natural

Musa paradisíaca

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Quando a gente se vê diante de um pé de qualquer fruta, carregado, a mão logo vai rumo às delícias, não há como escapar do chamado natural. Estas belezas aí, e várias outras de outras espécies e famílias e gêneros, estão no sítio de uma prima minha, aqui perto de BH. É uma luta criar coragem para voltar para a monstrópole.

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  • Darlan M Cunha: foto e texto

A adivinha pela borra do café no fundo do copo (isso é mais antigo do que seus e suas tataravós)

CAFÉ: o pó geral do povo brasileiro, do mundo. >>> COFFEE: the general dust of the Brazilian people, invader of the world.

@1.

Coffea arabica, o pó geral: dos madrugadores e dos insones, das crianças e das babás (ainda há babás ?), dos sóbrios e dos ébrios, das médicas e dos pacientes, daqueles apressados no balcão das padarias, e das nem tão apressadas – ou mais ? – sentadas nas mesmas padarias, as bolsas sob vigília, cansadas de gUerra, indo de novo para a guerra, de olho no relógio, sim, eis a cachaça preta do Povão, a desejada das gentes, e tome cafeína, que também tem no chá, isso dá samba, do Brasil à Mauritânia, da Zâmbia até Gâmbia, da Noruega ao Quênia, da Terra do Fogo ao Japão, o café faz história, movimenta mais gente do que o petróleo. É fato, asseguro.

@2.

Ontem, o papa CHICO (com toda vênia, Santidade, com todo respeito – até porque todo Francisco é Chico), pois é, o papa escrachou quem viajou nestes feriadões, disse que aquilo o magoou muito, pelo fato de que os viajantes só pensaram em se divertir, esquecidos de quem ficara em casa, dos problemas financeiros de tantas e tantos, dos doentes, etc. Bateu pesado o garoto Chico.

Vamos ao moca ou café, vamos ao ano, chutar a bunda do Grande Tormento Virótico, mas para isso é preciso olhar para dentro e para fora de si, mais para dentro.

@3.

TELMA

Minha irmã, doce de pessoa, faleceu aos 51, nos EUA – nascida num dia 4 de janeiro, falecida num dia 4 de fevereiro. Formada em Letras, trabalhou no IBGE, e emigrou com o marido e três filhas, onde viveu vários anos, feliz e sempre cheia de iniciativas. Não media mãos para ajudar a quem quer que fosse. Um doce.

Darlan M Cunha

aí, ó

Flor de Ora Pro Nobis, by RICARDO S. DAGNINO
https://commons.wikimedia.org/wiki/User:Ricardosdag
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Com esta imagem na mente, não há como não me lembrar dos livros A História da Beleza, e de sua contrapartida – ou se fala a mesma coisa, a mesma visão, o mesmo idioma, quando das duas se fala ? – A História da Feiura, do professor Umberto Eco (1932-2016, autor de O Nome da Rosa).

Essa planta que é muito comum em Minas Gerais, que dá que nem chuchu na cerca, é de fato um espanto em seu currículo de só fazer bem, isso tanto é verdade que em Minas ela é chamada de “bife dos pobres”. Pode-se tê-la à mesa de várias maneiras: refogada, como se faz com a couve, suco, as lindas flores em saladas, por serem comestíveis (ó crime hediondo é sacrificar tais belezas, mas é por uma boa causa: a saúde), e por aí vai essa maravilha que é servida em muitos restaurantes, é coisa do arco da velha, sem nenhuma contra indicação. Mamãe Maria José, Vovós Isaura e Maria de Jesus, onde estão vocês ? Preciso de uma dose tríplice, vacina tríplice de ora-pro-nóbis !

Ora-pro-nóbis – by GABRIEL PRIETO
https://segredosdomundo.r7.com/conheca-a-ora-pro-nobis-a-planta-que-contem-25-de-proteina/

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No quintal imenso de nosso casarão bicentenário na cidade histórica de Santa Bárbara (110 km de BH), tínhamos jaboticabeira, goiabeira, bananeira e capim-da-lapa, além de ora-pro-nóbis. Andarei com gosto estes 110 kms, em busca de um pé completo de ora-pro-nóbis, nem que o tenha de plantar no teto do prédio, com direito a cadeado… hehe. Ouro não vale nada, pouco.

Morei nesta incrível beleza bicentenária. SANTA BÁRBARA, MG. Foto: googleusercontent
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Fotos e texto (excepto a da Casa do Mirante, SB, MG): Darlan M Cunha

Roça e tecnologia: contrastes ou complementos ?

Mandioca – Manihot esculenta // Manihot utilissima

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fartura

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@1

Acredite: a humilde mandioca, fundamental para os índios, originária da América do Sul, foi eleita o alimento do século 21, pela ONU, sim, a ONU. Ela é chamada de maniva, mandioca, macaxeira, aipim, pão de pobre, rainha do Brasil. Durante os festejos, os índios vão ficar do jeito que o diabo gosta, como ouvi no Mercado Central de BH, ou seja, é certo que vão beber muito cauím – uma bebida que também é feita a partir da mandioca, bem mastigada e cuspida numa vasilha, misturada com água, deixada para fermentar, com a ressalva de que só as virgens podem mastigar este alimento, preparado com esmero esta herança de muitas gerações. Experimente no café da manhã mandioca cozida passada na manteiga ou no mel, bolo de mandioca com coco, biscoitos fritos, ou tapioca.

@2

Ontem, após muito tempo, ouvi o famoso grupo musical alemão KRAFTWERK (Estação de energia, ou Usina), tidos como os lançadores de um tipo de música que chegou e ficou: a música eletrônica, e eles já estão por aí há uns cinquenta anos estes quatro engenheiros.

KRAFTWERK

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BALADA PARA UM DESORIENTADO

Quem te dera, garoto, dar um clique // no coração do teu ícone, abrir um linque // exclusivo para ela, quem te dera // andar por aí sem que seja com as mãos nuas, // nos bolsos nus, algo cabisbaixo, quase sendo atropelado, // absorto como todo bobo. // Vamos, garoto, saia desta areia movediça, deste lodo, // deste sonho com ícone, // totem e tabu, vamos, que o mundo chama, // o mundo é logo ali – comédia e drama.

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Fotos e texto (exceto foto Kraftwerk): Darlan M Cunha

Das Model. KRAFTWERK : https://www.youtube.com/watch?v=qDqO_66I3Cw

surubim

surubim

SURUBIM  >>>  Sorubimichtthys planiceps  //  Pseudoplatyatoma coruscans 

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     Onde está o peixe que foste pescar ? No mercado, sob gelo e ofertas do dia ? Onde está aquele feixe de sabores e proteínas de fácil digestão, e preço quase acessível a todos ? Desconfio que o rio em que pescas é igual ao meuou seja, é logo ali na esquina, já vem embrulhado, e com recomendações do peixeiro especialista dizendo para não deixá-lo desmanchar na panela, sua carne é tenra. Dirá para prepará-lo com batatas, tomates, ovos, coentro e azeite. Caipirinha. Dormirás com os anjos, ou com o diabo. Dirá o peixeiro.

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Foto, texto e peixada: Darlan M Cunha

à mesa – 3

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tormento gratuito

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     Há quem come depressa, esbaforido, num vu, ao passo que outras pessoas comem pouco e devagar, avaliam os ventos do dia, o peso e o avesso do anonimato, a pesca rumo ao conhecimento, as vestes do desãnimo, e coisas e tais, mas os contrastes à mesa não acabam aí, não, porque há os ovívaros e os pantagruéis, ou seja, comem absolutamente de tudo; e há aqueles e aquelas, com melindres de “ah, não como isso e nem aquilo, não gosto de jiló, pimenta, pequi e abacaxi; ovo me faz mal, não consigo ver a cara de pepino, carne de porco me dá pipocos na cara, espinhas, e assim por diante, além de que a balança me dá nos nervos da barriga, mesmo que seja só vaidade masculina”. Pois eu também – alguém à mesa pode dizer –, não suporto coentro e peixe frito, não me dou com quiabo, não posso com a coqueluche de caranguejos marinhos, ostras e mexilhões, embora que em muitos países, se não em todos do extremo oriente, tais como a Indonésia, a Tailândia, o Vietnam, a China, etc, se come absolutamente de tudo, é só ir aos milhôes de feiras e mercadinhos e restaurantes em plena rua, para provar grelo de bambu, rãs, escorpiões fritos ou torrados, marimbondos, cobras e enguias vivas, aptas a serem esfoladas e preparadas ali mesmo, peixes nadando tranquilamente, os quais logo estarão tanto na boca do populacho quanto na mesa dos bacanas locais e dos turistas (devagar com o andor do entusiasmo).

     Mas há quem não come nada de nada, porque doentes; e há quem não come nada de nada, porque a guerra come todo o dinheiro da nação, come a merenda escolar, atua sobre a vontade de reagir; a guerra é insônia, é falta de menstruação, mesmo que não se esteja grávida, yes, la guerre c’est un oiseaux de fer, un oiseaux sans plumes, e isso me lembra as telas Os comedores de batatas, de van Gogh, e Os retirantes, de Portinari. No entanto, nada é para sempre, diz o povão, pelo que resta a vontade de seguir, e assim vamos aos novos endereços. Hora é, com fome qualquer coisa serve, no auge do delírio da fome, até a sola da botina se transforma num suculento bife de búfala da ilha de marajó. Num dos filmes de Charlie Chaplin há uma cena assim.  Rir é o segundo melhor remédio, porque ir é o que há de mais sensato. Pé na estrada, porque viajar é mais. Ir.

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Foto e texto: Darlan M Cunha