ação e reação

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cabo de guerra

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     Pelo que me lembro, os últimos cabos de guerra de que participei foi no Exército, no milênio passado (lexicógrafos e dicionaristas, enfim, os doutos no idioma fizeram tanta força, de lado a lado, que a grafia deste substantivo perdeu os hífens, foram para o chão), mas outros cabos de guerra e de falsas baianas existem e nos afligem todos os dias (falsa baiana é o tormento de se caminhar numa corda suspensa, e segurar-se noutra, acima da cabeça, entre as quais os infelizes andam, balançam e gemem e tremem, às vezes, caem no rio cuja boca sorridente espera pelos fracos e descuidados), mas esta é outra história.

     Nesse tipo de brincadeira o que não falta é o ar de pilhérias e gargalhadas sem fim, tombos e bundas doendo, às vezes, alguma aposta esdrúxula faz com que os dois lados se esforcem em dobro.

     Pensando nisso, está na hora de ir ao Grande Mercado, ao Enxame do Dia, à Lavoura do Incerto. Haja corda, haja pescoço… e pilhérias e gargalhadas. É como diz a canção, e a gente vai tomando, que também sem a cachaça, ninguém segura esse rojão.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

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sobre as marés e o psiquismo: lua

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lua em agosto

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A lua em agosto é grande foco de leituras diversas

um olho nos dentes da aldeia cujo corpo de texto

se arrasta, difícil, indócil cada vez mais

a palavra se afasta da palavra, todo o sem nexo

pairando sobre a arquitontura geral com indícios

de razias, rachas sobre quatro borrachas, a aversão

de sua luz pelo que jaz na estante, decerto que nada importa

ao olho de agosto, cheio de si, rumo a ser minguante.

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foto e poema: Darlan M Cunha

 

sabor a mi

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panela de pedra-sabão ainda por ser “curada” para o uso cotidiário

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     Insetos no piano, o tabuleiro de damas soltando vivas à incoerência, formigas no polo sul e beija-flores no polo norte, um pé virado para trás, vigiando as pegadas. Foi assim que ele ficou depois de algum tempo consigo mesmo – aloucado, como se tivesse sofrido uma trepanação mal sucedida, ou se a conta bancária tivesse sido invadida, via homebanking, mas sem clarear nada sobre o assunto. Afinal, em se tratando da própria via crucis, nem sempre a melhor atitude pode ser a de pôr a boca na orquestra, em especial, no trombone ou no baixo-tuba.

     O primo Haroldo Dente Azul sabe disso (a Dinamarca teve monarca com esse nome e essa alcunha), uzeiro e vezeiro em transgredir o novo e o arcaico, inventa todo tipo de instrumento musical, pás para desovar a terra, sentindo seus impulsos, cava e escava feito dentista na lida. E assim ele põe boca de trompete nos bandolins, perna de violoncelo nos violões, réstias de alho e de cebola nos címbalos, bolas de algodão no interior de bumbos e taróis, além de dar nó nas flautas transversas, de modo que o ré bemol e o sol sustenido ficam alterados, enfim, uma rareza. Leio com ele Memórias Não Ditas de Brás Cubas, e de outros que o mundo certamente tem e esconde. Memórias sem futuro, mas é preciso ir a elas, ou nunca saberemos um pouco de nada.

     Nada como uma segunda-feira radiosa, jubilante, com dois pesos e três medidas.

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foto e texto: Darlan M Cunha

…3…2…1

Contagem regressiva 3

contagem regressiva // put your hands up

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       O povo sempre acha ou faz motivos para se mexer, e para se aquietar nesse tempo de isolamento, de individualismo sem paralelo, teleguiado cada vez mais. As pessoas estão apegadas de tal forma à tela, que não se dão conta de quem vai ao seu lado num ônibus, não sentem quem está à frente e atrás de si numa fila, não percebem a contagem regressiva que de fato interessa, a qual se aproxima do fim, em progressão geométrica. Com isso em mente, ouço a música começaria tudo outra vez, se preciso fosse…*

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foto e texto: Darlan M Cunha

Não precisa da solidão, todo dia é dia de viver*

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Heliporto, bairro São Bento e região. BELO HORIZONTE, MG

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       A cidade faz suas partilhas, atende de segunda a segunda, sem descanso, não imita Deus, que descansou no sétimo dia, de acordo com a lenda, ora, a suicidade é lépida, tem o que fazer, inventando e desinventando entradas e saídas, ela é totem e tabu, lugar por excelência de encontros e despedidas, arena de encontros fortuitos e camaradagens rápidas, na conta de uma dúzia de cervejas e mil opiniões e recomendações, verdade, a monstrópole tem boca roaz, mas é nela que vive a felicidade ambulante, cheia de dedos e psicologias ocas, perneta e zarolha, carente de muito, cheia de vazões, crimes para dar e vender, a aldeia é o máximo divisor comum, fedendo a peixe, ferve de gente nas feiras e mercados, filas para isso e aquilo, é uma beleza de sorrisos no canto da boca, do outro lado da boca o cigarro e o desdém, o pigarro e um amém de todos, mal raia o dia, diz o poema, “entanto lutamos”. “Todos se acham mortais, dividem a noite, a lua e até solidão.”

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foto e crônica: Darlan M Cunha

Carlos Drummond de Andrade: poema O Lutador. Fernando Brant, Márcio Borges e Lô Borges >>> Para Lennon e McCartney.  Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges >>> Clube da Esquina nº 1

Louvaminhas numa quinta-feira

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calos da terra

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Louvados sejam o sal e a cal que tudo demandam em prol de ti

louvados sejam os trevos que nos enchem os nervos

com canseiras maiores do que pode a cama absorver e comutar

louvemos os aríetes com que derrubarmos demências na forma de muros

embora que por algum tempo os muros nos salvem do Outro

nos salvem de nos revelarmos de todo a nós mesmos

louvados sejam o prumo para a construção e o arroz ao lado do feijão

a boca cheia de tufões ou de formigas senão de vontades esquecidas

mas tanto no céu da boca quanto no céu divino o que há de fato

escapa à compreensão cabal do nome e do sobrenome cada vez mais

sem escala própria sem identidade sem aquilo que é ainda pior

de não se ter à mão: a intimidade e a vontade própria e consciente para agir

tornando padrão o exato necessário ao teu chão – o sim e o não.

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cozinha, foto e poema: Darlan M Cunha

não responda não pergunte*

Av. Prof. Mário Werneck... Buritis, BH

O cerebelo da Era Lula // Temer no Museu do Futuro

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       O cerebelo age sobre os movimentos ou reflexos voluntários, coordena a postura corporal, responsável pelo tono muscular, etc. Pois bem, dizem que o governo – o qual está sendo julgado neste momento, no Congresso Nacional, ou não, porque há os que advogam uma abstenção de voto – está em perigo, pois é isso mesmo o que acontece com quem anda em más companhias.

       Eu também cometi esse engano, ene vezes, esquecido dos conselhos da mamãe Maria José, conselhos de toda mãe: – “Filho, fique longe dessa gente, dessas más companhias. Procure um ofício, mude-se de cidade, vá morar com seus avós maternos ou paternos”, dizia-me a mãezinha, hoje com 85 anos, mas tudo em vão, pois o Mal é um ímã poderoso, capaz de cegar até certos governos, tornando-os desgovernos. Só rindo, chorando.

       Como diz a canção do ilustre compositor Walter Franco, “é a cabeça, irmão”, e essa outra também do próprio: “não pergunte, não responda”.

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foto e texto: Darlan M Cunha

(bairro Buritis, Belo Horizonte, MG)

elementos

Lagoa da Pampulha 1

Lagoa da Pampulha, BELO HORIZONTE, MG

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       Em agosto, o vento dá as caras por aqui, e ainda que não mate, cresta os rostos e dá asas aos anúncios, às placas de trânsito e às saias. As mãos, por terem pouca irrigação, sofrem suas picadas. Mas o que é o vento natural diante dos ventos sociais, quase nunca de bem com a saúde do cotidiano ? Lembro-me do poema Congresso dos Ventos:

 

Na várzea extensa do Capibaribe, em pleno mês de agosto

Reuniram-se em congresso todos os ventos do mundo;

Àquela planície clara, feita de luz aberta na luz e de amplidão cingida,

Onde o grande céu se encurva sobre verdes e verdes, sobre lentos telhados, […]*

 

       Em agosto, que a vida seja leve, que as vítimas não saibam de nada, comentários se abram (como é difícil deixar umas palavras, talvez porque falar cansa, escrever dói – é o que parece). Em agosto, não se ouça a palavra julho, talvez seja melhor citar setembro, o amanhã, mas um sambista diz que meu tempo é hoje.*

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foto e texto: Darlan M Cunha

dia sadio

The King, The Balistic Missil, WindMan

Quenianos e etíopes, com todo o respeito que lhes é devido, que se cuidem.

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     O que aqui se faz aqui se paga, diz o povo, em sua sabedoria, deixando de fora deus e o diabo, que o acerto seja feito aqui, que aqui se pague o faroeste, a lei de Talião, de Salomão, do Rubicão, do Chicão e de quem mais, ou não, pois há tantos erros e crimes não pagos que o melhor é levar em conta que desvios conscientes de conduta tomaram conta dos lares (ainda existem ?), das ruas, das casas públicas.

     O mar é museu de cuspo branco, de jogar suas anáguas na praia, de vomitar um caldo negro muito antigo de enome poder & discórdia, com prazo marcado para acabar. O que se faz aqui, aqui se paga, diz o povo; e se há pragas de gafanhotos e de formigas, se há virologias renovadas nas esquinas, o homem não desanima, que o instinto não permite baixar a guarda, e até mesmo as pedras reagem ao fim, escondendo-se no próprio pó, pelo que ninguém mais dirá que uma pedra no meio do caminho. Sem pedras não há como construir uma educação pela pedra, e nem pela pedrada.

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foto e poema: Darlan M Cunha

https://paliavana4.blogspot.com

Minha Lenda, escritório

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     O escritório abre às sete, às vezes, às oito, senão às dez. Importar e exportar ideias de ganhos e perdas, que um não vive sem o outro, muito embora que, de acordo com uma canção, o sol não pode viver perto da lua. Música é música, negócios à parte, ganhar é o que há, viver é para ganhadores, é o mote sob o qual trabalha o escritório. Faça-nos uma visita, ainda que só para o cafezinho.

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foto e texto: Darlan M Cunha

AQUI, uma espetacular interpretação do UAKTI, tocando Águas de Março (Tom Jobim): https://www.youtube.com/watch?v=YtFs4emQixk