou estendido na grama. Foi então que disse com voz muito baixa: – Que esquisito. Tudo isso é como um sonho. Não fechou os olhos, não se moveu, e já tinha visto homem morto. Maneco Uriarte inclinou-se sobre o morto e pediu-lhe que o perdoasse. Soluçava mesmo. O que acabara de cometer o dilacerava. Agora sei que se arrependia menos de um crime que da execução de um ato insensato.

PABLO NERUDA (Chile, Nobel de Literatura 1999. HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA & OUTRAS HISTÓRIAS).

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A esposa, sob a fantasia contínua, não só chegou temerariamente a essa conclusão, como esta transformou sua vida em mais alargada e perplexa, em mais rica, e até supersticiosa. Cada coisa parecia o sinal de outra coisa, tudo era simbólico, e mesmo um pouco espírita dentro do que o catolicismo permitiria. Não só ela passou temerariamente a isso como – provocada exclusivamente pelo fato de ser mulher – passou a pensar que um outro homem a salvaria. O que não chegava a ser um absurdo. Ela sabia que não era. Ter meia razão a confundia, mergulhava-a em meditação.  //  O marido, influenciado pelo ambiente de masculinidade aflita em que vivia, e pela sua própria, que era tímida mas efetiva, começou a pensar que muitas aventuras amorosas seriam a vida.  //  Sonhadores, eles passaram a sofrer sonhadores, era heroico suportar. Calados quanto ao entrevisto por cada um, discordando quanto à hora mais conveniente de jantar, um servindo de sacrifício para o outro, amor é sacrifício.

CLARICE LISPECTOR (Ucrânia / Brasil). A LEGIÃO ESTRANGEIRA, cap. Os Obedientes.)

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Foto: Darlan M Cunha. (Fim da série).

A ESTRADA & O VIOLEIRO, autor SIDNEY MILLER (RJ, Brasil – 1945 / 1980). Cantam: MPB-4 e QUARTETO EM CY: https://www.youtube.com/watch?v=rMzhevB_y-U

Textos brutos: dias de breu, noites rubras – 7

densidade
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“Os recalques atualizam e requintam a inveja, a injúria, o ódio, a insônia, e a recíproca é verdadeira.”

DARLAN M CUNHA – (MG, Brasil)

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“E aquele homem suou sangue // para fazer essa ferrovia // e o que ele conseguiu com isso ? // Ele disse uma coisa: Como ela custa // como qualquer guerra contra os índios custa ao governo // 20.000 dólares por cabeça // para eliminar os guerreiros de pele vermelha, seria mais humano / e até mais barato educar […]”

EZRA POUND. OS CANTOS, Canto XXII – (USA)

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O lugar onde os tupiniquins foram aprisionados ficava a umas duas boas milhas distante da costa. Remávamos então tão depressa quanto podíamos, de volta para a terra, a fim de acamparmos novamente no mesmo sítio que a noite passada. Pela tarde, pouco antes do pôr do sol chegamos à terra, em Maembipe. Levou aí cada um seu prisioneiro para a sua cabana. Aqueles que estavam muito feridos foram arrastados à praia, mortos imediatamente e cortados em pedaços, segundo o seu costume, assando-se então a carne. Entre os que foram assados nessa noite, encontravam-se dois mamelucos que eram cristãos. Um deles era um português de nome Jorge Ferreira, filho de capitão, que o havia tido de uma índia. O outro chamava-se Jerônimo. Havia capturado este um selvagem chamado Paraguá, que morava comigo numa cabana. Paraguá assou Jerônimo durante a noite, a um passo mais ou menos da minha cama. Jerônimo (que Deus o tenha) era parente próximo de Diogo de Braga.

HANS STADEN (Alemanha). Duas viagens ao Brasil – 1542 / 1555, cap. 43

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Era sabido que ele viera dos sertões advogar os sagrados direitos da Igreja com o mesmo fanático destemor com que saíra a pregar para selvagens sedentos de sangue, destituídos de compaixão humana, e de qualquer outro tipo de culto. Rumores de proporções legendárias falavam de suas vitórias como missionário além dos olhos de gente cristã. Ele havia batizado nações inteiras de índios, vivendo entre eles como se fosse ele próprio selvagem. Contava-se que o padre costumava cavalgar com os seus ídolos, dias a fio, seminu, carregando um escudo de pele de boi e sem dúvida uma longa lança também – quem sabe ?

JOSEPH CONRAD (Polônia). NOSTROMO, cap. 5

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Imagem: Darlan M Cunha

MPB-4 (RJ, Brasil). PESADELO. : https://www.youtube.com/watch?v=OOZ0TVSKBWU&list=OLAK5uy_n92bpW8gdIKrP96UpMfpnMZgpX6w-YS_k

Textos frios: rastilhos & pavios – 6

A Grande Serpente de Pedra
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UMA MANHÃ
para Xia, que viaja sozinha para o Tibete

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Uma manhã
uma manhã com bocejos e cansaço
eu imagino
entre você e as terras altas
o céu é impensável
profundo
sem vento, sem nuvens, sem névoa
translúcido o azul evanescente como em nenhum outro lugar
[…]

[…] O tempo oscilante
engravida meus sonhos
as montanhas nevadas no ar rarefeito
colhem ansiosas
a fumaça de seu suspiro
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LIU XIAOBO. NOBEL de Literatura 2010 – CHINA, 1955/2017

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Eu não quero ir lá embaixo. Quando criança, brinquei nas casamatas e encontrei uns ossinhos, até um crânio, não sei de quem. Ela que vá ! Ela que se enfurne o mais fundo possível, e que todos os ratos do mundo sejam tragados pela terra, em sua companhia, eu viro a página, e quero que as coisas continuem. Quero ficar com pelancas, sulcado de rugas, velho e decrépito, contando malvadas histórias da carochinha […] // A velha grita, em alemão, primeiro sozinha, depois acompanhada pela oceanógrafa: – Parem com essa contagem idiota de águas-vivas ! […] // Chove, como é frequente chover neste verão que a chuva estragou. Fora isso, não acontece nada, até que alguém atira uma pedra e vidraças se estilhaçam, ao que muitas pedras são atiradas. As janelas da fachada do Instituto de Pesquisas Básicas não demoram a ficar todas quebradas.

A RATAZANA. GÜNTER GRASS (Nobel de Literatura 1999. Alemanha)

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Nem pense nisso. Ele gostava dela. Acho mesmo que ele nunca amou mulher nenhuma como amou essa. E já a entregaram a ele sofrida e talvez louca. Amou-a tanto que passou o resto de seus anos arriado numa cadeirinha de cipó olhando o caminho por onde a levaram para o cemitério. Perdeu o interesse por tudo. Desocupou suas terras e mandou queimar os trastes. Uns dizem que foi porque estava cansado, outros porque a desilusão tomou conta dele, a verdade é que expulsou as pessoas e se sentou na cadeira de cipó, de cara para o caminho.

PEDRO PÁRAMO. JUAN RULFO (Prêmio Príncipe das Astúrias 1983. México)

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CANTIGA BRAVA. GERALDO VANDRÉ (PB, Brasil): https://www.youtube.com/watch?v=09bZl8Rr-NQ