Mãe

Dona MARIA JOSÉ – hoje, 13 Abril 2021: 89 anos (1932, Medina, MG)

Carta à Mãe nº 146

Dona MARIA,

segundo a Senhora, eu nasci por volta das duas horas da madrugada (teria sido já um indício desta vidinha de breu, que ninguém vive, senão eu ?), pois é, assim como os outros nove partos, tudo ocorreu bem, sem contratempo; ora por mãos de parteira, ora por mãos de médico/a, e, ainda por cima, para felicidade de toda a Família, a Senhora nunca esteve sob a necessidade de uma internação, para alegria também das mil amigas e amigos sinceros que a Senhora fez durante a sua longa e incrivelmente dinâmica existência de pintura a óleo, pintura em panos de prato, crochê, tricô, doces mil e mil salgados, chás e sopas, que nem Deus sabe, de tal forma que eu sempre digo, sempre sério, mas meus amigos e amigas, que conhecem a Senhora, sabem disso, mas ficam rindo da minha cara de sonso, quando digo que eu fico cansado só de ver a Senhora trabalhar, não sossega, está sempre com um dito popular, entre vários outros, por exemplo: enquanto descansa, carrega pedras.

Mãe, Flor entre Flores

não poderia ser de outra maneira: a Senhora nasceu de dia, veio incrementar a luz de Hélio, também conhecido pelo nome de Sol, e veio incrementar também pautas de Música, com a nota Sol, é isso, Dona Maria, Soy feliz, soy un hombre feliz / y quiero que me perdonen / por este día / los muertos de mi felicidad. (SILVIO RODRIGUEZ, Cuba).

Mãinha, meu Lema sem dilema, ó, a Senhora é O CARA

é um sonho tê-la ao lado de tanta gente, preocupada com os que moram tão perto e com os que moram tão distantes, noutro país, ou seja, 15 netas e netos, 14 bisnetas e bisnetos e três trinetas, não é fácil, não para os simples mortais, mas como eu sempre suspeitei que a Senhora veio dos Anéis de Saturno, então, é possível, foi possível, possível será.

Mãe, meu algodão doce, inveja maior de Deus e de Nossa Senhora (com todo respeito)

chega de escrever, mas já estou indo para casa, já comprei um presentinho para a Senhora – Luz entre Luzes, Suavidade entre Decibéis Exagerados, Cascata Límpida como os olhos de uma Humilde Abelhinha, sim, tudo isto e muito mais a Senhora MARIA JOSÉ foi, é e será.

MÃE e Filho, nos 89 anos da Dona MARIA.

Mil beijos e ene abraços deste filho meio desmiolado, mambembe, analfabeto, mas bom garoto

DARLAN

dominical

Eu uso tênis – antigamente chamado de quedes.

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CLUBE da ESQUINA nº 3 – ou Venha vestir a roupa de algodão grosso dos mineiros, como fizeram D. Pedro II e a Imperatriz Tereza Cristina.

De vez em quando a cabeça dói, algum dente late, um dos sapatos põe a língua para fora em plena rua, e aí fica complicado, meu amigo, voltarás mancando para casa, minha amiga do bico fino (o sapato), sempre há pequenas surpresas cotidianas, cotidiárias, cotidiácidas, imprevistos que se muitas vezes são desagradáveis e até desesperadores, outras vezes, são até engraçados, se analisados tempos depois. Comigo aconteceu, na bela e pequena e próxima Rio Acima, de estar de terno e gravata, e ponha elegância nisso, sapatos de couro cru, um dos quais me fez o solene favor de abrir a boca na rua, mas tive tanta sorte naquele domingo, que um passante, caminhoneiro e, nas horas vagas, sapateiro, marceneiro, mestre carpinteiro e sabe lá o diabo o que mais de bom ele tem, notou o meu embaraço (embaraço, em espanhol, é embarazo, significa mulher grávida… afe!), me levou à casa dele, onde, entre risadas e cervejas, fez o conserto, ele nada cobrou, ou seja, de um imprevisto desagradável, numa cidade com história do Brasil (Rio das Velhas = ouro, minérios em geral, a meia hora de Bêagá, o imperador D. Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina estiveram lá), ganhei um amigo de fé: José. Coisas da vida, minha nêga, como diz o Paulinho da Viola numa canção. Para terminar, não esquecer que “todo mineiro é conspirador.” É a nossa genética, nosso psiquismo muito bem arraigado.

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Come wear the thick cotton clothes of the miners, as did the Emperor of Brazil, Dom Pedro II and Empress Tereza Cristina.

Once in a while your head hurts, a tooth barks, one of your shoes sticks out its tongue in the middle of the street, and then it gets complicated, my friend, you will go back home with a limp, my friend with the thin beak (the shoe), there are always little everyday surprises, everyday, everyday accidents, unforeseen events that, if they are often unpleasant and even despairing, are sometimes even funny, if analyzed afterwards. It happened to me, in the beautiful and small nearby Rio Acima, that I was wearing a suit and tie, and put elegance into it, raw leather shoes, one of which did me the solemn favor of opening my mouth on the street, but I was so lucky that Sunday, that a passerby, a truck driver and, in his spare time, a shoemaker, joiner, master carpenter and who knows what else good he has, noticed my embarrassment (embarrassment, in Spanish, is embarazo, it means pregnant woman. … afe!), took me to his house, where, between laughs and beers, he did the repair, he charged nothing, that is, from an unpleasant unexpected, in a city with Brazilian history (Rio das Velhas = gold, ores in general, half an hour from Bêagá, Emperor Pedro II and Empress Tereza Cristina were there), I gained a friend of faith: José. Things of life, my nêga, as Paulinho da Viola says. To finish, don’t forget that “every miner is a conspirator.” It is our genetics, our very well ingrained psyche.

Darlan M Cunha

CLUBE da ESQUINA nº2. MILTON e LÔ: https://www.youtube.com/watch?v=-83HCIbrfWU

CLUBE DA ESQUINA nº 1. MILTON (Vídeo no Blog de MOACIR SILVEIRA): https://www.youtube.com/watch?v=YkLjtrJjXEM

não é tempo de rir, 2

Centro de Saúde TEIXEIRA DIAS, Belo Horizonte, MG

@1.

Chegou o tempo em se vende mais materiais de higiene pessoal e caseira do que leite. Ontem, na TVE Espanha, vi no centro da capital: Las colas del hambre aumentan en Madrid – filas cada vez maiores, pessoas bem vestidas, estudadas, sem agressões, esperando sua vez de levarem alimentos. Vi também a entrevista do médico/cientista e ex ministro da Saúde, Nelson Teich, à CNN Brasil, na qual ele faz avaliações claras e, portanto, pesadas, mas elegantes, a respeito de medidas tomadas pelas autoridades brasileiras diante das várias facetas do corona vírus.

@2.

Todos nós temos de vez em quando alguma lembrança que nos reaparece em hora e lugar os mais inesperados, sim, alguma lembrança de fato agradável – uma viagem, por exemplo. No fim da madrugada desta segunda, 15, enquanto passava o café, acompanhado pelo silêncio habitual, lembrei-me de uma das viagens do meu tempo de mochileiro, a qual me levou, através de algumas caronas nada programadas, até São Paulo (capital, São J. dos Campos, Campinas); Paraná (Curitiba, Ponta Grossa e seu Parque Estadual de Vila Velha, Foz do Iguaçu); Argentina, Paraguai, e depois um retorno algo atribulado, passando por uma república de jovens estudantes que fizeram votação para que eu pudesse ou não pernoitar na casa. Fui aceito, e eu me admiro até hoje daquela sensatez. Isto se deu em Florianópolis, uma cidade que os “manezinhos” (assim eles se chamam e são chamados) guardam com carinho, e chamam-na de Floripa, assim como nós aqui chamamos e escrevemos Belo Horizonte assim: BÊAGÁ, BH, Belô.

Darlan M Cunha

ângulos diversos

Identidades

A discrição que esteve ausente reapareceu de sopetão em Brasília, certa prudência reapareceu, sim, revigorando os fatos, fazendo bulício entre as cobras (Cadê o pau ?, alguém perguntou a respeito disso, palitando os dentes em frente ao BAR DO MANÉ DOIDO, no Mercado Central de BH). Se um dia é escuro, o outro poderá não ser. (DMC)

@2.

a boca que conheça razões para de rumo // mudar, e não só gritar de morrer (Darlan M Cunha. Esboços e Reveses: O Silêncio, p. 41. Editora CBJE, Rio de Janeiro, 2008)

Quanto mais acentuada for a introversão, tanto mais rígidas e inflexíveis vão ficando as convicções dos indivíduos desse tipo. (Carl Gustav JUNG. Tipos Psicológicos)

Há quanto tempo assim ? Não sabia, não podia saber, não queria saber. (Autran Dourado. Ópera dos Mortos)

Quando eu casei, também estava chovendo. Que posso fazer eu contra tal recordação ? (Osman Lins. Avalovara)

As datas são para o esquecimento, mas fixam o homem no tempo e trazem múltiplas conotações. (Jorge Luís Borges. Prólogos)

Atravessar o que nos nega, chegar ao Sim. (Vicente Franz Cecim. Viagem a Andara)

Urrando. Enchendo o sertão, a solidão // de berros comoventes, diferentes. (Cora Coralina. Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais)

Viajo os rumos trocados as ruas que se invertem
Distâncias que se encontram pernas que se perseguem (Denise Emmer. Cantares de Amor e Abismo)

Algumas mulheres escolhem seguir os homens, e outras escolhem seguir seus sonhos. Se você está se perguntando em qual direção seguir, lembre-se de que sua carreira jamais acordará de manhã e dirá que não te ama mais. (Lady Gaga).

Darlan M Cunha, Convidados & Convidadas

Março: lei marcial ou [nº 3] . Mars: martial law or

bairro Barreiro de Baixo – BELO HORIZONTE, MG
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AS ALDEIAS SE RESSENTEM DE QUÊ ?: de LOCKOUT : de LEI MARCIAL ? dos PREÇOS ESTRATOSFÉRICOS ? do ONTEM ? do AMANHÃ ?

No chão o caroço de uma fruta talvez vingue, talvez não, mas o Homem vingou, andou, pelejou, xingou, traiu, suou e estressou-se cada vez mais, cooptou o Bem e o Mal, avaliou perdas e danos, refez cálculos milenares, pobres ou milionários, sua heráldica, suas condecorações, propriedades urbanas e suburbanas e até cósmicas, e o caroço da fruta já começando a afundar-se na terra, o Homem afundado em si mesmo, seu teor alcoólico, o nefasto teor religioso, a libido espargindo sua veemência, querências e querelas, o relógio por patrão, o infarto namorador, hora é ou será, és feliz, mesmo que infeliz, fingir não é fácil, senão, leiamos esse B. Brecht: “Todo dia, para ganhar meu pão, vou para o mercado onde se vendem mentiras.” Já de todo enterrado, o caroço da fruta germina no seu ritmo, seu único adubo é o sol, ah, e o sal, seu instinto de raiz, sua ciência de caules, folhas e frutos, e o Homem tornou-se um rio assoreado pelo próprio afã de tudo a todo custo querer (todos sabem disso, qualquer sábio, todo idiota, todo catatônico sabe), portanto, as aldeias do mundo se ressentem de quê ? A virologia se cumpre, natural, como tal. Lembremo-nos de Vinícius: “A hora do sim é um descuido do não.

Darlan M Cunha

What do the villages resent ?

On the ground is the seed of a fruit that may or may not survive, but the Man avenged, walked, fought, cussed, betrayed, stressed himself more and more, co-opted Good and Evil, assessed losses and damages, re-calculated millennials, poor or millionaires, his heraldry, his decorations, urban and suburban and even cosmic properties, and the fruit stone already starting to sink into the earth, Man sunk into himself, it’s alcoholic contents, it´s nefarious religious content, the libido spreading its vehemence, wants, the clock by boss, the dating infarction, time is or will be, you are happy, even if unhappy, pretending is not easy, otherwise, let’s read this B. Brecht: “Every day, to earn my bread, I go to the market where lies are sold.” Already completely buried, the stone of the fruit germinates at its own pace, its only fertilizer is the sun, ah, and salt, its root instinct, its science of stems, leaves and fruits, and Man has become a river silted up by his own eagerness to want everything at all costs (everyone knows this, every wise man, every idiot, every catatonic knows it), therefore, the villages of the world resent what ? Virology is fulfilled, naturally, as such. Let us remember Vinícius: “The hour of the yes is a carelessness of the no.”

DeepL.com

imo

Duas fontes de luz // Two sources of light.

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Cheguei antes de minha mãe e de meu pai, sim, sou anterior até a mim mesmo, mas não criei nada, nada me deve sua existência – talvez algumas gotas de dor, de apreensão, se não oceanos de angústia. A canção diz, não diz, desdiz, rediz, e assim também é o poema dentro e fora do queira-não-queira, viver é o que há. Pegue, e não largue estes ossos, estas escamas, este metal incandescente que é o amor (há muitos tipos de amor), o couro que te cubra do frio social. Nasci num dia sem nome e sem sobrenome, dia sem data, cheguei nu, o choro é o nosso primeiro conhecimento, e é só depois que o peito nos dói é que vamos ao primeiro leite – colostro –, e daí então se vai ao primeiro e único sono verdadeiro de toda uma existência por vir. Nasci sem ter nascido, nasci antes do Todo, do Nada, do Algo Consta.  Mãe é Mãe. Olha, está chovendo na roseira.*  

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I came before my mother and father, yes, I am before even myself, but I created nothing, nothing owes me its existence – maybe a few drops of pain, of apprehension, if not oceans of anguish. The song says, doesn’t say, un-says, redictates, and so does a poem in and out of want-not, living is what there is. Take it and don’t let go of this bone, these scales, the leather that covers you from the social cold. I was born on a day with no name and no last name, a day with no date, I arrived naked, crying is our first knowledge, and only after the breast hurts do we go to the first milk – colostrum – and from there to the first and only true sleep of an entire existence to come. I was born without being born, I was born before the All, the Nothingness, the Somethingness. Mother is Mother. Look, it’s raining on the rosebush. *

Darlan M Cunha

*: A última frase desse texto é um verso que está em Chovendo na roseira, de TOM JOBIM. **: Tradução feita com DeepL.com

Yo-Yo Ma toca o Prelúdio da Suíte nº 1 para violoncelo, de Johann Sebastian Bach: https://www.youtube.com/watch?v=q2ZHjSA8mkY