desaparecidos

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Região BH / Nova Lima, vista do bairro Belvedere, BH

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     Entra num ônibus municipal e senta-se na parte da frente reservada às pessoas com deficiência, idosos, etc. À sua frente, um cartaz de notícias da prefeitura, logo atrás do motorista, dando conta de alguns eventos culturais pela cidade, outras notas ensinando bons modos ao povo, como se comportar nos ônibus – mensagem sempre dizendo que gentileza é, e por aí vai. Mas o que mais chama a atenção, e comove, é o espaço dedicado às pessoas desaparecidas: crianças, adolescentes, adultos, idosos, senis, todos e todas com a data do sumiço, alguns e algumas já com anos sem notícias, mas as famílias não desistem, e assim, enquanto o ônibus cumpre o trajeto, fica pensando no peso da angústia que invade a mesa, o sofá, a cama, enfim, o que abala todo o psiquismo da família e das pessoas de fato amigas, quase toda a aldeia, quase toda, isso porque há os cegos e os egoístas.     

     Alguns podem ter sido raptados, outras também, mas com intuito inconfessável, assim também com as crianças, alguns jovens já estavam fartos de desentendimentos gerais em casa, e se foram, sem aviso, para nunca mais; os idosos podem estar acometidos, por exemplo, pelo mal de Alzheimer, uma patologia na qual a pessoa está viva, mas está morta, porque o cérebro já não existe, tudo o que há é o esquecimento, a amnésia constante, irreversível. Mais devastador do que o mal de Parkinson e o câncer é este sofrer, já que a rede neurológica ruiu.

     Sempre salta do ônibus com uma estranha sensação que fica entre a insustentável leveza de ser o que se é, e a sensação de ser personagem da história da beleza* quanto da história da feiura.* Outras vezes, acha que está no Inferno, de Dante.*

 

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Texto e foto: DARLAN M CUNHA

Alusões a livros:

A Insustentável Leveza do Ser   >>>   Milan Kundera

História da Beleza   >>>   Umberto Eco

História da Feiura   >>> Umberto Eco

A Divina Comédia   >>> Dante Alighieri

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O Mercado Central nos 120 anos de BELO HORIZONTE (12 dez 2017)

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     Já ouvi e já contei histórias inúmeras no Mercado Central de BH, o qual foi eleito pela população como sendo “A cara de BH”, concorrendo, por exemplo, com a internacional Pampuha, a Praça Sete, o imenso Parque das Mangabeiras, o Mineirão, etc.

    Mas vamos a outros pontos ou a outras paragens, opiniões, divergências, gargalhadas, choros, desejos reprimidos (tantos !). 

     Pelo menos uma vez por dia deixe a boca de lado, racional, porosa, previdente, e fale com o coração, pelo menos uma vez por dia chute os baldes e execre o que se acha são, batendo a porta na tua cara e nas caras do entorno. Ó, miséria pouca é bobagem, diz o povo, mas o povo não sabe de nada, só ri, ri até cair e ficar por aí, com dor nas costas, cefaleia, dívidas.

    Lembra: enquanto dormes, coisas acontecem, fendas se abrem, mas a felicidade luta.

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Foto e texto: DARLAN M CUNHA

estrado/estrada

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Estrado é estrada para o sono ou para o pesadelo

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O Brasil é um país que desmoraliza o absurdo.”

– DIAS GOMES

 

     Logo na primeira noite o presidiário percebe que não há como se enganar, porque se a noite existe para servir de descanso ao corpo e à mente, nem sempre isto é possível, não é possível exercer a calma, nem mesmo às tantas da madrugada, não é possível nos tempos de hoje uma noite sequer sem a insônia geral, sem a prostração do presidiário (a primeira noite a gente nunca esquece), nada disso é possível para as fábricas automotivas, hospitais, metalurgias, aeroportos, portos, taxistas, sexistas, lobisomens, vigias, porteiros de condomínios, ônibus e trens interestaduais, enfim, um vórtice total, porque já não há ferrugem nas noites, as noites vieram para ficar e reinar.

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Foto e texto: DARLAN M CUNHA

 

Ser ou ser

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Hay gobierno? Se hay soy contra!

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     Casou-se bem jovem, teve quatorze filhos e filhas, por duas vezes nasceram gêmeos e gêmeas. Doce pessoa. Fora do casamento, o pai teve filho e filha, psiquismo exacerbado, cérebro convulso, pinto bailarino, benfeitor de domésticas, inquilino das nuvens, totem. Teria de ganhar bem para amparar essa multidão. Bendito seja o fruto do vosso vento.

     Gosto de chutar latas de lixo da cidade, chutar vira-latas, pôr guizos no rabo de cães e gatos, pois é bom vê-los desesperados pelas ruas, fazendo barulho ao arrastarem latas de sardinha, enquanto me encrenco com panacas, sintonizando alto o som, no velho estilo de sexo, droga e rock and roll, sim, sou do contra.

     Hay gobierno? Se hay soy contra!

     Domingo pede cachimbo, diz o dito popular, sendo também o dia nacional da macar-ronada com frango, e de futebol visto de cima ou de dentro do velho sofá.

Leiamos Clarice: “Eu era talvez a primeira pessoa a pisar naquele castelo no ar.” *

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Foto e texto: DARLAN M CUNHA

 * citação: CLARICE LISPECTOR. A Paixão Segundo GH, p.127

ARTE & DITOS POPULARES

AEROPORTO INTERNACIONAL TANCREDO NEVESAeroporto Internacional Tancredo Neves – CONFINS-BH

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     Querer é poder, diz o ditado popular. Quero melhorar minha estrutura, mas vários fatores atuam contra tal premissa, tal vontade, sendo que o fator principal contrário a mim sou eu mesmo, além da família, da rua, do bairro, da suicidade, do país e do mundo, isto sem contar com o inexistente paraíso.

     Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura, outro dito popular. Às vezes, sinto que sou água, água limpa, água salobra, água de aquífero, água de cenote (México), e por aí vai minha agonia (pra mim basta um dia, não mais que um dia, um meio dia…, diz uma antiga canção do Chico); porém, às vezes, sinto-me como uma pedra, aquela sem rumo, estagnada, servindo de pouso a lagartixas, cobras, aves, homens. Fico indeciso sobre qual partido tomar, ou se fico bissexual.

     Guarde o que comer, mas não guarde o que fazer, velho dito popular, carregado de suor de muitas gerações. Minhas avós eram mestras, e minha mãe, às vésperas dos 86, sempre me passa sabedoria e “pitos”, hehehe.

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Texto e foto: DARLAN M CUNHA

 

 

braço

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monstro à porta de casa

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     Todos precisamos de manutenção, e ela virá nalguma altura da existência, isso é bem normal, e nada pode escapar, ninguém se livrará disso, que até mesmo a carne deste caminhão necessitará de médicos especialistas. Nós, sob tanto sol, tanta ira e apreensão, enfim, as coronárias sofrem, os rins sofrem com tanta bebida, o fígado grita horrores, a cefaleia é quase uma constante, taquicardia, pressão arterial a 160/120, alguma dívida, o time de futebol de preferência sempre “nas últimas”, a vovó adoentada, o dente latindo, o trânsito nosso de cada dia – este maravilhoso feitor de surdos, e assim por diante. Tudo precisa de uma geral, de vez em vez, mas é por isso mesmo que se sabe que se está vivo. Viva a vida.

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Texto e foto: DARLAN M CUNHA

Surubim

Surubim

Surubim= pintado, moleque, loango, brutelo e cachara

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     Quando estou nervoso, vou espraiar na cozinha, romper correntes sociais, matar saudades seja lá de que tipo forem – de amigos e amigas que se foram, alguma cidade, algum livro, uma canção, um rio ou um riacho, alguma viagem imprevista que tenha se tornado marcante, enfim, sempre há uma lembrança dentro da gente.

    Quando estou nervoso, abro o verbo, digo que estou com a macaca, que odeio gente em geral, que desprezo qualquer tipo de religião, filosofia barata, sonho comigo batendo bolsas e carteiras, rindo de velhos e jovens, colocando pregos debaixo de pneus, pondo escorpiões nos sapatos alheios, mexendo com a mulher do próximo, enfim, o cão.

     Mas sou bom garoto. Perguntem à minha mãe – que comeu comigo este surubim que preparei nesta linda panela de pedra, uma peixada com azeite, cebola, pimentão, batatas, coentro, salsa, tomate e azeitonas.

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Foto, peixada e texto: DARLAN M CUNHA

 

Almoço urbano

Cavalo, almoçando em frente à nossa casa.

Um cavalo almoçando em frente à minha casa

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              “Mortos os mortos, e vivos os vivos, assim os contemplei, e mesmo aquele que alcançou ver os originais destes fatos não viu algo mais perfeitamente verdadeiro do que eu vi no chão, enquanto, cabisbaixo, avançava. Curvai a fronte, deixai a postura altiva, ó filhos de Eva, e observai sob os vossos pés o vosso caminho soturno.”

 

Foto: Darlan M Cunha

Texto: Dante Alighieri (A Divina Comédia, p. 160)

Texto

N. S. do Rosário – Santa Bárbara, MG

Nossa Senhora do Roário dos Pretos

SANTA BÁRBARA, MG (na praça ao lado da minha ex-casa)

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     Já faz muito tempo que perdi a fé no que quer que seja – menos na amizade, que é uma construção humana digna de ser preservada, embora que nesses tempos de se ir e vir sem que se olhe para o vizinho as coisas ficam complicadas. Mas vamos em frente, que atrás vem gente – diz o ditado popular. Esquecer o celular, e de frente conversar.

Darlan M Cunha

katana

02-5, katana rikai

02-5, katana rikai

 

Katana, a famosa e temida espada japonesa, feita à mão, sob braseiro constante, cujo aço é de uma beleza extrema, é considerada uma obra de arte. Foram centenas de anos de aprimoramento, sempre em pequenas “oficinas” dos grandes mestres.

Darlan M Cunha