uma casa de pernetas, daltônicos, gagos, lábios leporinos, fans de rock proagres- sivo, estudiosos de minhocas e do bicho-da-seda, duetos do globo da morte – a rua

a luta

Ó vida, margarida !

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Eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender*

     Numa das muitas vezes em que passei pela avenida Nossa Senhora do Carmo, BH, um pouco desviado da minha rota mais comum para casa, deparei-me com esta cena, nem digo espetáculo. Todos já viram este cenário, palco, luta de gente botando seu bloco, seu oco nas ruas, até porque é preciso estar atento e forte. É a cabeça, irmão.

     Assim como a rua é uma casa muito engraçada, também é memória de panos negros, de painéis de cabeça para baixo, um grito parado no ar, e logo ali num bar as conjecturas, as filosofias de mal casados, descasadas, separadas, amaziados, desquitados, roedores de unhas (onicofagia), e por aí vai este longo rosário de sapatos cheios de pedrinhas que a suicidade comporta.

     Eu também quero botar meu ovo na rua.

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foto e texto: Darlan M Cunha

VISITE: https://www.poemhunter.com/darlan-m-cunha/

Entre (e fique)

 

suprarreal

uma casa muito engraçada*

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     Antes que o mundo se perca de vez, me mudarei para a beira de um rio já escolhido, pequeno, talvel ainda esteja limpo naquela data, no qual ficarei pescando pensamentos, maldizendo cobras e lagartos, rindo-me de mim mesmo e de outros motivos, mastigando folhas de azedinha, sem me preocupar com solilóquios e premonições, com síndrome de esquizofrenia, o hábito de falar sozinho e odiar calado aumentando a pressão interna até explodir e ser internado, ó, nada de acusma, alucinações de origens diversas, delírios, até chegar à catatonia ou ao suprassumo da perda de discernimento que é a cacofagia (em que o doente//paciente come as próprias fezes), não, nada disso me comoverá, e não irei aonde não devo, atento à minha própria guerra, e não às escaramuças mundo afora.

     Assim, antes do cataclisma final, o mundo cheio de cinzas, um silêncio só havido antes do mundo existir, estarei pescando, nu, à espera, o riso e a música por testemunhas. Após os últimos estertores do mundo eu me levantarei e deixarei a antiga sesta, começando um novo tempo, um admirável mundo novo. Quem viver, verá.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

cabelo, barba, bigode, cavanhaque, unhas e… impeachment ? é de se temer ?

salão 4

zona de conforto

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“O sono da Razão produz monstros”.

Francisco GOYA, pintor espanhol, 1746-1828

 

“Onde governa a razão, obedece o apetite”

Provérbio

 

“O coração tem razões que a própria razão desconhece”

Provérbio

 

“A razão é a faculdade superior de conhecimento que se opõe à faculdade empírica, à intuição, ou ainda a faculdade que produz as ideias de Alma, Mundo e Deus”.

Immanuel KANT (?), filósofo alemão,  1727-1804

 

Cofre público é como coração de mãe: tem espaço para todos.

Ditado popular

Este último e outros, aqui: http://www.aponarte.com.br/2009/05/ditados-politicos.html

maldades da mamãe

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roscas

    Tive um único livro sobre alimentos na minha biblioteca, a qual doei quase toda quando me mudei – um livro sobre alimentos típicos do Pará (sou mineiro da gema e da clara). Pois bem, pensando nos ocos da vida, fui rever Dona Maria, e eis o que encontro, saídas do fogão, com outros petiscos mais, o que ela faz constantemente: roscas. Ela sempre fica tramando biscoitos de polvilho, tortas de frango, doce de batata doce com coco ralado, biscoitos de coco, doce de requeijão, biscoitos “doidão”, pudim, pastéis…

     No próximo domingo, 28, ela (85 anos) embarcará para os EUA, para estar durante meses com filhas, filhos, genros, noras, netas, netos, bisnetas, bisnetos e duas trinetas ou tataranetas, já nem sei mais. E eu irei às padarias.

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foto e texto: Darlan M Cunha

longe do Congresso – 1

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Sem essa de toma lá, dá cá.

     Estou de mudança, como sublinhei numa postagem, mas ainda não me decidi para onde, para qual longitude e latitude ir: se para outro brejo ao sul, outro pântano a leste, algum mangue ao norte, outra prisão a oeste deste Nada, ou se para uma caverna, um iglu, uma nuvem ou uma toca de raposa, um balaio de gatos, quando não para o Diabo. Minhas pernas saberão dar conta dessa conta, do itinerário, seja qual for. Pensando bem, já que desaprendi de ter dois pesos e duas medidas, para Brasília (Carrapatolândia) não irei.

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foto e texto> Darlan M Cunha

foto feita em Medina (minha cidade natal), MG

ir

carrinho de mão

gerenciar a própria vida

     Estou de mudança, mas não para Pasárgada, ou NYC. Talvez eu reveja o convite para Brasília, pois, se quero mudar de ar, todas as possibilidades devem ser avaliadas. Dizem que na terra brasiliense ainda há sombra e água fresca suficientes para novos peregrinos e aventureiros, e até para gente de bem, embora que para entrar no redemoinho seja preciso muito jogo de cintura – sambra frevo maxixe xaxado bolero guarânia chamamé carimbó xote bugio bossa-nova galope-a-beira-mar chorinho…

    Mas o melhor é esquecer a cidade da catedral dos dedos de concreto, ir em surdina pela madrugada, inciente de tudo=ciente de nada, ou seja, às cidades invisíveis, montado num cavalinho de platiplanto, platero e eu, mas é certo que não irei para compostela, fátima ou para a canudos atual, e nem para aparecida.

     Enfim, aonde ir, nesse tempo de arritmias ? Nunca li Une saison en enfer. Para quê, se atuam junto a mim e a ti os braços do inferno social de hoje e de sempre ? Ontem, achei moeda de cinquenta centavos na Rua Bonfim, ao lado do cemistério de mesmo nome. Bons auspícios para a mudança. Irei.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Ser ou Nada

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Atletismo: altos e baixos

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MY ACTUAL SPYWARE LIST  //  MINHA LISTA ATUAL DE ESPIÕES SOBRE MIM:

 

  1. A vizinha à esquerda. Eu soube que ela usa microfones especiais nas paredes, de modo que qualquer ai, palavra, grito, muxoxo, choque entre garrafas, talheres, sons de libido, música, barulho de liquidificador ou de chinelos sendo arrastados, ela detecta tudo e repassa para a aldeia, Eis o bicho: nu.
  2. O vizinho do barraco à direita, parede contra parede. Pequenos furos no banheiro e no quarto, presumo que tardiamente detectados, convenceram-me de uma vez por todas que tenho um crápula, voyeur, como vizinho. Não cumprimento. Um homem nu e cru.
  3. É notório o que a Rede faz conosco, e também os governos sempre espiando, e as mil câmeras da cidade querem saber se te comportas de acordo, a fogueira social tem memórias que muitos querem esquecer ou, pelo menos, dissimular a existência, evitando que tais memórias sejam mantidas em evidência, através da oralidade, do giz, da caneta e do teclado, apagando córneas e neutralizando o tato. Portanto, ficar atento. Vestido ou nu.
  4. Os nervosos entendem de sopa social; os ateus percebem de longe as armadilhas gerais, pintam, escrevem, entendem a fundo o certo que há no errado (pois tudo é relativo, lembra). Mas eu já descobri, e atuo conforme essa descoberta, que não sou da direita, da esquerda, do centro, e sim um zero à esquerda, um ningres-ningres, Nada. Porém, até mesmo um Nada carrega pesos, encargos, vícios. O Ser e o Nada.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

O Diabo no meio do redemoinho (JGR)

O capcioso

O Cara – ícone, totem, tabu, libido, ator, pastor, ídolo das multidões

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     Lembrei-me de um dito popular que eu ouvia, quando criança: “O capeta atenta, e a faca entra”. Pois é, de cansaço em cansaço a despensa se enche, é preciso usar o acervo, os ingredientes, antes que nos esqueçamos deles de modo total, ou que tomem conta de nós, por tê-los inalado durante tanto tempo, visto suas formas, sentido suas nuanças, é verdade, a gente acumula um sem-fim de experiências, umas se sobrepõem a outras, e moldam de maneira mais incisiva o nosso caráter, junto com as outras – as perdedoras, por assim dizer, mas que ficam atuando em segundo plano.

II

PENSAR, DIZER:

– “Como eu poderia comer, se não cantasse ?”

Uma senhora centenária, de Zanzibar (Somewhere on Earth // Algum lugar na Terra, documentário no canal Mais, 44)

– “A poesia é uma coisa sensorial, compreende ?

João Cabral de Melo Neto, numa entrevista.

– “Sou um homem realizado: tenho certeza de que vou morrer.”

Esperidião Abílio de Souza Melo (vizinho)

 

Imagem> internet     >>>>>     Texto: Darlan M Cunha

Belafoto

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Manhã de 14/05 na Av. Olegário Maciel, em frente ao Mercado Novo. BH.

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     No dia 12 de maio de 2017, hackers colocaram 150 países de joelhos (cento e cinquenta), entre hospitais, instituições financeiras, governamentais, escolas, fábricas de automóveis, etc. O mundo sentiu, sente e sentirá o preço cobrado pela invasão, pela sátira, o peso dos punhos da justiça hacker, como um boxeador que recebe um upper cut, que vai a knockout – ou quase. Há quem aposte que foi coisa dos chineses, embora a China também tenha sido atingida; outros dizem que tudo começou nos EUA, outros culpam de frente a falha da Microsoft, mas, agora, a culpa está sendo deviada para uma personagem ate então fora deste jogo mortal: a Coréia do Norte. (Obs.: Quando você for a Seul e a outras cidades do país, evite dizer Coréia do Sul. Diga, Coréia, somente).

À boca pequena (ouvi sobre isso no Jornal da Manhã, TV SIC, Portugal, 15/04), aventa-se que isso pode ter começado com serviços secretos, mormente o dos EUA, porque todos criam ferramentas para sondar o outro, e o conteúdo pode cair em mãos erradas. Meu PC nada entende disso, treme, entalado com visitas à sua mesa pobre. Estes hackers exigem pagamento para desbloquearem computadores, feitos com a moeda virtual BITCOINS, difíceis ou impossíveis de ser rastreada.

     Se me derem o desprazer de um dia visitarem meu mocó BOLSO FURADO, morrerão à míngua na casa de quem aqui e agora vos escreve, e que até ri da infinita imbecilidade que nos assola, o ganho pelo ganho, a extorsão, a sátira. Just for laughs // Só rindo. Und es werden immer mehr // E eles são cada vez mais. Não falo e nem escrevo em coreano, e também não em inglês. Em português, sei dizer bom-dia.

     Mas, por qual motivo um pobre diabo com trânsito escassíssimo na Grande Rede do Grande Irmão, que nem sabe o beabá da web, deve contratar antivírus, se John McAfee, criador de uma das mais afamadas marcas do ramo, criador do antivírus McAfee, disse não usar antivírus no seu computador. Mas, vender para milhões de desesperados por segurança, pelo que não existe, ah, isso ele vende. Menschliches, Allzumenschliches // Humano, demasiado humano, como diria Friedrich W. Nietzsche. No entanto, pensando para além do bem e do mal, fico ou não fico com o presidente desertor de antivírus ? Já basta o que passei com o famigerado Avast, com outros. Não quero chorar, Dr. wannacry.

     Why you abandoned the antivirus? Are we antivirus users being abandoned? Why?

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Foto e texto: Darlan M Cunha

De última hora, e a propósito desta postagem, NÃO deixe de ler sobre este garoto: https://www.tecmundo.com.br/ataque-hacker/116671-especialista-matou-wannacry-o-ransomware-assustou-o-mundo.htm?utm_source=tecmundo.com.br&utm_medium=internas&utm_campaign=quenteshoje:

Os tempos não mudam de todo… fingem.

pelourinho

doce chibata, amado pelourinho, santo capitão-do-mato, gentil patrão

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     Até mesmo em Belo Horizonte, cidade quase pacata, se comparada a muitas outras, usar os coletivos tornou-se uma fonte de apreensão e de desprazer, principalmente se você não tem paciência larga, se tem o estopim curto, daqueles que ficam bem perto do barril de pólvora. É o meu caso essa tipologia pessoal e intranferível, mas não intransferível como um cartão de banco, uma URL, uma senha, ou o RG – embora cada vez mais tudo esteja tornando-se vulnerável. Eu disse “quase”. Hackers e piolhos.

     A quantidade de caronas nos ônibus, ou seja, aqueles ônibus que carregam as pessoas através das veias da cidade, é simplesmente de pasmar. Entram, ficam de pé ao lado do motorista, ou assentam-se no lugar onde os idosos põem os pés, quando não se sentam nas poltronas a estes dedicadas, não perdem tempo em cumprimentar ninguém, vários deles com roupas de “grife”, feitas no Paraguai, e seguem conversando, como se tivessem nas mãos o futuro da cidade e do mundo. Talvez até já estejam neste patamar, ou quase. Eu disse “quase”. Não se dignam a olhar para os parvos que estejam ao lado, à frente ou na parte de trás do comboio, certamente porque se sabem distantes,  alijados das benesses do establishment. Assim, parece que cabe a nós trazê-los para a luz, mas não contem comigo, tenho repolhos e tomates para cuidar, lagartas feitoras de seda, totens e tabus, fantasmas, etc. Além disso, preciso ler psicanálise, neurologia, sociologia, música, prosa e poesia, enfim, continuar a aprender a ler e escrever. Êpa !, a panela de pressão está apitando (e este “apitando” serve também como alusão aos fatos sociais).

     Essa postagem me fez lembrar de um poema que é, com justiça, tão famoso: um texto do poeta Eduardo Alves da Costa, de nome No caminho com Maiakóvski, um texto que vai fundo, décadas após escrito, ele ainda bate contra o marasmo, a vontade bamba, o que dá espaço para tipos como os caronas acima citados.

Foto e crônica: Darlan M Cunha

PALIAVANA4: https://paliavana4.blogspot.com

POEM HUNTER: https://members.poemhunter.com/members/club/profile.asp?member=5647848

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     Trecho do poema de Eduardo Alves da Costa (1936 – ), escrito na década de 60. Pseudônimo: Diana Gonçalves. Trazido do RECANTO DAS LETRAS: http://www.recantodasletras.com.br/poesias/5655034

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

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