cotidiano 4

DSC02045

***

 

     Rabiscar os rostos da aldeia, de sua santíssima trindade, pode parecer heresia – porém, como é que algo ou atitude pode se parecer com aquilo que já não existe ? Salvo engano, nada mais, em lugar nenhum do mundo vasto mundo é heresia. Degolar caules frescos é corriqueiro (imagino-me de joelhos, sem garganta com que validar quem a mãe cingiu de desvelos). Não, nada aqui escrito é para desfile de tropas. Tudo. Ir às ruas é abandonar o medo ou repintar de nervos as esquinas, tornando-as cordas esticadas como uma linha untada com cerol ? É a cabeça, irmão. Tudo é teu, credor de tudo, as ovelhas no cercado, dizem os textos sagrados. Enquanto esperas, reler o Decamerão, o Dicionário do Diabo.

     Rabiscar os pilares da santíssima trindade da aldeia – amor amor amor – não dá fim a ela, só o fogo nos pastos urbanos, o rural trespassado pelas queimaduras do cotidiano, ó, neves da caatinga e águas do Atacama, o ministro fará cair véus, assombros que o Nunca nunca imaginou, ó, a realidade trocará a tua pele tantas vezes quanto o fazem as cobras, e o grito que contivestes será enfim julgado apto por ele que porá de vez sobre os ombros teus a cátedra ministerial belzebuana. Tudo será teu que sou o teu credor invisível.

     As cidades invisíveis existem, de fato e de direito, mas até elas começam a cercar-se de todos os meios, cientes dos gases em ebulição, frases de efeito, palavras sem palavra, as suicidades e monstrópoles de carne e ossos serviram de noção às cidades invisíveis, mas foi em vão, que o invisível já está em debandada. Carona para onde, se não há onde, se nenhuma alusão vai até onde queres ir, se nenhum caminho tem força centrípeta forte o bastante para jogar-nos para fora do curtume ?

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar…

 

*****

Foto e texto: Darlan M Cunha

Música: Gonzaguinha. O que é, o que é ? – https://www.youtube.com/watch?v=2iMOXqKTh34

Anúncios

sabor a mi

DSC02121

panela de pedra-sabão ainda por ser “curada” para o uso cotidiário

*****

 

     Insetos no piano, o tabuleiro de damas soltando vivas à incoerência, formigas no polo sul e beija-flores no polo norte, um pé virado para trás, vigiando as pegadas. Foi assim que ele ficou depois de algum tempo consigo mesmo – aloucado, como se tivesse sofrido uma trepanação mal sucedida, ou se a conta bancária tivesse sido invadida, via homebanking, mas sem clarear nada sobre o assunto. Afinal, em se tratando da própria via crucis, nem sempre a melhor atitude pode ser a de pôr a boca na orquestra, em especial, no trombone ou no baixo-tuba.

     O primo Haroldo Dente Azul sabe disso (a Dinamarca teve monarca com esse nome e essa alcunha), uzeiro e vezeiro em transgredir o novo e o arcaico, inventa todo tipo de instrumento musical, pás para desovar a terra, sentindo seus impulsos, cava e escava feito dentista na lida. E assim ele põe boca de trompete nos bandolins, perna de violoncelo nos violões, réstias de alho e de cebola nos címbalos, bolas de algodão no interior de bumbos e taróis, além de dar nó nas flautas transversas, de modo que o ré bemol e o sol sustenido ficam alterados, enfim, uma rareza. Leio com ele Memórias Não Ditas de Brás Cubas, e de outros que o mundo certamente tem e esconde. Memórias sem futuro, mas é preciso ir a elas, ou nunca saberemos um pouco de nada.

     Nada como uma segunda-feira radiosa, jubilante, com dois pesos e três medidas.

*****

foto e texto: Darlan M Cunha

dia sadio

The King, The Balistic Missil, WindMan

Quenianos e etíopes, com todo o respeito que lhes é devido, que se cuidem.

*****

     O que aqui se faz aqui se paga, diz o povo, em sua sabedoria, deixando de fora deus e o diabo, que o acerto seja feito aqui, que aqui se pague o faroeste, a lei de Talião, de Salomão, do Rubicão, do Chicão e de quem mais, ou não, pois há tantos erros e crimes não pagos que o melhor é levar em conta que desvios conscientes de conduta tomaram conta dos lares (ainda existem ?), das ruas, das casas públicas.

     O mar é museu de cuspo branco, de jogar suas anáguas na praia, de vomitar um caldo negro muito antigo de enome poder & discórdia, com prazo marcado para acabar. O que se faz aqui, aqui se paga, diz o povo; e se há pragas de gafanhotos e de formigas, se há virologias renovadas nas esquinas, o homem não desanima, que o instinto não permite baixar a guarda, e até mesmo as pedras reagem ao fim, escondendo-se no próprio pó, pelo que ninguém mais dirá que uma pedra no meio do caminho. Sem pedras não há como construir uma educação pela pedra, e nem pela pedrada.

*****

foto e poema: Darlan M Cunha

https://paliavana4.blogspot.com

teclado

teclado

     Seja pisando em ovos, nas nuvens, no barro, em cacos de vidro, em brasas nas festas de são joão ou de são pedro ou do diabo, em cédulas falsas ou originais, nas palavras e nos atos da oposição, nas memórias pessoais e gerais, nas oportunidades (dizem que não voltam as boas oportunidades perdidas, das quais muitas vezes só mil tempos depois a pessoa se dá conta do que deixou escapar, por soberba, ignorância, apatia), o caminho se dá a ver, entre favos e favas, alguma trilha mostra as pernas, põe luz verde no indicador, grita por trás de um rochedo, cabendo a cada um/uma ir de vez, de ponta-cabeça, de xuá, seja lá, fazendo razia como um falcão ou um jato de guerra (já titubeei tantas vezes, que estou desacreditado até mesmo entre as pedras, pedras que tantos versos me ocuparam). Melhor mesmo é meter-se no teclado do piano, entrar no domingo, no feriado, nas férias, na aposentadoria, na morte em vida severina.

*****

foto e texto: Darlan M Cunha

vietato lamentarsi

 

vietato-lamentarsi-twitter-la-stampa

 

     Pois é, de grão em grão se vai longe, até que alguém dá um murro na mesa ou chuta o balde, dando nome aos bois e às vacas. O papa Chico é também um humorista sutil, ou um sátírico com palavras de algodão, mas com espinhos dentro. Mudando de assunto, ou seja, deixando de lado os muros de lamentações mundo afora, pelos seios e pênis de silicone, pelas torneiras que não vazam senão ar, saleiros com sal umidificado dentro dele (arroz cru nele), e mil outros entraves cotidiários aos quais todos estão sujeitos, o mundo vai em frente, e uma amiga minha diz que gosta de ficar pensando sobre que cara fariam, por exemplo, os da Idade Média diante do pouso de um jato de guerra, com seus decibéis e sua beleza esguia nos arredores das aldeias, espantando pastores e ovelhas e salteadores, todos caídos de joelhos diante do Novo Senhor, ou fazendo ‘razias’ sobre legiões romanas e sobre os soldados dos gloriosos Carlos Magno e Gêngis Cão, quando não sobre o castelo de Ivan IV, o Terrível, de madrugada, porque era de madrugada que ele ia rezar, e após as matinas diárias às quais seu remorso e sua loucura não o deixavam faltar, ele descia aos porões do próprio inferno, para infringir em pessoa torturas inenarráveis aos presos. A amiga tem bom gosto, tem o senso do tétrico que ela tenta verter para a sátira.

     Parodiando Guimarães Rosa (Minas são muitas), se vê que o mundo tem muitos ecos.

*****

imagem de La Stampa (Itália)    

texto de Darlan M Cunha

acrobata (todos nós)

acrobata

os nós das ruas

***

     Hoje é aniversário do quem e do que não existe, e parece-me que sou o único conviva, pelo menos o único até agora a comparecer ao ato; talvez haja bufê caprichado, com as últimas da novela das oito, ou alguma frase da novela das nove, um conto sobre futebol talvez seja lido, alguém dirá algo sobre estrela de cinco pontas e candelabros de sete e de nove pontas, senão de mais; outro entusiasta dirá que a barragem destruída já está de pé, redesenhada revista reprocessada regulamentada em papel cuchê e coisas e tais. Quero é outro tipo de vinho com estricnina, cansado de lesmas, bagaços de leis, alusões ao bom e ao melhor, liquidações a granel, no varejo e no atacado (vendo mãe e pai, mulher, filhas imprestáveis, filhos e enteados parasitas, a bandeja de prata de minha avó materna, e o chicote de couro cru com cabo de prata e marfim, muito usado pelo meu avô paterno (“Vais ter com mulheres ? Não esqueças o chicote” – Nietzsche escreveu no Assim Falava Zaratustra. Mas não se vejam com esse mesmo tipo de pensamento, nem com aquele tipo de atuação).

     Todo dia é aniversário do Diabo, e ele sou eu, em muitas medidas – foi o que disse  teresa batista, cansada de guerras e de outras inclemências.

***

Foto e sátira: Darlan M Cunha

Cismas e sismos da minha aldeia – 7

acidente caseiro. antebraço esquerdo

acidente caseiro, antebraço esquerdo

***

     Na minha aldeia há um só idioma, resultante da mistura de outros, banidos. Surdo, cego e mudo eram os idiomas, melhor, os dialetos que viviam surrando-se entre si, destruindo num dia o que no dia anterior se erguera. Após muitas baixas, certo grau de razão, muito pelo fato de que já não nasciam crianças, porque presas fáceis para o rapto, serviam de fonte de renda para os de idiomas rivais. Cegos surdos mudos.

     Na minha aldeia não há crimes, não há classificação nem mesmo na nossa Botânica, e nada de gente feia ou bonita. Aqui, a história da feiura e a história da beleza não têm vez, nossas livrarias não vendem estes livros do Umberto Eco. Aqui, onde cismas e sismos estão a postos, somos durões e duronas, cientes de que a vida é um corte sem sutura, de que é preciso estar atento e forte.

***

foto e texto: Darlan M Cunha

De pessoas do nunca

afora isso...

***

O AMIGO QUE CANTOU COM O PRÓPRIO ELVIS
(It’s now or never)

Elvis Abílio da Silva Neves é o nome do meu vizinho cuja bela casa fica em frente ao meu barraco luzidio (luzidio pelas folhas de zinco no teto). É uma casa grande, cujo avarandado é de meter medo em ladrão, pela sua extensão e largura, e lá dentro há tantos cômodos que um intruso pode ficar perdido no labirinto. Eu vou lá e ele vem aqui quase todo dia.

   Com este nome, dado pelos pais fanáticos pelo Presley, ele teria de ser fã também. Sem ser museu, sua casa tem muita coisa a respeito do artista, mas o que mais me agrada na coleção é o poster em tamanho natural, envidraçado, no qual os dois aparecem cantando juntos. Ora essa, mas como pode ser isso ? Para um fotógrafo profissional é um simples truque de fotografia, isto é, ele uniu uma de suas fotos a uma do Elvis. Um show, nós rimos porque ele diz que suas preces de cantor de banheiro foram ouvidas por um buscador de talentos, que o apresentou de imediato ao empresário do pai do rock. Elvis já estava no fim da carreira, mas não o meu vizinho Abílio, a quem os americanos deram o nome de Bill, porque Abílio não é nome de artista, e então ele ficou sendo Bill. Até hoje. Bill Elvis & Elvis Presley.

   A imaginação é tudo. Como diz o ditado alemão, die Gedanken sind frei, ou seja, os pensamentos são livres. Sim, tudo isso é real, all it’s true, ou então só dez por cento é mentira, como dizia o poeta Manoel de Barros – de quem tenho um livro com dedicatória.

Texto: Darlan M Cunha

consumpção

consumpção

 

     Faço manutenção de jardins, pelo que vivo entre flores: murtas, rosas bravias, margaridas selváticas, hibiscos de enxertia, trepadeiras degeneradas, trevos de quatro folhas e urtigas. Em tese, sou feliz, mas estas mesmas criaturas que se querem tão delicadas, são capazes de arranhões persistentes; há muitas que nos queimam a pele, e outras que, garantidas pelo seu pendor malvaz, provocam dolorosas urticâncias, simplesmente esperando pelos incautos, por gente que por qualquer coisa se abestalha de modo incurável diante de uma simples roseira ou da bola lilás de uma hortênsia, ou de muitas hortênsias juntas, lado a lado numa alameda. Portanto, trabalho na manutenção de jardins, e isto, ao mesmo tempo em que é obrigação, me capacita a entender suas inquilinas cheias de truques quando se trata de evitar incômodo, por exemplo, na poda e na rega. Agora, quanto a eu estar falando de flores assim de modo figurado, ou não, isso fica por conta dos devaneios alheios. Rosas, rosas, rosas, rosas formosas são rosas de mim, diz a canção.

Texto e foto: Darlan M Cunha

OBS.: Hoje, avisado por essa plataforma, eu completo 7 (sete) anos aqui no WORDPRESS. Agradeço a todos e todas.

luz sem sombra

Quando levaram-no, parecia não querer ir, de tão lenta a ida se fizera, silêncio quebrado por alguma buzina, sorrisos e conversas à parte, a ida se fez fora da praxe, porquanto as pessoas que iam naquela manhã sem data e sem nome lutavam para não se darem às algemas das mesmices; por isso, cantavam algo que registrava muito bem a índole de quem estava à frente daquela reunião de amigas e amigos, é vero, e foi assim que o puseram na cautela maior dos seus sentimentos: sempre com os olhos na rima da amizade, porque a morte é coisa pouca, talvez mais do que só um pouco, talvez a morte seja mesmo muita coisa, mas, de qualquer forma, fica registrado aqui que amigas e amigos que lá estavam combinaram hora e dia de saída para o feriadão próximo, melhor para se lembrarem com mais vagar de como todos e todas andam de correria ou submissão, talvez amalgamados em demasia com aquilo que tanto se critica: a showciedade; portanto, hora é de matar velhos e novos estigmas, paradigmas e paradoxos. Que a vida, no final da conta severina, talvez até seja livro.

TEXTO: DMC
IMAGEM: