imaginário

Teatro Francisco Nunes. Parque Municipal, BHte. Já me apresentei aí.

Teatro Francisco Nunes. Belo Horizonte, MG, Brasil (algumas vezes estive neste palco)

debates conferências teatro música reuniões de classes – há de tudo nesse tipo de casa

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No teatro se morre de morte prematura, violenta, idealizada

e a trupe pensa que é no palco que as coisas acontecem,

mas é na rua, a rua que o proscênio desconhece, onde o todo

se apresenta, é lá que se lava a roupa suja, que se aprende hábitos

que se manieta ou se impulsiona a usura, o pão do ódio, o ócio.

Foi lá que a foice e o martelo enferrujaram, outras normas

agora mamam e desmamam, prontas para te darem nova senha.

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foto e poema: Darlan M Cunha

Um lugar para todos: histriônicos, felinos, paus-mandados, frenéticos do sexo pro- agressivo, artífices das flores do mal, de solstícios e equinócios repintados à mão [falsos]; sinônimo de perigeu, há porcos-espinho, víboras e salamandras, salários sem crédito, motoristas a soldo da firma A Inenarrável Algazarra da Morte, enfim, eis um lugar para além do bem e do mal – pois é na rua que as coisas acontecem

Minha Neguinha 1

uma das “namoradeiras” de Sabará, MG, Brasil

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LETRAS DE MÚSICAS

Eu faço samba e amor até mais tarde, não tenho a quem prestar satisfação. Escuto a correria da cidade, que alarde, será que é tão difícil amanhecer ? (Samba e amor. Chico Buarque)

Era um homem que vivia lá com seus botões. Sempre dizia que ser homem não é só ter colhões – tem-se que viver, enfrentar a corrente, desde cedo (Um homem, por dentro. Darlan M Cunha)

Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão (Dança da Solidão. Paulinho da Viola)

Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor (Nelson Cavaquinho // Guilherme de Brito  // Alcides Caminha

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foto: Darlan M Cunha

Domingo pede cachimbo ?

Pés calejados, Nova Canaã, BA, 1998.

by EVANDRO TEIXEIRA (Brasil)

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     O que mais se pode dizer que representa de modo mais claro o que entendemos como o lado mau do mundo ? Deve-se levar em consideração os altos e baixos passados pelo céu da boca, como os verbos fingir e atingir, o adjetivo feioso, todas as aféreses e as apócopes implícitas no substantivo Tempo, sempre te encurtando, o pântano social analisado sobre a mesa com gráficos não raro indecentes (der Grüne Tisch) ? Quando clicas, és desviado, manejado, inserido sutilmente noutro contexto de compra e venda, sim, quando clicas, és fichado ou fixado e perseguido por uma polícia muito especial – só tua. Compreenda.

     Os pés doem mais do que se pode suportar, é preciso ir, porque ir é o melhor remédio, a (r)evolução depende de outras realidades. Já agora mesmo veio-me o que diz uma música: é um estrepe, é um prego, ou o que diz um poema: que se morre de velhice antes dos trinta, ou o que nos diz a escritora: sem o outro não temos como ser egoístas.

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Texto: Darlan M Cunha

Trechos extraídos de Tom Jobim, João Cabral de Melo Neto, Viviane de Santana Paulo

mães, avós, bisavós, trisavós – 2

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arte: Maria José M Cunha (84 anos)

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     Nasci de madrugada, mas não foi isso o que me fez insone, que me faz ir de madrugada à mesa sempre posta, à geladeira, a um livro, à janela ou ao banheiro, embora não tenha certeza da razão exata deste jeito de ser, de trocar o dia pela noite. Pensando melhor, não sou nada disso, só metade disso, ou, como diz o título do documentário sobre o poeta Manoel de Barros, dirigido por Pedro Cezar – Só dez por cento é mentira – o resto é invenção.

     Nasci no breu, candeeiros, fale baixo, alegria e apreensão iguais em todo parto normal, pinga e café na sala e na cozinha lotada pela vizinhança, otimismo, o desafio da parteira, o suor da mãe, pai nervoso, o nanico chorando, indo direto para a primeira refeição da vida: o colostro.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

à mesa – 3

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tormento gratuito

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     Há quem come depressa, esbaforido, num vu, ao passo que outras pessoas comem pouco e devagar, avaliam os ventos do dia, o peso e o avesso do anonimato, a pesca rumo ao conhecimento, as vestes do desãnimo, e coisas e tais, mas os contrastes à mesa não acabam aí, não, porque há os ovívaros e os pantagruéis, ou seja, comem absolutamente de tudo; e há aqueles e aquelas, com melindres de “ah, não como isso e nem aquilo, não gosto de jiló, pimenta, pequi e abacaxi; ovo me faz mal, não consigo ver a cara de pepino, carne de porco me dá pipocos na cara, espinhas, e assim por diante, além de que a balança me dá nos nervos da barriga, mesmo que seja só vaidade masculina”. Pois eu também – alguém à mesa pode dizer –, não suporto coentro e peixe frito, não me dou com quiabo, não posso com a coqueluche de caranguejos marinhos, ostras e mexilhões, embora que em muitos países, se não em todos do extremo oriente, tais como a Indonésia, a Tailândia, o Vietnam, a China, etc, se come absolutamente de tudo, é só ir aos milhôes de feiras e mercadinhos e restaurantes em plena rua, para provar grelo de bambu, rãs, escorpiões fritos ou torrados, marimbondos, cobras e enguias vivas, aptas a serem esfoladas e preparadas ali mesmo, peixes nadando tranquilamente, os quais logo estarão tanto na boca do populacho quanto na mesa dos bacanas locais e dos turistas (devagar com o andor do entusiasmo).

     Mas há quem não come nada de nada, porque doentes; e há quem não come nada de nada, porque a guerra come todo o dinheiro da nação, come a merenda escolar, atua sobre a vontade de reagir; a guerra é insônia, é falta de menstruação, mesmo que não se esteja grávida, yes, la guerre c’est un oiseaux de fer, un oiseaux sans plumes, e isso me lembra as telas Os comedores de batatas, de van Gogh, e Os retirantes, de Portinari. No entanto, nada é para sempre, diz o povão, pelo que resta a vontade de seguir, e assim vamos aos novos endereços. Hora é, com fome qualquer coisa serve, no auge do delírio da fome, até a sola da botina se transforma num suculento bife de búfala da ilha de marajó. Num dos filmes de Charlie Chaplin há uma cena assim.  Rir é o segundo melhor remédio, porque ir é o que há de mais sensato. Pé na estrada, porque viajar é mais. Ir.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

babel moderna – 6

eu-vou

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       A pontuação ortográfica, a semântica de todo dia nas propagandas (renovadas, sempre as mesmas), ou seja, o que há de sibilino nos anúncios, nos avisos que se vê em todas as aldeias conformam as pessoas, e isso não é novo nem para alguém um-zero-à-esquerda. Porém, uma vez imerso no nada, pode ainda restar algo a dizer e a fazer. Como não ?, neste mundo da excelência em desencontros, descartes, fuligem nas bocas e nas bolsas, onde nenhum tipo de lentidão é admitido, pois a glória tem pressa, e a ira tem necessidade de crescer, de não deixar seus ovos gorar ? A diretriz de toda showciedade sempre foi e será tomar atitude para manter-se no topo; para isso, nada como fazer ver aos novos, ou a certos intrusos, o devido lugar deles. Babel tem esquinas, curvas, breus, clarões, chispas, nenhum silêncio, sua plástica tende só para o alto (saltar de qual pensamento ?). Esquinas, curvas, descidas e subidas, e tu estás neste momento nalguma delas, pois isto é Babel.

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arte mural: GUD (31)  9 8721 1025 (Belo Horizonte)

foto e texto: Darlan M Cunha

soberbas letras – 5

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Ruas Paraisópolis e Divinópolis, bairro Santa Teresa – BELO HORIZONTE, MG, Brasil

CLUBE DA ESQUINA nº 1                                                                                        

(Márcio Borges / Lô Borges / Milton Nascimento)

 

Noite chegou outra vez, de novo na esquina
Os homens estão, todos se acham mortais
Dividem a noite, a lua e até solidão
Neste clube a gente sozinha se vê, pela última vez
À espera do dia naquela calçada
Fugindo de outro lugar.

Perto da noite estou,
O rumo encontro nas pedras
Encontro de vez, um grande país eu espero
Espero do fundo da noite chegar
Mas agora eu quero tomar suas mãos
Vou buscá-la onde for
Venha até a esquina, você não conhece o futuro
Que tenho nas mãos.

Agora as portas vão todas se fechar
No claro do dia, um novo encontrarei
E no curral D’el Rey
Janelas se abram ao negro do mundo lunar
Mas eu não me acho perdido
Do fundo da noite partiu minha voz
Já é hora do corpo vencer a manhã
Outro dia já vem, e a vida se cansa na esquina
Fugindo, fugindo pra outro lugar.

*               

Ouça AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=PH7NdNBFeX4

O CLUBE DA ESQUINA nunca foi lenda, ao contrário, é uma realidade bem plasmada, muito bem conceituada mundo afora, orgulho de quem pensa claro, de quem percebe a força da palavra, e também do silêncio que existe entre os acordes, cientes de que as palavras se entendem e se desentendem, mas, com isso, criam algo novo, e o CLUBE DA ESQUINA  sempre teve e ainda conserva com grande contentamento seu convívio com as letras, com o bom humor e, principalmente, com a pedra-base da amizade.

Foto e texto: Darlan M Cunha

soberbas letras – 3

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Escrevendo e desenhando com os pés

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ÚLTIMA FORMA

(Paulo César Pinheiro – Baden Powell)


É como eu falei: não ia durar
Eu bem que avisei, vai desmoronar
Hoje ou amanhã, um vai se curvar
E graças a Deus não vai ser eu quem vai mudar                                                                                Você perdeu

E sabendo com quem eu lidei
Não vou me prejudicar, nem sofrer, nem chorar
Nem vou voltar atrás, estou no meu lugar
Não há razão pra se ter paz
Com quem só quis rasgar o meu cartaz                                                                                            Agora pra mim você não é nada mais

E qualquer um pode se enganar
Você foi comum, você foi vulgar
E o que é que eu fui fazer
Quando me dispus te acompanhar                                                                                                   Porém pra mim você morreu
Você foi castigo que Deus me deu

Não saberei jamais
Se você mereceu perdão
Porque eu não sou capaz
De esquecer uma ingratidão
E você foi uma a mais

E qualquer um pode se enganar
Você foi comum, você foi vulgar
E o que é que eu fui fazer
Quando me dispus te acompanhar                                                                                                   Porém pra mim você morreu
Você foi castigo que Deus me deu

E como sempre se faz
Aquele abraço, adeus, e até nunca mais.

*

foto: Darlan M Cunha   ///   visite: PALIAVANA 4    ///   Ouça AQUI, com MPB-4 e CAUBY PEIXOTO: https://www.youtube.com/watch?v=xvZ80CKsvzM

soberbas letras – 1

passaros

Assunto em pauta

(para CHRONOSFER, para TODOS e TODAS)

*

POIS É, PRA QUÊ ?

 

O automóvel corre, a lembrança morre
O suor escorre e molha a calçada
A verdade na rua, a verdade no povo
A mulher toda nua, mas nada de novo
A revolta latente que ninguém vê
E nem sabe se sente, pois é, pra quê ?

O imposto, a conta, o bazar barato
O relógio aponta o momento exato
da morte incerta, a gravata enforca
o sapato aperta, o país exporta
E na minha porta, ninguém quer ver
Uma sombra morta, pois é, pra quê ?

Que rapaz é esse, que estranho canto
Seu rosto é santo, seu canto é tudo
Saiu do nada, da dor fingida
desceu a estrada, subiu na vida
A menina aflita ele não quer ver
A guitarra excita, pois é, pra quê ?

A fome, a doença, o esporte, a gincana
A praia compensa o trabalho, a semana
O chope, o cinema, o amor que atenua
O tiro no peito, o sangue na rua
A fome a doença, não sei mais porque
Que noite, que lua, meu bem, pra quê ?

O patrão sustenta o café, o almoço
O jornal comenta, um rapaz tão moço
O calor aumenta, a família cresce
O cientista inventa uma flor que parece
A razão mais segura pra ninguém saber
De outra flor que tortura, pois é, pra quê ?

No fim do mundo tem um tesouro
Quem for primeiro carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro
Quem tem mais pressa que arranje um carro
Pra andar ligeiro, sem ter porque
Sem ter pra onde, pois é, pra quê ?

*

foto: Darlan M Cunha

SIDNEY MILLER (RJ, 1945-80) foi um excelente letrista, coisa rara, tendo escrito canções como A estrada e o violeiro, também esta com uma letra irrepreensível. Poucos jogam nesse time de letristas da MPB: Chico, Brant, Aldir, Tom, Edu, P. C. Pinheiro, Satler, Cartola, Caymmi, etc. Muito embora a trajetória dele tenha sido curta, ela nos mostra de um modo inequívoco a sua categoria musical. Trabalhou na Funarte. Gravou o disco Línguas de fogo (1974). Suicidou-se, aos trinta e cinco anos.

datas numa só data

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senhor dos passos, irmão da leveza

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       No dia 22 de novembro de 1963, eu e amigos estávamos sentados na escadaria da capela de Nossa Senhora do Rosário dos Negros (1756), em Santa Bárbara-MG, jogando conversa fora, quando uma grande inquietação, um alarido tomou conta da cidade, devido a que o presidente de uma república fora assassinado, e as rádios gritavam a notícia, televisor era algo raro, missão impossível. Pois bem, o presidente foi enterrado, e até hoje não se sabe com absoluta certeza que trama foi aquela.

       O dia 22 de novembro tem importância visceral na sociedade, porque é o dia da Música, do Músico, dia de Santa Cecília, que é a padroeira dos músicos, que é a arte por excelência, mãe das outras artes,  segundo o consenso geral. Assim, para todas as ocasiões se convoca a música: nascimentos, festa de 15 e de 18 anos, festa de formatura, casamento bodas de prata, de ouro e de diamante, comemoração esportiva, o homem na lua, posse de político, velório, e por aí vai. Nasci num dia assim. A vida é minuto – dizia Oscar Niemeyer. Minuto, cisco, susto, ventania.

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Foto e texto: Darlan M Cunha