Para subir na vida, um cajado por empréstimo, sim, pergunte ao Dr. Fausto, o Diabo é solícito

Buritis

Buritis, Belo Horizonte, MG

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       Crer ou descrer passa por não saber, lá onde a dúvida ainda é soberana, algo normal fluindo seu magma, de leve, até que a pressão seja maior do que a boca, e então a boca explode palavras como pedras em chamas sobre as camas os asfaltos os consultórios os estádios, enfim, a boca toma juízo, e se cumpre, botando verbos pelo avesso, degolando  sintaxes, pobres adjetivos – ele é bom, ela é má -, seccionando colhões de advérbios e pronomes, é isso: crer ou descer e ficar na apatia, enquanto o mundo vasto mundo inventa moda atrás de moda.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

Leia-me no Poem Hunter: https://www.poemhunter.com/poem/mimesis-and-symbiosis/

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trilhar o céu (e a terra)

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bairro Buritis, BELO HORIZONTE, MG, Brasil

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     Diante de um obstáculo, nota-se que a carreira de formigas desvia-se para a passagem mais cômoda, e prossegue em sua jornada construtora, devastando o que houver à frente. Neste particular, humanos e formigas se equivalem, até porque, como se sabe, há tipos ou espécies de formigas que escravizam outras colônias, e talvez seja por isso que nós nos chamemos de formigueiro humano.

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foto e texto: Darlan M Cunha

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Mercado 1

Mercado Central de Belo Horizonte (1929), MG, Brasil

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     Um dos livros através dos quais iniciei o aprendizado do idioma russo (33 letras) foi o da professora Nina Potapova, isso há décadas, numa representação cultural da Rússia, em BH, que ficava no edifício Rembrandt, na Rua São Paulo, região central. Lembro-me de ter ganho um relógio, num concurso feito pela modesta mas diligente instituição, e de tê-lo dado de presente à minha irmã Telma. O tempo fez o que sabe fazer, condenado a si mesmo, o espaço contraiu-se, para uns tantos, expandiu-se para o quase nenhum, mas eu continuo, o idioma russo continua (cinco ou seis idiomas sobreviverão), tu continuas, e enquanto não se descasca de todo a trama mundial, vamos ao mercado, ao lugar onde, segundo o poema do Bertolt Brecht:

Para ganhar o pão, cada manhã

vou ao mercado onde se compram mentiras.

Cheio de esperança

ponho-me na fila dos vendedores.

(BERTOLT BRECHT. Antologia Poética. Poema “Hollywood”)

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foto e crônica: Darlan M Cunha

imaginário

Teatro Francisco Nunes. Parque Municipal, BHte. Já me apresentei aí.

Teatro Francisco Nunes. Belo Horizonte, MG, Brasil (algumas vezes estive neste palco)

debates conferências teatro música reuniões de classes – há de tudo nesse tipo de casa

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No teatro se morre de morte prematura, violenta, idealizada

e a trupe pensa que é no palco que as coisas acontecem,

mas é na rua, a rua que o proscênio desconhece, onde o todo

se apresenta, é lá que se lava a roupa suja, que se aprende hábitos

que se manieta ou se impulsiona a usura, o pão do ódio, o ócio.

Foi lá que a foice e o martelo enferrujaram, outras normas

agora mamam e desmamam, prontas para te darem nova senha.

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foto e poema: Darlan M Cunha

da sega às bancas

Mercado Central, BHte, MG, Brasil Mercado Central (1929). BHte, MG, Brasil (uma das oito entradas)

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Sete entradas tem o mercado diário

nove buracos o inferno dantesco

mil e uma bocas a sede e a fome

ene braços a insônia que come

o homem sem nome e sobrenome.

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foto e poema: Darlan M Cunha

Sestros da minha terra (2): das proibições pertinentes

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     Na minha terra é vedado ter, produzir, comprar, vender, trocar, estocar estátuas, efígies, bustos, monumentos de qualquer natureza, reproduzindo qualquer evento, pessoa, seja o que for, e nem mesmo estatuária divina, ou seja, imagens de santas e santos e anjos e profetas, nada disso pode ser levado adiante, sob pena a mais severa.

     Na minha terra, o puxa-saquismo foi banido já faz muito tempo, e isto é seguido à risca por todos, que aprenderam com seus erros o quanto pode custar um só erro, o preço de uma indolência social, etc.

     Na minha terra, não existe lei escrita. O senso geral prevalece, tornou-se genética.

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foto e texto: Darlan M Cunha

remédio de amplo espectro: Rir

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Reginaldo e o Imperador-Cacatua, Zé I O Iluminado, O Venturoso

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       A que vem tanto apego às estátuas em alto e baixo relevo, de bronze, ferro, gesso, aço, madeira, plástico, fibra de vidro, granito e mármore, em todo  lugar, menos nos polos, por enquanto: busto e cabeça, cabeça, mãos (hollywood), pés (futebol), homem montado em cavalo, homem de pé com chapéu na mão, mulher olhando destemidamente para o futuro, homem e cão em pedestal magnífico, homem com espada, um homem por trás dos óculos (Vinícius // Drummond). Para que tanta estátua no meio do caminho ? Não vou desmerecer alguns homenageados, está fora de questão, mas a partir de agora exijo que no momento propício, que é agora mesmo, me façam uma homenagem toda em granito com filigranas de diamantes lá de Diamantina e ouro da Mina de Morro Velho (Nova Lima). Meu caráter é mole, preciso de granito, ferro, aço, kevlar e diamante, pois já que judeus e cristãos dizem que sou de barro, preciso destes materiais, com  esta inscrição:

     A Aldeia homenageia Darlan, sábio entre sábios, satírico entre desalmados, é um dos nossos, doutor entre doutores e mestres, elevado à enésima potência, este garoto peralta que azucrina a Aldeia, zanzando com amigos de infância, e amigas e mais amigas, ele que mais de uma vez viveu dias ruins, falcatruas, corrupções medonhas, mas aos gênios e às crianças tudo se perdoa, embora ele tenha dormido sob as asas da Lei mais de uma vez, sempre dizendo que a comida do cárcere é a melhor porque é de graça, e tem hora certa de chegar. Então, eis a justa homenagem da nossa modesta sociedade ao grande artista e grande sábio Darlan, também conhecido pelo epíteto ou alcunha ou saboroso nome ou graduação de Landar I, O Magnífico.

 

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assina: Toda a ALDEIA

soberbas letras – 4

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Entenderem-se, ou não.

AS APARÊNCIAS ENGANAM                                                                             

(Tunai  // Sérgio Natureza)

 

As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague
se a combustão os persegue, as labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno e o pão, o vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver

.
As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele
Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor

.
As aparências enganam, aos que gelam e aos que se inflamam
Porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali
Nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera
No insistente perfume de alguma coisa chamada amor.

***

Tunai, irmão mais novo do compositor e cantor João Bosco, assim como o irmão, também estudou engenharia na famosa Escola de Minas de Ouro Preto. Sérgio Natureza compôs algumas canções com Tunai, inclusive esta que, para mim, é um dos pilares básicos da MPB, enquanto letra e melodia. Ele também compôs e gravou com Paulinho da Viola.

Foto: Darlan M Cunha

Ouça AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=5h7YrvmxklY

o mundo da rua

casario

     Consta que o imperador Claudio tanto detestava apotegmas quanto tecia assassinatos, e não era dado a aforismos, sempre trançando num girassol a sua atenção às camas e aos campos de batalha. Consta que ao poeta João Cabral a música não lhe dizia absolutamente nada, a música que, de acordo com da Vinci, era la figurazione dell’invisibile. Assim é que por essas e outras se diz que cada torto com sua trilha, cada qual com seus endossos, enfim, cada osso com seu cão. Mas eu tenho comigo que gosto se discute, de acordo com o que a minha avó materna dizia, quebrando as louças da subserviência, as sandálias da mesmice, os falsos estupores. Gosto se discute, sim. Minha avó materna sabia que é na rua que as coisas acontecem, e que por isso mesmo sabia que roupa suja se deve lavar é na rua – pelo menos certas roupas.

Texto e foto: Darlan M Cunha

junho

operárias

operárias

JUNHO
 
 
O sexto mês entra na estrada
do ano, descendo do sono para pôr
sua mesa o sexto mês do ano,
e no meio dessa rede haverá peixes
ou pássaros a serem capturados
na forma de correspondências
sob a porta, o costume das festas
juninas, alguém pedirá alguém
em sacramento, alguém pedirá
divórcio, e alguém viajará para
nunca mais; já é junho, as costas
de maio ainda estão quentes sobre
as pessoas, mas já se afasta, como
é natural, junho já caminha real,
mesmo de madrugada houve quem
o recebeu de pé, o interior do país
dorme, é dia noutra latitude
noutras longitudes o pavor e o amor
qualificam e desqualificam os seres,
sim, junho veio para ficar durante
trinta dias – a vida útil dessa planta
da qual é natural esperar colher
todos os dias o néctar revigorado.
É junho, flores estalam, e o primeiro
café do mês já está gritando.
 
Darlan M Cunha